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Ciência

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United States
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25 episodes
Explicit
No
Date created
2015/08/19
Latest episode
2026/04/16
Average duration
11 min.
Release period
7 days

Description

Uma vez por semana, os temas que marcam a actualidade científica são aqui descodificados.

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Moçambique: Barreira de pneus ajuda a travar erosão e assoreamento na Macaneta
2026/04/16
Uma barreira de 13.000 pneus de uma extensão, até agora, de 600 metros, ao longo da margem do rio Incomáti, tem ajudado a travar a erosão e assoreamento na Macaneta, no sul de Moçambique. A barreira de pneus começou a ser construída em 2021, tem resistido, incluindo às recentes cheias, e já foi replicada noutra região do país, contou à RFI Clausêncio Ngovene, director de programas na Cooperativa Repensar. Desde 2021 e até agora, a barreira implementada pela Cooperativa Repensar tem cerca de 13.000 pneus e uma extensão de 600 metros ao longo da margem do rio Incomáti, na Macaneta, no sul de Moçambique. Os pneus de aviões, carros e tractores são carregados de entulho para resistir à força da água, mas há pneus gigantes que precisam da força de seis a sete homens. Uma tarefa hercúlea, sem ajuda mecânica, mas que tem protegido esta zona costeira e resistido inclusivamente às recentes cheias. Os pneus ganham assim uma segunda vida e ajudam a proteger o mangal e as comunidades, travando a erosão e o assoreamento. O material provém de doações do Porto de Maputo, do Aeroporto de Maputo, mas também é recuperado nas lixeiras, nas ruas e também é dado por particulares. RFI: Como nasceu esta barreira de pneus na Macaneta? Clausêncio Ngovene, Director de programas na Cooperativa Repensar e coordenador do programa Lixo Marinho: “De forma geral, estamos na Macaneta desde 2021 a implementar um programa designado de Lixo Marinho. O programa visa combater a poluição, principalmente plástica, no meio aquático, no estuário da Macaneta e em todo o ambiente costeiro. No meio destas actividades, nós percebemos que a Macaneta sofre bastante da erosão costeira e assoreamento. No estuário do Incomáti, que é um rio que nasce na vizinha África do Sul e que desagua na Macaneta, nós temos verificado o assoreamento e erosão costeira e fluvial. No meio disto, nós tentámos várias técnicas para conter os impactos da erosão e assoreamento e fizemos várias tentativas até chegarmos a conclusão de aplicarmos os pneus.” Para quem não conhece, explique-nos o que é a erosão e o assoreamento. “Erosão é o processo de desgaste dos sedimentos, quer na zona costeira, quer também na zona fluvial, causando impactos directos no ambiente. Assoreamento também é o processo de desgaste de sedimentos, a areia. Esses sedimentos são arrastados para o interior do rio e aumentam, portanto, o caudal do mesmo rio. Assoreamento é o arrastamento dos sedimentos da areia para o interior do rio e aumenta, portanto, a sua extensão.” Como é que isso tem impacto na vida das populações costeiras? “Isto tem um impacto directo na vida das populações. Primeiro, a questão da destruição da vegetação costeira e que é uma vegetação que protege contra os ventos fortes. Temos também a questão da degradação do ecossistema do mangal, que é um ecossistema muito preponderante para a reprodução dos peixes, dos caranguejos e outros seres costeiros. Isto afecta directamente a vida da comunidade.” Vamos então aos pneus. Porquê os pneus? “Nós usamos os pneus como uma solução viável. Primeiro, nós estamos a falar de uma zona costeira onde temos sal, a água é salina. Outras técnicas que já tentámos não se mostraram eficientes. E já houve uma tentativa de aplicação de gabiões, mas também sem sucesso, por causa da salinidade da água. E porquê pneus? Porque é um material literalmente descartado, sem valor em Moçambique, que termina nas lixeiras, termina na rua, em qualquer ambiente e nós recuperamos para reutilizar, nós recuperamos para travar os impactos da erosão e assoreamento. Também o pneu é um material consistente que dura mais tempo, que não tem problema com a salinidade, resiste mais no ambiente salino.” Na prática, como é que os pneus formam então uma barreira para proteger a comunidade? E que tipo de pneus é que são? “Nós usamos vários tipos de pneus. São pneus que, na maioria, recebemos de doação do Porto de Maputo e recebemos também do Aeroporto Internacional de Maputo. São pneus também que recebemos de vários doadores singulares e pessoas que desejam trocar os pneus dos seus carros, em vez de jogar na lixeira. Nós usamos pneus também que recuperamos nas lixeiras, que estão em risco de serem queimados. Então, nós vamos lá recuperar e usamos todo o tipo de pneus. A estrutura de montagem é bem simples. Nós montamos uma estrutura à base, com pneus gigantes e depois da montagem dos pneus, nós colocamos o entulho, que são pedras, para garantir a consistência do pneu e vamos subindo em forma de escadaria. Nas últimas fiadas, nós já colocamos a vegetação, ou seja, a areia orgânica, e vamos reabastecer a vegetação. Nós usamos este conceito para também contrabalançar os possíveis impactos que os pneus possam causar naquele ambiente. Então, é uma forma de compensar, uma forma de contrabalançar. Nós estamos a restaurar as dunas, estamos a restaurar o ecossistema costeiro fluvial degradado, mas à base de pneus.” Como é o processo de montagem? Falou-me em pneus gigantes, que devem ser os pneus dos aviões. Estes são pneus muito pesados. Têm máquinas para os ajudar? “Na verdade, é um verdadeiro martírio. Este trabalho demanda muita força humana. Infelizmente, nós não temos nenhum equipamento, nenhuma máquina industrial ou uma máquina a motor. Nós usamos a força humana. Só para ter uma ideia, um pneu gigante, o mais pesado, requer no mínimo sete homens. Seis ou sete homens com força para o conseguir manusear. Então, é um trabalho muito hábil que nós temos feito. Para ter uma ideia, já conseguimos montar mais de 13.000 pneus no total.” Esses mais de 13.000 pneus estão espalhados por onde? A barreira vai de onde a onde? “Toda a barreira está no estuário do Incomáti, onde desagua o rio, Incomáti. É uma extensão de mais ou menos de 600 metros, com uma altura média de cinco metros.” Nas últimas cheias, em Janeiro, a barreira como é que resistiu? “Mostrou que é possível aplicar os pneus em qualquer ambiente para controlar, para conter a erosão. Mostrou que é possível haver uma replicabilidade deste conceito. Mostrou resistência, resiliência.” A barreira manteve-se intacta? Resistiu? “Sim, resistiu e tem resistido também às marés altas. Nós estamos num estuário, portanto depende do comportamento da maré. A maré alta vai afectar o rio e o estuário. Na maré baixa, também haverá o vazamento das águas. Então tem mostrado esta resistência fora das cheias, mas também a dinâmica de comportamento da maré.” Como é que se lembraram dos pneus? “Nós iniciámos este projeto de restauro no ano de 2021, um ano em que nós iniciamos o nosso projecto principal, designado Lixo Marinho, que visa combater a poluição, principalmente plástica. Daí nós identificámos esses problemas. Fizemos um diagnóstico ambiental detalhado, identificámos os problemas que é erosão costeira e fluvial e também o assoreamento. Fomos vendo também o histórico da região, percebemos que várias técnicas foram usadas, mas não surtiram efeito. E olhando a nossa realidade, temos assistido que vários pneus terminam nas lixeiras, terminam em ambientes inadequados, e fizemos um pequeno estudo sobre a consistência de pneus, recuperámo-los e fizemos esta barreira que mostra ser muito eficiente.” Falou-me na replicabilidade do projecto. Já há ideias para levarem este projecto para outros locais? “Coincidentemente, nós já fomos solicitados para prestar uma assessoria em Inhambane numa outra zona costeira e lá conseguimos montar e conseguimos travar. Já temos o primeiro caso de replicabilidade, que é numa das praias de Inhambane.” Há quanto tempo é que foi e está a resistir? “Está a resistir. Nós intervimos no final do ano passado, no mês de Novembro, e até agora resistiu.”
Coimbra testa limites da IA na música com máquinas que escutam emoções
2026/04/14
Na Universidade de Coimbra, uma equipa liderada por Rui Pedro Paiva está a ensinar máquinas a interpretar emoções na música. O projecto MERGE cruza inteligência artificial, áudio e linguagem natural para mapear canções num espaço emocional. Mais do que inovação tecnológica, trata-se de uma tentativa de aproximar algoritmos de algo profundamente humano: perceber o que a música “é”, antes mesmo do que nos faz sentir. Na Universidade de Coimbra, a pergunta não é nova, mas a abordagem é radicalmente contemporânea: pode uma máquina compreender emoções na música? O projecto MERGE: “reconhecimento de emoções na música de próxima geração”, responde com um cauteloso “talvez”, sustentado por ciência, dados e alguma humildade perante a complexidade humana. Coordenado por Rui Pedro Paiva, o projecto combina inteligência artificial, processamento de áudio e análise de linguagem natural para classificar automaticamente emoções nas canções. O objectivo é claro: “criar um sistema capaz de colocar cada tema num mapa emocional entre valência e intensidade”. “Essa é a ambição”, afirma o investigador. “É ambicioso justamente porque há muita ambiguidade na interpretação de emoções na música e nas emoções em geral.” Mas o ponto de partida do MERGE não é o que sentimos ao ouvir música. E essa distinção é central. “Quando falamos de emoção na música, podemos entender três níveis: a emoção expressa pelo artista, a emoção percebida pelo ouvinte e a emoção sentida. No projecto estamos focados na percepção: aquilo que a música ‘tem’ em si própria.” Entre o que a música diz e o que a música faz Essa escolha metodológica procura reduzir a variabilidade. Afinal, duas pessoas podem reagir de forma completamente distinta à mesma canção. “Com certeza”, reconhece Rui Paiva. “Mas o nosso projecto não aborda a emoção sentida pelas pessoas. Aborda um ponto mais objectivo: a emoção inerente à música.” Um exemplo simples ajuda a perceber: “Uma música com batida intensa está tipicamente associada a emoções alegres ou tensas, não a algo relaxado ou melancólico.” Ainda assim, o investigador admite: “eu posso sentir emoções diferentes em resposta a esse estímulo musical. Estão relacionadas, mas não são a mesma coisa.” O MERGE tenta, assim, encontrar um terreno comum entre a subjectividade e a estrutura. E fá-lo recorrendo a um modelo clássico da psicologia: o de James Russell. “Esse modelo propõe dois eixos: valência, que indica se a emoção é positiva ou negativa, e activação, que mede a intensidade”, explica. “Com isso, conseguimos um espaço onde identificamos quatro emoções básicas: alegria, relaxamento, tensão e melancolia.” Relação entre som e letra Um dos desafios mais interessantes do projecto está na relação entre som e letra. “Há músicas onde a melodia sugere uma coisa e a letra outra”, reconhece Rui Paiva, evocando o caso de canções dos The Beatles em que o contraste é evidente. Ainda assim, o sistema tenta lidar com essa ambiguidade. “A componente acústica capta melhor a intensidade. A componente textual ajuda a perceber se a emoção é positiva ou negativa.” E há um factor adicional: o contexto do ouvinte. “Se a pessoa não compreender a língua, vai apoiar-se mais no som. Se compreender, a letra tende a dominar.” No fundo, mesmo quando a máquina tenta ser objectiva, a experiência humana continua a infiltrar-se no processo. Um mapa emocional para o streaming O impacto potencial do MERGE vai além da investigação académica. Num tempo em que as plataformas digitais moldam o consumo musical, a possibilidade de procurar música por emoção pode alterar a relação com o som. “A música é muitas vezes chamada a linguagem da emoção”, lembra Rui Paiva. “Pesquisar por emoção, em vez de artista ou género, pode ser uma ferramenta particularmente vantajosa.” A aplicação prática já está em desenvolvimento. “Temos um protótipo que será disponibilizado online. Qualquer pessoa poderá testar, embora com limitações de direitos de autor, apenas excertos de 30 segundos.” Limites, simplificações e futuro Apesar do entusiasmo, o investigador não ignora as limitações. Reduzir emoções a dois eixos pode parecer simplista. “Sim, pode ser visto como uma simplificação excessiva”, admite. “Mas permite controlar a ambiguidade. Se usarmos centenas de categorias emocionais, o problema torna-se ainda mais complexo.” E há também limites tecnológicos. “Neste momento, modelos de linguagem conseguem cerca de 50% de sucesso neste problema, enquanto nós atingimos 80% na nossa base de dados.” A razão? Falta de dados em larga escala e a dificuldade de anotação emocional. “É um processo muito trabalhoso e inevitavelmente subjectivo.” Ainda assim, o horizonte é claro. “No momento em que existam bases de dados de grande dimensão, a inteligência artificial poderá aproximar-se mais da capacidade humana.” Até lá, o projecto MERGE permanece num intermédio entre ciência e sensibilidade, entre algoritmo e emoção. Um espaço onde, talvez, as máquinas ainda não sintam, mas começam, lentamente, a compreender.
