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Artes

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United States
This podcast has
35 episodes
Explicit
No
Date created
2015/08/18
Latest episode
2026/04/20
Average duration
14 min.
Release period
6 days

Description

Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

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Cabo Verde: Contagem decrescente para o Festival Kontornu na ilha de Santiago
2026/04/20
A quarta edição do Festival Kontornu - Dança e Artes Performativas vai decorrer de 11 a 16 de maio, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. O evento abre com um espectáculo da companhia Raiz di Polon e fecha com uma “battle” de danças urbanas. Pelo meio,  há um workshop dirigido pela coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, uma das principais autoras da dança mundial contemporânea. O Festival Kontornu afirma-se como uma plataforma internacional dedicada à dança e às artes performativas e reúne artistas e profissionais da cultura de diferentes geografias.  Este ano, o evento vai ter um workshop dirigido pela coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas.  O Kontornu abre a 11 de Maio com Raiz di Polon, uma companhia histórica da dança contemporânea de Cabo Verde, e vai terminar com uma “battle” de danças urbanas, a 16 de Maio. Há, ainda, uma iniciativa integrada no festival que se chama KOPANO – Plataforma de Encontro e Cooperação Internacional, que junta programadores, curadores, artistas e representantes de festivais internacionais. O director do Festival Kontornu, Bruno Amarante (nome artístico Djam Neguin) falou-nos sobre a edição deste ano, novamente marcada pelo “milagre” porque se faz graças à “generosidade” dos artistas. Desta vez, o festival decorre nas vésperas das eleições legislativas e o seu director espera que o novo Governo olhe para a cultura com “políticas públicas sólidas e não só com micro-apoios”. Oiça aqui o programa.
O abraço da nova voz de Cabo Verde, Mário Marta
2026/04/17
O cantor Mário Marta, com origens cabo-verdiana e bissau-guineense, morreu esta quinta-feira, em Portugal, no dia Mundial da Voz. Em jeito de homenagem, a RFI torna a publicar uma entrevista realizada com o artista em Outubro de 2021, em Lisboa. O cantor Mário Marta é a nova voz da música Cabo Verde. Inconfundível, faz-nos embarcar nos mais diferentes ritmos de forma tão sedutora e quente que sentimos toda a Morabeza das ilhas embaladas pelo Atlântico. O cantor, que partilha raízes com Guiné-Bissau e Cabo Verde, já está a ver os frutos da aposta em gravar temas originais. Logo com o primeiro single, Aguenta, um funaná onde Mário Marta conta com a colaboração de Lura, conquistou o reconhecimento internacional. Recentemente, nos Estados Unidos da América, Aguenta venceu os International Portuguese Music Awards na categoria Best World Music. E, enquanto aguardamos pelo lançamento do álbum, Mário Marta continua a somar reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. Com o single Boa, o cantor está nomeado para os prémios CVMA (Cabo Verde Music Awards) nas categorias Melhor Interprete e Melhor Coladeira do Ano. Mas, se só agora é que Mário Marta assume o centro do palco ao lançar os primeiros trabalhos discográficos em nome próprio, um facto é que o menino que nasceu numa família de músicos desde criança que vive no planeta música. Por exemplo, Cesária Évora e Tito Paris são apenas dois dos nomes da música de Cabo Verde que sempre fizeram parte do quotidiano de Mário Marta e das tocatinas que aconteciam na casa da família em São Vicente. A RFI foi ao encontro de Mário Marta para conhecermos um pouco melhor a nova voz de Cabo Verde.
França aprova lei de restituição de obras de arte: “Restituir é confessar”
2026/04/15
O Parlamento francês aprovou esta segunda-feira, 13 de Abril, por unanimidade uma nova lei que cria um mecanismo permanente para a restituição de bens culturais saqueados durante parte do período colonial, dispensando votações caso a caso. A medida é vista como uma mudança na relação da França com a sua memória imperial. O artista plástico guineense, Nu Barreto, saúda o avanço, mas lembra que “o facto de restituir não quer dizer que a reparação foi feita”. A França deu esta semana um passo simbólico e político ao aprovar por unanimidade uma nova lei sobre a restituição de bens culturais retirados das antigas colónias durante o período colonial. Depois do voto favorável no Senado, o texto segue agora para comissão mista partidária, nesta que é a última etapa antes da adopção definitiva da lei. Na prática, a legislação estabelece um mecanismo permanente que vai permitir devolver obras de arte, objectos rituais e peças patrimoniais sem precisar de aprovar uma nova lei para cada processo. Até aqui, cada restituição exigia um procedimento legislativo autónomo, tornando moroso e politicamente complexo o regresso de peças reclamadas pelos países de origem. Para o artista guineense, Nu Barreto, a decisão representa um avanço claro: “Só posso considerar positivo”, afirma. “Vai permitir que as obras sejam restituídas no seu contexto e talvez possa permitir uma certa independência aos países que sofreram este fenómeno de obras que foram tiradas, roubadas.” O artista sublinha que a devolução não se resume ao acto jurídico. Trata-se também de devolver às populações o acesso a um património que lhes pertence. “Permite que essas obras estejam na disponibilidade do povo, e que o povo possa usufruir dessa riqueza toda.” A nova lei surge num momento em que vários países europeus são pressionados a rever o legado colonial presente nos seus museus e colecções. Em causa estão milhares de peças levadas para a Europa em contextos de guerra, ocupação, pilhagem e desigualdade. Ainda assim, Nu Barreto considera que a restituição, por si só, está longe de fechar o debate histórico. “A memória exige processos muito mais profundos do que isso”, sustenta. “Não é o facto de terem devolvido aquilo que foi retirado ao continente africano que fará com que as coisas sejam repostas.” E acrescenta: “A história da colonização é uma história longa, uma história profundamente sangrenta. O facto de restituir não quer dizer que a reparação foi feita.” Na sua leitura, o essencial passa também pelo reconhecimento moral e político das violências cometidas. “Faltou o humanismo, sobretudo da parte dos colonizadores”, sublinha. “Restituir é confessar” O artista guineense espera que a decisão francesa tenha impacto além-fronteiras. “Gostaria que isto fosse uma espécie de bola de neve”, afirma. “Que os outros países também possam ter esse dinamismo, essa vontade de olhar para trás e reconhecer que efectivamente certas coisas que temos aqui não são nossas.” Para Nu Barreto, restituir é também um acto de verdade histórica. “Restituir é confessar”, resume. O artista guineense lembra que vários países africanos já deram passos relevantes neste domínio, citando Benim, Nigéria e Costa do Marfim. Refere igualmente a Guiné-Bissau, cujo património se encontra disperso por museus de vários continentes. “A Guiné também tem peças espalhadas pelo mundo. Já visitei museus onde encontrei peças da Guiné e fiquei a pensar como é que essas peças chegaram ali”, recorda. A restituição levanta questões práticas: conservação, segurança, musealização e acesso público. Nem todos os países dispõem ainda de infra-estruturas preparadas para acolher acervos devolvidos. Nu Barreto reconhece essa realidade, mas insiste que o processo deve avançar. “Há países já com passos muito mais adiantados. Sei que o Benim, por exemplo, já está a construir museus para albergar essas peças que estão a chegar aos poucos.” Apesar das dificuldades, considera que o valor simbólico supera os obstáculos materiais. “É algo muito positivo, porque vai permitir aos nativos voltarem a apropriar-se das peças, das obras que têm, para poderem enriquecer psicologicamente ou intelectualmente.” A restituição não empobrece quem devolve, abre novas possibilidades de diálogo Nu Barreto insiste no papel decisivo da criação artística para recontar a história e reconstruir relações entre continentes. “Não conseguimos descartar a arte da nossa vida. A arte caminha connosco da nascença à morte”, afirma. Na sua visão, a restituição não empobrece quem devolve, abre novas possibilidades de diálogo. “Os que restituem hoje não perdem alguma coisa”, lembra. “É só uma questão de viajarem para entrarem em contacto com aquilo que tanto gostaram e tanto amaram.” E conclui com uma ideia de reciprocidade cultural: “A arte vai permitir esse intercâmbio. Esse intercâmbio é bastante valioso nos dois sentidos, porque vai permitir uma reconsideração do outro enquanto ser humano.”
