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United States
This podcast has
34 episodes
Explicit
No
Date created
2015/12/07
Latest episode
2026/09/19
Average duration
11 min.
Release period
21 days

Description

Ouça aqui, em directo, os grandes temas do momento que fazem o pulsar da actualidade nos vários países.

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Página de facebook Djudan Buska Nha Familia reúne famílias separadas há décadas
2026/09/19
Há famílias cabo-verdianas que passaram 40, 50 ou 60 anos sem notícias umas das outras. A página de Facebook Djudan Buska Nha Familia, coordenada por Isabel Semedo, tenta reconstruir esses laços através de nomes, fotografias, alcunhas e memórias dispersas por vários países. Cerca de 20 reencontros já foram possíveis, alguns em menos de uma hora. Há histórias familiares que ficaram suspensas entre Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Portugal ou Estados Unidos. Algumas começaram com partidas forçadas pela pobreza e pela fome, outras perderam-se com o tempo, a distância e a ausência de meios de comunicação. Décadas depois, uma página de Facebook tenta voltar a ligar essas vidas. A ideia nasceu depois de uma viagem de Isabel Semedo a São Tomé e Príncipe. “Toda a gente na sua família tem a história de alguém que partiu para São Tomé e não voltou”, conta. Ela própria não tinha esse percurso na família, mas conhecia desde pequena as histórias de quem tinha partido. Quando chegou ao arquipélago, percebeu a dimensão do problema. “Encontrei famílias, descendentes e pessoas que ainda estão lá. Foi muito, muito marcante. Apesar de tudo o que aconteceu, a palavra saudade é aquilo que mais lhes marca.” Dessa viagem nasceu Djudan Buska Nha Familia, “Ajuda-me a encontrar a minha família”, em português. O ponto de partida era simples, criar um lugar onde pessoas separadas por décadas pudessem deixar um nome, uma fotografia, uma localidade ou apenas uma memória. “Têm muita saudade do país e, sobretudo, dos familiares que ficaram por lá e de quem nunca mais tiveram notícias. Uns há 60 anos, outros há 40”, explica Isabel Semedo. Por detrás de muitas dessas histórias está uma página dolorosa da história cabo-verdiana. Isabel Semedo recorda a fome de 1947 e o envio de trabalhadores contratados para São Tomé e Príncipe, mas lembra que as separações se estenderam também a Angola, Moçambique e outras geografias da diáspora. “As pessoas foram para lá trabalhar, levaram a vida delas e foram perdendo contacto com os familiares em Cabo Verde.” Hoje, a página recebe pedidos vindos de vários pontos do mundo. A procura começa muitas vezes com quase nada. “É como uma agulha num palheiro”, reconhece. Um nome incompleto, uma fotografia antiga, o nome de uma aldeia ou uma referência transmitida oralmente podem ser tudo o que resta. A equipa foi criando, com o tempo, uma rede de contactos em Cabo Verde, São Tomé e na diáspora, tentando cruzar documentos, testemunhos e informações recebidas pelas redes sociais. Há um elemento que se revela muitas vezes decisivo, os nomes de casa. “Nós, cabo-verdianos, temos muito isso, o nominho”, explica. “Às vezes é ‘filho de tal’, ‘filha de tal’. E a partir daí temos conseguido encontrar pessoas.” Há famílias que enviam certidões, fotografias e documentos privados na esperança de que uma pista permita reconstruir uma ligação perdida. Um desses casos foi o de Elsa, que procurava uma irmã desaparecida do radar familiar havia 40 anos. “Mandaram-me os dados, a fotografia, tudo. Em menos de uma hora conseguimos localizá-la através da página, dos comentários e das partilhas.” A irmã tinha passado por Cabo Verde e vivia em Portugal. “Foi uma história muito emocionante, triste e feliz. São sentimentos que se misturam.” Outro reencontro marcou profundamente Isabel Semedo foi o de Manuel que procurava a mãe e os irmãos em São Tomé e Príncipe. Não tinha fotografia e nem sequer conhecia o nome verdadeiro da irmã. Sabia apenas que lhe chamavam “Nuna”. Através de uma segunda mensagem recebida pela página, a equipa percebeu que esse “nominho” correspondia a Valenciana Vaz Moreira. “Através desse Nuna encaixou tudo.” Depois de cerca de 60 anos, os irmãos voltaram a encontrar-se. “Nós choramos com eles. Só quem vive é que sente uma coisa destas”, conta Isabel Semedo. Manuel, antigo GNR em Portugal, tinha passado praticamente toda a vida a procurar a família. “Ele disse-me que viajou por vários países sempre com isto na cabeça e que, no dia em que foi jurar bandeira para ser GNR, era o único que não tinha família.” Quando reencontrou a irmã, disse-lhe que tinha sido “o dia mais feliz da vida dele”. Mas nem todas as histórias terminam num reencontro. E essa é, para Isabel Semedo, uma das partes mais difíceis do trabalho. “Falamos muito com as pessoas antes de publicar. Não somos profissionais, somos só pessoas que têm vontade e estamos no mesmo barco.” A equipa tenta recolher o máximo de informação possível, mas evita alimentar expectativas que talvez nunca se confirmem. “Dar falsas esperanças também é complicado.” Há ainda casos em que a página serve de homenagem a quem procurou a família durante toda a vida e morreu sem conseguir regressar. Noutros, o reencontro torna-se real. Isabel Semedo recorda uma mulher filmada em São Tomé em 2025. A publicação chegou aos familiares, que a reconheceram, reuniram dinheiro e conseguiram levá-la a Cabo Verde. “Ficou lá três meses. Agora já voltou para São Tomé.” Para Isabel Semedo, é talvez aqui que reside a força do projecto, em utilizar as mesmas redes sociais tantas vezes associadas ao ruído, à violência ou à desinformação para construir alguma coisa. “As redes sociais podem ser muito perigosas, mas, bem utilizadas, podemos fazer a diferença.” A página também recebe comentários xenófobos ou racistas, que prefere apagar em vez de alimentar confrontos. Isabel resume esse espírito com uma expressão crioula: junta mon, juntar as mãos. “Estou sempre a agradecer às pessoas que comentam, que partilham. Isto é um junta mon, é juntar mãos para fazer algo de positivo.”
Kiala: A chancela literária que vai publicar só autores negros
2026/09/14
A chancela Kiala, da editora Vírgula d’Interrogação, nasceu para publicar livros de autores negros em Portugal e para responder a uma subrepresentação no mercado editorial português, conta a criadora do projecto Elga Fontes. "Kiala” é uma palavra com raízes no kimbundu, uma língua Bantu de Angola, e significa "trazer luz ou iluminar”, o que traduz a ideia desta chancela: “trazer luz a vozes que ainda não estão presentes no mercado literário português”.  “A Kiala é uma chancela do grupo editorial Vírgula d’Interrogação que pretende publicar livros de autores negros em Portugal”, começa por resumir a sua criadora Elga Fontes, que também é tradutora, revisora e fundadora da oficina editorial Quem Me Lera, o mesmo nome da sua página Instagram em que partilha, há anos, sugestões de livros com milhares de seguidores. Quisemos conhecer o projecto de Elga Fontes e convidámo-la a partilhar connosco a história da Kiala. Elga nasceu em Portugal há 31 anos, é angolana por parte da mãe e cabo-verdiana por parte do pai. Licenciou-se em Línguas e Culturas na Faculdade de Letras de Lisboa, fez um mestrado em Estudos Editoriais na Universidade de Aveiro, começou a trabalhar como revisora ainda durante a licenciatura e, pouco depois, entrou no mundo da tradução editorial. Foi, também, durante a universidade que criou a página Instagram #quemmelera para ter “uma plataforma para falar sobre o que lia” e “encontrar outras pessoas que gostassem de ler”. A acompanhar esse amor pela literatura, esteve sempre a impressão de uma invisibilidade crónica de autores negros nas estantes das livrarias em Portugal, algo que acabou por ser validado por um trabalho académico que fez e que mostrou isso mesmo. A Kiala acaba por surgir, anos mais tarde, em resposta a essa lacuna e nasce como uma chancela da editora Vírgula d’Interrogação. O nome escolhido, "Kiala", vem do kimbundu, uma língua Bantu de Angola, com múltiplos significados, entre os quais “o trazer luz ou iluminar”. “Acho que funciona como metáfora para aquilo que nós queremos fazer que é - num sentido muito figurativo - iluminar, trazer luz a estas vozes que ainda não estão tão presentes no mercado literário português”, acrescenta a editora. “Já há alguns anos que, enquanto leitora e enquanto profissional da área, tenho reparado que existe uma sub-representação na presença de autores negros nas estantes das livrarias de Portugal. A Kiala surgiu como uma ferramenta para tentar combater isso”, conta Elga Fontes. Questionada sobre as razões dessa ausência de autores negros nas livrarias, Elga diz que “há muitos motivos essencialmente estruturais”, desde logo o facto de o mercado editorial português ser “muito pequenino, muito precário e onde é muito caro fazer livros” e também “é muito difícil vendê-los” devido aos parcos hábitos de leitura. Por isso, as editoras “acabam por apostar naqueles livros que têm mais visibilidade lá fora e mais garantias de poder dar algum lucro e, infelizmente, esses livros, na sua maioria, não incluem vozes fora daquilo que é considerado padrão e normativo”. Depois, acrescenta a editora, o racismo e as feridas abertas do colonialismo são “sem dúvida, dos maiores motivos para o qual existe esta sub-representação de autores negros” em Portugal. Para combater também esse racismo, a Kiala tem um “guia de termos a evitar e as alternativas”, já que a própria Elga, também tradutora, chegou a ver uma tradução sua alterada com expressões racistas que foram introduzidas posteriormente. O primeiro livro publicado este ano pela Kiala foi uma obra de não-ficção intitulada “Feminismo na Periferia”, de Miki Kendall e, em Novembro, vai ser lançado o segundo “A Morte de Vivek Oji”, um romance de Akwaeke Emezi, uma autora nigeriana não binária. Para 2027, também há três livros fechados. Enquanto editora generalista, o objectivo é publicar vários géneros, estar “atentos ao que é publicado noutros mercados”, nomeadamente a “autores negros que estão a surgir e também as obras que, apesar de já terem alguma relevância internacional, ainda não chegaram a Portugal”. “Eu que faço a selecção dos livros, faço esta pesquisa. Também estou muito por dentro do que se faz lá fora, contacto agentes, leio os livros e gosto de me guiar por uma questão que é: Que conversa é que este livro pode iniciar ou continuar em Portugal?”, explica a editora. Quanto às ambições, Elga diz querer muito “que a Kiala consiga construir um catálogo de referência com livros que as pessoas continuem a descobrir ao longo dos anos” e que contribua “para normalizar” a presença de autores negros nas livrarias, ou seja, “entrar numa livraria e encontrar muitos autores negros, de diferentes géneros, diferentes países e com diferentes perspectivas”. Oiça a entrevista neste programa.