Artemis II a caminho da Lua, não para aterrar e sim para preparar regresso em 2028
2026/04/02
A missão Artemis 2 partiu na quarta-feira rumo à Lua. Nesta viagem que deve durar 10 dias, os quatro astronautas a bordo - 3 homens e uma mulher - não vão atterrar na Lua, mas sim contorná-la de forma a recolherem informações sobre a geografia lunar.  A missão Artemis 2 partiu na quarta-feira rumo à Lua, ainda não para o regresso efectivo da humanidade a este satélite natural da Terra, mas sim para aprimorar a viagem, traçar a rota mais eficaz e preparar um possível local de estabelecimento de um módulo lunar. A bordo da Artemis 2 vão quatro astronautas, três homens e uma mulher e estes são os seres humanos que mais longe algum dia estiveram da Terra, já que passam na face oculta da Lua, percorrendo no total 800 mil quilómetros durante esta missão. Em entrevista à RFI, Hugo André Costa, director adjunto da Agência Espacial Portuguesa, explica os desafios desta missão. "Esta missão serve exactamente para preparar uma próxima alunagem do homem na Lua. Faz parte do conjunto de missões Artemis. A Artemis I que foi para testar toda a máquina, mas ainda sem humanos. A Artemis II já é uma viagem onde quatro humanos vão até até à Lua e esta sim vai testar todo o sistema de suporte de vida da nave. Vai testar também aquilo que pode ocorrer do ponto de vista de emergência durante uma missão desta natureza. E vai testar também como é que os astronautas vivem num espaço tão contíguo durante dez dias, o que é extremamente difícil e, portanto, vai ser muito útil", explicou. Nesta viagem de 10 dias haverá entre 30 a 40 minutos de silêncio, já que as comunicações ficarão cortadas com a nave quando os astronautas passarem no lado oculto da Lua. Esta é uma viagem também de exploração e de avaliação, com os astronautas a poderem observar o Pólo Sul deste satélite natural onde num futuro próximo se poderá instalar um módulo lunar. "Há muita coisa que não sabemos sobre o Pólo Sul da Lua. Nós sabemos que Pólo Sul é o local onde, à partida existe mais acesso à água e, portanto, é aí onde a NASA espera fazer uma base lunar. E mesmo a própria China já identificou esse local ideal para aterrar na Lua. E esse é um dos trabalhos dos astronautas também. A órbita que eles vão fazer vai permitir observar o Pólo Sol da Lua. Neste caso, não com sondas, mas com os olhos dos astronautas que vão observar esta área da Lua, tentando também já identificar uma zona onde podem estar em 2028, quando se espera que seja a missão para aterrar na Lua", detalhou Hugo André Costa. A esperança de chegar à Lua é um esforço comum liderado pela NASA, com o apoio da Agência Espacial Canadiana, mas também a Agência Espacial Europeia. Para esta missão, o novo módulo de suporte vida que vai permitir aos astronautas viverem com mais conforto, segurança e comodidade foi concebido na Europa, produzido por diferentes empresas europeias, montado na Alemanha e enviado depois para os Estados Unidos. Quanto à data de 2028 para voltar a ver um homem ou uma mulher a andar na Lua, Hugo André Costa tem algumas dúvidas já que o módulo que vai permitir aterrar na superfície da Lua deverá ser produzido por uma empresa privada, havendo ainda dúvidas se ficará para a Space X de Elon Musk ou Blue Origin, que pertence a Jeff Bezos. "Parece-me um pouco difícil, no entanto, não quer dizer que seja impossível. Isto porque à partida e após esta missão, certamente vai correr tudo bem. Tudo aquilo que tem a ver com a parte do segmento do espaço está perfeito. Os astronautas vão regressar e, portanto, vai correr tudo bem. Mas aquilo que é mais difícil é a aterragem na Lua. Nós temos agora os desenvolvimentos, quer por parte da SpaceX, quer por causa da Blue Origin, que serão quem fará a aterragem na Lua. E, portanto, aqui nós temos que acoplar dois sistemas o sistema da NASA e um sistema privado. Há uma corrida entre os dois actores privados para ver quem é que chega à Lua primeiro, ou, neste caso, quem vai conseguir ter a melhor opção para aterrarmos na Lua. Esperemos que consigam em 2028, que é aquilo que a NASA se propõe fazer. Mas eu acredito que tecnologicamente vai ser complicado porque temos aqui dois sistemas diferentes", concluiu Hugo André Costa.
Transplante renal abre nova esperança para doentes em Cabo Verde
2026/03/30
No dia 24 de Março, Cabo Verde realizou o seu primeiro transplante renal, numa operação que decorreu no Hospital Universitário Agostinho Neto, na cidade da Praia. A intervenção durou cerca de três horas e envolveu uma parceria com especialistas de Portugal. A equipa cabo-verdiana foi liderada pelo nefrologista Hélder Tavares, que ao microfone da RFI salientou "um passo histórico".  A equipa cabo-verdiana foi liderada pelo nefrologista Hélder Tavares, responsável pela coordenação da selecção e preparação dos pacientes. Em declarações à RFI, Hélder Tavares explicou que o caminho até ao transplante envolveu “uma luta de vários anos… começou primeiramente com a aprovação da lei, depois reunir as condições locais, técnicas e logísticas, equipamento e recursos humanos mínimos, e só então começar a procurar pacientes e dadores adequados para o procedimento”. O procedimento foi realizado com um dador vivo, como prevê a primeira fase do programa. “Apresentaram-se 13 pacientes com os respectivos dadores. Todos foram submetidos a avaliação clínica e analítica, e os restantes 12 foram excluídos por diversos motivos, como diabetes, infecção pelo vírus da hepatite B ou incompatibilidade com o receptor. Nesta primeira fase, só ficou elegível este par que foi então submetido ao transplante”, detalhou o nefrologista. O especialista sublinhou a importância médica da cirurgia para Cabo Verde: “Este é um passo histórico porque é a primeira vez que isso é feito em Cabo Verde. Conseguimos vencer algumas barreiras e mostrar que somos capazes de fazer isto, mesmo com ajuda externa. Mas a grande parte da investigação e preparação foi feita aqui.” Hélder Tavares descreveu a realização do transplante como uma experiência emotiva e gratificante: “Naturalmente, a emoção é muito grande. É uma realização pessoal e um sonho antigo. Mas esta alegria não é só minha, é de toda a equipa. Quem chefiou o processo do lado de Portugal foi o Dr. António Norton de Matos, cirurgião reformado português que nos apoiou desde o início.” Para o paciente, os benefícios são significativos. “Significa uma melhor qualidade de vida e uma melhor taxa de sobrevida. Para o sistema de saúde, representa um tratamento mais barato e mais eficaz. Um transplante é muito mais económico do que a hemodiálise”, afirmou. Quanto à autonomia do país neste tipo de cirurgia, o nefrologista esclareceu que será gradual: “Não seremos totalmente autónomos de um dia para o outro. Por enquanto, estamos a trabalhar em cooperação com Portugal até adquirirmos a competência necessária para sermos totalmente independentes. Alguns procedimentos exigem ainda tempo de treino, nomeadamente a técnica de remoção por laparoscopia.” A insuficiência renal crónica, principal causa de necessidade de transplante, está frequentemente associada a doenças como diabetes e hipertensão.  