História inédita de português na Guerra Civil de Espanha publicada em França
2026/04/07
Alberto de Oliveira Martins foi um anónimo que se deixou levar pelos ventos da história e que, no final da sua vida, decidiu contar o que viveu com a ajuda de uma velha máquina de escrever que o filho lhe ofereceu. Alberto nasceu em Portugal durante a Primeira Guerra Mundial, viveu a chegada da ditadura, combateu o franquismo na guerra civil de Espanha, foi preso num campo de internamento em França na Segunda Guerra Mundial e esteve detido nas prisões salazaristas em Portugal. Tudo isso escreveu nas suas memórias no final dos anos 80. Quarenta anos depois, o seu filho, Joaquim, partilhou o texto com o historiador Victor Pereira que foi à procura dos rastos desta história invulgar. O resultado é um livro intitulado “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” [“Os Cadernos de Alberto. Do Porto à Guerra de Espanha”] que vai ser publicado em Maio em França, pela editora Chandeigne & Lima, e sobre o qual estivemos à conversa com Victor Pereira. RFI: Do que fala o livro “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” ? Victor Pereira, Autor e historiador: “Há mais de um ano, Joaquim de Oliveira Martins veio ter comigo dizendo que o pai tinha combatido durante a Guerra de Espanha e que tinha combatido na coluna Durruti, uma coluna dirigida pelo próprio Durruti, que foi um dos mais célebres anarquistas espanhóis. Disse-me que o pai dele tinha combatido lá e que no fim da vida, isto é, no fim dos anos 80, ele tinha escrito não propriamente um livro, mas umas Memórias que, depois, ele me emprestou para eu ler. É um relato fantástico de uma vida que começa em 1915 no Porto e cujas Memórias acabam em 1943,1944, quando regressa a Portugal. O que eu fiz foi convencer - e não foi muito difícil -a Anne Lima da editora Chandeigne & Lima para publicar este texto, que é inédito e há muito poucas obras sobre a participação de portugueses na Guerra de Espanha.   O que eu fiz foi ir aos arquivos em Portugal, em Espanha e em França para tentar encontrar rastos da vida dele, pensando que ele tinha vivido várias aventuras pouco comuns. Encontrei documentos, nomeadamente no Arquivo da Guerra Civil de Espanha, em Salamanca, e fui encontrando várias coisas sobre ele. Muitas vezes, eram coisas que não parecem importantes, como recibos de consulados portugueses em Espanha, e fui conseguindo conferir o que ele dizia porque ele escreveu 40, 50 anos depois e a memória distorce um pouco os eventos. Então, o livro é feito das memórias dele e de uma introdução minha que é bastante longa que é uma introdução biográfica com o que eu consegui encontrar nos arquivos nos vários países para compreender o percurso pouco comum dele.” Há dois textos no mesmo livro: o texto de Alberto de Oliveira Martins, que ele escreveu como testemunho autobiográfico, e a investigação do historiador Vítor Pereira sobre este anónimo... “É isso mesmo. São dois textos. Começa com o meu, mais ou menos 200 páginas, baseado no texto dele, nos arquivos, nas memórias de pessoas que combateram na Guerra de Espanha. Ele combateu numa frente em Aragão, com milicianos que vinham de Barcelona. Li muitas coisas sobre esse combate à volta de Saragoça, onde ele esteve mais. Depois, ele tem o que aconteceu com milhares de espanhóis quando os republicanos foram perdendo a guerra e houve a Retirada, isto é, a entrada de 475.000 pessoas que atravessaram a fronteira entre a Catalunha espanhola e a francesa. Ele faz parte desse milhares de pessoas e é internado num campo de internamento em França. Depois regressa a Portugal e é preso no Aljube. Então, eu vou também contando a história dele, a história de outras pessoas, nomeadamente portugueses, que combateram na Guerra de Espanha e também das pessoas que foram presas durante os anos 1940, 41 em Portugal - no Aljube e em Caxias. Depois, há o texto dele, que começa na infância até quando ele tem mais ou menos 30 anos.” A história de Alberto de Oliveira Martins também ilustra um ângulo morto da História? A história dos portugueses que lutaram na guerra civil de Espanha não é uma história muito conhecida, pois não? “Não é muito conhecida. Foram menos de dez portugueses que escreveram sobre a guerra que eles fizeram e, muitas vezes, são Memórias muito politizadas, o que é bastante normal. Há Memórias de um comunista, há Memórias de um anarquista, alguns textos biográficos de pessoas republicanas. São pessoas mais cultas que contam isto do ponto de vista da mobilização política.” Pode dizer-nos nomes? “Por exemplo, o anarquista Manuel Firmo, o comunista Francisco Ferreira, o Jaime Cortesão, o Jaime de Morais. Foram textos que foram publicados desde os anos 70 até há pouco tempo, como o texto de Jaime de Morais que foi publicado pela Cristina Clímaco e Heloísa Paulo. Mas, no caso de Alberto, ele já está em Espanha e é bastante por acaso que ele vai começar a guerra. Então, ele não tem uma visão muito politizada e, por exemplo, quando se compara com outros textos de memórias de espanhóis, franceses ou de outras pessoas que combateram na guerra, eles têm uma visão muito ideológica. Alberto conta muito a vida quotidiana dos combatentes, o esforço para comer não muito mal, as brincadeiras entre soldados, como eles ouviam a rádio. É o relato da guerra por um homem, isto é, ele não faz um grande discurso sobre a guerra, ele conta o seu quotidiano de combatente. Então, são muito poucos os relatos [de portugueses] sobre esta guerra, ainda menos por pessoas não politizadas e que não estão a tentar legitimar o que eles fizeram ou não fizeram. É um relato do quotidiano.” Na introdução, o Victor Pereira escreve que “ele não parte para Espanha em nome de um ideal antifascista”, mas “é apanhado pela guerra quando já está em Espanha”. Por outro lado, quando está na guerra, ele não faz dos soldados heróis e até fala da confraternização com soldados do campo adversário. Isto vai ao encontro do que acaba de dizer, não é? “Sim, sim. Muitas vezes há muito essa imagem da Guerra de Espanha que foi uma guerra que mobilizou as opiniões públicas ocidentais em França, Portugal. Na minha introdução, falo sobre como é que a Guerra de Espanha também foi uma guerra quase interna a Portugal. Podemos realçar quando, em Julho de 1937, há uma tentativa de atentado a Salazar que falha e o objectivo das pessoas que tentaram matar Salazar era para tentar enfraquecer o campo nacionalista espanhol porque Salazar foi um grande apoio desde o início aos insurrectos espanhóis e a Franco. O Alberto de Oliveira Martins não tem essa visão politizada. Por exemplo, há uma parte onde ele escreve que quando começou a guerra civil, havia uma aldeia que estava do lado nacionalista e a aldeia ao lado estava do lado republicano e os combatentes dos dois lados conheciam-se pessoalmente. Por vezes, odiavam-se há vários anos, até há várias décadas, mas o que ele conta é que, por vezes, há jovens soldados que estavam muito perto uns dos outros e o que eles fizeram foram pactos dizendo: ‘Olha, não vamos matar ninguém. Vamos atirar para o ar. Assim, os nossos oficiais pensam que nós estamos a combater’. Às vezes, até falavam uns com os outros e faziam estes pactos de paz muito localizados. Isso não aparece tanto nos outros textos porque o que aparece é uma luta de vida e de morte entre o fascismo e antifascismo. Então, ele foca coisas que muitas vezes não são focadas nas memórias da Guerra de Espanha.” Mas de que lado lutou Alberto de Oliveira Martins? “No início, quando ele está em Espanha, ele não tem sorte, como aconteceu a milhares de pessoas. Ele encontra-se num comboio que vai até Saragoça. Saragoça foi tomada pelos militares rebeldes que depois vamos chamar os franquistas. Eles querem imobilizá-lo no campo dos franquistas e ele foge. Algumas semanas depois, ele encontra-se com o próprio Durruti, um dos chefes dos anarquistas que impediu os militares de tomarem o poder em Barcelona. Em 19 e 20 de Julho de 1936 há luta nas ruas de Barcelona, o Durruti e outros camaradas da CNT (do Movimento Anarquista) conseguem domar a tentativa de golpe de Estado e, a partir de 24 de Julho vão milhares de catalães e anarquistas até Saragoça para tentar libertar Saragoça, que tinha sido ocupado pelos militares. Ora, ele estava numa aldeia onde chega o Durruti e o Durruti dá-lhe uma arma e ele vai seguir e vai combater durante quase três anos. A coluna Durruti vai ser uma das mais conhecidas da guerra de Espanha e ele vai combater durante três anos em Aragão, depois na Catalunha. Como é um jovem de 1m80, bastante esperto, bastante ágil, que toda a gente considera que espanhol, ele vai participar em acções de sabotagem no curso de guerrilhas. Então, ele vai combatendo, ainda que ele não tenha ido para combater. Foi a guerra que foi ter com ele. Estando na guerra, ele combate até ao fim, até Janeiro de 1939.” Temos noção de quantos portugueses participaram nesta Guerra Civil Espanhola? “Isso é muito difícil. Há, desde os anos 80, alguns estudos, nomeadamente do César Oliveira, também de Cristina Clímaco sobre o exílio português em França e em Espanha. Há vários números, por vezes 500, vai subindo até 2.000, alguns estudos até falam em mais, e estou a falar do lado dos republicanos, aqueles que ajudaram a República espanhola a lutar contra as tropas franquistas.  Muitas vezes fala-se em alguns milhares, 2.000, talvez mais. Um dos grandes problemas - como no caso do Alberto que nunca é referido como português e o nome dele aparece em castelhano nos arquivos - nas listas de nomes ninguém pode saber se são portugueses. Talvez muitos mais portugueses tenham combatido durante a Guerra de Espanha, mas eram considerados espanhóis e havia antes da guerra mais de 20.000 até 30.000 portugueses que
Do espanto ao desejo, um livro que acompanha a dança de Marlene Monteiro Freitas
2026/03/25