Luís Represas (1956-2026) deixa legado de cinco décadas à música popular portuguesa
2026/07/23
O músico português Luís Represas morreu nesta quarta-feira aos 69 anos, vítima de doença prolongada, deixando para trás uma longa carreira que faria cinco décadas este ano. Foi a voz de Trovante, banda que ajudou a renovar a música de intervenção do pós-25 de Abril, e na sua carreira a solo, teve grandes êxitos pop. Luís Represas também marcou os espíritos além das fronteiras portuguesas, como testemunha Timor, canção de 1996 dedicada à luta pela independência do povo timorense. Luís Represas celebrava este ano cinco décadas de carreira, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto marcados para Abril de 2027. Foi o vocalista de Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril que reflectia do fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos.   Voz dos Trovante Trovante contribuiu  para a actualização da música de intervenção, utilizando também elementos da música folclórica, numa abordagem moderna à música tradicional, tal como explica à RFI o musicólogo Pedro Félix. O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada.  O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto. A canção "Engrenagem" do álbum Chão Nosso, foi um exemplo dos inícios de Trovante, com elementos da música de intervenção e da música folclórica: O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe.   Carreira a solo Em 1993, Luís Represas inicia a sua carreira a solo, aproximando de uma vertente mais pop, como ficaram marcadas os últimos anos de Trovante. Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul. Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais. A música Feiticeira (1993), com a participação do compositor cubano Pablo Milanés, é uma das mais emblemáticas do período solo de Luís Represas.   Pela causa timorense Em 1996, gravou a canção Timor, dedicada à luta pela independência do povo timorense, importante no seu reconhecimento internacional, especialmente no mundo lusófono. O Presidente timorense, José Ramos-Horta, em declarações a Miguel Martins, conta como esta canção foi um canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência.  Uma das manifestações culturais, musiciais que teve mais  impacto, e que fez chorar corações foi a canção "Timor", de Luís Represas. A letra é bonita, é de partir o coração e fazer chorar as pessoas mais insensíveis, ou fazer reflectir as pessoas mais sensíveis. Luís Represas veio a Timor-Leste, obviamente depois da independência, várias vezes. Era uma pessoa extraordinária: a simplicidade das grandes pessoas ! A perda dele cria uma grande tristeza para aqueles que o conheceram e para aqueles que se habituaram a ouvir a letra "Ai Timor" Para além de ter sido reconhecido pela crítica e o público, conheceu também o reconhecimento institucional, com a condecoração com a Ordem de Mérito da República Portuguesa, em 2005, pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio.    Ouça aqui na íntegra a entrevista ao musicólogo Pedro Félix sobre o legado musical de Luís Represas. Mateus Santa Rita
30 anos da CPLP: Marcolino Moco exprime "uma certa desilusão"
2026/07/17
A CPLP, Comunidade dos países de língua portuguesa, assinala hoje 30 anos de existência. Uma organização confrontada com múltiplo desafios e fragilizada pela suspensão da Guiné-Bissau na sequência do golpe de Estado de Novembro passado. O antigo Primeiro-Ministro angolano Marcolino Moco foi o primeiro secretário executivo da organização lusófona e fez um balanço à RFI destas três décadas de existência do bloco lusófono. Marcolino Moco começa por afirmar a sua grande decepção relativamente ao desempenho da CPLP. Eu tenho uma ideia de uma certa desilusão. Porque eu tinha a ideia inicial de que essa CPLP podia ser um impulsionador, sobretudo na área de reafirmação dos valores que constituíram o histórico dos países que constituem a CPLP: Portugal mais as suas ex-colónias, mais o Brasil. Portanto trabalhar em mais-valias que poderiam resultar deste histórico. Mas isso não tem sido possível, por várias razões, entre as quais eu costumo sublinhar especialmente o maior desperdício de energias para uma actividade meramente formal, diplomática ou formal entre os Estados. Portanto, aquela ideia de que, especialmente os países africanos poderiam adquirir vantagens, uma espécie de recomposição daqueles aspectos positivos que resultaram da nossa história, isso não se tem conseguido porque na relação entre Estados há muito formalismo. O problema do respeito das soberanias de cada um é tão forte que se desprezam as mais-valias que poderiam beneficiar às populações. Embora se fale muito até hoje dos males da colonização. Mas havia muitos aspectos positivos que poderiam ter sido recuperados e que não o foram. Pelo contrário, continuamos, especialmente nos países africanos, a perder valores éticos, sobretudo na área política, em que, por exemplo, as eleições são praticamente uma inutilidade. Talvez com a excepção de Cabo Verde, onde as eleições são um factor de estabilização, são factor de escrutínio da acção dos políticos governantes. Mas isso não acontece nos outros países, especialmente continentais africanos, com casos graves: em Angola, começou por Angola, que é o meu país, da Guiné-Bissau. São casos muito graves e também de Moçambique. A suspensão da Guiné-Bissau da CPLP, onde um ex-secretário executivo da CPLP está desde a semana passada em prisão preventiva, com os golpistas a assumirem o poder, não pode ser fatal à sobrevivência da organização? Talvez não seja fatal, porque vai-se continuar a trabalhar na base do formalismo e não na base de algo que seja útil para estabilizar politicamente todos os Estados. Possivelmente a Guiné-Bissau, Angola também, a situação não é, como muita gente pensa, boa, óptima. E também temos acompanhado aspectos negativos em Moçambique. Na sua opinião, a CPLP deve ser mais exigente na defesa da democracia e dos direitos humanos nos Estados-Membros? Ora, nem mais. Em relação a esse aspecto, a CPLP não actua por causa do tal respeito à soberania e por causa da defesa de interesses de algumas pessoas, tudo agentes do Estado. Veja que, pelo contrário, foi associado um país muito pior em termos de respeito dos direitos humanos, da democracia, da preocupação dos dirigentes do seu Estado, em relação ao bem-estar social das suas populações. Estou-me a referir à Guiné Equatorial, por exemplo, que por nenhuma razão que se invocasse deveria fazer parte da CPLP, tanto pelo respeito aos direitos humanos como por outros aspectos do regime. Este Estado foi atraído pela CPLP, indiciando que o tal ideal da democracia, o ideal ético, de uma política ética não tem grande significado perante perante nós, elites políticas. Eu também faço parte das elites políticas, dos nossos Estados. E veja este caso da Guiné-Bissau. Um dirigente que até também foi secretário da CPLP, detido arbitrariamente de forma vergonhosa e tanto quanto eu saiba, a CPLP está impotente para actuar. A expulsão é uma coisa que não não tem grande relevância. Mas eu pensaria que haveria atitudes anteriores. Essas situações deviam ser promovidas para darmos maior utilidade à nossa organização. Daqui a 30 anos, o que eu gostaria que se dissesse da CPLP? Eu sou professor ainda e às vezes digo muita coisa que é politicamente incorrecta. Devemos começar primeiro por reconhecer que as nossas independências foram muito mal conduzidas. Não houve reflexão. Foram rejeitadas ideias de Constituição de transições mais úteis. Eu não estou a preconizar um regresso ao passado, uma recolonização, mas pelo menos uma capacidade de olhar para o presente, fazermos uma retrospectiva correctiva do que aconteceu e não permitirmos efectivamente muitas coisas que estão a acontecer hoje nesses países, que tiveram o seu surgimento graças à presença de Portugal aqui em África. Independentemente dos aspectos negativos que possam ter acontecido. Tenho para os amigos muito próximos dito que podíamos ter independência, mas sem descolonizar. Acho que isso é politicamente incorrecto, sobretudo para quem não reflectiu, como eu tenho reflectido. Mas nós temos exemplos positivos de uma prática desse tipo. Onde houve independência sem descolonização. Portanto, as instituições estão preservadas. Quando se fala em descolonização, normalmente pensa-se que é afastar o branco da administração e deixá-lo sair, se for possível. Mas nos nossos Estados, onde se realizou uma descolonização precipitada, onde constituímos essas pátrias com pessoas de todas as proveniências e depois 74-75, montámos um esquema mental completamente errado. Aquele êxodo que houve aqui nos nossos países. É talvez por isso que justamente Cabo Verde é um exemplo onde não houve êxodo, com uma parte da população retendo as elites com conhecimento, etc. Hoje vão, digamos, se estabilizando melhor. E aqui onde houve o êxodo da população branca em grande quantidade, estávamos pobres em tudo, a partir da própria moralidade, da própria ética, passando pelas prioridades que são traçadas por pessoas mal preparadas. Eu também me incluo nesse aspecto, porque também ocupei funções. De modos que é isso que eu lamento que a CPLP, 30 anos depois, não possa ter contribuído para, digamos, remediar esses problemas. Era Marcolino Moco, primeiro secretário executivo da CPLP, no dia em que a organização assinala três décadas de existência.