Alterações climáticas agravam insegurança hídrica em Moçambique
2026/03/24
O acesso à água continua a estar profundamente ligado à igualdade de género - uma relação destacada esta semana, por ocasião do Dia Mundial da Água. A efeméride colocou em evidência a necessidade de integrar mulheres e raparigas no centro das soluções para a gestão dos recursos hídricos. Em Moçambique, a data serviu de ponto de partida para uma reflexão sobre os modelos de gestão da água nas bacias hidrográficas e no saneamento. O país enfrenta um cenário de insegurança hídrica, alerta Esménio Macassa, presidente da Associação Moçambicana de Recursos Hídricos e Ambientais. Qual é a importância de assinalar o Dia Mundial da Água junto das comunidades moçambicanas, nomeadamente mulheres e meninas? É um momento fundamental de reflexão sobre os modelos de gestão da água, tanto ao nível das bacias hidrográficas como do saneamento. No contexto moçambicano, esta data ganha particular relevância, tendo em conta os desafios de insegurança hídrica que o país enfrenta. Moçambique é marcado por extremos hidroclimáticos, com episódios frequentes de cheias e secas, além da existência de regiões semiáridas com escassez de água. Por isso, assinalar este dia é essencial para reforçar a necessidade de uma gestão sustentável dos recursos hídricos. Sem dúvida, trata-se de uma data de grande importância para o país. Como é a situação do acesso à água no país e de que forma evoluiu nos últimos anos? Registaram-se avanços significativos nos últimos anos, sobretudo ao nível do investimento público. O Governo tem apostado na expansão do acesso à água, quer através da rede nacional, quer por via do aproveitamento de águas subterrâneas, com a abertura de furos. Actualmente, há zonas que anteriormente não dispunham de água potável e que passaram a ter acesso graças a esses investimentos. Todos os anos são construídos novos sistemas de abastecimento, tanto com base em águas subterrâneas como na rede pública. Apesar dos progressos, persistem desafios. Ainda assim, de forma geral, a evolução é positiva, contando também com o contributo do sector privado, que tem vindo a investir no acesso a água segura para as comunidades. Quais são os principais desafios no acesso à água potável nas zonas rurais e urbanas? E que regiões enfrentam mais dificuldades? Os desafios são diversos, mas destaca-se a insuficiência de infra-estruturas hídricas, como barragens e reservatórios. A localização geográfica de Moçambique agrava esta vulnerabilidade, já que o país se encontra a jusante de cerca de nove rios internacionais, o que o expõe a cheias. Durante a época chuvosa, há abundância de água, mas, no período seco, o cenário inverte-se, com escassez. Esta situação resulta, em grande medida, da limitada capacidade de armazenamento, que impede o aproveitamento da água disponível nas épocas de maior precipitação. As autoridades têm falado na cooperação com países vizinhos para gerir cheias. Pode ser uma solução? Sim, pode ser parte da solução. Existem já vários esforços em curso para melhorar a gestão de cheias e o acesso à água potável. Um exemplo recente é a criação de um centro de comando para sistemas de aviso prévio de cheias e secas, iniciativa do Governo através da Direcção Nacional de Recursos Hídricos. No entanto, estas medidas devem ser complementadas com outras acções, sobretudo ao nível das infra-estruturas, para que os resultados sejam mais consistentes. Que outras medidas considera prioritárias? O reforço das infra-estruturas é essencial. Apesar dos avanços nos sistemas de aviso prévio e nas acções antecipadas, persistem fragilidades na capacidade de armazenamento de água. É igualmente necessário investir em diques e barreiras de protecção para mitigar o impacto das cheias. Embora já existam algumas destas infra-estruturas, a dimensão do território e a localização do país exigem um esforço adicional para dar resposta eficaz a estes fenómenos. Existem problemas frequentes de contaminação da água em Moçambique? Sim, sobretudo associados ao garimpo, à exploração mineira e às cidades mineiras. A extracção de ouro, por exemplo, tem impactos significativos em várias bacias hidrográficas. O caso de Bosi tornou-se particularmente mediático, mas há também situações preocupantes no sul do país, relacionadas com a exploração de inertes. Na bacia do Incomáti, por exemplo, este problema é evidente. De forma geral, a poluição da água ligada a estas actividades é uma realidade no país. De que forma as alterações climáticas estão a afectar a disponibilidade de água? De forma bastante acentuada. Fenómenos extremos que anteriormente tinham um período de retorno de cerca de 100 anos estão agora a ocorrer com maior frequência, em intervalos de cinco a dez anos. Isso traduz-se em eventos mais intensos e frequentes, como as cheias registadas recentemente, sobretudo no sul e em parte do norte do país. Este cenário evidencia a necessidade de reforçar a preparação e a capacidade de resposta face às alterações climáticas, tendo em conta a vulnerabilidade geográfica de Moçambique.
Activista guineense alerta para impacto ambiental da guerra no Médio Oriente
2026/03/16
A guerra no Médio Oriente pode ter consequências ambientais que ultrapassam largamente as fronteiras da região e afectar também o continente africano. O alerta é do jovem ambientalista guineense Dembo Mané Nanque, que defende que os conflitos armados contribuem para o agravamento da crise climática e podem trazer impactos duradouros para países vulneráveis como a Guiné-Bissau. Em entrevista à RFI, o activista sublinhou que as operações militares implicam o uso intensivo de aviões, navios e armamento pesado, o que resulta na libertação de substâncias poluentes para a atmosfera: “Na guerra usam-se armas, aviões e navios de grande porte que utilizam substâncias químicas que podem gerar impactos ambientais graves a nível global”. Segundo Dembo Mané Nanque, um dos factores mais preocupantes é a destruição de infra-estruturas ligadas à indústria petrolífera: “Já estão a ser atacadas refinarias e campos de produção de petróleo. O que pode libertar uma grande quantidade de dióxido de carbono e também gás metano, que são muito nocivos para a atmosfera e podem acelerar o processo de aquecimento global”. O activista lembra ainda que as explosões e bombardeamentos libertam partículas tóxicas e poeiras que permanecem na atmosfera. “Esta guerra tem um impacto muito nocivo e pode criar consequências graves para as futuras gerações”. “Quando se fala da emissão de gases com efeito de estufa, podem ser libertados num país, mas os impactos são globais”, afirmou. “África emite menos de 5% desses gases e, mesmo assim, é o continente mais vulnerável.” Entre as consequências possíveis, o ambientalista aponta o aumento das temperaturas, crises económicas, escassez alimentar e migrações provocadas por alterações climáticas. No caso específico da Guiné-Bissau, Dembo Mané Nanque alerta para riscos na agricultura e nos recursos marinhos, sectores essenciais para a economia e alimentação do país. “O meu país pode vir a ter problemas na agricultura, com alterações nos regimes de chuva. Isso pode afectar a produção de arroz e de outros alimentos básicos”, afirmou. O activista recorda que a dieta alimentar guineense depende fortemente da agricultura e da pesca. Por isso, os impactos ambientais do conflito podem também atingir os ecossistemas marinhos. “Alguns navios de grande porte já foram atacados. Ao serem atingidos, libertam substâncias químicas que podem alterar o ciclo dos oceanos e afectar os ecossistemas marinhos”. E segundo o ambientalista, essa contaminação pode acabar por entrar na cadeia alimentar. Dembo Mané Nanque considera que existe uma contradição entre os compromissos assumidos pelos líderes mundiais na luta contra as alterações climáticas e os conflitos armados. Para o activista, a guerra “não traz benefícios para a comunidade e não faz nada para garantir a sustentabilidade”. Questionado sobre o papel dos líderes africanos, Dembo Mané Nanque defende que a prioridade deve passar por reforçar as medidas de mitigação e adaptação climática, bem como investir na formação das novas gerações. “A África tem grandes florestas que desempenham um papel importante na retenção de carbono”, afirmou. “Mas os líderes africanos também devem investir na formação dos jovens e dotá-los de ferramentas tecnológicas para enfrentar os desafios climáticos.” Na sua opinião, o continente precisa de mais quadros qualificados para responder aos desafios ambientais.
"As mulheres estão na linha da frente da conservação da natureza"
2026/03/03
As mulheres representam actualmente 30% dos profissionais de conservação da natureza, mas a sua acção em defesa do meio ambiente é quotidiana e presente em todas as suas vertentes. Em entrevista à RFI, Erica Tavares, co-Fundadora e coordenadora técnica da associação Eco Angola, fala das dificuldades de se afirmar num meio ainda bastante masculino, mas também que as mulheres têm de criar o seu lugar neste combate por um Mundo melhor. As mulheres têm um papel essencial na conservação da natureza, como educadoras e chefes da casa, mas também cada vez mais dentro de organizações ambientais, com a WWF a ter estimado em 2020 que 30% das pessoas que trabalham neste sector são mulheres. No entanto, apenas 23% assumem lugares de liderança e só 17% ocupam lugares governamentais ligados ao ambiente, o que mostra as desigualdades ainda existentes. Erica Tavares, co-Fundadora e coordenadora técnica da associação Eco Angola, considera que as mulheres têm um papel cada vez mais preponderante na conservação ambiental já que sentem também os impactos imediatos das alterações climáticas e da destruição causada pelo homem nos ecossistemas. "A nível global, há uma tendência, um movimento muito grande das mulheres estarem na linha da frente e por vários motivos. Quando olhamos a nível comunitário, as mulheres são são responsáveis pela água, pela alimentação, pela recolha de madeira para cozinhar, pela energia doméstica E, portanto, são elas que sentem em primeira mão muitos dos impactos das alterações climáticas, os impactos da desflorestação e por isso, têm estado aqui numa luta maior para poderem conservar os recursos naturais. Então eu sinto que cresce o número de mulheres na ciência, no activismo, em gestão ambiental, em trabalho comunitário. Portanto, acho que as mulheres são guardiãs da natureza, do nosso planeta e da vida", explicou Erica Tavares. A organização nao-governamental Eco Angola desenvolve programas dedicados às mulheres, estando actualmente a levar a cabo um programa de incentivo ao empreendedorismo sustentável em que as mulheres estão também a tomar a dianteira financeiramente. "Temos o sector, por exemplo, agrícola com a criação de melhores práticas na agricultura. Também há aqui muita agricultura familiar, também liderado pelas mulheres em Angola. Até no setor de reflorestação estamos a tentar apoiar negócios de promoção, por exemplo, de viveiros de espécies nativas. Depois, há muitos outros pequenos negócios que podem vir dos subprodutos da transformação dos alimentos em compotas, coisas que muitas vezes são as mulheres que fazem em casa. A ideia é transformar isto num negócio e num negócio rentável", detalhou. Para Erica Tavares, as mulheres em geral não devem ficar à espera de que lhes sejam atribuídas responsabilidades em qualquer sector, incluindo na protecção ambiental, mas sim tomar a iniciativa. "O conselho principal é apoiarmo-nos, apoiarmos as mulheres, darmos espaço. Isto é, de forma geral, um género de conselho institucional. Mas o conselho para as mulheres é não esperar que nos dêem um espaço. Se não há espaço, temos que criar. Então eu acho que os dois complementam-se um ao outro. Quando há espaço, ocuparmos estes lugares, não termos medo, termos coragem. Há muita coisa que é nova. As pessoas olham para nós com mais e mais expectativas e sentimos que temos sempre de corresponder. Mas não, não temos de ter medo disso. Acho que nós temos capacidade para liderar, para sermos mães e conseguirmos ter vidas completas. E certamente podermos trazer o nosso melhor ao mundo", concluiu a activista.