Enquanto NÔT sobe ao palco em Paris, Alexandra Balona apresenta esta quarta-feira, 25 de Março, Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas na Livraria Portuguesa e Brasileira, um livro que nasce de um “espanto” inicial e de mais de uma década de encontros com a obra de Marlene Monteiro Freitas. “Não desejo explicar, mas aproximar”, diz a autora, propondo uma escrita que acompanha a dança sem a fixar e abre caminhos para ler uma criação que “transmite forças” mais do que mensagens.   Há livros que chegam para explicar. Este não. Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas instala-se noutro lugar: acompanha, escuta, aproxima-se. É apresentada esta quarta-feira, 25 de Março, em Paris no momento em que a nova criação de Marlene Monteiro Freitas, NÔT, sobe ao palco, como se a escrita e a dança partilhassem o mesmo tempo, cada uma no seu plano: uma no corpo, outra na linguagem. O gesto inaugural aconteceu em 2012. Alexandra Balona recorda-o como um abalo inaugural: “Recordo-me ter visto a estreia da peça Paraíso, coleção privada, em estreia absoluta no festival Vila do Conde e ter pensado que aquilo que estava a ver em palco era tão, tão diferente daquilo que eu já tinha visto para alguém que acompanha a dança contemporânea portuguesa europeia, que me questionei: ‘O que é isto que eu estou a ver em palco? Que corpos são estes? Que polifonia? Que paisagem musical tão bizarra, que estranheza?’ Eu tinha o objectivo de escrever sobre aquela peça e demorei uma semana para escrever sobre a peça porque tive dificuldade em tentar transferir toda aquela emoção, toda aquela força e toda aquela estranheza em palavras.” Esse primeiro embate não se dissolveu com o tempo. Pelo contrário, prolongou-se, sedimentou-se, tornou-se método e necessidade. “A curiosidade ficou de tal forma impregnada no meu próprio corpo”, diz, sublinhando uma relação com a escrita que é também física: “é quase como se eu sentisse visceralmente o que estou a ver em palco”. O espanto como origem e como método O livro assume essa origem sem reservas: “Este livro nasce do espanto”, afirma Alexandra Balona. E acrescenta imediatamente: “logo a seguir associo este espanto a outra palavra que é o desejo”. O espanto, neste contexto, não é paralisia, mas impulso. “O espanto deixa-nos num momento de estupefacção, surpresa, incompreensão, talvez num maravilhamento, mas também incita a questionar porque é este espanto, porque é esta surpresa.” A partir daí, abre-se um caminho de investigação que a autora liga a uma descoberta teórica precisa: “encontrei num livro de Agamben esta relação entre a palavra espanto e estudo, que partilham a mesma raiz etimológica, um que significa o choque, o embate perante algo que desconhecemos. E este embate levou-me a prosseguir este estudo.” A escrita nasce, assim, desse choque inicial e prolonga-o. Mas o livro não procura resolver o enigma. A própria autora recusa essa ambição: “Eu não sei se este livro vai explicar. Eu acho que ele abre caminhos de leitura, abre caminhos para nos aproximarmos à obra da Marlene.” E talvez seja essa a única forma possível de responder a uma obra que, como diz, “não deseja explicar coisas, mas mais provocar sensações, transmitir forças, intensidades. A dança consegue, nas palavras dela, transbordar às vezes mais do que as palavras.” Cinco peças, uma travessia O livro organiza-se em torno de cinco peças: Guintche, Paraíso: coleção privada, Jaguar, As Bacantes e Mal – Embriaguez Divina, mas não constrói uma narrativa linear. Cada obra é um ponto de entrada, um campo de forças. A escolha obedece a uma lógica interna ao percurso da coreógrafa: “Guintche é um solo e é o único solo que Marlene apresentou de uma forma ampla no contexto nacional e internacional. Depois segue-se Paraíso: coleção privada, a sua primeira peça de grupo. Escolhi também Jaguar, que é um dueto, As Bacantes, uma leitura coreográfica da tragédia grega de Eurípides que ela fez em 2017 e foi no momento em que recebeu o Leão de Prata na Bienal de Veneza. E a última, Mal – Embriaguez Divina, por também ser uma peça que reflecte sobre uma experiência que Marlene teve quando coreografou para a companhia israelita Batsheva e depois não conseguiu circular com aquela peça.”  Escrever sobre dança é confrontar-se com aquilo que desaparece. Alexandra Balona formula-o com precisão: “Uma reflexão sobre artes performativas, uma reflexão sobre algo que é efémero, é sempre uma tentativa de, de certa forma, cristalizar sem que esta cristalização seja encerrar em si próprio as ideias, mas é óbvio que há uma vontade de reflectir e através deste processo deixar rastos sobre aquilo que se vê, sobre aquilo que se experiencia.” No centro dessa tentativa está uma tensão permanente: “No início eu digo que este livro surge da dissonância que às vezes se debateu sobre mim entre o ver, o sentir e o pensar. E como nesta dificuldade entre o ver, o sentir e o pensar transformar isto ainda em escrita.”  Cabo Verde: compreender a linguagem Para se aproximar da obra de Marlene Monteiro Freitas, Alexandra Balona sentiu necessidade de deslocar-se. Cabo Verde torna-se um território fundamental. “Era importante fazer esta viagem, ir a Cabo Verde para perceber e para entender algumas características do trabalho da Marlene. Depois de ter ido, sem dúvida que sim, eu não conseguiria entender algumas das descrições que ela me falava, das práticas, dos rituais.” A experiência revelou a complexidade de um universo cultural diverso: “É um arquipélago muito diverso, com práticas muitas vezes sincréticas, onde o sagrado, a religião e os rituais mais pagãos dialogam.” Entre essas referências, destaca-se o carnaval espontâneo: “o carnaval que Marlene me falava ia muito além da ideia que temos de um carnaval mais inspirado na tradição brasileira com os seus cortejos. Ela salientava o tal carnaval espontâneo que acontecia fora dos cortejos oficiais, feito por pessoas das franjas sociais mais desfavorecidas, mas prolíferas a inventar e a criar figuras bizarras, que interrompiam os cortejos oficiais de forma insólita e até de crítica social.” O livro constrói-se como um atlas. Antes de cada ensaio, um conjunto de imagens propõe relações possíveis. “A Marlene interessa-se por juntar matérias e materiais, abrindo o espectro a sons, imagens, filmes, matérias que à partida nós não colocaríamos lado a lado, matérias díspares, às vezes opostas, às vezes em colisão, que provocam o tal estranhamento.” Esse procedimento gera figuras inesperadas: “um performer que de repente é um fauno ou uma criatura que poderia sair de um mosaico bizantino do último julgamento.” A própria autora participa nesse processo, assumindo a dimensão criativa da sua leitura: “O livro é a tua forma de olhar para o meu trabalho e tu és livre de escrever o que quiseres, disse-me a Marlene. Logo, há contribuições minhas para estes atlas, especulações minhas, relações que eu vejo nas peças.” Cada leitor é, por isso, convocado a continuar o trabalho: “é um convite para cada leitor ou leitora tecer as suas próprias relações.” Música, figuras e ficção Entre os elementos estruturantes da obra, a música ocupa um lugar central. Não como acompanhamento, mas como força geradora. “A música permite-lhe aceder a estratos de si próprio ou de sensação que não conseguiria aceder de outra forma. Permite-lhe chegar a determinados estados performáticos.” E há aqui, segundo Alexandra Balona, uma dimensão política: “a escolha musical nas suas peças é um instrumento, é um gesto político.” Dessa relação emergem as “figuras”, termo que substitui categorias mais fixas: “a figura não é a personagem do contexto teatral, nem o bailarino associado a uma representação figurativa. A figura é muito mais aberta. Associa-se ao cartoon, às máscaras, a algo que não se rege pelas leis de causa-efeito nem pelas leis da gravidade.” No palco, tudo pode acontecer: “é o teatro como um lugar de máxima ficção, onde se pode reinventar a condição humana, repensar os corpos e a relação entre os corpos.” Há um momento em que a investigação se transforma. Não deixa de ser análise, mas aproxima-se da criação. A pergunta impõe-se: quando é que isso acontece? Talvez no instante em que o olhar deixa de procurar respostas e passa a produzir relações. Talvez quando o espanto inicial não desaparece, mas se organiza. O livro permanece nesse lugar instável. Tal como a dança que o atravessa, recusa fixar-se. E é nessa recusa que encontra a sua forma.
Gala “Nô Sta Djunto”: “É um evento que une a Guiné-Bissau”
2026/03/24
A sexta edição da Gala de Homenagem “Nô Sta Djunto” realiza-se no próximo dia 28 de Março, em Bissau, com o objectivo de reconhecer figuras que se têm destacado no panorama sociocultural da Guiné-Bissau. Em entrevista à RFI, o presidente da organização, Carel Baptista, sublinha a importância de valorizar os protagonistas ainda em vida. “O objectivo desta gala é reconhecer e homenagear as pessoas que têm vindo a trabalhar para o desenvolvimento sociocultural da Guiné-Bissau, reconhecer as pessoas enquanto estiverem vivas, para continuarem a dar o seu máximo”, afirmou. O processo de selecção dos nomeados combina monitorização de actividades no terreno e participação do público. Segundo o responsável, a organização acompanha “os trabalhos a partir das redes sociais” e conta com colaboradores em Bissau ligados à cultura, ao empreendedorismo e ao activismo. A isto soma-se a opinião dos seguidores: “Pedimos opiniões em cada categoria sobre quem merece ser reconhecido. Depois fazemos uma lista que passa por um processo de filtragem até chegarmos aos três finalistas.” Entre as categorias a concurso estão música, humor, artes plásticas, literatura, dança moderna, moda, impacto sociocultural, empreendedorismo, desporto, design gráfico, personalidade jovem e edificação das comunidades, além da distinção de Mérito e Honra. Sob o lema “A cultura como factor de unidade nacional”, a edição deste ano surge num contexto político conturbado. Carel Baptista considera que a iniciativa pode desempenhar um papel de aproximação: “Escolhemos este lema porque o país não está num bom momento. Queremos que as pessoas reflictam que a cultura é fundamental para a reconciliação e para a unidade.” A iniciativa, que arranca dia 28 de Março às 18h00 locais, pretende voltar a afirmar-se como um momento de celebração e reconhecimento. “É um evento que une a Guiné-Bissau”, concluiu o organizador, deixando o convite à participação de toda a comunidade.
Katia Guerreiro: "Quero dar asas à minha criatividade, porque preciso muito dela para ser feliz"
2026/03/18
No final da semana passada, a cantora de fado Katia Guerreiro deu um concerto caritativo em Massy, na região parisiense, a favor da luta contra o cancro pediátrico. A artista que celebrou há alguns meses 25 anos de uma carreira que para muitos segue o caminho trilhado por Amália Rodrigues, falou com a RFI algumas horas antes deste concerto. Nesta conversa, a fadista evoca as suas andanças pelo mundo e algumas das suas colaborações marcantes, nomeadamente a que teve com o músico e produtor José Mário Branco, falecido em 2019, ou ainda com o escritor António Lobo Antunes que nos deixou há poucos dias. Katia Guerreiro aborda igualmente o seu olhar sobre o fado depois de 25 anos nos palcos e fala da necessidade que tem, por vezes, de cantar algo diferente, como aconteceu por exemplo no seu mais recente álbum, "Mistura", lançado em 2024. A artista evoca também a sua acção como comissária de "Ponta Delgada - capital portuguesa da Cultura 2026". Um activismo que encara como uma "retribuição" por tudo o que tem recebido dos Açores, onde cresceu. Uma conversa que é também um reencontro, passados mais de vinte anos sobre um primeiro contacto, quando então estava no começo do seu percurso no fado. RFI: No ano passado, comemoraste 25 anos de carreira. Isto passou num instante. Katia Guerreiro: Foi a correr. Nós estávamos a fazer contas. Já não nos víamos há 20 anos, não é? E de repente, olha-se para trás e. E faz-se aqui uma retrospectiva, é um momento retrospectiva e que tem de ser mesmo celebrado. Porque efectivamente, acho que tenho motivos de orgulho grandes por andar aqui há 25 anos. Tudo aquilo que eu já construí, que já dei, mas é também uma responsabilidade acrescida, porque daqui para diante terei de continuar dentro desta minha linha de coerência e de consistência naquilo que faço, porque acho que é isso que o público continua a esperar de mim. São 25 anos muito, muito felizes. E eu comecei a comemorar no dia 18 de Junho no CCB (Centro Cultural de Belém em Lisboa), porque foi essa a data que encontrámos disponível para fazer este concerto naquela sala de que eu gosto muito. Mas efectivamente, foi no dia 6 de Outubro a data oficial de comemoração. Mas continuo a prolongar isto porque me sabe muito bem. Neste ano em particular, que estou muito dedicada a uma outra causa que é a capital portuguesa da Cultura em Ponta Delgada, poder continuar