Guiné-Bissau: Carta aberta denuncia situação de líder do PAIGC
2026/04/10
Dionísio Simões Pereira, irmão do líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, actualmente sob residência vigiada na capital guineense, redigiu hoje uma carta aberta à comunidade nacional e internacional apelando à acção para pôr cobro ao actual estatuto do seu irmão. Em causa o facto de o antigo primeiro-ministro continuar privado de liberdade desde o golpe de Estado de Novembro do ano passado que interrompeu o processo eleitoral. Dionísio Simões Pereira, irmão de Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, Partido africano para a independência da Guiné e Cabo Verde, actualmente, em estatuto de residência vigiada em Bissau começa por se referir a quem é dirigida esta carta. A toda a comunidade internacional, mas partindo das autoridades do país, porque efectivamente nós estamos... Não só o Domingos [Simões Pereira] está privado de liberdade, como toda a família que lhe acompanha está condicionada, está limitada. Mas, pior do que isso, sem escrúpulos as pessoas colocadas para vigiar a movimentação nas proximidades da residência não adoptam a postura de civilidade, de, pelo menos respeito pelos direitos das pessoas. Portanto, é uma violação dos direitos a todos os níveis, com abusos que vão sendo cometidos à margem da lei. Fala em disparos de armas automáticas em dois dias diferentes. Pois, com o argumento de que terão sido incidentes involuntários. Mas não são actos de intimidação, de provocação que poderão ter consequências num dado momento. Quer dizer que ninguém deseja, mas isso pode ser a simulação de actos bárbaros e de crimes que poderão estar a ensaiar, a realizar. No entanto, como diz nesta carta, o seu irmão não foi formalmente acusado da prática de nenhum crime, não obstante ter sido ouvido pelo Tribunal Militar, não é ?   Pois, porque ele está neste momento, por aquilo que foi dito na sequência da audiência, e de que, portanto, ele não está sendo acusado de absolutamente nada. E neste momento está sendo perseguido por golpistas. Quer dizer, condenou um golpe. Inventam um álibi. Criam figuras irrealistas, portanto, para serem constituídas bode expiatório. Mas o criminoso vem chamar o outro de criminoso, quando são eles os autores do golpe e que estão, digamos, a instrumentalizar todos os órgãos do país, tanto impedindo o funcionamento do Estado de Direito. E aqui se pode perguntar com que legitimidade é que poderão apontar o dedo a alguém que tão pouco esteve envolvido em algum acto de subversão à ordem constitucional? E, entretanto, eles que são autores, digamos, de interrupção de um processo eleitoral em que foram derrotados nas urnas. E o crime de Domingos terá sido o facto de ter levado o ex-presidente Umaro Sissoco Embaló à derrota, logo na primeira volta. Portanto um acto humilhante para alguém que estava a dar sinais de que detinha a vontade popular do seu lado, quando na verdade era o contrário.   Portanto, no seu entender, estamos perante um "sequestro político e humano". Estou a citar a carta.   Político e Humano com a conivência da comunidade internacional, a começar pela própria CEDEAO [Comunidade económica dos Estados da África ocidental] ! Que, pelo que se pode verificar neste momento é de que toda a ameaça tanto da aplicação de sanções não vale de nada. Da União Africana não vale de nada. E isto talvez com a justificativa, que se tem ouvido nos bastidores, com medo da perda da Guiné, porque já se perdeu três países que constituíram agora o novo bloco dos Estados do Sahel [AES, Aliança dos Estados do Sahel: Burkina Faso, Níger e Mali] e com medo da perda da Guiné [Bissau]. Então vai-se sacrificar o povo da Guiné [Bissau] e a liderança política do PAIGC. Portanto, neste momento, digamos que estamos a caminhar para uma saída extremamente perigosa, porque esta prática vigente neste momento no país dá legitimidade a qualquer cidadão para fazer recurso, também à força para a obtenção da liberdade ou o recurso à força para ascender ao poder. Portanto, é uma situação extremamente perigosa que pode fazer escola. E se isso fizer escola, todos vamos sofrer. Não será só o povo da Guiné [Bissau], mas a comunidade internacional terá também a sua quota parte de consequências.     Portanto, diz que Domingos Simões Pereira está detido há já cerca de 150 dias. Como é que está? Que notícias é que tem dele? Não. Ele neste momento está a precisar de fazer os exames médicos. Portanto, por alguns sinais que vai tendo, entretanto, não consegue tão pouco chegar a quem possa dar a cara como a figura chave que lhe mantém nessa situação de privação total de liberdade. Não consegue fazer isso, nem no país, nem fora do país, porque tão pouco tem possibilidades de receber pessoas para recolha de amostras para alguma análise clínica. Portanto, é uma situação extremamente perigosa que pode descambar em outras práticas para se poder reverter a situação ou que ninguém deseja. Mas também não se poderá considerar que se vai ficar amorfo, parado, inerte, portanto, sem adoptar uma postura que permita reverter esta situação. É inadmissível e inaceitável esta violação dos direitos do cidadão Domingos Simões Pereira. Ele não é livre sequer de receber visitas ? Tão pouco e até de familiares, primos e a situação de irmãos a serem condicionados a uma situação de aberração total ! De sublinhar que, nesta missiva, Dionísio Simões Pereira realça o facto de Fernando Dias da Costa ter sido o vencedor das eleições. O candidato que Domingos Simões Pereira acabou por apoiar por ter sido excluído da corrida eleitoral. A carta termina com o repto lançado à comunidade internacional e aos observadores das últimas eleições, apelando a que estes tomem posição acerca "da interrupção do processo democrático e da degradação do Estado de Direito".
Dois anos na RCA: Joseph Figueira Martin regressa a Portugal após pressão diplomática
2026/04/08
O investigador luso-belga Joseph Figueira Martin foi libertado na terça-feira, 7 de Abril, após quase dois anos de detenção na República Centro-Africana, na sequência de uma mediação diplomática liderada por Portugal com o apoio da Bélgica e de instituições europeias. O caso, marcado por acusações contestadas e condições de detenção severas, termina com um desfecho humanitário, embora persistam dúvidas sobre os contornos da detenção. A libertação de Joseph Figueira Martin, detido desde Maio de 2024 na República Centro-Africana (RCA), foi anunciada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, perante a Comissão dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, numa comunicação que classificou como uma “batalha difícil” de quase dois anos. O chefe da diplomacia portuguesa destacou o esforço concertado de várias instituições nacionais e internacionais: “Houve aqui um trabalho conjunto muito grande. Isto deve-se ao esforço de todos os órgãos de soberania, dos serviços diplomáticos, das Forças Armadas e também das autoridades belgas, que trabalharam connosco em estreita cooperação.” Paulo Rangel sublinhou, ainda, a relevância das condições humanitárias na decisão final: “A situação humanitária era de facto muito difícil. As condições de detenção eram extremamente duras. Foi essa a razão pela qual lhe foi concedida uma medida de clemência.” Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros português, foram realizadas “várias missões discretas” com o objectivo de garantir a libertação do investigador. Joseph Figueira Martin tinha sido capturado no sudeste da RCA por forças associadas ao grupo Wagner, permaneceu detido em Bangui durante mais de 22 meses, incluindo em instalações descritas como severas. Em Novembro de 2025, foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados por alegados crimes contra a segurança do Estado,  acusações sempre rejeitadas pela família. O eurodeputado socialista português Francisco Assis saudou o desfecho, destacando o papel da diplomacia portuguesa e das instituições europeias: “Foram feitas várias diligências, sobretudo pelos governos de Portugal e da Bélgica. Essa acção diplomática bem-sucedida permitiu alcançar este resultado, que nos deixa profundamente satisfeitos.” Francisco Assis considerou que o Parlamento Europeu actuou de forma adequada: “O Parlamento Europeu fez o que tinha que fazer, pugnou pelo respeito pelos direitos humanos e pela defesa dos cidadãos europeus. Agiu de forma responsável e correcta.” O eurodeputado português salientou, ainda, o carácter humanitário da decisão das autoridades centro-africanas: “Houve uma atitude de clemência que saudamos. Este é o momento para celebrar a libertação, não para fazer outras avaliações.” A decisão de libertar o antropólogo aconteceu depois da tomada de posse do Presidente da RCA para um novo e terceiro mandato, o que, segundo Paulo Rangel, poderá ter facilitado o gesto, embora enquadrado num compromisso previamente assumido de considerar razões humanitárias após o encerramento do processo judicial. O caso mobilizou a União Europeia, levantando preocupações quanto à segurança de cidadãos europeus em regiões instáveis e ao papel crescente de actores externos, como a Rússia, na região. Ainda assim, Francisco Assis relativizou leituras geopolíticas mais amplas: “Este caso é um caso em si mesmo. É positivo quando razões humanitárias prevalecem.” Joseph Figueira Martin encontra-se actualmente sob observação no hospital militar em Lisboa, depois de ter regressado a Portugal a bordo de um avião militar. Apesar do desfecho, permanecem por esclarecer as razões exactas da sua detenção e os termos concretos do acordo que conduziu à sua libertação, num processo que expôs fragilidades mas também a capacidade de resposta diplomática europeia.