Conflito no Médio Oriente: "Há uma clara indicação que o Irão quer ter armas nucleares"
2026/03/03
O enriquecimento de uranio a 60% é um facto comprovado no Irao, mas os bombardeamentos norte-americanos e israelitas ameaçam as instalaçoes nucleares no pais, assim como na regiao, agravando o risco deste conflito. O programa nuclear do Irão foi apresentado como o principal motivo para os ataques norte-americanos e israelitas contra o país desde sábado, que resultaram, até agora, na morte do Ayatollah Ali Khamenei, assim como dezenas de dirigentes iranianos. Em Junho do ano passado, os Estados Unidos já tinham bombardeado o Irão, atingindo três centrais nucleares. Em entrevista à RFI, Rui Curado da Silva, Investigador principal no laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas da Universidade de Coimbra, em Portugal, explica que ao contrário do que aconteceu no Iraque, há provas imparciais que o Irão detém centenas de quilos de urânio enriquecido numa percentagem que indica a intenção de produzir armas de destruição maciça. "No Irão temos a inspecção da Agência Internacional de Energia Atómica, não são os Estados Unidos ou outro país que esta a dizer que eles tem urânio enriquecido. É a Agência Internacional de Energia Atómica que esteve no terreno. Portanto, não há dúvida nenhuma que eles têm centenas de quilos de urânio com mais de 60% de enriquecimento. E esse nível de enriquecimento não é necessário para as centrais nucleares: Para produzir electricidade, bastam 5%. Ja para produzir armas nucleares é necessário 90%. Portanto, aqui há uma clara indicação que o Irão quer ter armas nucleares", explicou o investigador. O perigo agora, perante bombardeamentos cerrados em várias cidades no Irão, é atingir uma das centrais nucleares onde há este urânio enriquecido e, assim, espalhar este composto altamente perigoso. "Há vários tipos de perigo. Eu vou destacar os dois extremos. Imaginemos que os Estados Unidos acertam no sítio onde eles têm centenas de quilos de urânio enriquecido naquele nível. O que vai acontecer é que o urânio vai ser projetado a dezenas, centenas de metros, alguns quilómetros no máximo, e vai contaminar essa zona toda. Depois as pessoas não podem andar naquela zona, porque aquilo é perigoso. Existe uma central nuclear ali naquela zona que eles agora andam a bombardear no Irão. Existe outra, no outro lado do Golfo, que tem quatro reactores, que é uma central nuclear dos Emirados Árabes Unidos, e depois os dois porta-aviões americanos que lá estão e são movidos a energia nuclear. Têm dois reactores nucleares. Portanto, se houver algum ataque a um desses reactores a funcionar, o caso é muito mais grave, porque há muito material ativo, muito material utilizado, que é muito perigoso, que pode incendiar-se facilmente e emitir isótopos de urânio e material contaminado para a atmosfera a distâncias de 1000 quilómetros ou 2000 quilómetros", explicou Rui Curado da Silva. Um acidente deste género seria similar ao que se passou em Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, que terá causado até agora 4 mil mortos devido à exposição à radiação. De forma a evitar conflitos baseados na posse e produção de armas nucleares, Rui Curado da Silva defende uma acção mais alargada e eficaz da Agência Internacional de Energia Atómica. Este cientista integra o grupo Union of Concerned Scientists, ou União dos Cientistas Preocupados, que defende que, face ao conhecimento que existe hoje da energia atómica, a regulação internacional devia mudar. "Isto deveria passar por uma partilha de responsabilidades similar ao que já existe na União Europeia, onde são definidas regras para quando os países não cumprem os acordos. Existem consequências. E neste momento, os países que fazem parte da Agência Internacional de Energia Atómica têm consequências muito limitadas", concluiu o cientista.
"As aves são Indicadores do bom estado de conservação dos ecossistemas"
2026/02/20
A Guiné-Bissau efectuou em finais de Janeiro a contagem mundial 2026 das aves aquáticas migradoras, uma das maiores operações a nível internacional para a monitorização da biodiversidade. Esta contagem que decorreu em simultâneo em vários países inseridos nas rotas migratórias, foi realizada na Guiné-Bissau pelo IBAP, Instituto de Biodiversidade e das Áreas Protegidas, em parceria com outras entidades. Durante uma semana, oito equipas envolvendo um total de mais de 40 técnicos efectuaram essa contagem ao longo do litoral norte, centro e sul do país, bem como no arquipélago dos Bijagós que -lembramos- desde o passado mês de Julho alcançou o estatuto de Património Mundial Natural da UNESCO. António Pires, coordenador da Reserva da Biosfera dos Bijagós, esteve envolvido nesta contagem e explicitou a importância que tem designadamente para medir o estado de conservação em que se encontra determinado ecossistema. RFI: Antes de falarmos da contagem propriamente dita, onde decorreu e de que aves estamos a falar? António Pires: Estamos a falar de aves migradoras que procuram o arquipélago de Bolama-Bijagós durante o período do inverno europeu e em 2025 efectuamos a contagem mundial do arquipélago de Bolama-Bijagós e também na zona costeira da Guiné-Bissau. No arquipélago, temos três grandes zonas de contagem, devido à sua dimensão que cobre a parte de Bubaque-Soga, depois temos a parte de Formosa, mais para o norte do arquipélago, e depois a parte de Orango até mais a oeste do arquipélago. É efectuada assim a contagem do nosso espaço geográfico. Em termos da zona costeira, são efectuadas a partir do Parque Nacional Natural do Rio Cacheu até ao Parque Nacional de Cantanhez, que é a mais a sul da Guiné-Bissau. RFI: Estamos a falar que tipo de aves é que nós encontramos? António Pires: Principalmente das espécies de limícolas (aves que vivem nas praias e mangais). Fundamentalmente limícolas, que efectuam grandes migrações para o sul. Mas também encontramos as outras espécies de aves de médio e grande porte, como as garças, os mergulhões, etc, etc. Mas o alvo da contagem reside fundamentalmente nas limícolas, que empreendem grandes migrações a partir da zona de reprodução mais a norte da Europa, mais ou menos na zona da Sibéria, que ali nidificam e procuram o arquipélago Bijagós para a alimentação durante o período do inverno. RFI: Para nós termos um pouco a noção, quando elas migram de África rumo à Europa, para onde é que vão estas aves? António Pires: Existem vários pontos de paragem. Também irá depender da capacidade de cada grupo de aves para efectuar a migração de África para a Europa. Nesse caso há dois grandes sítios de grande concentração das aves nesse corredor de migração que é o arquipélago Bolama-Bijagós, ou também na Mauritânia, que é o Banco de Argan e há uma parte da população que também faz uma paragem na Europa. Parte dessa população fica na zona mais ocidental, em Lisboa, depois no Mar de Wadden (nos Países Baixos) e dali, depois, procuram o norte da Europa, que é a Sibéria para a reprodução. RFI: Desde quando é que efectuam essa contagem anual? António Pires: A Guiné-Bissau tem vindo a efectuar essa contagem há mais de dez anos, se não estou em erro. Isso foi fruto de um acordo trilateral no início entre a Dinamarca, a Alemanha e a Holanda, onde foi estabelecida uma equipa nacional para a monitorização dos sítios importantes das limícolas nos Bijagós. Depois disso, veio a desenvolver-se até à data presente. Desde 1997, mais ou menos, até esta data, temos vindo a contar regularmente as aves limícolas, também com o apoio de equipas portuguesas, de equipas holandesas, de equipas alemãs que contribuem junto com a equipa da Guiné-Bissau nas contagens ao longo desse período, mais ou menos de dez anos, se não estou em erro. RFI: Qual é a importância de estarmos todos os anos a efectuar essa contagem? António Pires: Bom, uma das importâncias da contagem mundial é para sabermos o efectivo da população que migra do norte ao sul ou do sul ao norte. Isso é a primeira questão. A outra segunda questão é o estado de conservação do espaço e também da disponibilidade do alimento que esses sítios oferecem. Porque as aves são Indicadores do bom estado de conservação dos ecossistemas. E outro aspecto também, ajuda de forma não directa, mediante estudos, a determinar a contaminação do sítio da contagem, por serem indicadores de metais pesados, mas isso numa esfera um bocadinho mais avançada, onde são efectuados estudos específicos nesse sentido. RFI: Durante uma semana, umas quantas equipas andaram tanto nos Bijagós como também na zona costeira da Guiné-Bissau para contar e ver as condições em que se encontram essas aves migradoras, O que é que andaram concretamente a fazer durante essa semana? Quais foram os critérios que aplicaram nas vossas buscas? António Pires: A equipa da Guiné-Bissau está constituída por oito grupos, no total de 46 pessoas. Nessas contagens procura-se saber o número de cada indivíduo. Procura-se também saber o estado do habitat onde eles se alimentam. Também são identificadas as ameaças associadas aos habitats e também as ameaças relacionadas com a presença das espécies no sítio. Mas também há factores que são recolhidos: factores do tempo, da maré, da incidência do sol, à pressão atmosférica. Há vários factores que são tomados em consideração durante o processo da contagem. O habitat até está em bom estado de conservação. A característica do sedimento, a vegetação que está à volta da área de contagem. Porque, por exemplo, nos Bijagós já temos um ecossistema de mangal que também é uma zona muito importante, onde a população humana dedica-se, fundamentalmente as mulheres, à recolha dos moluscos e durante a maré baixa utilizam este espaço para recolha desses moluscos. Então, existe mais ou menos uma relação entre a ave e as pessoas que utilizam o espaço durante a maré baixa. RFI: Nestes dez anos em que andaram a contar as aves migradoras, notaram alguma evolução? António Pires: Em termos do efectivo da população que procura o arquipélago, a zona costeira da Guiné-Bissau, não existe a diminuição do efectivo fruto de uma acção humana. Por exemplo, as flutuações da população dependem muito da disponibilidade do alimento ou da procura de novos sítios por essas espécies. Então, existe uma