a levar a palco um repertório que construí ao longo destes 25 anos. E o meu plano para este ano é cada concerto ser diferente, construir concertos diferentes cada vez que subir ao palco. E revisitar o repertório que eu deixei de cantar. Porque os repertórios vão-se renovando e vamos deixando alguns temas para trás. Mas já tinha saudades de cantar alguns e então vou sempre recuperando alguma coisa em cada concerto e construindo espectáculos diferentes, o que me dá particular gozo não ter de fazer sempre a mesma coisa. Nunca fiz, mas agora de uma forma mais consciente. RFI: Olhando para trás, como é que vês a tua evolução? O que é que talvez mudou na tua forma de encarar o fado, de encarar o canto? Katia Guerreiro: Eu acho que vou tendo uma cada vez maior maturidade na forma como canto e acho que isso se nota na minha voz. Quando vou revisitar os temas antigos, eu percebo que a minha maturidade na voz vai crescendo. Mas procuro sempre que as palavras sejam cantadas com muita verdade. Mas a minha verdade hoje não é a mesma verdade de há 20 anos atrás ou há 25 anos. Portanto, há sempre aqui camadas que se vão acrescentando de histórias de vida que vão fazendo com que haja mais coisas por detrás das palavras que eu canto e, portanto, uma maior intensidade, mas também uma maior maturidade emocional ao lidar com elas. RFI: Foram muitas viagens, muitas voltas, muitas voltas ao mundo e muitas voltas também interiores. Como é que estas viagens influenciaram o teu trabalho? Katia Guerreiro: Influenciam muito, porque quanto mais eu conheço o mundo, mais me fascino com ele. Também tenho algumas desilusões perante tudo aquilo que nós vamos assistindo, que é a realidade das guerras. Isto perturba-nos a todos. Mas estas viagens que vou fazendo e -repara- quando eu toco neste tema, a mim custa-me horrores. Eu fui cantar a Moscovo pouco tempo antes da guerra, com a Ucrânia rebentar. E a mim dá-me particular pena que o mundo não veja que já chega de ganância. Todos têm a sua quota-parte no mundo e não faz sentido nenhum que continuem a lutar por quererem ter mais. Isso é ganância. Fui a Israel antes de rebentar a guerra com a Palestina. Estive na Palestina. Custa horrores imaginar que aquela gente está a sofrer e que se está a perder vidas todos os dias. Essa é a parte triste da vida, nós conhecermos o mundo e percebemos que o mundo está a ser destruído pela ganância humana. Mas ao mesmo tempo, lá está, mais uma vez, o exemplo de Israel e Palestina. Eu andei a circular livremente no país. Estive na Palestina e estive em Israel e as pessoas são todas iguais. Não há diferença dentro do ser humano, por muito que haja uma cultura diferente e uma forma de viver diferente. A verdade é que as pessoas são todas iguais e isso é o que me encanta no mundo. Perceber que por muito que nós encontremos diferenças na língua, na postura social, na cultura, na religião, a verdade é que depois, por dentro, somos todos iguais. Isso é tão bonito de receber e de partilhar. RFI: Tens trabalhado com grandes nomes, grandes nomes da música, grandes nomes também da literatura, grandes nomes como José Mário Branco. Como é que foi? Katia Guerreiro: Foi das experiências mais ricas que eu tive na minha vida. Em primeiro lugar, porque efectivamente, por preconceito meu ou receio eventualmente, achei que o Zé Mário nunca aceitaria trabalhar comigo, porque nós não nos conhecíamos, não tínhamos nenhuma ligação, não havia nenhuma relação. Mas a verdade é que o Zé Mário era um homem muito grande, de espírito, de alma. E é. O Zé Mário acolheu o meu pedido de trabalhar com ele. E na verdade, se no início havia uma relação estritamente profissional, no fim chegámos ao ponto de termos uma relação quase familiar, de muito carinho, de muito respeito. E o Zé Mário no fim, dizer-me que ganhou uma filha e dois netos, isso foi muito, muito gratificante. Chegar a esse lugar de conquista, não foi uma conquista, porque eu não trabalhei para ela. Foi muito natural, tal como ele é. Mas poder ter o privilégio de trabalhar com um homem maior, como era o José Mário Branco, que me transmitiu tanto conhecimento, tanta sabedoria, tanta maturidade, foi de facto muito enriquecedor e transformou-me profundamente. RFI: E como é que foi com António Lobo Antunes que nos deixou recentemente? Katia Guerreiro: Essa foi uma grande pena que tive também com esta perda, o António Lobo Antunes. A história com ele é muito engraçada. Em 2022, eu estava já a preparar o meu novo álbum e foi o João Mário Veiga que me mostrou um livrinho pequenino de poemas que ele tinha lançado como oferta de um dos romances que ele lançou, não me lembro qual. Tinha poemas absolutamente extraordinários. Tinha coisas muito cantáveis, porque eram formas poéticas muito usadas no fado, mas ele não escreveu para fado. Mas aquilo era tudo muito apetecível. E apeteceu-me imenso cantar aquilo. Mas eu, como sempre, tenho sempre o cuidado de sempre que há um autor vivo -já não posso pedir autorização ao Fernando Pessoa, nem ao Camões- mas quando há um autor vivo, eu tenho o cuidado de abordar o autor e de pedir autorização, porque acho que isso é o mínimo de respeito e educação. E andei atrás do António Lobo Antunes a tentar chegar até ele e tive meses nessa tentativa. Tive vários amigos que o conheciam, que lhe escreveram cartas, que lhe telefonaram. E a determinada altura, há uma carta que chega a bom porto e eu estava a gravar um documentário para o Japão -foram a Portugal gravar um documentário comigo- e estava no camarim a arranjar-me antes de ir gravar. E recebo um telefonema que começa assim "Boa tarde Katia Guerreiro. Daqui é António Lobo Antunes". E a minha resposta foi imediatamente "António!!!!!!". Parecia uma criança! Parecia que estava a ver o Mickey Mouse! Estivemos a conversar algum tempo e foi deliciosa aquela conversa. E a determinada altura eu disse-lhe "António, já sabe que eu quero cantar uns poemas seus, identifiquei este e este e este. Apetecia-me cantar tudo, mas tenho estes preparados. O António autoriza-me?". E ele diz "A menina pode cantar tudo!". E portanto, a partir daí, o António caiu nas boas graças e conhecemo-nos depois pessoalmente, muito pouco tempo depois, porque o Júlio Pomar lançou um livro que tinha o prefácio escrito pelo António Lobo Antunes. O livro ia ser apresentado pelo António Lobo Antunes e então conheci-o nesse dia de apresentação e cantei os poemas do António nessa noite. E pronto, fiquei assim com um carinho muito especial pelo António. Voltei a gravar poemas dele e continuo a cantar António Lobo Antunes sempre e com muito orgulho. E agora canto ainda com mais privilégio na alma. Era de facto um ser superior, com uma visão muito interessante da vida e do mundo, com um realismo muito profundo. E eu vou manter esta alegria de poder ter tido contacto com o António. Foi mesmo uma grande honra. RFI: Nas entrevistas que vais dando, falas muito de "fugir" ou não ao fado. Volta e meia também foges um pouco. Como é que encaras essa "fuga"? Katia Guerreiro: Não é bem fugir. Quando eu faço coisas diferentes, é dar um bocadinho azo à minha liberdade criativa. Eu sou fadista de corpo e alma. Mas eu sofro inspirações várias. Eu não oiço só fado. Eu não cresci, sequer a ouvir fado. Portanto, eu tenho outras referências musicais e elas também me inspiram, também me alimentam. E é uma sensação de respirar
As "Terras do fim do Mundo" em exposição em Paris através da objectiva de Jo Ractliffe
2026/03/18
Jo Ractliffe é uma fotógrafa de lugares, muitos deles devastados pela guerra. Começou nos anos 80 a fotografar a sua terra natal, a África do Sul, e no início dos anos 2000 foi até Angola onde vários anos depois do apogeu da guerra civil encontrou os vestígios de um conflito que dividiu e dizimou o país.   Jo Ractliffe é sul-africana e começou a fotografar nos anos 80, numa altura em que havia cada vez mais contestação interna e também internacional ao apartheid no seu país. Como artista, Jo Ractliffe começou a questionar os limites da fotografia documental e rapidamente adoptou um estilo  que apelida de “política da paisagem”, ou seja, o que uma paisagem nos pode transmitir sobre um país, mas também um tempo, muitas vezes o passado. A fotógrafa continua ainda hoje a questionar a presença do passado no presente e a capacidade de uma fotografia conter o poder da contradição. O Museu Jeu de Paume, em Paris, dedicado à fotografia, decidiu organizar uma retrospectiva de Jo Ractliffe, patente até 24 de Maio, com o nome “En ces lieux”, ou nesses lugares, em português. O percurso começa com algumas das suas primeiras fotografias nos anos 80, muitas realizadas em subúrbios industriais, fábricas abandonadas, campos de realojamento onde a pobreza e as desigualdades sociais eram flagrantes. As imagens na exposição visam esta reflexão da fotógrafa sobre a noção do espaço na História, como explica comissária desta exposição, Pia Viewing. "A exposição inteira foi elaborada e as obras foram selecionadas de modo a reflectir sobre a noção de lugar, de um sítio. Portanto, foi com base nesses diferentes projectos da Jo Ractliffe que selecionámos as imagens da exposição. Isso também significa que essa questão de lugar e espaço é baseada na observação do fotógrafo das propriedades do espaço que foi dividido e separado sob o apartheid e, claro, da segregação racial. Mas não vemos isso directamente nas imagens. Portanto, mais uma vez, estamos diante de um trabalho que sugere, uma obra onde devemos procurar pistas. Somos convidados a observar e a procurar detalhes nas fotografias que nos forneçam informações sobre essa história", disse a comissária da exposição. Em 2007, Jo Ractliffe vai pela primeira vez a Luanda. Angola era então um país recém saído de uma guerra civil que tinha durado quase 30 anos após a colonização de cinco séculos de Portugal. Logo após o fim da guerra colonial e o período da independência em 1975, Angola tornou-se um dos pontos quentes da Guerra-Fria, com a URSS e os Estados Unidos a fornecerem armas e apoio financeiro aos dois lados da guerra civil entre a UNITA e o MPLA. No terreno, outras potencias também se envolveram na guerra civil, como a África do Sul ou Cuba. Com a guerra em Angola a coincidir com os movimentos independentistas da Namíbia face à África do Sul, os sul africanos lutaram ao lado da UNITA nos anos 70 e 80, tendo a batalha de Cuito Cuanavale, a maior batalha da guerra civil angolana, a ter marcado o fim das participações estrangeiras no conflito no país. Mais de 20 anos depois, Jo Ractliffe vai a Angola, primeiro a Luanda e regressa de forma consecutiva nos anos seguintes, fotografando assim as “Terras do fim do Mundo”, nome pelo qual é conhecido o território da província de Cuando Cubango.  