Tico Tico lamenta: “Um escândalo que afecta a imagem do futebol africano”
2026/03/18
Marrocos foi declarado vencedor da Taça das Nações Africanas (CAN) esta terça-feira, 18 de Março, pela Confederação Africana de Futebol (CAF). Uma vitória na secretaria, dois meses após uma final caótica em que o Senegal venceu em campo por 1-0 (após prolongamento), mas abandonou o relvado durante cerca de 15 minutos em protesto contra um penálti assinalado a favor de Marrocos, já em período de compensação. Para Tico Tico, antigo capitão da selecção moçambicana, o episódio prejudica o futebol africano. “O júri de recurso da Confederação Africana de Futebol decidiu, ao abrigo do artigo 84.º do regulamento da Taça das Nações Africanas, declarar a equipa nacional do Senegal como derrotada durante a final da CAN, com o resultado a ser homologado por 3-0 a favor da Federação Real Marroquina de Futebol", anunciou a CAF em comunicado. O Senegal tinha vencido a partida graças a um golo de Pape Gueye no prolongamento. Antes disso, Brahim Díaz, de Marrocos, falhou um penálti nos últimos segundos do tempo regulamentar. O lance só aconteceu após uma espera de mais de 15 minutos, já que os jogadores senegaleses tinham abandonado o campo em protesto. Sadio Mané acabou por convencer os colegas a regressar ao relvado para retomar o jogo. Inicialmente, o júri disciplinar da CAF tinha rejeitado, no final de Janeiro, o recurso apresentado pela Federação Real Marroquina de Futebol. Porém, esta terça-feira, o júri de recurso anulou a decisão inicial e deu razão ao Marrocos. Com esta decisão administrativa, Marrocos conquista a sua segunda CAN, meio século após o primeiro título. O país, que foi anfitrião da competição, afirmou num comunicado que “a sua iniciativa nunca teve como objectivo contestar o mérito desportivo das equipas envolvidas, mas apenas exigir o cumprimento do regulamento da competição”. A Federação Senegalesa de Futebol qualificou a decisão de "visceralmente injusta” e anunciou, esta quarta-feira, 18 de Março, que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto. "A Federação Senegalesa de Futebol denuncia uma decisão iníqua, sem precedentes e inaceitável, que lança descrédito sobre o futebol africano", acrescentando que "para a defesa dos seus direitos e dos interesses do futebol senegalês, a Federação irá, com a maior brevidade possível, interpor um recurso junto do Tribunal Arbitral do Desporto, em Lausanne". O Governo do Senegal, por seu lado, exigiu esta quarta-feira a abertura de uma “investigação internacional independente por suspeitas de corrupção nas instâncias dirigentes da Confederação Africana de Futebol”, classificando a decisão como “de uma gravidade excepcional” e “grosseiramente ilegal”.  Para Tico Tico, antigo capitão da selecção moçambicana, o episódio prejudica o futebol africano. “Já passaram dois meses e todo o mundo já se tinha completamente esquecido disso. E agora surge essa notícia. É um bocadinho surpreendente”. Mais do que o conteúdo da decisão, é o momento em que surge que levanta maiores reservas ao antigo internacional. Na sua leitura, caso a CAF entendesse que houve violação do regulamento por parte do Senegal, a consequência deveria ter sido imediata e não retroactiva: “Se a lei não foi cumprida, então tinha que se declarar o vencedor na hora. Não faz sentido continuar o jogo, o Senegal ganhar, festejar, receber o troféu e dois meses depois, aparecer esta sentença. Não cai bem.” Para Tico Tico a polémica agrava a imagem de uma final que já tinha ficado marcada por incidentes e contestação. “Já a própria final, por causa dos escândalos que aconteceram, tinha posto uma mancha na imagem da CAN. Agora isto vem manchar ainda mais. Não nos orgulha em nada como africanos”, lamentou, defendendo que o episódio prejudica não apenas a competição, mas a percepção global do futebol africano. Nesse sentido, considera que o caso dificilmente ficará encerrado com esta decisão, até porque a Federação Senegalesa já anunciou que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto: “É um caso que agora se abre e que pode levar o seu tempo. Não vai terminar tão cedo.” Do ponto de vista dos protagonistas, Tico Tico distingue entre o impacto institucional e a vivência dos jogadores. Embora reconheça o investimento significativo feito por Marrocos no desenvolvimento do futebol e na organização de grandes competições, questiona o valor simbólico de um título conquistado fora das quatro linhas: “Os jogadores marroquinos sabem exactamente: perderam um jogo no campo. Receber na secretaria não é orgulho nenhum”, porém o futebolista moçambicano avança que, ainda assim, para a federação o troféu terá peso e ficará registado na história. O antigo internacional alerta também para as consequências mais amplas do caso, tanto na reputação externa como na relação entre países africanos. Na sua perspectiva, a decisão pode reforçar percepções negativas sobre o futebol do continente e até afectar a imagem de Marrocos, que se prepara para organizar o Mundial de 2030: “Penso que a imagem de Marrocos já ficou um bocadinho afectada, pelo menos em África. Este escândalo só vai piorar a sua posição em relação aos outros africanos”, considerou, sublinhando que o desfecho do processo será determinante para avaliar o verdadeiro impacto. Tico Tico chama ainda atenção para o efeito pedagógico de decisões que contrariam o que aconteceu em campo, sobretudo junto das gerações mais jovens. “As pessoas viram um Senegal vencedor. Quando depois aparece uma decisão destas, independentemente das leis, ficam desiludidas. Estas decisões nos escritórios são sempre complicadas”, afirmou, defendendo que a CAF terá agora de apresentar uma explicação clara e convincente para tentar recuperar a confiança: “Espero que a CAF se explique, porque neste momento ninguém acredita.”
Senegal: Parlamento endurece repressão da homossexualidade
2026/03/12
O Parlamento do Senegal votou nesta quarta feira um endurecimento da legislação penalizando a homossexualidade. As penas passam de cinco a dez anos de cadeia e as multas passam para entre 2 a 10 milhões de francos CFA, contra 100000 a 1,5 milhões de francos CFA. Oumar Diallo, professor universitário e consultor político em Dacar, admite que alguns parceiros internacionais do país possam doravante exprimir a sua preocupação com o novo dispositivo legal senegalês. Acho que é possível que alguns parceiros internacionais, sobretudo a Europa, organizações internacionais, expressem preocupações ou críticas. Isso acho que é possível porque muitos deles colocam a questão dos direitos humanos no centro das suas políticas externas. Então, penso que isso pode ser uma preocupação dos parceiros. No entanto, não é certo que isso se traduza em verdadeiras represálias políticas ou económicas. Podemr ser inquietações, preocupações que podem levar o governo senegalês a fazer muita atenção na aplicação desta lei. Na maioria dos casos, o que acontece é sobretudo uma pressão diplomática ou declarações públicas. Porque hoje, por exemplo, se um líder político europeu ou ocidental apontar do dedo esta situação no Senegal, isso pode ser uma forma de pressão diplomática. Além disso, o Senegal também continua a ser considerado por muitos parceiros internacionais como um actor importante para a estabilidade da região da África Ocidental, o que tende a moderar eventuais reacções mais duras. Porque também o Senegal é um país que conta na África Ocidental. Já dissemos então que houve unanimidade dos deputados. A deputada Diaraye Ba dizia "Os homossexuais não hão-de respirar mais neste país. Os homossexuais nunca mais terão liberdade de expressão neste país." Porque é que, de repente, no Senegal se tornou tão importante legislar e reprimir ainda mais os homossexuais? Endurecer ainda mais o dispositivo legal que já penalizava os homossexuais?  Sim, como já disse que já penalizava, agora assistimos aqui a um endurecimento da legislação. Esse endurecimento deve ser entendido no contexto político e social do Senegal. Nós seguimos, nos últimos anos, vários movimentos religiosos e associações conservadores que têm exercido uma forte pressão sobre o poder político para reforçar a pressão sobre a homossexualidade. Ao mesmo tempo, muitos responsáveis políticos apresentam esta questão como uma forma também de defender valores culturais religiosos considerados centrais na sociedade senegalesa. Por isso, esta lei não surge de forma isolada. É uma lei que reflecte sobretudo uma dinâmica em que assistimos durante esses últimos anos: uma dinâmica interna, política e de sociedade... a sociedade também. A sociedade senegalesa está a meter uma pressão enorme sobre o poder político, onde questões de identidade cultural e de soberania, face às influências externas. Porque a sociedade senegalesa considera, por outro lado, que a questão da homossexualidade é um fenómeno que lhe é imposto pelo mundo ocidental. Então, isso vai frequentemente mobilizar debates políticos e societais. Por isso, pronto, esse endurecimento é, ao mesmo tempo, uma pressão da sociedade, do mundo, das associações religiosas conservadoras e também uma promessa. De associações muçulmanas, essencialmente porque o país é sobretudo muçulmano ! Mas não temos esse problema de religião. Penso que talvez são associações, não é a religião muçulmana. O Senegal não começou em 2026, não é? Então há sempre essas associações. Ultimamente tiveram muita força na sociedade e começaram a influenciar as decisões políticas. Podemos dizer isso. Mas não é a questão de ser um país maioritariamente muçulmano. Como reagem as organizações de defesa dos homossexuais na lusofonia africana? Ouvimos a este respeito o Roberto Paulo, director executivo da Associação Moçambicana Lambda, que se diz chocado com esta revisão legislativa senegalesa.   Estamos chocados. São daquelas situações que nunca imaginámos e que de repente podem acontecer. Porque, apesar dos pesares, o Senegal é uma grande metrópole aqui, ao nível da África e parecia-nos que, apesar dos desafios que sempre houve, havia alguma janela para o respeito pelos direitos humanos. Isto é uma grande preocupação. Deveria alarmar a comunidade internacional e a todos os seres humanos, porque estamos a falar de dignidade. Estamos a falar de respeito pelos direitos humanos. E como sabemos, os direitos humanos são unos, são indivisíveis e cada ser humano merece a dignidade, merece e deve ser respeitado como ser humano. Isto é preocupante e é triste. É um alerta no sentido de que estamos a ter estes movimentos contra direitos humanos cada vez mais enrobustecidos. Porque se houve esta votação por unanimidade, significa que houve algum trabalho anterior a isso. E seguramente que houve movimentos que estiveram por detrás deste trabalho preparatório que culminou com esta votação por unanimidade. E isso aumenta o nível de preocupação, porque não é razoável que num parlamento com vários deputados não haja pelo menos alguns deles com bom senso. E a percepção sobre o respeito pela igualdade, o respeito pela dignidade humana. Isto é um sinal extremamente preocupante e nós estamos a viver um momento muito difícil. Cada vez mais estamos a sentir que a questão dos direitos humanos, de um modo geral, e os direitos LGBT estão a ser combatidos. Estamos a assistir a programas que sempre existiram para a promoção dos direitos LGBT a serem terminados. Estamos num momento muito difícil e gostaríamos, sinceramente, de apelar à comunidade internacional para que repense sobre este rumo que a humanidade está a tomar, no sentido de assegurar que, mais uma vez, a dignidade humana seja respeitada.   Mas acha então, que os parceiros internacionais do Senegal devem também tentar pesar no debate e eventualmente, ameaçar o Senegal com sanções, a propósito da aprovação deste dispositivo ?   O que nós estamos a dizer: qual é o canal, qual é o caminho que vai ser usado para materializar isso? Bom, os acordos bilaterais, os estados ou governos têm as suas regras, mas o que nós, neste momento, estamos a exigir é que a questão do respeito pela dignidade da vida humana seja colocada em primeiro plano. E que encontrem as formas que se mostrarem as mais apropriadas. Mas é importante chamar à razão e apelar para que os políticos senegaleses coloquem em primeiro lugar a dignidade humana. E aí tudo aquilo que for necessário fazer para que esta pressão ocorra e os direitos humanos da comunidade LGBT sejam respeitados.