mobilidade à volta da zona costeira e do arquipélago Bolama-Bijagós. Mas pela disponibilidade do alimento, por exemplo, o arquipélago Bolama-Bijagós é muito influenciado pela dinâmica marinha e costeira. Então, isso faz com que os nutrientes estejam sempre à deriva de um lado a outro e depois é depositado num sítio específico ou num habitat específico durante a maré cheia e a maré baixa. Esses alimentos estão distribuídos dentro do espaço e as aves procuram nichos específicos para a alimentação. Mas não existe uma diminuição da espécie, de forma que a intervenção de uma outra actividade seja a excepção. Mas os habitats ou os sítios onde contamos, não existe uma diferença muito significativa. Também poderá ser em função da percepção da contagem dos factores também que interferem durante a contagem, por exemplo, a visibilidade, a distância que é contada. Isso interfere nos valores, mas não é significativo. RFI: Quais são os desafios, os problemas, os obstáculos que eventualmente estas aves encontram? Falou muito da questão de encontrar alimentos. Há outras problemáticas que enfrentam essas aves migradoras? António Pires: É mais associado ao habitat. Temos, por exemplo, o que é notório, a questão do lixo. Esse é um problema não só da Guiné-Bissau. Temos estado a constatar a presença do lixo que é trazido pelas correntes. Como sabe, a Guiné-Bissau está banhada por duas correntes, quer o mar do Golfo da Guiné e também a corrente fria que vem até à Guiné-Bissau. Então estas duas correntes, com a influência oceânica, trazem lixos para o interior do arquipélago. Mas não só, também dos lixos são produzidos nas grandes cidades e também a nível do arquipélago Bolama-Bijagós. Depois, com a chuva, parte desse lixo vai parar aos sítios de contagem e isso interfere um bocadinho nessa dinâmica da disponibilidade do habitat. O outro desafio é a necessidade da capacitação dos nossos técnicos para continuarmos nessa dinâmica internacional ligada ao Freeway, que é um corredor de migração das aves, fundamentalmente que ocorre desde a Sibéria, a parte da Europa, o banco de Argan e o arquipélago. RFI: Qual é o balanço que faz da contagem que efectuaram há alguns dias agora? António Pires: Eu considero que a contagem foi um sucesso. Os meios logísticos postos à disposição são consideráveis desde os recursos humanos, desde as embarcações, o combustível, o custo das deslocações, etc, etc. Isso fez com que a contagem fosse positiva. O outro aspecto é o nível de novas pessoas que foram incorporadas dentro dessa estrutura de contagem, porque é um trabalho que requer muito conhecimento, muita técnica e também muito trabalho de campo, anos de trabalho de campo que nos permitam identificar com certeza e dizer que é uma determinada espécie ou não. Na Guiné-Bissau, por tradição, temos estado nesse esforço, como referi anteriormente, há mais de dez anos. E bom, as dificuldades continuam a existir do ponto de vista da logística, porque estes meios também são implicados nas outras actividades. Depois é que são solicitados para a contagem mundial, por ser uma necessidade muito importante para o país. RFI: Quais são os desafios que encontram na conservação dessa biodiversidade? António Pires: Os desafios são vários. Temos o desafio desde o ponto de vista do aumento da populaç
Portugal: "Tempestades desta natureza vão continuar a acontecer"
2026/02/17
Portugal está há mais de duas semanas sob um verdadeiro comboio de tempestades, responsável por pelo menos 16 mortos. As sucessivas depressões levaram à declaração de situação de calamidade em vários municípios, provocaram cortes de energia em milhares de habitações, isolaram populações e causaram inundações generalizadas. O presidente da associação ZERO, Francisco Ferreira, reconhece que nenhum país está preparado para fenómenos desta natureza e alerta para a urgência de repensar as políticas de ordenamento do território em Portugal. Portugal está há mais de duas semanas sobre um verdadeiro comboio de tempestades, responsáveis pela morte de pelo -16 pessoas. A que sez devem estes fenómenos climáticos e serão mais frequentes no futuro?  Há uma circunstância particular que levou a estes comboios de tempestades a passarem sucessivamente por Portugal. O Anticiclone dos Açores encontra-se mais a sul do que é habitual e, por isso, um conjunto de frentes e depressões tem atravessado o território português, quando normalmente passam mais a norte. Isto também pode estar relacionado com a temperatura, devido ao aquecimento global: o Polo Norte está a aquecer mais rapidamente do que o Equador, e essa divisão entre a zona mais fria e o anticiclone dos Açores, essa diferença de temperaturas e essa barreira que habitualmente existe, já não está a funcionar tão bem. Assim, a zona mais fria, ou essa “barreira”, acaba por descer mais para sul. Vindo mais para sul, o anticiclone dos Açores também se posiciona mais a sul e, consequentemente, Portugal é apanhado por essas tempestades que habitualmente atingem mais o Reino Unido e a França, e não tanto estas latitudes mais baixas de Portugal e Espanha, durante o inverno. As sucessivas tempestades levaram à declaração de calamidade em vários municípios, provocaram cortes de energia a milhares de pessoas, isolaram populações e causaram inundações generalizadas, um verdadeiro cenário de destruição. O país não está preparado para este tipo de fenómenos? Não. Note-se que nenhum país está absolutamente preparado para este tipo de fenómenos, porque as infraestruturas são sempre dimensionadas para determinada velocidade do vento e para determinada precipitação, eventualmente para um ou outro pico, e não para uma continuidade tão intensa. Outra característica que também se verificou é que estas tempestades se moveram mais lentamente e, portanto, o vento, que chegou a atingir mais de 200 quilómetros por hora nalguns locais onde foi medido, foi relativamente persistente ao longo de meia hora ou mesmo uma hora. Assim, o grau de destruição foi muito mais elevado, incluindo em várias florestas e, principalmente, em cidades, com deslizamentos de terra, quer em zonas urbanas, quer sobretudo em zonas rurais. As consequências foram, portanto, muito grandes. E irão continuar a acontecer. O que é que tem falhado nas políticas governamentais, nomeadamente de ordenamento do território? Em primeiro lugar, quando implementámos muitas destas infraestruturas, não as dimensionámos para estes eventos. Não nos preparámos para eles porque achávamos que não iriam acontecer, ou melhor, que a probabilidade de acontecerem era extremamente reduzida. Já percebemos que não é assim, porque temos um clima realmente em mudança. E esse é, eu diria, o principal factor de aprendizagem. Depois do que aconteceu, percebemos que temos de nos adaptar a um clima em mudança e, portanto, não vale a pena continuarmos a cometer os mesmos erros, ocupando zonas de arribas quando os deslizamentos de terra são cada vez mais óbvios e frequentes. Determinadas estruturas, como estradas, não estão no local certo ou não têm o tipo de construção adequado para resistirem aos movimentos de terras que ocorreram com tanta chuva. Para além disso, tivemos incêndios que levaram a uma maior erosão. As águas que correm são completamente barrentas e um recurso tão importante como o solo está a esvair-se muito mais do que devia em direcção aos oceanos. É normal termos cheias. É até importante termos grandes caudais em alguns rios e em determinados troços, porque também alimentam as praias e contribuem para a produtividade costeira. Mas aqui exagerámos, à custa da colocação de edifícios e de outras estruturas em locais vulneráveis. Temos também práticas agrícolas e florestais que aumentaram muito a vulnerabilidade do território. A floresta também foi fustigada. Que lições é que devemos tirar desta situação relativamente às espécies que estão plantadas na nossa floresta? As espécies autóctones também sofreram, mas o que é facto é que, em muitos locais, foram as monoculturas, ou seja, as plantações -quer de eucalipto quer de pinheiro -que foram pura e simplesmente derrubadas ou ficaram todas inclinadas. Portanto, temos de aprender que não podemos ter estas plantações a funcionar como uma barreira tão compacta perante o vento. Precisamos de diversificar as espécies, conciliando as autóctones com aquelas que também dão algum rendimento às populações, mesmo sendo espécies exóticas, como é o caso do eucalipto. Ou seja, no terreno, uma massa contínua de árvores já percebemos que não é solução, nem para os incêndios nem para ocorrências de vento muito forte como estas. Quais é que são as prioridades neste momento? Eu diria que há prioridades de muito curto prazo, que passam por mobilizar muitos, provavelmente alguns milhares de milhões, para lidar com os danos, quer em zonas urbanas quer em zonas rurais, consolidar terrenos e reparar muitas das construções afectadas. A rede eléctrica também foi fortemente atingida. Foram várias centenas de postes de média e alta tensão que sofreram danos. Agora, o mais importante é que, nesta reparação que vamos fazer, tenhamos em conta que este é o novo normal em que estamos a viver e que não vale a pena repetir os mesmos erros do passado. É uma conversa difícil e complicada, porque há zonas onde as pessoas tiveram inundações nas suas casas, como é o caso de Alcácer do Sal, junto ao rio Sado. Isso é algo que poderá voltar a acontecer. Portanto, se calhar temos mesmo de repensar como deve ser feita a ocupação deste tipo de zonas. Repensar a política de ordenamento do território? Sim. E, por isso, em termos de adaptação climática, note-se que todos os municípios deveriam já ter planos de acção neste domínio, bem como uma articulação à escala regional. É fundamental ter essa visão para não estarmos a fazer mais do mesmo e depois voltarmos a ter o mesmo tipo de prejuízo. Todos os investimentos que agora fizermos -desde enterrar algumas linhas eléctricas, em vez de manter linhas aéreas, até ao tipo de construção que continuamos muitas vezes a fazer em locais errados -são decisivos. Tudo isso exige um olhar já numa perspectiva de médio e longo prazo, para que, numa próxima situação, os prejuízos não sejam tão elevados. Tempestades desta natureza vão continuar a acontecer.