Algumas das viagens da fotógrafa a Angola foram realizadas com antigos guerrilheiros sul-africanos para documentar os lugares onde a guerra tinha acontecido e o que restava nas paisagens: minas enterradas, casernas e quarteis abandonados ou fossas comuns dissimuladas pela vegetação. "É interessante ver como Jo Ractliffe forma narrativas com estas imagens e como essas narrativas são alimentadas pelos vestígios deixados nos locais onde ocorreram acções do passado. De facto, há uma sala quase completa na exposição dedicada quase inteiramente à guerra em Angola, desde logo à guerra da independência e aos vários conflitos que se seguiram à independência de Angola em 1975. Portanto, Jo Ractliffe foi a Angola em 2007 e voltou a Angola várias vezes em 2009 e 2010. Ela fotografou coisas diferentes de cada vez, mas as últimas viagens foram acompanhadas por veteranos, especialmente veteranos sul-africanos. E são esses ex-soldados que vão ajudá-la a descobrir o território de uma maneira diferente e, em particular, a história da participação da África do Sul nessa guerra obscura, atroz, com milhares e milhares de mortes. Foi uma guerra que durou muito tempo, desde a independência em 75 até ao início dos anos 2000. Portanto, é muito interessante descobrir como esta artista não se concentrou na guerra em si, como faria um fotojornalista, e não mostrou directamente as atrocidades e os horrores da guerra. E acho que é interessante observar o seu trabalho hoje, quando o mundo está totalmente invadido por imagens de todos os tipos de violência e de guerras muito sangrentas. É extremamente interessante ver como uma artista pode ter uma abordagem sensível e poética e também, eu diria, de forma mais distante mas não menos comprometida, ficando assim a ideia de mostrar esses traços da guerra e acompanhar com os textos a descoberta dessa história que é profunda - já que, no caso da África do Sul, o apartheid dura desde o início do século XX", detalhou Pia Viewing. Nas fotografias de Jo Ractliffe, maioritariamente a preto e branco, não há violência, não há feridos, não há mortos, não há combates e não há armas, mas há tudo que fica de um conflito: paisagens nuas - já que sabemos que a vida animal do Sul de Angola foi devastada pelos conflitos -, pobreza, desolação e abandono. E isso faz com que estas fotografias pudessem ser tiradas em qualquer lugar do Mundo que viveu a crueldade de um conflito armado. Ao mesmo tempo, o Museu de Jeu de Paume, mostra numa outra exposição as fotografias de Martin Parr, um fotógrafo britânico que se assumia como documentarista e que através de cores exuberantes e fotografias inusitadas mostrava as contrariedades do Mundo em que vivemos. Duas maneiras de mostrar o Mundo, duas visões que Pia Viewing considera interessante ter lado a lado neste museu parisiense. "Martin Parr estava absolutamente determinado a documentar o mundo. Então, ele pensou: 'Sou um fotógrafo documental', enquanto Jo Ractliffe tem uma atitude um pouco diferente em relação ao documentário. Ela não tenta ser como ele nem como o seu acólito, David Goldblatt, por exemplo, um conhecido fotógrafo sul-africano que documenta o mundo de forma a fornecer informações directas sobre o mundo real. Ela está mais interessada em criar uma relação com a literatura, com a poesia, com essas influências, eu diria que são bastante literárias. Mas claro que as duas exposições estão a acontecer ao mesmo tempo, e acho que a atracção do público por Martin Parr. É interessante para Jo Ractliffe, porque muitas pessoas descobrem o trabalho de Ractliffe por causa do seu interesse por Martin Parr, e elas vêm ver a exposição por causa da exposição de Martin Parr. Mas acho que também é muito interessante para nós, Jeu de Paume, mostrar estas duas atitudes muito diferentes em relação a como documentar o mundo e como a fotografia pode ecoar directamente a atitude do fotógrafo em relação ao mundo ao seu redor", concluiu. A exposição de Jo Ractliffe, “En ces lieux”, pode ser vista até dia 24 de Maio no Museu Jeu de Paume, em Paris.
“É urgente” salvar as línguas crioulas de São Tomé e Príncipe
2026/03/10
As línguas crioulas de São Tomé e Príncipe estão em risco de extinção e é urgente agir. A constatação tem vindo a ser feita ao longo dos anos, mas não tem havido a necessária revitalização destas línguas, pelo que elas “enfrentam um risco agravado de desaparecer ao longo do tempo”.  Neste programa, convidámos o linguista Tjerk Hagemeijer para compreendermos o tema e tentarmos perceber o que fazer para salvar os crioulos de São Tomé e Príncipe. São Tomé e Príncipe é “um caso único em África, linguisticamente falando”, começa por dizer Tjerk Hagemeijer, explicando que a antiga língua colonial, a portuguesa, se tornou na “língua nativa dominante”, ou seja, mais falada pela população a uma escala até agora sem paralelo noutro país. Essa ascensão do português começou no final século XIX com “uma reviravolta social e linguística” ligada à abolição da escravatura e à contratação dos serviçais oriundos de Cabo Verde, Angola e Moçambique. O movimento foi-se acentuando e nem o ímpeto das lutas de libertação, nem a chegada da independência contrariaram o crescimento do português como língua franca, falada actualmente por mais de 98% da população de São Tomé e do Príncipe. O professor do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, que tem vindo a estudar este fenómeno há anos, acrescenta que paralelamente à adopção generalizada do português, as línguas locais – forro, lung’ie e angolar - foram-se diluindo. No último censo de 2012, o forro era falado por cerca de 36%, o angolar por mais de 6% e o lung'ie por 1%, “mas provavelmente 1% inflacionado porque serão muito menos falantes”, estimados em “algumas centenas” na ilha do Príncipe. Ou seja, é das três línguas fragilizadas, aquela que enfrenta “um iminente risco”, sublinha Tjerk Hagemeijer. Apesar da consciência do património histórico e linguístico e da noção do seu declínio, na prática “não existe verdadeiramente uma política linguística no sentido de activamente promover estas línguas”, mesmo que tenha sido aprovado, em 2013, um Alfabeto Unificado das Línguas Nativas de São Tomé e Príncipe. Por outro lado, já quase não há transmissão das línguas crioulas entre gerações e persistem atitudes estigmatizantes relativamente às línguas minoritárias, o que não estimula a manutenção desse património. “Para salvar a língua, todo o tempo é pouco, é uma questão urgente”, avisa o docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e especialista nos crioulos do Golfo da Guiné. Entrevista a Tjerk Hagemeijer: “As línguas crioulas entraram em risco de extinção” RFI: Em 2018, o professor já tinha escrito um artigo em que falava sobre São Tomé e Príncipe, explicando que era um caso à parte em África, linguisticamente falando. Em que consiste esse caso à parte? Tjerk Hagemeijer, Investigador do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa: “Em São Tomé e Príncipe há um contexto de multilinguismo, portanto, há uma língua oficial, que é o português, que convive com várias línguas crioulas: o forro, o angolar, o lung'ie e também o cabo-verdiano por causa da própria história, sobretudo o século XX, de São Tomé e Príncipe. São Tomé e Príncipe é um caso em que, sobretudo a partir de finais do século XIX, altura em que o país ainda era um país crioulófono, começou a ter cada vez mais falantes do português, não necessariamente como língua materna, mas houve claramente uma ascensão da língua portuguesa por causa da história de São Tomé e Príncipe, do chamado regime do contrato dos trabalhadores de fora: de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique que foram trabalhar para as empresas agrícolas de São Tomé e Príncipe e que muitas vezes adoptaram o português como língua de comunicação. Portanto, o português foi crescendo como língua franca, cada vez mais, em detrimento das línguas crioulas. Houve também um período, a chamada Segunda República, em que claramente a população começou a assimilar cada vez mais o português porque era uma língua de ascensão socioeconómica. Chega a Independência, altura em que o português se torna a única língua oficial, a língua da administração (que já era), da escola (que já era), mas ganha um estatuto ainda mais democrático a nível do país de São Tomé e Príncipe. Enfim, ao longo desse tempo, os crioulos foram perdendo falantes e, hoje em dia, o português é amplamente falado por todos os são-tomenses e principenses, cerca de 98% da população fala essa língua, de acordo com o censo disponível de 2012. É um caso único no sentido em que não há, tanto quanto sei, nenhum outro caso em África em que há tantos falantes e, sobretudo, também muitos falantes nativos da antiga língua colonial. Os custos são, sobretudo, para as línguas crioulas que se tornaram cada vez mais minoritárias e que entraram em risco de extinção, portanto, estão em declínio e apresentam diferentes riscos do ponto de vista da sua continuação no tempo.” A antiga língua colonial, o português, tornou-se a língua nativa dominante da população e isto comporta o risco de extinção das outras línguas, é assim? “Exactamente.” Como é que historicamente se explica que a antiga língua colonial, o português, se torne na língua mais falada? “Recuando até ao tempo do povoamento das ilhas de São Tomé e Príncipe, em que, sobretudo há uma situação de contacto linguístico entre o português e línguas africanas continentais que dá origem a uma língua que, hoje em dia, chamamos de proto-crioulo do Golfo da Guiné. Portanto é uma nova língua de contacto, um crioulo que se vai desdobrar em diferentes línguas. O forro, o angolar, o lung'ie e também uma língua falada na ilha de Ano-Bom que já não é território português, mas era naquela altura. Estas línguas de São Tomé e Príncipe tornaram-se as línguas dominantes daquele espaço porque a presença portuguesa era geralmente muito reduzida, o modelo da língua portuguesa não estava muito presente e seguramente, até finais do século XIX, as línguas crioulas eram as línguas mais faladas pela população. Claro que as elites, as pessoas mais ligadas à administração, o clero, etc, falavam português, mas estamos a falar de uma minoria. A partir de finais do século XIX, esta situação muda porque há, em primeiro lugar, a abolição da escravatura no último quarto do século XIX e, nessa altura, o regime colonial precisou de mão-de-obra para trabalhar, sobretudo, nas empresas agrícolas onde se produzia cacau. São Tomé era um grande produtor de cacau e tinha sido, no século XVI, na primeira fase de açúcar. Portanto, o estratagema encontrado para colmatar a falta de mão-de-obra - porque os que tinham sido escravos recusavam-se a trabalhar nas empresas agrícolas - era ir buscar cabo-verdianos, moçambicanos, portanto, os chamados contratados ou serviçais. Esta situação leva a uma reviravolta social porque estamos a falar de grandes números de pessoas de fora, de falantes de outras línguas e, também por essa razão, de uma reviravolta linguística porque é nessa altura que o português começa a ganhar mais terreno porque a língua praticada nas empresas agrícolas era sobretudo o português. Os donos dessas empresas eram tipicamente portugueses, falantes do português e o modelo do português era praticado nesses espaços.  Ou seja, a nova população ajusta-se cada vez mais ao português. Depois há um período também, ainda antes da independência, em que há uma espécie de proibição oficiosa dos crioulos e muitos forros apercebem-se da importância da língua portuguesa e vão adoptar também o português na comunicação, mesmo que às vezes de pais para filhos, de pais crioulos falantes para filhos que não podiam, por exemplo, responder em forro aos próprios pais. Todas estas mudanças na sociedade levaram à gradual ascensão da língua portuguesa.” Mas não seria de esperar que a própria independência, em que a cultura era factor de emancipação e arma de luta, reforçasse os crioulos, como em Cabo Verde e na Guiné, ? “Nós assistimos, ao longo do século XX até à altura da independência, à ascensão da língua portuguesa. Mas tem razão na questão que coloca porque a independência é uma nova oportunidade para valorizar o património linguístico cultural que é próprio dessas ilhas. Houve, de facto, depois da independência, um momento em que se tentou valorizar mais as línguas crioulas, através de festivais, cancioneiros, etc. Houve algumas publicações, mas nunca houve verdadeiramente uma iniciativa política do Estado no sentido de, por exemplo, dar um estatuto oficial ou co-oficial a estas línguas e não houve também verdadeiramente um investimento. O investimento foi todo para a língua portuguesa. É claro que isso significa que, hoje em dia, esses crioulos continuam a ser cada vez menos falados porque as pessoas são cada vez mais escolarizadas, são escolarizadas em português, existem várias línguas crioulas e uma língua portuguesa. Portanto, do ponto de vista da comunicação entre os diferentes grupos, o português funciona como língua franca. Tudo isso acaba por levar a esta situação em que temos hoje, numa antiga colónia em África, tantos falantes da antiga língua colonial. Não há nenhum outro contexto em África, embora o fenómeno também aconteça até certo ponto, em Angola e em Moçambique, mas não na mesma escala que em São Tomé e Príncipe.” A antiga língua colonial torna-se na língua oficial exclusiva. Por que é que as línguas nativas ou as línguas nacionais, os crioulos, não são línguas de pleno direito, não têm um estatuto legal até hoje, em 2026? “Por uma razão muito simples: porque ter um estatuto oficial, ter um estatuto dif