Festival de cinema português "Olá Paris" contou com filme humorístico sobre a morte
2026/03/11
A segunda edição do festival de cinema português "Olá Paris" teve lugar de 6 a 8 de Março. Um leque de filmes incluindo várias ante estreias, caso de "Sonhar com leões" de Paolo Marinou Blanco. Uma doente em fim de vida acaba por conhecer um jovem, supostamente também em fase terminal, para tentarem conseguir por termo ao seu sofrimento. Um registo cheio de humor de um tema tão sério, misturando um valor muito consagrado do cinema brasileiro, Denise Fraga, com talentos portugueses e também espanhóis. O realizador Paolo Marinou Blanco começa por nos contar como decorreu a projecção neste certame parisiense. Foi super positivo. Realmente a reacção que tivemos não houve assim muitas perguntas. Acho que foi mais a nossa comunidade [de cineastas] que fez perguntas, mas depois, à saída, muitas pessoas claramente conectaram com o filme e foram afectadas pelo filme. Isso é sempre o que se procura. Um filme que vai pegar em coisas muito sérias, que são, por exemplo, a morte, e que ainda por cima acaba por meter Portugal, Espanha, o Brasil numa mesma aventura. Tem muito que ver com a eutanásia e o fim de vida. Qual foi o mote deste projecto? A origem foi uma experiência pessoal de vida que foi dolorosa e da minha família. Portanto, especificamente a morte do meu pai, mas também a crença que temos que abordar as coisas mais difíceis de uma maneira mais original ou inusitada, para que as pessoas ouçam de alguma maneira e para que baixem as defesas, e daí a escolha do humor como abordagem a este tema. O actor João Nunes Monteiro, que já colaborou com os cineastas lusos Miguel Gomes ou João Nunes Pinto, por exemplo, comenta como foi contracenar com a estrela do cinema brasileiro, que é Denise Fraga.   Trabalhar com a Denise foi incrível. Não é todos os dias que podemos trabalhar com alguém que tem tanta experiência e que na verdade tem uma grande disponibilidade, porque a Denise basicamente pegou na minha mão e fez com que este trabalho fosse colaborativo. Na verdade, acho que desde nos ensaios. Acho que é uma postura que ela tem, que é muito admirável, que é muito fácil de admirar, porque na verdade é assim uma espécie de luz também para o que pode ser o meu caminho ou um possível caminho, não é? De como agir nas situações de trabalho, que é ter uma atitude muito colaborativa e de querer participar na construção com toda a nossa atenção, com potencializar das ideias, seja do realizador ou realizadora de Com tudo isso. E, portanto, foi um grande privilégio, na verdade, isso. Isso vai ficar marcado e também a humildade dela. Acho que isso é mesmo algo que fica. Não é realmente uma pessoa, nem sempre precisa de ficar segura naquilo que já conquistou, que na verdade é uma sensação muito clara na nossa profissão. Mas com a Denise fica ainda mais presente.   O Paolo já fez referência ao facto de ser um drama pessoal que tem que ver com a morte e com a morte do pai. Você aqui trata e de que maneira, também deste tema, morte... Para se projectar e para a sua personagem, perguntar-lhe-ia em que medida é que, de facto, a morte lhe ocupa também a mente ?   Parece-me. Estamos aqui num sitio, se calhar um pouco pantanoso, mas vamos a isso ! Eu acho que apesar de tudo, dançar com a idéia da morte, acho que até pode ser algo saudável. Acho que haver este sítio em que em que compreendemos que a morte é uma realidade, pelo menos que eu saiba, inevitável que vai acontecer... Tê -a presente e tê-la presente como uma possibilidade também de direito de ser eu a convocá la. Parece uma coisa saudável. Claro, não estou a fazer nenhum apelo a qualquer ideia suicida, mas saber que o fim, que o tormento, que o sofrimento. Na verdade, se formos a Shakespeare e Hamlet, está lá, também está lá. Nisto não é numa das leituras que se faz do pior. Não é, portanto, dançar com a ideia da morte? Para mim parece me saudável e é uma coisa que eu acho que faço e, portanto, é um tema muito, muito tentador e que na verdade eu acho que se sai quando se pensa na morte, quando se pensa naquilo que é. Eu acho que se sai mais fortalecido na nossa identidade.   E como é que foi então? Como é que tem sido o percurso do filme a nível internacional? Já passaram também por outros festivais? Pode dar nos um pouco o eco do que o meu tem estado a ser acolhido? Sim, portanto. Já estreou em Tallin, na Estónia, no final de 2024 e desde então já teve no México, no Brasil, na Alemanha, no Reino Unido, até na Arábia Saudita. Mostraram o filme e a recepção tem sempre sido muito positiva. Sempre. Eu acho que há uma certa catarse. De alguma maneira, as pessoas de serem permitidas, de rir de uma coisa que obviamente assusta-lhes a elas e a nós todos. Portanto, acho que isso tem sido... E ao mesmo tempo serem induzidas a reflectir um pouco, mas de uma maneira não didática ou demasiado pesada. Portanto, acho que a recepção tem normalmente sido essa que é. Obrigado por me fazer pensar sobre isto desta maneira. E também nos cinemas, sobretudo no Brasil, mas também em Portugal. Foi distribuído Portugal, Brasil e Espanha e vai ser distribuído no México ano que vem, acho eu. Mas a recepção tem sido, sobretudo no Brasil, muito positiva. Também um pouco polémica às vezes, mas muito positiva, porque... O hilariante e o emocional acabam por se misturar com alguma frequência. Sim, concordo com essa frase, mas não é por causa disso que tem sido polémico. Os avanços legislativos... Você fazia referência aos avanços legislativos em Portugal, nomeadamente nesta área da eutanásia?   Sim, mas em termos... No Brasil foi polémico porque houve, por causa desta questão do suicídio, ou seja, não diferenciar a questão do direito à morte em casos de doença terminal e o suicídio, que são duas questões completamente diferentes. Mas, portanto, no Brasil, às vezes havia um certo overlap dessas questões que tivemos que clarificar e isso causava uma certa polémica. Ao mesmo tempo, eu acho que isto toca em assuntos muito dolorosos e, portanto, mesmo se é através da comédia e há pessoas que aceitam isso e outras que rejeitam um pouco, que é natural, não é sem julgamento.   É muito cinema português. Ao longo de dois dias e meio está a conseguir aproveitar também a sua estada cá em Paris para ver outras propostas das quais já ouvira falar, mas se calhar não tinha visto na integra. Exactamente. Exactamente. Tem sido fantástico nesse sentido. Portanto, vi dois filmes portugueses incríveis que estou muito feliz que eu vi e vou agora ver outro logo a seguir ao nosso, que estou muito entusiasmado. Vou ver. Portanto, é uma grande oportunidade. E você, conseguiu ver alguma coisa? Vai ver alguma coisa também? Não, ainda não consegui, mas queria só aproveitar para dizer que eu achava quando o Paolo me fez o convite para fazer o filme quando estávamos a rodar, que o filme ia ter um problema que era quando ele estreasse. Na verdade, a questão da morte medicamente assistida ia ser um projecto que entretanto já ia estar legalizado em Portugal. O que é verdade é que passado três anos isso não acontece. E é uma discussão que está cada vez mais longe e que temos até uma ideia de recuo em relação a isso. Portanto, há temas hoje em dia que parece que estão um bocadinho mais longe do que estavam de serem sequer debatidos no espaço público do que estavam há três anos atrás. Ou seja, as conquistas sociais não são adquiridas e muitas vezes, se calhar pode se recuar em relação a isso.   Não são de todo. Podem sim recuar e podemos ver direitos que estavam garantidos, se calhar há 20 anos... Se pensarmos o casamento entre pessoas do mesmo género. O que está a acontecer agora é que mesmo estas pequenas lutas que levaram imenso tempo em Portugal, levaram anos e concordâncias muito difíceis de fazer, mas que se fizeram no Parlamento. Vemos que elas de repente são assim um bocadinho que varridas para debaixo do tapete, Passam. Isso é um bocadinho preocupante porque quero dizer que não é só o problema do recuo. Não é só esse fantasma que é presente, que está presente e que é possível. É também o não avanço. E às vezes ficamos muito assustados com o recuo, não é ? Com uma ideia que é presente de autocracia ou seja o que for, mas não podemos nos contentar com esse, com o recuo não aconteça. E também lutar um bocadinho pelo avanço.   Instantâneos da reportagem da RFM no Festival Olá Paris Festival de Cinema Português em torno da antestreia do Sonhar com Leões, um filme de Paulo Marino Blanco com nomeadamente o actor João Nunes Monteiro. Foram eles que nos revelaram um pouco desta sua longa metragem.