Moçambique desenvolve ferramenta para medir impacto do desenvolvimento sobre protecção dos elefantes
2026/02/09
A Biofund, Fundação para a Conservação da Biodiversidade de Moçambique, anunciou na semana passada a realização, no passado dia 29 de Janeiro, de um 'workshop' de validação da métrica para a preservação do Elefante Africano em Moçambique, uma espécie considerada "em perigo". Esta iniciativa liderada pelo programa COMBO+ que resulta de uma parceria entre a Wildlife Conservation Society (WCS), a Biofund e o Ministério moçambicano da Agricultura, Ambiente e Pescas, visa dotar as autoridades moçambicanas de uma ferramenta -a métrica- quantificando os prejuízos causados pela actividade humana no meio ambiente e compensar essa perda. Esta que é quinta métrica a ser desenvolvida no âmbito desse programa, a seguir às métricas implementadas para recifes de coral, florestas, mangais e ervas marinhas está a ser desenvolvida numa altura em que o país envida esforços para conciliar o desenvolvimento económico com a preservação da biodiversidade, neste caso, do elefante africano, uma "espécie prioritária para a conservação" considerada "em perigo" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Segundo dados oficiais, o país tem cerca de dez mil elefantes que, para além dos caçadores furtivos, têm que enfrentar outros entraves à sua sobrevivência, como a extensão da actividade agrícola ou o impacto dos megaprojectos no país. Em entrevista concedida à RFI, Vanda Machava, gestora do Programa de Contrabalanços e Biodiversidade no seio da Biofund, explica-nos no que consiste a métrica aplicada à protecção da natureza, começando por evocar o contexto em que surge esta ferramenta. RFI: No que consiste a métrica e em que contexto ela surge? Vanda Machava: Moçambique é um país bastante rico no que concerne aos recursos naturais, à biodiversidade. Temos áreas de conservação, temos reservas. Cerca de 26% do território nacional faz parte da rede Nacional das Áreas de Conservação. Em Moçambique, é dentro deste património natural, que o elefante africano é uma das espécies prioritárias para conservação, tanto a nível nacional, até mesmo a nível internacional. Mas temos verificado nas últimas décadas que esta espécie emblemática tem sofrido uma grande pressão no que diz respeito a ameaças e temos verificado mais e mais que uma das ameaças mais frequentes tem sido a caça furtiva ou então a perda da vegetação devido à prática da agricultura por parte das comunidades locais e até mesmo alguns megaprojectos que mais e mais estão a ser evidentes aqui em Moçambique, como por exemplo a mineração, a construção de grandes infra-estruturas, assentamentos humanos. São projectos que nós chamamos de projectos de desenvolvimento, contribuem para o desenvolvimento económico do país, mas vão acabar por comprometer a biodiversidade. RFI: Só para nós sabermos qual é o habitat natural do elefante em Moçambique? Em que zonas é que ele fica? Vanda Machava: As zonas onde o elefante africano ocorre são zonas protegidas, então fazem parte da rede nacional das Áreas de Conservação. Contudo, o elefante africano não fica fixo, não fica parado, movimenta-se, migra através dos corredores de migração. Então, por isso mesmo é que acaba criando um bocadinho de conflito com as comunidades locais, porque às vezes as comunidades podem decidir fazer agricultura nos corredores de migração, nos locais que os elefantes acabam percorrendo. Então aqui já existe este conflito. Por exemplo, nas áreas de conservação, bem perto, ao redor das áreas de conservação, as comunidades fazem agricultura e às vezes os elefantes passam por estes locais. E aí há choques. Então tem que sempre tentar-se identificar medidas para evitar que haja esses choques. Então, uma das formas que nós identificamos ao nível nacional foi o desenvolvimento de métricas. No que consistem estas métricas? Métrica é uma forma que foi identificada para poder se minimizar ou reduzir o impacto ou a pressão sobre a biodiversidade. Neste caso, podem ser plantas. As métricas podem ser aplicadas também à ecossistemas como mangais, recifes de corais, ervas marinhas e até mesmo também na fauna -neste caso- o elefante africano. O que acontece? Temos verificado mais e mais que vários projectos estão a ser implementados em Moçambique. E estes megaprojectos de mineração, por exemplo, ou então exploração de petróleo e gás e por aí fora, podem vir a afectar áreas ou ecossistemas onde ocorre o elefante africano. De forma a tentar minimizar este impacto sobre esta espécie, foram desenvolvidas métricas que vão ajudar a fazer o cálculo ou a compensação. 'O projeto X afectou negativamente na população de elefante', como é que nós podemos compensar esta perda? Então, a métrica vai permitir quantificar quantos animais, por exemplo, foram perdidos na área onde está a ser desenvolvido o projecto. E depois, vai poder quantificar quantos animais devem ser povoados numa outra área. Neste caso, chamamos de área de contrabalanço ou projecto de contrabalanço de diversidade, para estes animais poderem-se multiplicar. Então, esta métrica faz parte de um pacote a nível nacional que nós chamamos de contrabalanço de biodiversidade, que são medidas de compensação que foram identificadas para compensar as perdas ou os danos que os projectos de desenvolvimento causam na biodiversidade. Ao fim do dia, o que todos nós queremos é que haja desenvolvimento do nosso país, desenvolvimento económico, mas também tem que estar em harmonia ou em sincronia com a conservação da biodiversidade. Então, de forma resumida, a métrica vai ajudar a quantificar o que se perdeu. E depois do que se perdeu, quanto pode ser ganho na área, neste caso, de contrabalanço de biodiversidade. RFI: Desde quando é que este sistema está a ser implementado? Vanda Machava: Vamos talvez fazer um bocadinho de contextualização do programa. COMBO+ é um programa maior que começou a ser desenvolvido em 2016/2017 ao nível de diferentes países. Então, desde 2016/2017 e até agora está a ser implementado. COMBO+ significa conservação, mitigação de impactos e contrabalanço de diversidade. O objectivo deste programa internacional é exactamente garantir que haja esta harmonia, o balanço entre o desenvolvimento económico e a conservação da biodiversidade. Está a ser implementado em diferentes países, ao nível de África, em Moçambique, Madagáscar, Uganda e Guiné. Ao nível da Ásia está a ser implementado no Laos e no Myanmar. Envolve muitos treinamentos, envolve muitas trocas de experiências entre os países. Levamos Moçambique para Madagáscar, para podermos aprender e trocar experiências, trocar impressões. Isto envolve um conceito maior que nós chamamos de hierarquia de mitigação. São um conjunto de passos que devem ser implementados pelos megaprojectos de forma a reduzir ao máximo o impacto no meio ambiente. Então, voltando a falar de Moçambique em particular, as métricas começaram a ser desenvolvidas já desde 2020/2021, em Moçambique. Nós já desenvolvemos métricas para quantificar perdas e ganhos nos recifes de corais, no mangal, na floresta, nas ervas marinhas e agora estamos a desenvolver a quinta métrica que é a do elefante africano. Então, essas métricas vão ser implementadas pelos proponentes de projectos que vão causar impactos negativos ou sobre recifes de corais, ou então sobre ervas marinhas, ou então sobre o mangal, ou então sobre a população de elefante africano. RFI: Concretamente, depois de desenvolverem essa métrica, como é que isto vai ser implementado? Há de facto espaço em Moçambique para depois utilizar essas métricas? Vanda Machava: O que está por detrás do desenvolvimento deste conjunto de métricas ou ferramentas, está directamente relacionado com o impacto negativo sobre a biodiversidade, o impacto negativo que vai ser provocado pelos grandes projectos ou pelas grandes empresas que vão criar impactos residuais significativos no ambiente. Então, esta é uma medida que foi identificada para compensar essas perdas. Isto vai permitir que as empresas ou os grandes projectos vão continuar a ser implementados em Moçambique. Contudo, tem que se ter em conta que eles devem fazer alguma coisa pela natureza, alguma coisa pela conservação da biodiversidade. Aí é que entra a métrica para responder a isto. E isto não está a ser feito do nada, consta na legislação moçambicana. É um requisito legal. Tanto que foi publicado em 2022 um diploma ministerial de contrabalanço de biodiversidade, que obriga a empresas ou actividades que são classificadas pelo Ministério da Agricultura e Pescas como sendo da categoria A ou A+, que causam impactos negativos residuais, a implementar projectos de contrabalanços. RFI: Concretamente, empresas como a Total em Cabo Delgado ou empresas de exploração florestal, por exemplo, poderão também utilizar esse sistema de métrica? Vanda Machava: Sim, exactamente. Estas grandes empresas que chamamos de megaprojectos como a Total (hidrocarbonetos) ou a Kenmare (mineração), várias empresas chinesas, os sectores que nós estamos a prever é a mineração, construção de grandes infra-estruturas. Podemos talvez adicionar um ponto: Moçambique encontra-se a desenvolver o primeiro plano de gestão de contrabalanço de Biodiversidade e vai ser implementado pela empresa mineradora Kenmare que opera a nível de Nampula. Eles estão a contar com o apoio da Biofund e também da WCS (Wildlife Conservation society) nestes primeiros passos, porque é um plano de gestão de contrabalanço de diversidade que é pioneiro. RFI: Será que é suficiente simplesmente repor o que se perdeu? Estou a pensar, por exemplo, num caso concreto, em que se destroem florestas, depois as empresas fazem aquilo que se chama o "greenwashing". Vão plantar novamente árvores, não forç
Teatro promove informação e prevenção de doenças transmitidas por animais em Massingir
2026/02/03
O teatro está a ser usado em Massingir, na província de Gaza, para alertar as populações para as doenças transmitidas pelos animais como a raiva ou a tuberculose bovina. São apresentações construídas com a população, utilizando a linguagem corrente para falar sobre estes temas e onde os investigadores advogam também pela melhoria das condições de vida dos habitantes à volta do Parque Natural do Limpopo. Em Moçambique, um projecto levado a cabo por cientistas sociais está a ir às comunidades em risco de contrair doenças zoonóticas, ou seja doenças passadas pelos animais domésticos ou selvagens ao homem, de forma a alertar, prevenir e informar as populações. Este projecto visa avaliar o que os habitante sabem sobre estas maleitas e, a partir daí, com o vocabulário próprio das comunidades criar uma peça de teatro não só que alerte para os perigos dessas interacções, mas também que fale sobre sintomas e descontrua mitos ou crenças à volta de doenças ainda bastante prevalentes como a raiva ou a tuberculose bovina. O sociólogo moçambicano, Carlos Cuinhane, tem levado a cabo este projecto no distrito de Massingir, na província de Gaza, nas comunidades limítrofes do Parque Natural do Limpopo, e explica como estas representações teatrais podem ser mais eficazes do que panfletos ou cartazes, dando um papel activo às populações no combate a estas doenças. "Chegámos à conclusão de que, efectivamente, todos os processos de comunicação que eram feitos eram baseados no processo tradicional, nomeadamente panfletos, com a tradução de inglês para português e língua local. Entendemos que face ao historial de Moçambique, em particular e da região havia esta informação, mas em termos de impacto, as práticas sociais de risco continuavam a serem comuns nas comunidades. E perguntamos para nós será que reproduzir o mesmo modelo valia a pena? Chegamos à conclusão de que não. Em outras comunidades, havia uma tentativa de envolvimento das próprias comunidades. Mas, mais importante ainda é a ideia em que chegamos à conclusão de que todas as práticas que eram desenvolvidas nesse sentido da produção de comunicação eram baseadas na perspectiva 'top down', ou seja, os cientistas faziam a investigação, chegavam as suas conclusões, definiam o que era a comunicação e depois enviavam à comunidade. E nós entendemos que, como uma inovação, podíamos fazer duas coisas. A primeira era basear se exatamente a informação de comunicação naquilo que a própria comunidade diz ser o problema e identificar a forma como eles gostariam que comunicassem. O segundo momento foi de que seria ideal usar o teatro exactamente baseado na ideia de que são eles próprios na comunidade a fazerem, a participarem neste processo de teatro e a transmitir a informação para eles próprios. Nós iríamos intermediários e passaríamos tudo para a comunidade", explicou Carlos Cuinhane, que é também investigador na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Assim, com a linguagem adaptada ao que já era conhecido pela população, o grupo de pesquisa trabalhou com o grupo de teator local Tilápia Star de forma a criar um espéctaculo interactivo que explique o que são doenças zoonóticas, como se transmitem, como podem ser prevenidas e os meios de tratamento possíveis. Neste processo, o grupo de pesquisa apercebeu-se que havia algumas "suspeitas" sobre o papel dos cientistas e dos governantes sobre os alertas feitos em relação a estas doenças, já que muitas promessas ficam por cumprir no que diz respeito à melhoria de condições de vida destas populações. "Nós conseguimos aproximar-nos mais das populações e fazer a sensibilização das comunidades. Nós nos desafiamos definitivamente a fazer advocacia não só a nível da própria comunidade, mas também para o Governo, os gestores dos parques [naturais] ou outras organizações, mas também a meta e sensibilizar os financiadores. Há projectos que não estão a responder àquilo que são as exigências ou as necessidades da própria população. Nós, como actores no meio, tentamos sensibilizar outros atores que são relevantes. Ao longo deste processo, o distrito tinha problemas muito graves em relação, por exemplo, à falta de vacinas contra a raiva e à falta de vacina contra a doença Newscastle que atinge o distrito e não havia nenhuma planificação para o efeito. O próprio distrito não tem mecanismos. Depende do governo provincial. O governo provincial depende do Governo central. Mas devido aos problemas todos ligados à macroestrutura da planificação, eles já não recebiam vacinas há vários anos. Então, em função disso, fizemos uma advocacia. Conseguimos vacinas", explicou o investigador. Em Moçambique, as doenças zoonóticas mais prevalentes, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano, é a raiva, a tuberculose zoonótiva, a salmonelose, o vírus da gripe aviária zoonótica, a tripanasomose, a brucelose e a febre hemorrágica da Crimeia-Congo, mostrando que a informação sobre estas doenças é essencial para a população, sobretudo junto dos mais vulneráveis como crianças, idosos ou mulheres grávidas. Com o projecto a já ter sido apresentado em quatro localidades, a ideia é agora arrecadar mais financiamento de forma a alargar o raio de acção a mais comunidades na provínicia, e, mais tarde, pensar num projecto a nível nacional. "Em função dos recursos económicos disponíveis, já estamos a negociar com os parceiros para que haja expansão da apresentação da peça teatral e outros mecanismos. Mas há muitas comunidades que estão na zona tampão do Parque Nacional de Limpopo onde também devemos apresentar e houve ainda pedidos também do próprio Governo, depois de ver a peça. O ideal seria abranger todas essas comunidades antes de passarmos para outras províncias", conclui Carlos Cuinhane. 