Resgatar imagens das lutas de libertação é “gesto urgente” no mundo actual
2026/03/03
Neste programa, vamos falar sobre a publicação "Resistência Visual Generalizada: Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação", organizada por Catarina Boeiro e Raquel Schefer e que foi apresentada a 26 de Fevereiro em Paris. A obra reúne um conjunto de livros, fotografias, revistas e boletins dos movimentos de libertação produzidos entre as décadas de 1960 e 1980, no contexto das lutas anticoloniais de libertação e dos primeiros anos de independência em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Raquel Schefer falou-nos sobre este projecto que também se materializou em exposições, e lembrou que recolocar em circulação imagens de há mais de 50 anos “é um gesto urgente” perante a situação política mundial actual e perante a invisibilização de lutas históricas. A obra "Resistência Visual Generalizada: Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação" debruça-se sobre um conjunto de livros de fotografia publicados durante as lutas de libertação dos países africanos de língua portuguesa e sobre publicações editadas pouco depois das independências. O projecto é da autoria de Catarina Boeiro e Raquel Schefer e começou em 2018 quando as investigadoras obtiveram uma bolsa para um projecto curatorial sobre o tema, algo que resultou em exposições no Instituto Nacional de História da Arte, em Paris, entre Novembro de 2021 e Janeiro de 2022, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional – Galerias Municipais de Lisboa, entre Setembro e Novembro de 2022, e, em versão reduzida, no âmbito da 10ª Mostra de Cinema Anti-Racista (MICAR), organizada pela associação SOS Racismo, no Batalha Centro de Cinema, no Porto, em Novembro de 2023. A publicação constitui um arquivo visual e textual dos materiais exibidos nas exposições, dando-os a conhecer, contextualizando a sua produção no âmbito dos movimentos emancipatórios das lutas de libertação e recolocando-os em circulação como “um gesto urgente” contra um certo “apagamento” histórico e visual e “tendo em conta a situação política mundial actual”, sublinhou Raquel Schefer. “Esse conjunto de livros é um retrato eloquente do paradigma de emancipação das décadas de 60 e 70 dos processos de descolonização dos países africanos, mas também das redes de solidariedade internacionalista desse período porque - sobretudo na primeira etapa correspondente às lutas de libertação - os fotógrafos e jornalistas que viajavam às zonas libertadas de Angola, Moçambique e da Guiné-Bissau eram fotógrafos internacionalistas como Augusta Conchiglia, que é italiana, o Uliano Lucas, também italiano, o Tadahiro Ogawa, um fotógrafo japonês, entre outros exemplos. Consideramos e constatamos, tanto eu como a Catarina, que há um processo de revisão da história em curso e mesmo um processo de reordenação semântica, de apagamento do paradigma de emancipação das décadas de 60 e 70, de apagamento das suas visualidades, e parece-nos mesmo um gesto urgente, tendo em conta a situação política mundial actual, recolocar essas imagens e essa História em circulação”, disse à RFI Raquel Schefer. A professora de cinema na Universidade Sorbonne-Nouvelle lembrou que, nos tempos das lutas de libertação, há pouco mais de meio século, “a produção de imagens revelou-se como uma arma no quadro das lutas de libertação”. Por um lado, porque através das imagens fotográficas e cinematográficas se podia documentar a luta de libertação e, nomeadamente, as novas formas de organização social e de pedagogia que eram desenvolvidas nas zonas libertadas. Por outro lado, porque não se tratou apenas de documentar, “tratou-se também de reinventar a estética e, nesse sentido, essa própria descolonização da estética é - e era - uma arma de libertação, para citar Amílcar Cabral”. Na introdução da obra, Catarina Boeiro e Raquel Schefer assumem que “o gesto de reunir e apresentar um conjunto de livros e documentos que oferecem, tanto em termos historiográficos, quanto em termos visuais, o reverso da narrativa veiculada em Portugal, tanto no contexto educativo, quanto no quadro mediático, poderá contribuir para a complexificação da perspectiva histórica relativa ao colonialismo português e às lutas de Libertação anticoloniais, bem como aos seus prolongamentos no presente”. Por sua vez, no prefácio, o sociólogo Miguel de Barros fala da publicação como “um acto político” e “reparador” por “resgatar a memória de uma etapa da história protagonizada pela mobilização dos povos africanos subjugados que buscavam a sua emancipação” e por gerar “espaço para educar novas gerações no Norte Global”. Questionada sobre se “Resistência Visual Generalizada” é, de facto, uma forma de denunciar uma certa narrativa histórica oficial e até a continuidade de uma lógica colonial no presente, Raquel Schefer admite que quiseram “colocar em paralelo o passado e o presente e mesmo estabelecer uma linha de continuidade entre o passado colonial e as manifestações, estruturas e formações coloniais no presente”. “Por um lado, consideramos que na sociedade portuguesa, tal como na francesa e na Europa em geral, o colonialismo se mantém vivo através de divisões de classe e de raça, através do racismo. Também constatamos esse processo de reescrita da História que tende a invisibilizar a história das lutas de emancipação e libertação do século XX. Por outro lado - se calhar agora ainda mais do que quando iniciamos o processo de investigação em 2018 - o colonialismo está vivo e é manifesto em certos acontecimentos e processos da actualidade, como o genocídio na Palestina, no Sudão, no Congo, entre outras zonas geopolíticas, ou também no desrespeito total pelo direito internacional e pelo sistema multilateral implementado depois da Segunda Guerra Mundial, como vemos, por exemplo, nos bombardeamentos da Venezuela e no rapto do seu Presidente ou nos bombardeamentos do Irão ainda em curso”, acrescentou. Oiça a entrevista completa no programa ARTES desta semana.
“África é um continente riquíssimo em termos de património natural e cultural”
2026/02/25
O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, reafirmou o compromisso com a valorização do património africano, defendendo que a riqueza natural e cultural do continente deve ser colocada ao serviço do desenvolvimento sustentável. O estadista defendeu que o património africano, muitas vezes “silenciado”, deve ganhar visibilidade e integrar a lista de Património Mundial da UNESCO: “Queremos que mais países inscrevam o seu património natural e cultural”. Na qualidade de Champion da União Africana para a Preservação do Património Natural e Cultural de África, o chefe de Estado de Cabo Verde sublinhou que “África é um continente riquíssimo em termos de património natural e cultural” e alertou para a necessidade de transformar esse potencial em oportunidades concretas: “É preciso colocar toda esta riqueza ao serviço do continente africano”. À margem da 39.ª Sessão Ordinária da Assembleia da União Africana, que decorreu em Addis Abeba, o Presidente de Cabo Verde liderou um evento de alto nível subordinado ao tema “Património Mundial e Segurança Hídrica em África: Construir Caminhos para a Sustentabilidade e a Agenda 2063”, promovido por Cabo Verde no quadro das comemorações do 20.º aniversário do Fundo Africano para o Património Mundial. José Maria Neves defendeu que o património africano, muitas vezes “silenciado”, deve ganhar visibilidade e integrar a lista de Património Mundial da UNESCO: “Queremos que mais países inscrevam o seu património natural e cultural”. “O que pretendemos é que o património natural e cultural africano seja uma alavanca para o desenvolvimento sustentável do continente”. Segundo o Presidente, investir na preservação pode impulsionar sectores estratégicos: “O património pode levar ao crescimento do turismo, dos transportes, das indústrias criativas, à criação de emprego e de novas oportunidades para a juventude africana.” O estadista apelou ainda ao reforço do financiamento internacional e ao envolvimento do sector privado. “É preciso estimular as agências internacionais no sentido do financiamento da preservação”, defendendo que também os privados devem alocar recursos ao fundo africano. Segundo o chefe de Estado, está em curso um esforço de sensibilização junto de Estados-membros, parceiros internacionais e sector privado. “Falamos em mobilizar recursos em torno de 20 milhões de dólares americanos para o relançamento do seu trabalho”, afirmou, clarificando, contudo, que a fase actual não é ainda de angariação directa de montantes. “Está-se a fazer mais um trabalho de sensibilização e não um trabalho de recolha de valores específicos neste momento”, explicou. No plano nacional, José Maria Neves revelou que Cabo Verde tem projectos a serem trabalhados com o Fundo Africano para o Património Mundial. Entre eles, destacou a candidatura do Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial e o processo relativo aos Escritos de Amílcar Cabral. O país já conta com a Cidade Velha classificada pela UNESCO, estando em curso o levantamento de “patrimónios silenciados” para valorização futura . O Presidente destacou a ligação entre património e segurança hídrica, apontando a gestão sustentável da água como factor crítico para o futuro do continente. “Fizemos referência à relação entre a água, os recursos hídricos e o património mundial, enquanto instrumentos que poderão levar-nos ao desenvolvimento sustentável e ao cumprimento da Agenda 2063”, referiu, assinalando a “grande abertura” das agências parceiras para apoiar iniciativas nesta área. “O património natural e cultural são as nossas catedrais e basílicas”, concluiu, defendendo que a sua preservação pode contribuir “enormemente para o crescimento da economia e para a melhoria das condições de vida dos africanos”.