Israel: Padre católico cabo-verdiano tenta deixar Jerusalém
2026/03/04
Israel e o seu aliado americano desencadearam no sábado uma guerra contra o Irão. Desde então o território israelita é alvo, também, de ataques tanto por parte do Irão como da milícia xiita libanesa do Hezbollah. Uma instabilidade que leva à fuga de populações a partir do Estado hebreu. É o caso do clérigo cabo-verdiano Ricardo Monteiro que equaciona deixar Israel e Jerusalém quanto antes. O padre Ricardo Monteiro, da diocese cabo-verdiana do Mindelo chegou a Jerusalém há quatro meses para prosseguir os seus estudos. Com o desencadear da guerra israelo-americana contra o Irão e consequentes retaliações de Teerão, mas também da milícia xiita libanesa Hezbollah este clérigo católico admite que desde o fim de semana passado tudo mudou no terreno e, por ora, tenta deixar quanto antes esta região do mundo. Até aqui tudo mudou, realmente. Estávamos numa rotina. Não obstante o ambiente que já sabemos que é próprio desta zona de tensão. Mas sabíamos que qualquer hora e momento poderia começar uma guerra entre esses países. Porém, tudo mudou porque com as sirenes das 08h15 do sábado, tivemos que suspender todos as actividades ordinárias. No meu caso as aulas, e nos manter em casa vigilantes por causa do início da guerra. Porque de imediato se lançou as informações necessárias e se decretou o tempo de emergência e portanto se disse que a guerra tinha começado. Portanto, temos que tomar as devidas precauções. Pessoalmente, fiquei apreensivo e não sabia bem o que fazer, se tinha que me ausentar do país, se tinha que ficar. E assim as pessoas não sabiam o que fazer no momento. Entretanto, agora, com o andar do tempo, vemos que a guerra continua. Os ataques continuam quase a toda a hora. E realmente o aconselhável é que quem puder também sair dessa região que saia. E é, portanto, suspender as coisas porque não se sabe até quando. Gostaria de fazer. Gostaria de sair, pelo menos por uma fase. Daí, de Jerusalém, para ficar em porto seguro ? Sim, sim. Normalmente estou a tratar de tudo para que eu possa realmente ausentar e normalmente já está tudo tratado com a embaixada. Espero somente do dia e da hora para podermos sair do país. Porque o espaço aéreo continua encerrado. Portanto, se tiver de sair de Israel terá de ir, imagino, por via terrestre até o Egipto, até um território vizinho, não é? Exactamente. As duas possibilidades são Egipto ou Jordânia, que estão abertas ainda As fronteiras terrestres que se pode ser não se podem entrar, mas se pode sair para poder apanhar o voo, a partir desses países. Mas o mais provável neste momento é o Egipto. Vamos ver se tudo se orienta por este lado. Ouve-se falar muito de alertas devido a mísseis que podem vir a ser interceptados. As pessoas é suposto irem para abrigos. Como é que é o dia a dia então do refúgio? No caso destes muitos ataques e de estarem a tocar as sirenes? Exacto. Normalmente, quando há a aproximação de um míssil justamente aqui em Jerusalém, as sirenes tocam. Tu recebes de imediato uma mensagem de alerta no teu telemóvel para quem tem o número de Israel. E de imediato tens que estar atento. Normalmente na aplicação também de alerta, podes ver mais ou menos onde irá cair os restos do míssil interceptado. Portanto, algumas regiões, algumas casas mais oficiais se presume que têm bunkers já previstos. Ou também para a população também está dividida em zonas. Os bunkers estão já preparados. Eu até agora não tive nenhuma necessidade de recorrer a esta alternativa porque em nenhum momento restos de mísseis ou mesmo mísseis caíram perto ou na zona onde estou por causa da prevenção. Eu estou numa zona muito segura e, portanto, não tenho tido essa necessidade. Mas isto é tudo disponível, está tudo muito organizado. As autoridades municipais e temos todas as informações em caso de perigo; o que fazer? Os israelitas ou as pessoas que moram em Israel assistiram ao desencadear desta guerra? O que é que eles lhe dizem. Acha que as pessoas estão a apoiar de facto, as autoridades que decretaram a guerra contra o vizinho Irão ? Sendo que, por o terem feito a milícia xiita do Hezbollah a partir do Líbano, está atacar também Israel. Portanto, ao fim e ao cabo, Israel está a ser avisado por dois actores simultâneos. Sim, normalmente aqui em Israel temos essas duas partes, pessoas que apoiam e que são a favor destes ataques e pessoas também que não aceitam ou que são contra esses ataques. Vamos encontrar isso mesmo entre os hebreus mais ortodoxos. Existe sempre essa divisão. Aqueles que apoiam esta guerra, que apoiam, que acham justa esta intervenção, outros que nem por isso. Que acham que isso é um exagero, que estamos a criar conflito com outros países. Mas nesta região sempre é uma característica. Ao longo dos séculos, sempre. Esta zona foi uma zona de conflito e Israel já está habituado. E as pessoas aqui estão, vêm isso de forma natural. Como eles enfrentam essa crise, enquanto nós, que somos estrangeiros. Estamos um pouco espantados e procurando meios e estar sempre alerta. Eles não levam uma vida normal. Você tem que ir na rua. Você tem que fazer alguma coisa. Fazem porque já estão habituados. E estas fronteiras já desde o ano passado sabíamos desde aquele conflito de fronteira com o Líbano. Eu tive a oportunidade, no mês de dezembro, de visitar estas zonas perto do Líbano e da Síria. São zonas mesmo perigosas porque mesmo antes de esta guerra já existiam conflitos. O conflito nestas zonas é permanente e, portanto, são zonas que às vezes nós não damos conta. Mas está lá o conflito. E agora sim, com o contexto assim favorável, aproveitam sempre para intensificar e poder também atingir um ao outro. Porque esses dois países fazem fronteiras, não são amigos, não têm relações. Acha que a mesma perceção para muitos israelitas, que o inimigo, mesmo existencial, é o Irão e que, portanto, seria necessário de facto visar o Irão por o Irão pretender mesmo acabar com o Estado de Israel ? Na minha humilde opinião, é aquilo que eu fui ouvindo essa inimizade existir. Este perigo é algo que sempre é patente. Existe porque não são amigos, porém acreditamos. Muitos aqui já são mais esclarecidos. Sabem que por detrás desta razão, existem muitas outras razões a nível político, social, económico mesmo. E também agora nesta situação, porque sabemos que neste momento, daqui a pouco vamos entrar no tempo das eleições aqui em Israel. Tudo isso serve um pouco para apresentar um novo panorama e, portanto, acredito que há muita coisa por detrás. Só vindo aqui e conhecendo as realidades é que se pode compreender parcialmente essa história, porque é muita coisa complicada e sabemos que o Irão. Sim, é um perigo para Israel. E sabemos também que Israel não ama o Irão porque sempre Irão se posicionou contra o estado hebraico. Porém, as formas e os contornos que isso vai tomando é que reflecte mais a intenção do indivíduo que guia o país do que a intenção do povo que representa este país. Porque muitos sectores receiam de facto uma invasão terrestre do Líbano por parte de Israel, já que as autoridades do Líbano não conseguem de facto impedir que o Hezbollah continue a disparar mísseis contra Haifa, nomeadamente. Acho que aí em Israel as pessoas acham que enviar tropas para o Líbano poderá vir a acontecer ? Eu acredito que com o andar do tempo isso poderá acontecer, porque tem uma razão que eles alegam. Os hebreus alegam que é uma razão de base, que acho que é muito frágil, mas eles assumem essa posição porque biblicamente, a Terra prometida aos hebreus realmente vai para além da fronteira que Israel tem. Vai para além, vai até ao Líbano. Portanto, acreditam que esse território é deles, que foi usurpado e, portanto, vão usar sempre esse critério para o realizar. Mas é um critério frágil, porque, mesmo biblicamente estudando, vêmos que esse território nunca foi uniforme. Sempre houve conflitos aqui. Às vezes ia até um certo sítio, outras vezes não, dependendo dos líderes e, portanto, não é de todo sustentável. Porém, é o que eles querem mesmo alargar cada vez mais esse território. Entramos na lógica de "a galinha, o ovo. Quem é que chegou primeiro" ? Foram os palestinianos, foram os judeus ? Exactamente. É toda uma dinâmica bastante perigosa. Esteve aí quando havia ainda a questão do conflito, também na Faixa de Gaza. Nessa altura já era complicado aí a situação ? Sim, eu cheguei, já isto tinha acontecido, já tinha Faixa de Gaza. Eu cheguei em outubro do ano passado. Ainda estava quente porque nunca cessou os problemas na Faixa de Gaza até agora. Encontrámos militares naquela fronteira. Nós não podíamos acessar aquela terra aqui, por exemplo, o Patriarca de Jerusalém já lá foi, com todas as tratativas diplomáticas necessárias e sempre que ele traz notícias, um pouco devastadoras, porque realmente aquela zona quase que já não existe, está totalmente destruída. Continua a lançar aquilo que podemos dizer ofensivas aquele território. E eu quando cheguei, ainda encontrei isso. E ainda existe. Ainda é patente essa história, infelizmente. E o que tem? Porque enquanto existir o Hamas, enquanto existir esse poder, eles estarão sempre lá a defender aquelas fronteiras. E contra o Estado de Israel. Dizia que vai tentar de facto sair. Como é que equaciona o seu futuro? O senhor estava de facto a estudar. Precisaria de concluir os seus estudos, portanto imagino que precise prazo de voltar para aí, não é? Exactamente. Normalmente as aulas estão suspensas. A minha missão aqui é o estudo e também o contacto com as zonas bíblicas. Portanto, estando tudo suspendido por um tempo indeterminado e dado o risco que existe... Nós vivemos aqui normalmente, mas acredito que a iminência do perigo sempre está.