Estudo averigua se inteligência artificial pode ajudar no diagnóstico de doenças cardíacas em Moçambique
2026/01/26
Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane podem estar prestes a revolucionar a forma como se diagnotica doenças cardíacas em Moçambique e no Mundo, utilizando a inteligência artificial. A utilização desta tecnologia pode ajudar a baixar os custos do diagnóstico destas doenças. A inteligência artificial vai muito para além de ferramentas de conversação e tem hoje um papel central em sectores essenciais como a saúde, nomeadamente nos campos da imagem médica, em que esta tecnologia tem melhorado a capacidade de detecção e diagnóstico de várias doenças e lesões. Albertino Damasceno, médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane, quer tentar implementar em Moçambique o uso da ecocardiografia assistida por inteligência artificial em cuidados primários, para o diagnóstico da insuficiência cardíaca, tendo recebido o apoio da Fundação Gulbenkian para levar a cabo um estudo nesse sentido. Em entrevista à RFI, Albertino Damasceno, explicou de que forma a inteligência artificial pode ajudar a detectar as doenças que afectam o coração, mas também economizar nos meios de diagnóstico. "Começa a usar-se a inteligência artificial para diagnóstico de várias patologias cardíacas e não só, portanto, qualquer patologia que possa ser diagnosticada pela imagem. Isto já é feito nalgumas partes do mundo, mas fundamentalmente em termos de investigação, não em termos de aplicação prática. O mais importante é que a insuficiência cardíaca, segundo as normas internacionais, deve ser confirmada por um teste que mostra a presença de peptídeo natriurético a nível do sangue periférico. Este teste custa cerca, aqui em Moçambique, cerca de 20 dólares por teste. Portanto, isto é perfeitamente impossível de suportar, não só em Moçambique como em qualquer outro país africano. Portanto, este gold standard de diagnóstico da doença cardíaca torna-se difícil de aplicar na prática, surgindo neste momento uma série de softwares que podem usar não só a ecocardiografia, mas uma coisa até mais simples, que é electrocardiograma para o diagnóstico da doença cardíaca", explicou o especialista. Este é um projecto levado a cabo em parceria com a Universidade do Porto e a Universidade de Yale e vai reencaminhar pacientes em cuidados primários, dando formação aos técnicos de saúde e comparando os diferentes métodos de diagnóstico durante vários meses, de forma a perceber se a análise de imagem feita pela inteligência artificial pode permitir detectar estas doenças com a mesma precisão que os testes de sangue. "Nós vamos começar por uma fase em que é, digamos, o standard of care, isto é, nós vamos pedir a três centros de saúde primários da cidade da cidade de Maputo que durante cinco meses nos enviem todos os doentes que acham que têm insuficiência cardíaca. E vamos fazer estes doentes. Um teste que é ecocardiografia para confirmar ou não a presença de insuficiência cardíaca. A fase seguinte são dois meses em que, com a colaboração com o Departamento de Fisiologia da Universidade do Porto, vamos treinar estes médicos e técnicos de medicina e enfermeiros das triagens, não só no diagnóstico de incidência cardíaca, mas também no uso de electrocardiograma e da ecocardiografia, e também usando para comparação, o tal peptídeo natriurético. Eles vão testar os três métodos e da mesma forma vão-nos enviar não só os casos positivos como os casos negativos. Nós vamos ter uma ideia de um qual é a sensibilidade e especificidade de cada um desses três métodos para o diagnóstico em ciência cardíaca em Moçambique. Portanto, a ideia é exactamente tentar provar que há alternativas mais baratas para se diagnosticar uma doença que neste momento não é diagnosticada a nível periférico", detalhou. Este estudo torna-se ainda mais relevante já que Moçambique tem visto nos últimos anos um aumento de 17,3% do risco de morte entre adultos entre os 40 e os 69 anos, assim como o aumento de outros factores importantes para o agravamento destas doenças como o aumento da hipertensão, da diabetes e da obesidade na população em geral. "Nós estamos a assistir a uma transição epidemiológica. Até há cerca de 20 anos, 30 anos mais ou menos, as doenças predominantes eram as doenças infecciosas. Depois apareceu o HIV SIDA. E, portanto, neste momento, as grandes prioridades dos ministérios da Saúde, particularmente do moçambicano, são o HIV SIDA, a malária e a tuberculose. E porquê? Porque estes são os programas que recebem financiamento internacional. Portanto, as doenças não transmissíveis neste momento ainda estão muito dependentes de qualquer tipo de orçamento que possa ser fornecido pelo Ministério a nível do orçamento nacional. E por isso também são os parentes pobres da medicina em Moçambique. A nossa ideia é que, com o aumento da prevalência da hipertensão arterial, da diabetes, nós vamos ter uma epidemia de doenças não transmissíveis, particularmente doenças cardiovasculares, a começar pelo infarto agudo do miocárdio e pela essência cardíaca e, fundamentalmente, pelo acidente vascular cerebral", concluiu.