Beatriz Batarda é a madrinha da segunda edição do festival de cinema "Olá Paris!"
2026/02/18
A actriz portuguesa Beatriz Batarda é madrinha e convidada especial da edição deste ano do festival "Olá Paris!" que mostra na capital francesa uma selecção de cinema português aberta ao público e aos profissionais do cinema francês. O Festival Olá Paris volta à capital francesa com uma segunda edição, destacando o trabalho dos realizadores e actores portugueses, com a estreia de vários filmes e uma nova madrinha. Se na primeira edição, esta distinção coube a Maria de Medeiros, em 2026 a madrinha do Festival Olá Paris, que decorre entre 6  e 8 de Março, é Beatriz Batarda, uma das actrizes mais destacadas da sua geração. Em entrevista à RFI, a actriz explica a sua afinidade com a França e com a língua francesa, assim como os dois filmes que protagoniza e que poderão ser vistos em Paris durante o Festival. “A minha família materna é francesa e emigrou para Portugal no final dos anos 30, se não me engano, e portanto ainda tenho alguma família em França e fiz aqui o Liceu Francês em Lisboa porque os meus avós faziam questão e por isso essa, essa relação com a cultura francesa esteve sempre viva. Como é que eu vou parar a este lugar através do convite? Não sei o que é que lhes passou pela cabeça convidarem-me, mas penso que terá sido também esta sensação de facilidade, não com a língua, porque eu já não falo tanto francês como como falava antes, mas essa compreensão, se calhar desse encontro, desse lugar, desse encontro das duas culturas. Eu sempre tive essa sensação de que eu não não era nem francesa nem portuguesa. Era um lugar próprio”, explicou a actriz. Em Paris, da primeira edição, onde esteve presente também com dois filmes, Beatriz Batarda guarda sobretudo as abordagens dos espectadores franceses, interessados no cinema pelo seu valor intrínseco, independentemente de ser ou não cinema português. Para esta edição, Beatriz Batarda assume ter tido algumas trocas com a organização e assume que as escolhas do cartaz são ousadas. Nesta segunda edição, Beatriz Batarda protagoniza dois dos filmes apresentados: “18 buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, e “O Vento Assobiando nas Gruas”, assinado por Jeanne Waltz a partir do romance de Lídia Jorge. Duas películas actuais e que falam de temas prementes tanto em Portugal como em França. “[O Vento Assobiando nas Gruas] Fala da impossibilidade de deixar o colonialismo para trás. É a utilização das mulheres para preservar uma postura machista e colonialista perante os outros. A personagem que eu interpreto é uma mulher que é completamente dominada pelo universo masculino e que para ganhar algum poder ou para se impor em relação ao resto da família, masculiniza-se ela própria e tem um pensamento muito pouco solidário com as mulheres, ou com a fragilidade ou com a diferença. E o filme do João Nuno não é menos pertinente, porque também é uma uma proposta com uma crítica interessante sobre a venda do território português aos grandes grupos que compram assim hectares e hectares e que depois tentam transformarem em resorts e ocupam uma zona do país mais a sul, que é muito bonita de facto e que é muito agradável e o clima é muito agradável, mas que tem poucos recursos de água. Essa água é preciosa para a agricultura e para o gado e para as populações locais. E, portanto, levanta essa questão dessa drenagem sem qualquer limite, sem qualquer regra. Dos poucos recursos da terra”, concluiu.
BD “Eldorado” retrata um Brasil entre a realidade e o sonho do futebol
2026/02/04
Eldorado” é o novo trabalho do autor brasileiro de banda desenhada Marcello Quintanilha, lançado em Janeiro pela editora belga Le Lombard. Através da história de dois irmãos, a BD esboça um retrato social do Brasil, dos anos 50 aos anos 70, ritmado pela paixão do futebol, pela música, pelas desigualdades sociais, pela criminalidade e por uma política autoritária. Poderá o sonho da bola sobreviver à dureza do terreno fora das quatro linhas ou estará destinado a ficar fora de jogo num Brasil sem ilusões? “Eldorado” cruza o destino de dois irmãos, Hélcio e Luís Alberto: um sonha com uma carreira de futebol profissional e o outro é apanhado nas malhas da delinquência. Através deles, é a própria história do Brasil, dos anos 50 aos anos 70, que acompanhamos. A música é omnipresente, numa banda desenhada marcada pelo movimento, planos cinematográficos, um espectro de cores nostálgicas e uma palete de emoções que pinta a complexidade das personagens. “Esse livro recupera o mito do filho pródigo inserido no contexto da classe trabalhadora brasileira da metade do século XX e é uma história de erros, é uma história de afrontar os erros, é uma história de repensar os erros e de tentar solucionar tudo aquilo que dissemos, tudo aquilo que fizemos e que não pode mais ser refeito a não ser ser compreendido e ser um ponto de partida para um novo futuro”, conta Marcello Quintanilha à RFI. “Eldorado” começa com uma introdução sobre a história do Brasil, a preto e branco, inspirada nas gravuras dos folhetos de cordel do nordeste do país. Aí se conta como o futebol, introduzido no país como um desporto de ricos, foi tomado pelas classes populares e se tornou numa revolução silenciosa com uma “faceta jovem, igualitária, impetuosa e transgressiva”. Aí também se conta como, ao longo do século XX, a criminalidade se alimentou da ausência de políticas públicas de inclusão e das desigualdades económicas e sociais e como o contexto político e histórico agravou essas mesmas desigualdades e mergulhou o país numa crise que continua a ameaçar a democracia brasileira até hoje. Nesta obra descrita como um policial neo-realista, as personagens de Hélcio e Luís Alberto vão incarnar a complexidade desse Brasil, entre os anos 50 e 70, na cidade de Caxias, na região do Rio de Janeiro. Esta é também uma história que se inspira no pai de Marcello Quintanilha, um antigo jogador profissional que teve de parar de jogar muito jovem, o que levou a que o tema do futebol fosse, durante muito tempo, um tabu na família. “Metade do livro é baseada na história real dele e a outra metade do livro é uma história ficcional, policial, que serve como espelho entre as duas vertentes: a real e a ficcional”, explica o autor. A influência do pai e a personagem de Hélcio já apareciam noutro trabalho de Marcello Quintanilha, "Luzes de Niterói" (2018). O lado humano das personagens é uma linha de força da obra do autor, em que o passar do tempo, a arquitectura e o próprio Brasil são também personagens. “Eu acho que os meus livros tratam de coisas que eu considero muito humanas. Acho que é, por isso, que o meu trabalho vem despertando tanto interesse fora do Brasil, porque eu trato dos personagens de uma maneira muito humana e a condição humana é algo compartilhado universalmente. Então, Eldorado insere-se no mesmo contexto, na mesma concepção de personagens, na mesma concepção do mundo”, acrescenta. Uma concepção do mundo que tem conquistado o mercado editorial de banda desenhada na Europa, nomeadamente o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, em França. Aí venceu, em 2022, o prémio de melhor álbum, Fauve d’Or, com “Escuta, formosa Márcia” e também ganhou, em 2016, na categoria de melhor história policial com “Tungsténio”, uma BD que também foi adaptada a filme. Nascido em Niterói, no Brasil, em 1971, Marcello Quintanilha passou de autodidacta a um dos maiores autores da BD brasileira contemporânea. Começou a trabalhar para uma editora aos 16 anos e publicou em 1999 a sua primeira novela gráfica, "Fealdade de Fabiano Gorila", que já se inspirava na vida do pai. Instalou-se em Barcelona há 23 anos, graças à série "Sept balles pour Oxford", da editora Le Lombard, com argumento do argentino Jorge Zentner e do espanhol Montecarlo, e fez ilustração para jornais espanhóis como El País e La Vanguardia. Desde então, não parou de desenhar, escrever e publicar. Editou "Salvador" (2005), "Sábado dos meus amores" (2009), "Almas públicas" (2011), "O ateneu" (2012), "Tungsténio" (2014), "Talco de vidro" (2015), "Hinário nacional" (2016), "Luzes de Niterói" (2018), "Escuta, formosa Márcia" (2021) e, agora, “Eldorado”. Em 2020, Marcello Quintanilha estreou-se na ficção com "Desereama".