“Percursos Clandestinos Antifascistas”: A história de uma família que lutou contra a ditadura portuguesa
2026/01/28
O livro “Percursos Clandestinos Antifascistas” conta a história de uma família que lutou contra o fascismo em Portugal, durante a ditadura do Estado Novo. As memórias foram escritas por Gonçalo Ramos Rodrigues, hoje com 93 anos, mas que tinha apenas nove quando entrou na clandestinidade com os pais e os irmãos. “Este livro fala de um período em que eu vivi na clandestinidade”, começa por contar Gonçalo Ramos Rodrigues, na sua casa, na zona de Paris, pouco tempo depois de publicar “Percursos Clandestinos Antifascistas”. A conversa sobre este livro e a sua publicação estavam prometidas há quase dois anos, quando Gonçalo recebeu a RFI para nos contar a sua história, no âmbito dos 50 anos da Revolução dos Cravos. “Percursos Clandestinos Antifascistas” conta a história de uma família que se dedicou totalmente à luta contra o fascismo em Portugal, durante a ditadura do Estado Novo. As memórias foram sendo escritas por Gonçalo, hoje com 93 anos, mas que tinha apenas nove quando entrou na clandestinidade com os pais e os irmãos. A luta começou por ser feita em casas e tipografias clandestinas, pilares da luta do partido comunista, primeiro em família e depois separados e sem notícias uns dos outros para não comprometerem ninguém. O irmão viria a ter a sua própria tipografia clandestina, uma irmã viria a ser a locutora principal da Rádio Portugal Livre, a outra a voz da Radio Moscovo. Os pais acabariam denunciados e passariam anos nas prisões de Caxias e de Peniche, enquanto Gonçalo daria o salto para Paris. “Estes episódios foram escritos para que os meus netos, quando tivessem já idade de reflectir nestas coisas, pudessem saber que o avô também participou na luta pela liberdade em Portugal porque nunca foi minha intenção e não me passou pela cabeça ser publicado”, conta. O livro foi mesmo publicado com o apoio da Câmara Municipal de Loulé, o concelho do Sul de Portugal de onde ele e a sua família são oriundos. O trabalho é também uma homenagem aos pais e à sua abnegação na luta pela liberdade. Gonçalo Ramos Rodrigues começa por contar que foi em 1951 que os pais entraram na clandestinidade com os seus quatro filhos, depois de terem vendido a casa construída com as poupanças feitas em França e de terem oferecido esse dinheiro ao Partido Comunista. Com os pais, passou 12 anos na clandestinidade, a viver em casas e tipografias clandestinas: editaram jornais do partido, como o “Avante”, o “Militante”, “A Terra”, o “Corticeiro”, e outros materiais; abrigaram camaradas e acolheram reuniões do partido proibido pela ditadura. Mais tarde, em 1963, quando já não estava com os pais, estes foram presos pela polícia política. Manuel, o pai, passou sete anos no Forte de Peniche. A mãe, Lucrécia, esteve seis anos e meio em Caxias. Foi só em 1966, já em Paris, que Gonçalo passou a conhecer o paradeiro dos pais, graças a um camarada do partido que conheceu nos bastidores da festa do jornal comunista Humanité. “Olha, os teus pais estão presos desde 1963. O teu pai está em Peniche e a tua mãe está em Caxias”, revelou-lhe o camarada. “Imagine-se o quanto este episódio me entristeceu e, ao mesmo tempo, me encorajou para lutar pelos ideais que os levaram à prisão”, recorda à RFI. O motivo de detenção de Manuel e Lucrécia era serem “membros e funcionários do PCP” e por exercerem as chamadas “actividades delituosas contra a segurança do Estado”. Ou seja, por imprimirem materiais com palavras de ordem para as lutas que os comunistas organizavam contra o regime de Salazar. Ao longo das páginas do seu livro, Gonçalo remonta aos tempos em que lutou com os pais, desde as casas que eram “pontos de apoio” para os camaradas comunistas na clandestinidade, às tipografias clandestinas. Descreve que “mentir era uma arte” num dia-a-dia em que se vivia com falsas identidades e se mudava constantemente de casa, em que de dia se trabalhava na quinta e à noite na tipografia. “Já tinha 14 anos e a minha irmã mais nova tinha nove. Os dois, mesmo crianças, éramos os principais, digamos, compositores. Chamava-se compor os textos com as letras de chumbo que depois eram inseridas no prelo para impressão (…) Era eu quem sabia melhor o português de todos os da casa porque o meu pai quase não sabia ler, a minha mãe só aprendeu a escrever na prisão de Caxias, quando esteve seis anos presa, e a minha irmã ainda menos sabia. Quem corrigia os textos, as gralhas, tudo o que havia, era o Gonçalo”, lembra, ainda, à RFI. A repressão e a detenção de camaradas obrigava a intensos “cuidados conspirativos” e Gonçalo foi depois viver sozinho em diferentes cidades. Aos 24 anos foi “a salto” para França, onde militou na Comissão de Solidariedade aos Presos Políticos e participou nas brigadas de distribuição de propaganda e de recolha de fundos para ajudar os que estavam nas cadeias da ditadura portuguesa. Em Paris, foi várias vezes interrogado por funcionários da então DST, Direcção de Segurança Territorial – equivalente aos serviços de informações – que conheciam o seu percurso de opositor político ao regime português. Por terras de França, a luta fez-se ao lado da esposa, Maria do Céu, com quem deveria ter casado em Maio de 68, mas as greves e manifestações históricas desse mês adiaram a boda que aconteceu em Junho, mas ainda com gases lacrimogéneo a apimentar a história. “Mesmo depois de chegar aqui, em Janeiro de 1966 até ao 25 de Abril de 1974, estivemos sempre na brecha, sempre na luta em tudo o que aqui se fazia contra o regime em Portugal. A minha companheira sempre me acompanhou durante todo este período, trabalhou muito mais do que devia porque eu estava sempre ocupado com reuniões infindáveis e quase diárias. Ela trabalhava também e tínhamos uma filha e ela carregava com o trabalho todo da casa e ainda quando podia, ela assistia a tudo o que era manifestações de rua e debates que se faziam aqui em França até ao 25 de Abril, até ao dia em que a gente acordou ainda sem saber se estávamos livres, mas já com uma grande esperança de estarmos livres.” Cinquenta e dois anos depois do 25 de Abril de 1974 e do fim da ditadura do Estado Novo, o livro “Percursos Clandestinos Antifascistas” recorda os tempos sombrios da perseguição política, da miséria, da prisão e da tortura de quem lutava contra o fascismo e ansiava pela liberdade. O livro é também um alerta perante a subida histórica da extrema-direita meio século depois em Portugal.
Uma viagem a Moçambique imaginada para estimular a língua portuguesa no Mundo
2026/01/22
A Associação Internacional dos Luso-descendentes, em parceria com a editora Leya, promoveu mais uma edição do concurso literário para jovens “As minhas férias” e o destino foi este ano Moçambique. Concorreram quase 150 jovens que aprendem português, com muitos textos a chegarem do Brasil, Macau, Angola, Reino Unidos, Luxemburgo e de França. No fim de semenaa passado decorreu em Paris, na Casa de Portugal, a entrega dos diplomas em duas categorias, já que concorreram jovens dos 8 aos 18 anos. Os jovens falaram nos seus textos sobre a herança colonial em Moçambique, mas também da preocupação com a preservação da natureza no país e das condições de vida dos moçambicanos que deixam ainda muito a desejar após 50 anos de independência. Sara Novais Nogueira, que em França está a levar a cabo o projecto Literanto, que visa promover a literatura e a língua portuguesa junto dos mais jovens, integra a Associação Internacional dos Luso-descendentes e foi júri deste concurso. "Uma forte componente também foi a questão ambiental. E essa preocupação com o preservar o ambiente. E também a questão da desigualdade social foi patente em vários textos com essa preocupação do facto de eles verem também um país tão rico em certas coisas, mas tão pobre noutras essenciais. E acho que isso também nos tocou de certa forma e levou a que nós também fôssemos tocados por essa sensibilidade que eles mostraram ter", explicou a organizadora. Esta foi a quarta edição deste concurso, que no ano passado teve Angola como inspiração para as histórias dos jovens lusófonos. A ideia, como nas edições anteriores, é fazer os jovens falantes de português viajar na sua imaginação - já que na maioria dos casos os participantes nunca foram fisicamente a Moçambique - e leva-los a estudar e descobrir este país que pertence à lusofonia "Puderam fazer uma viagem que não foi física, mas foi uma viagem histórica, uma viagem de memória e, sobretudo, de imaginação. Eles puderam então conhecer um bocadinho desta cultura. Surpreendeu-nos a qualidade dos textos que, de facto, têm vindo a ser muito superior de ano para ano. Nós vemos cada vez mais os textos com mais qualidade. Eu penso que também alguns dos alunos acabam por participar mais do que uma vez. E surpreendeu-me a capacidade deles de fazerem esta viagem imaginária e poderem conhecer de facto a história, a cultura e trazerem-nos também a nós nessa viagem. Foi muito difícil escolher os vencedores porque a qualidade era imensa e mostra -os, acima de tudo, que esta nova geração que fala português, são uma geração multilíngue, uma geração pluricultural e que se engaja realmente nesta cultura portuguesa", concluiu Sara Novais Nogueira.