Guiné-Bissau: Estudo sobre vacina da Hepatite B pode minar a confiança das mães
2026/01/19
Está previsto decorrer na Guiné-Bissau um projecto clínico que está a suscitar polémica e a levantar muitas questões. Trata-se de um estudo, financiado por fundos americanos - 1,600 milhões de dólares pagos pelo Centro de Controlo das Doenças americano (CDC) - sobre os efeitos não específicos da vacina contra a Hepatite B. Em entrevista à RFI, a antiga ministra da Saúde da Guiné-Bissau, Magda Robalo, manifesta sérias reservas em relação ao estudo, alerta para fragilidades éticas, científicas e comunicacionais. O estudo, liderado pelo Projecto de Saúde de Bandim, pretende acompanhar 14.000 recém-nascidos ao longo de cinco anos, comparando dois grupos: um que recebe a vacina contra a Hepatite B nas primeiras 24 horas de vida e outro que segue a prática actual do país, recebendo a vacina apenas a partir das seis semanas de idade. E assim estudar os efeitos associados à vacinação contra a Hepatite B em função da data de administração da vacina. As recomendações da Organização Mundial da Saúde são claras: a vacina contra a Hepatite B é segura, sem efeitos adversos, e é mais eficaz quando administrada à nascença, sobretudo num país como a Guiné-Bissau, onde a prevalência da Hepatite B é elevada (18% da população está infectada). Actualmente, a Guiné-Bissau não administra a vacina contra a Hepatite B à nascença. No entanto, o Governo decidiu adoptar a vacinação universal de recém-nascidos a partir de 2028, em linha com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo os investigadores do Projecto de Saúde de Bandim, esta transição cria uma “janela de oportunidade” para comparar a política actual com a futura política já decidida, mas ainda não implementada. Durante o ensaio, todas as crianças recebem a vacina contra a Hepatite B às 6, 10 e 14 semanas, respeitando o plano nacional de vacinação. Metade, 7.000 recém-nascidos, vão receber uma dose adicional nas primeiras 24h de vida. Para alguns elementos da comunidade médica internacional, o interesse deste ensaio clínico é mais político do que sanitário, como demonstra o financiamento americano de 1,6 milhões de dólares, numa altura em que o secretário norte-americano da Saúde, Robert Kennedy, é conhecido pelas suas posições antivacinação. O Centro Africano de Controlo das Doenças anunciou, na semana passada, o cancelamento do ensaio clínico com base nas questões éticas. Todavia, a equipa que se encontra a liderar a investigação, contactada pela RFI, desmente o cancelamento ou a suspensão. Em entrevista à RFI, a antiga ministra da Saúde da Guiné-Bissau, Magda Robalo, manifesta sérias reservas em relação ao estudo proposto pelo Projecto de Saúde de Bandim, alertando para fragilidades éticas, científicas e comunicacionais que podem ter consequências negativas duradouras na confiança da população nas vacinas. Segundo a ex-governante, o Comité de Ética da Guiné Bissau terá analisado o protocolo “com a maior das boas vontades”, mas condicionado por uma relação histórica de proximidade com o Projecto de Saúde de Bandim, que actua no país há cerca de 45 anos. Essa proximidade poderá, na sua opinião, ter limitado uma avaliação mais crítica e abrangente do impacto do estudo. Para Magda Robalo, faltou ao Comité de Ética uma análise da “dimensão externa” do protocolo, nomeadamente do seu alcance internacional e da real necessidade científica de testar uma vacina amplamente utilizada. “Estamos a falar de uma vacina contra a Hepatite B que é utilizada há 40 anos e que não precisa de ser testada nos recém-nascidos da Guiné-Bissau”, afirma. A antiga ministra acrescenta que a eficácia da vacina administrada à nascença está solidamente comprovada e é recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Num país onde se estima que 18% da população esteja infectada com Hepatite B e onde cerca de 11% das crianças já estejam infectadas aos 18 meses, Magda Robalo considera que o estudo pode ter um efeito contraproducente. “O grande efeito nefasto deste estudo é exactamente criar na mente das populações, nomeadamente das mães, a desconfiança relativamente a esta vacina.” A ex-ministra relata que já ouviu no terreno perguntas que revelam esse receio: “Mas porque é que nós vamos introduzir uma vacina que nunca foi testada na Guiné-Bissau?”. A resposta é clara: “Várias vacinas, se não todas, que estão a ser administradas na Guiné-Bissau, nunca foram testadas particularmente na Guiné-Bissau. Não precisam de ser testadas na Guiné-Bissau, porque foram testadas em vários outros países e em populações muito maiores.” Magda Robalo insiste que as recomendações da OMS resultam sempre de estudos alargados e da avaliação de múltiplos peritos, antes de serem integradas nas políticas de saúde pública. Ainda assim, alerta para o perigo de as mães se sentirem usadas como “cobaias”, o que pode levar à rejeição da vacina. “É o risco que nós corremos, que as mães pensem que não se deve dar esta vacina às crianças”, afirma. Outra questão que se levanta prende-se com o processo de consentimento informado, num contexto de fraca literacia em saúde. “Na Guiné-Bissau, o consentimento informado é problemático”, garante Magda Robalo, lembrando que 14 mil mães teriam de ser esclarecidas no âmbito do estudo. Na sua opinião, é pouco provável que a maioria compreenda plenamente as diferenças entre os grupos e as implicações da decisão. “Posso arriscar a dizer que a maior parte das mães não irá perceber exactamente o que é que se passa”, esclarece. Em resposta escrita à RFI, Isaquel da Silva e Frederik Schaltz-Buchholzer, investigadores responsáveis pelo estudo no Projecto de Saúde de Bandim, salientam que o ensaio “não retira vacinas dos participantes, pelo contrário, metade dos participantes receberá uma vacina que, de outra forma, não teria recebido”. Explicam que se trata de “um ensaio clínico para avaliar os efeitos não específicos das vacinas administradas no período neonatal. (...) O estudo não questiona a eficácia da vacina contra Hepatite B na prevenção da doença. A lacuna científica está nos efeitos não específicos das vacinas - impactos sobre mortalidade geral, resistência a outras infecções e saúde global da criança. Há evidências de que o momento da vacinação pode influenciar esses efeitos, mas faltam dados robustos em contextos africanos.” Os investigadores acrescentam que “o ensaio resultará num maior número de recém-nascidos vacinados (e protegidos) contra a Hepatite B” e ressalvam que “o estudo segue protocolos éticos e científicos, foi aprovado pelo Comissão de Ética na Saúde de Guiné-Bissau, e vai responder perguntas importantes antes da implementação universal”. Questionados sobre as críticas éticas levantadas por alguns especialistas, explicam que essas críticas estão baseadas “mal-entendidos e em informação incompleta.” Apesar do Centro Africano de Controlo das Doenças ter anunciado o cancelamento do ensaio clínico, a equipa do Projecto de Saúde de Bandim desmente o cancelamento ou suspensão e reitera que os preparativos continuam e que será feito um anúncio aquando do arranque do projecto.
Guimarães Capital Verde da Europa: "A transição climática não é abstracta"
2026/01/09
Guimarães iniciou esta sexta-feira, 9 de Janeiro, o ano como Capital Verde Europeia 2026, com uma programação que cruza compromissos políticos, acordos estratégicos e celebração cultural, afirmando-se como território-laboratório da transição verde através de iniciativas de sustentabilidade, inovação urbana e participação cívica. Em entrevista à RFI, Isabel Loureiro, directora executiva de Guimarães 26, afirma que “a transição climática não é abstracta: acontece nas cidades, no quotidiano das pessoas, e Guimarães é hoje um exemplo disso”. O que representa para Guimarães ser Capital Verde Europeia em 2026? Significa, acima de tudo, um reconhecimento da importância das cidades no que diz respeito à transição verde e à sustentabilidade, nomeadamente à sustentabilidade ambiental. Há dez anos, quando Guimarães começou a sua jornada climática, havia muito a ideia de que o problema das alterações climáticas era um problema global. Mas, de facto, também é um problema local. Com o trabalho que está a ser feito e com todos os projectos que estão elencados para o futuro, estamos a conseguir provar que é possível fazer estas transformações e ter impacto através das cidades. É por isso que Guimarães, sendo Capital Verde Europeia, será também um hub da sustentabilidade em 2026, onde outras cidades, cidadãos e pessoas de todo o mundo poderão visitar e conhecer algumas das nossas boas práticas. Em que é que se traduz esta designação de Capital Verde? Traduz-se sobretudo num esforço colectivo que foi feito e num conjunto de políticas que foram adoptadas e que alteraram o percurso ambiental da cidade a partir de 2014. Guimarães fez um diagnóstico da sua situação ambiental e, como sabe, somos uma cidade industrial, com alguns impactos resultantes dessas dinâmicas. Ao longo dos anos houve um grande investimento na educação ambiental. O programa Pegadas, por exemplo, impacta hoje 800 alunos de 88 escolas. É um programa voluntário, dirigido aos quase 20 mil alunos da cidade, com uma equipa dedicada do Laboratório da Paisagem que realiza diariamente acções de sensibilização. Traduz-se também numa alteração dos indicadores ambientais, nomeadamente daqueles avaliados pela Comissão Europeia. Guimarães apresentou três candidaturas e foi na última que conquistou este título. O que verificámos ao longo desta jornada de dez anos é que os indicadores ambientais melhoraram. Hoje, por exemplo, 97% dos nossos cidadãos respiram ar de boa qualidade. Incrementámos em 30% as zonas pedonais e criámos quiet zones. Actualmente, toda a rede de transporte público é eléctrica, o que reduz significativamente as emissões. Há, portanto, um conjunto de boas práticas que, como refere o senhor Presidente da Câmara, Dr. Ricardo Araújo, se reflectem directamente na qualidade de vida dos cidadãos. Ao longo do ano estão previstas várias iniciativas. Quais serão as áreas mais privilegiadas? A Capital Verde desenvolver-se-á em dois grandes momentos. Um deles será marcado pela realização de conferências, congressos e seminários, incluindo importantes encontros internacionais e nacionais subordinados às temáticas da Capital Verde Europeia e às áreas dos indicadores. Paralelamente, durante o ano de 2025 lançámos duas chamadas à comunidade para que pudesse propor eventos. Recebemos mais de 200 propostas, que serão agora implementadas ao longo do ano. As grandes áreas serão a água, a qualidade do ar e a saúde, não apenas a saúde física, mas também a saúde mental e a forma como o ambiente impacta a saúde e vice-versa. Abordaremos também a energia, a resiliência, o espaço público, a arquitectura das cidades e a melhoria da conectividade das áreas verdes, permitindo a circulação de pessoas e animais, preservando a natureza e a biodiversidade. Teremos ainda eventos ligados à economia circular e à gestão de resíduos. No fundo, será um programa que tocará todas as áreas elencadas na candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia: sete áreas ambientais e uma oitava, desenhada por nós, dedicada à democracia participativa, explorando de que forma a participação, a mobilização e a ciência suportam esta transformação. Quais serão os benefícios desta Capital Verde para a população? Quando adoptamos, por exemplo, um sistema de transporte público totalmente eléctrico, isso tem impacto nas emissões e nas partículas PM2,5, melhorando a qualidade de vida das pessoas. É um exemplo claro de como uma estratégia pública pode beneficiar directamente os cidadãos. Por outro lado, ao permitir que os cidadãos participem, desenhem e criem projectos e iniciativas, estamos a sensibilizar e a formar futuras gerações. Alterar os comportamentos? Sim. Quando falamos da população, falamos também dos sectores económico e empresarial. Na hotelaria e restauração, por exemplo, desenhámos uma declaração de compromisso que pode ser subscrita por estes estabelecimentos, permitindo-lhes identificar as boas práticas que implementam nas várias áreas de indicadores. Ao longo do ano, as equipas destes negócios receberam acções de formação e sensibilização, bem como um dístico que sinaliza aos visitantes que aquele restaurante ou hotel segue critérios ambientais. Alterar comportamentos significa também transformar os negócios, e esse é um legado importante que queremos deixar. O que é que ainda falta fazer na área ambiental? Guimarães tem uma visão clara: ser uma cidade de um só planeta em 2050. A última vez que foi calculada a pegada ecológica do município, Guimarães consumia 2,28 planetas. Para alcançar esta ambição, é necessária uma transformação não apenas do território e das infra-estruturas, mas sobretudo dos cidadãos. Esta mudança leva tempo. O que sabemos hoje é que estamos a preparar as gerações para que esta transição aconteça de forma mais acelerada, permitindo que em 2050 vivamos dentro dos limites planetários. Há também o compromisso com a neutralidade climática em 2030… Sim. Em 2022, Guimarães foi uma das seis cidades eleitas pela Missão das Cidades para atingir a neutralidade climática em 2030. Foi elaborado o Plano Municipal de Acção Climática, focado tanto na adaptação como na mitigação, acompanhado por um plano de investimento e de monitorização. Neste momento, o trabalho passa por implementar e monitorizar essas medidas para alcançar a neutralidade climática em 2030. É este o legado que Guimarães quer deixar, enquanto capital verde da Europa? Sim, é um legado de transformação das pessoas, de melhoria da qualidade de vida e de partilha com outras cidades. Queremos inspirar e mobilizar outros territórios. Guimarães é uma cidade de média dimensão, e se nós conseguimos, outras cidades da mesma dimensão também poderão conseguir. Cerca de 75% das cidades europeias são de pequena e média dimensão. Se conseguirmos inspirá-las, acredito que juntos poderemos transformar este planeta.

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