“O silêncio também é político”: Isabél Zuaa em O Agente Secreto
2026/02/04
Passado em 1977, durante a ditadura militar brasileira, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, constrói um retrato da repressão através de gestos íntimos e do que fica por dizer. Integrando um elenco, Isabél Zuaa interpreta Teresa Vitória, uma mulher angolana exilada, formada em Portugal. Em entrevista, a actriz fala do trabalho colectivo, da política inscrita nos corpos e da força do silêncio num filme em plena consagração internacional. Passado em 1977, em plena ditadura militar brasileira, O Agente Secreto afirma-se como um dos mais rigorosos e inquietantes retratos cinematográficos da repressão política no Brasil. O novo filme de Kleber Mendonça Filho recusa a explicação directa e opta por uma construção sensorial, onde a vigilância, o medo e o desgaste moral do autoritarismo se infiltram na vida do dia-a-dia, nos afectos e nos gestos. Esse olhar oblíquo tem garantido à obra um percurso internacional sólido, múltiplas distinções em festivais e, mais recentemente, a entrada na corrida aos Óscares, com nomeações em quatro categorias. Integrado numa narrativa assumidamente coral, o filme assenta num trabalho colectivo visível, quase orgânico. Para Isabél Zuaa, que interpreta Teresa Vitória, essa dimensão foi determinante. “O que mais me marcou foi a simbiose entre a equipa técnica e a equipa artística, os actores, a preparação de elenco, todo o ambiente da cidade do Recife”, afirma. Segundo a actriz portuguesa, o envolvimento foi tal que “as pessoas estavam todas a torcer para que o filme desse certo” e “muita gente queria fazer parte”. Essa experiência revelou-se particularmente singular pela escala do projecto. “Essa simbiose não costuma acontecer assim num filme tão grande”, sublinha Isabél Zuaa, lembrando que, apesar de se tratar de uma produção com profissionais “de Angola, de Portugal, da Alemanha e de vários lugares do Brasil”, se criou um ambiente de rara coesão. “Normalmente, essa ligação é mais evidente em filmes menor escala”, acrescenta, destacando o carácter excepcional do processo de trabalho. A actriz atribui grande parte dessa atmosfera à forma de dirigir de Kleber Mendonça Filho, que descreve como “um gentil gigante, amante do cinema”. Esse amor pelo cinema traduz-se, segundo Isabél Zuaa, numa atenção constante ao detalhe e às pessoas: “Ele trata tudo com muito carinho, com muita atenção, com muito cuidado”, criando um set onde “toda a gente está a torcer e a cuidar para que o filme e todas as coisas deem muito certo”. Mais do que uma hierarquia rígida, impôs-se uma lógica de trabalho assente na colaboração, na escuta e no respeito mútuo. A entrada de Isabél Zuaa no projecto foi inesperada. As filmagens já tinham começado quando recebeu o convite, num momento em que se encontrava em Lisboa, prestes a entrar de férias após concluir outro filme. A personagem que lhe foi proposta trazia, porém, uma complexidade invulgar. Teresa Vitória inspira-se numa mulher angolana real, ligada à história pessoal do realizador, e cruza trajectos coloniais, exílio e formação académica em Portugal. “É uma mulher angolana que estudou em Portugal”, explica a actriz, sublinhando a densidade histórica da experiência. Essa dimensão atravessa a construção da personagem, marcada por uma desilusão política e existencial. Isabél Zuaa recusa uma leitura simplista do seu estado emocional: mais do que uma depressão, trata-se de “uma desilusão com a circunstância em que ela se encontra”, por não poder estar “nos seus países de origem e de referência” e por se sentir deslocada face aos rumos tomados pela história. A personagem ocupa, assim, um lugar ético complexo, recusando alinhar com lógicas de guerra. “Guerra é sempre guerra”, afirma, sublinhando a posição humanitária de Teresa Vitória. O trabalho vocal e corporal assume aqui particular relevância. A opção por um português europeu, atravessado por uma musicalidade africana subtil, responde a um rigor histórico e simbólico. “É uma mulher africana com formação em Portugal”, explica Isabél Zuaa, evocando uma geração de mulheres que estudaram em Lisboa, Coimbra ou Porto e cuja fala reflectia essa formação. “As pessoas perguntam porque é que o sotaque é português de Portugal, mas é uma questão de época”, esclarece, acrescentando que essa escolha representa um grupo de mulheres ainda pouco visível no cinema. Num filme que evita discursos explicativos sobre a ditadura, o silêncio ganha um peso expressivo central. “O filme fala muito nos silêncios, naquilo que não é dito, naquilo que está noutras camadas”, observa a actriz. Para Isabél Zuaa, essa opção cria mais espaço para o espectador: “O silêncio pode ser muita coisa. Pode ser interpretado por cada pessoa de formas diferentes”. Frases aparentemente simples concentram múltiplos sentidos, revelando contradições identitárias, deslocamentos e violências subtis. O edifício Ofir, no bairro do Espinheiro, no Recife, onde Teresa Vitória vive funciona como um microcosmo do próprio filme. Um espaço de resistência material e simbólica, onde corpos exilados e em perigo conseguem ainda “celebrar a vida” e encontrar formas de sobrevivência colectiva. Entre humor, solidariedade e tensão permanente, O Agente Secreto constrói uma reflexão poderosa sobre memória, autoritarismo e persistência do humano. Para Isabél Zuaa, o impacto é claro: “Sem dúvida há um antes e um depois”, tanto pela projecção internacional como pela confirmação de que o cinema político pode ser íntimo, sensorial e profundamente perturbador.
Les Portugayz: um podcast sobre amizade, homossexualidade e as raízes portuguesas
2026/01/28
Um podcast escrito e produzido por Arthur Vacher, luso-descendente, traça a história de uma amizade entre três rapazes homossexuais que os aproxima das raízes portuguesas e os ajuda a enfrentar as dificuldades do dia a dia. Três rapazes gays, com vinte e poucos anos, de origem portuguesa, trabalham juntos num dos grandes armazéns de Paris. Aqui começa uma história que os vai levar não só a descobrir o verdadeiro sentido da amizade, mas também a reabilitar as raízes portuguesas muitas vezes envoltas em preconceito e discriminação. Esta história é contada na primeira pessoa por Arthur Vacher, no podcast “Les Portugayz”, que vai no terceiro de cinco episódios. Em entrevista à RFI, Arthur, acompanhado por Adrien Deleu Pinto, protagonista também desta história, falaram sobre a importância dos amigos, numa altura em que vivemos cada mais sozinhos e isolados, especialmente numa grande cidade como Paris. Arthur Vacher: "Sim, é tanto sobre amizade quanto sobre solidão. É, como dizer... Percebi ao escrever esta história que nós os três partilhávamos uma grande tristeza, uma grande solidão em relação à nossa vida em geral, mas também em relação ao mundo gay, que às vezes nos isolou uns dos outros, uns com os outros e uns contra os outros. Então, ter amigos é algo muito precioso. Permite superar essa solidão que podemos atravessar na vida, que toda a gente pode atravessar. E, foi por isso, que quis contar esta história" Adrien Deleu Pinto: "É verdade que do que precisávamos, creio eu, tanto o Arthur quanto o Joseph e eu, era de ter amizades gays. E aconteceu de nós três partilharmos também a cultura portuguesa, o que foi um pouco a cereja no topo do bolo. Foi isto que solidificou o trio. E isso aconteceu num momento das nossas vidas, de nós os três, em que realmente precisávamos disso. Por isso, fico muito emocionado que o Arthur tenha se apropriado disso para transformar num podcast" Arthur Vacher: "Não precisamos estar bem para ter um amigo. Para ser amado. E foi isso que compreendemos ao apoiar-nos uns aos outros. Estávamos lá. E só porque eu estava mal e ligava para o meu amigo Adrien ou para o Joseph, e tinha apenas uma conversa com eles, isso já tornava a minha vida um pouco mais fácil" Os três rapazes formaram então um clube de cinema português e rapidamente se tornaram amigos próximos, uma experiência que conta a ambiguidade e dificuldade de distinguir a amizade da sedução nas comunidades homossexuais e como essa certeza e necessidade de amigos se tornou uma pedra angular da relação entre os três. Arthur Vacher: "Eu estava a passar por um período bastante difícil e, na verdade, a prioridade não era encontrar o amor da minha vida ou de ter uma vida sexual. Essas eram coisas secundárias para mim naquele momento. E a amizade, esses gestos, essa ternura que não é sexual, mas que é algo totalmente diferente... Para mim, isso permitiu emancipar-me dessa depressão, mas também partilhar momentos muito ternos, ter muito amor para dar e também para receber dos meus amigos." Adrien Deleu Pinto: "Acho que, nas comunidades gays, já existe frequentemente a noção de "família escolhida", porque precisamos nos reencontrar com pessoas que se sentiram rejeitadas nalgum ponto das suas vidas. Mas, além disso, no contexto da nossa amizade, eu tinha acabado de perder a minha avó portuguesa, que era um pouco o meu pilar pessoal e o meu pilar dessa cultura. E, por isso, acho que quando nós os três nos encontramos, houve uma necessidade de reinvestir tudo o que ela me tinha transmitido e de recriar uma família com o Arthur e o Joseph." A ideia de documentar esta amizade singular surgiu logo no espírito de Arthur que foi gravando alguns momentos partilhados, mas a quebra do laço com Joseph levou a alguma hesitação. Adrien, que é protagonista e intervém mesmo no podcast, diz que fica emocionado com a forma como Arthur refaz o percurso desta afinidade. Adrien Deleu Pinto: "Originalmente, era um projeto que queríamos levar adiante os três, mas não sabíamos exactamente como. E depois, bem, a vida fez com que o trio se desfizesse. O Arthur fazia muita questão de contar esta história e, na época, eu não via exactamente como fazê-lo porque estava decepcionado com o fim do trio. Conversámos sobre isso e sentimos os dois que ele precisava contar a história na primeira pessoa. E, no final de contas, acho que isso também nos fez evoluir na nossa amizade, porque há coisas... enfim, ele fala de nós de uma forma que nunca tínhamos falado antes. Conheci o ponto de vista dele sobre situações passadas. Mas o que eu gosto na nossa amizade é que não nos tornamos amigos de imediato e que houve justamente uma espécie de ambiguidade no início, antes de percebermos que não era aquele tipo de vínculo que queríamos investir. E é porque passamos por isso que esta amizade existe e é tão forte hoje. Mas, naquela época, nunca tínhamos discutido isso completamente, e foi super interessante ver as coisas que partilhámos. Fico muito tocado com a forma como ele fala dessa amizade" Para além de restituir a confiança no outro, esta amizade entre os três rapazes veio também despertar, reconciliar e recriar a ligação a Portugal às vezes esquecida, outras vezes dolorida e marcada pela discriminação como é muitas vezes relatado pelos portugueses e descendentes de portugueses em França.  Arthur Vacher: "Portugal, para mim... houve momentos no recreio da escola em que me diziam "tu és peludo", "os teus avós são operários ou porteiros". Enfim, eu era estigmatizado. Da mesma forma, a minha homossexualidade foi estigmatizada, mas agora existe em França uma imagem mais moderna e precisa de Portugal. Mas, na verdade, o que conto no podcast é que a nossa amizade permitiu remendar tudo isso. Ou seja, a cultura portuguesa, que eu imaginava um pouco distante da cultura gay... bem, nós divertimo-nos ligando as duas coisas. Eu falava há pouco com o Adrien; explicava que o nosso terceiro amigo, Joseph, não era apenas de origem portuguesa, mas também crente, e por isso ele divertia-se a pôr Nossas Senhoras por todo o lado e fazíamos desenhos coloridos com as imagens. Ele decorava as imagens com cores vibrantes e chamativas, então elas tornavam-se quase ícones queer" Adrien Deleu Pinto: "Ainda não o fizemos muito, mas, por exemplo, guardei muitas roupas da minha avó e sempre dissemos que um dia teríamos de fazer drag. Mas justamente subvertendo alguns estereótipos portugueses, havendo essa reapropriação. No ano passado, fomos a Portugal juntos pela primeira vez, e é também uma forma de colorir esse país com a nossa amizade, de descobrir as coisas de outra forma. No caso do Arthur, a sua família ainda está bastante enraizada em Portugal. Já eu, a geração da minha mãe e dos meus tios vai lá pouco. Então, há uma necessidade de recriar isto tudo. E foi realmente a nossa amizade que reabriu esse canal." Arthur Vacher: "Eu saí do armário, contei que era homossexual à minha avó e ela parou de falar comigo durante seis meses, um ano, mais ou menos. Ela utilizou a religião para me dizer que não era bom, que não queria que o neto dela fosse assim. E, por isso, esta amizade com o Joseph e o Adrien foi uma forma de eu dizer a mim mesmo: 'Ah, então Portugal pode existir na minha forma de viver'". O podcast “Les Portugayz” está disponível em todas as plataformas streaming e é publicado mensalmente na revista "Regards".

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