Peça de teatro infantil moderniza legado de figura mítica da cultura muçulmana
2026/01/15
O espectáculo de teatro e música “Nasr et Dinn, Deux Idiots Sublimes”, em português “Nasr e Dinn, Dois Idiotas Sublimes”, é o mais recente trabalho da actriz e encenadora Valérie da Mota, em parceria com Romans Suarez Pazos. Esta é uma peça de teatro infantil criada a partir das histórias de Nasreddine Hodja, uma figura mítica da cultura muçulmana, muito popular no Médio Oriente, que vai dando lições de vida, através de muito humor. Nesta adaptação, a personagem divide-se num duo travesso e tem também uma divertida e insolente versão feminina, interpretada por Valérie da Mota. Aqui ri-se de tudo e também se pode brincar com a religião, numa viagem metafórica sobre a tolerância e a aceitação dos outros e das suas diferenças.   Os “dois idiotas sublimes” viajam por terras e mares, do Magrebe à Galiza, à China ou à Mongólia, sempre acompanhados por um violino, música, histórias e desenhos dos cenários por onde passam, que vão sendo realizados e projectados no pano de fundo do palco. “Nasr e Dinn, Dois Idiotas Sublimes” vai estar no Festival OFF de Avignon de 3 a 26 de Julho. Três anos depois de termos encontrado Valérie da Mota no Off de Avignon, com a peça “Marion 13 ans pour toujours”, fomos ver esta sua nova peça no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, a 10 de Janeiro, e estivemos à conversa com a artista. “O espectáculo é baseado nas histórias de Nasreddine Hodja, uma personagem muito conhecida em todo o Magrebe, no Médio Oriente e também até à China, até os países do Leste, mas aqui em França não é tão conhecida. É pena. É por isso que nós tínhamos esta vontade de fazer este espectáculo para dar a conhecer estas histórias muito antigas”, resume Valérie da Mota. A artista sublinha que quiseram fazer “uma adaptação moderna destas histórias” e transformar o mítico mestre também numa mulher que representasse “a liberdade de actuar, de falar e a insolência”. Por outro lado, também quiseram mostrar que se pode rir, mesmo quando se fala de religiões, um assunto sensível em França. Valérie da Mota faz questão de lembrar que “o teatro é uma ferramenta” que permite provocar o diálogo e a abertura para abraçar outras culturas.
São Tomé e Príncipe, nos 50 anos da independência um país entre conquistas e desafios
2025/12/15
O último semestre de 2025 trouxe a São Tomé e Príncipe a qualificação de todo o seu território como reserva da Biosfera e ainda a classificação da representação teatral Tchiloli como Património Cultural Imaterial da Humanidade. No entanto, o país continua a enfrentar desafios entre a vaga de emigração e o mistério à volta do desaparecimento do processo do 25 de Novembro de 2022.   São Tomé e Príncipe celebrou este ano os 50 anos da sua independência. A RFI esteve em São Tomé e Príncipe para falar com os são-tomenses sobre este meio século de autonomia, as conquistas, mas também o que ficou por realizar.  Em Julho de 2025 emitimos nas nossas antenas, e pode também ainda ouvir na internet, um especial sobre os 500 anos da história deste arquipélago, assim como o domínio colonial e a passagem à constituição de um Estado são-tomense. Alguns meses depois destas emissões, vamos revisitar alguns dos temas desse especial e dar conta do que se passou entretanto. O primeiro país reserva da biosfera da UNESCO Entre florestas verdejantes, rotas de nidificação de tartarugas e paraíso dos ornitólogos, a beleza e riqueza natural de São Tomé e Príncipe não é nenhum segredo, mas até agora só uma parte - a ilha do Príncipe - era reconhecida pela UNESCO como reserva da biosfera. Em Setembro, e após uma candidatura de vários anos, também a ilha de São Tomé, especialmente a grande floresta chamada Ôbo, foi reconhecida como reserva da biosfera, transformando o país no primeiro Estado no Mundo a ser completamente abrangido por esta denominação. Algo inédito, mas impulsionado pelo "trabalho exemplar" feito no Príncipe, como explicou António Abreu, director da Divisão de Ciências Ecológicas e da Terra na UNESCO, disse em entrevista à RFI no mês de Setembro. "É algo inédito, mas muito interessante. Durante 12, 13 anos, era apenas a ilha do Príncipe, que é de facto uma reserva da biosfera exemplar e onde, apesar dos problemas estruturais e de ser uma região ultraperiférica marítima num país em vias de desenvolvimento. Há um sucesso não só ao nível da conservação da natureza, mas também o impacto que teve na promoção do crescimento económico, da demonstração de que há alternativas viáveis em relação à exploração e utilização sustentável dos recursos naturais fez com que a ilha maior, São Tomé, também encarasse essa perspectiva. Teremos o primeiro país, mesmo sendo pequeno, integralmente reserva da Biosfera. O que demonstra que o modelo das reservas da biosfera não tem limites exclusivamente nas reservas da biosfera", disse o alto funcionário da UNESCO. Este alargamento da reserva da biosfera a São Tomé vem estabelecer uma escolha estratégica do país para o seu desenvolvimento futuro, preferindo a conservação do património natural à destruição da floresta. No Sul da ilha de São Tomé instalaram-se há alguns anos plantações de palmeiras tendo como intuito a extração do óleo de palma, uma tendência que deve agora parar de forma a honrar esta distinção da UNESCO. "Em 2008, 2009, a opção do povo do Príncipe, do Governo Regional do Príncipe, em concertação com o Governo nacional, foi optar por uma via alternativa à da monocultura do óleo de palma. Porque a monocultura do óleo de palma tem uma dimensão inicial que pode proporcionar algum rendimento, mas ao fim de alguns anos o ciclo produtivo esgota se. Entretanto, a monocultura ajudou a destruir o potencial, a diversidade ecológica e, portanto, os serviços dos ecossistemas que proporcionam água, que proporcionam abrigo, proporcionam cultura e identidade ao território, acabam por destruir. E, portanto, neste caso, na ilha de São Tomé, o que se espera que possa haver então? Aquilo que nós chamamos uma restauração ecológica, que é uma das funções que as reservas da biosfera também promovem em alguns sítios, tem promovido com muito sucesso e que permitem recuperar alguns erros e algumas decisões que não foram bem apoiadas do ponto técnico e de sustentabilidade", disse António Abreu. O país espera agora a classificação das roças São João, Água-Izé, Monte Café e Diogo Vaz na Ilha de São Tomé e Belo Monte e Sundy, na Ilha do Príncipe, como Património Mundial da UNESCO. A historiadora Nazaré Ceita, que participa neste processo de classificação, considera que mais do que o património, está a salvaguardar-se a memória de todos os são-tomenses. “Quer dizer que há qualquer coisa que se está a passar que é uma valorização da memória? Na verdade, a memória colectiva sobre as roças, que é tão grande que não será apenas para São Tomé e Príncipe, será uma memória coletiva de Cabo Verde, de Moçambique, de Angola e quiçá de outros espaços que nós falamos menos. E a valorização da memória colectiva é muito necessária para a perpetuação da história. E eu acredito que o monumento mais visível que temos para esse efeito é precisamente o conjunto das roças. Será uma forma de criar uma exceção para São Tomé e Príncipe em termos históricos. Hoje é como na UNESCO se diz, quando nós falamos da questão da autenticidade, da exclusividade, do valor universal excepcional, vários países podem ter tudo, mas para São Tomé e Príncipe eu acredito que o valor universal excepcional está precisamente nas roças que nós temos que na candidatura. Aliás, já temos a candidatura preliminar, mas é preciso agora todo um trabalho para a classificação que leva às vezes um tempo. Estamos esperançados. Apesar dos meus 60 anos, eu acredito que eu ainda consiga ver esta classificação mundial” Já no final do ano, também o Tchiloli, uma encenação teatral e musical representada há centenas de anos nas ilhas foi oficialmente inscrita no Património Cultural Imaterial da Humanidade. Emir Boa Morte, director-geral da Cultura e secretário da comissão nacional da UNESCO, lembra que “mais importante que o prémio, é a preservação do Tchiloli” e prometeu uma estratégia de salvaguarda desta tradição. "Nós recebemos este prémio, mas, no entanto, o que é mais importante agora é nós preservarmos. Vai haver aqui uma estratégia para a preservação desse mesmo património cultural imaterial", garantiram as autoridades. Impasse no sector do turismo Com o reconhecimento internacional na conservação da natureza e do património histórico, São Tomé e Príncipe tem todas as potencialidades para uma aposta no turismo que respeite e ajude a conservar o ambiente, mas também seja fonte de rendimento para o país como explicou António Abreu, director da Divisão de Ciências Ecológicas e da Terra na UNESCO. "Outra área também que é demonstrativa é, digamos, o investimento na área do turismo sustentável, em que o modelo que se pratica nas reservas da biosfera é o exemplo e o Príncipe é um exemplo disso. É um modelo de qualidade que oferece uma experiência única e, portanto, oferecendo uma experiência única, baseada nos valores naturais e culturais, o visitante não vai apenas pelo sol e pela praia, mas vai porque vai vivenciar e vai ter a oportunidade de ter uma experiência que é única. E isso em termos de competitividade no mercado do turismo, naquilo que é o mercado global, dá uma vantagem comparativa a estes sítios", explicou António Abreu. No entanto, para ter um turismo sustentável e de qualidade, não aderindo à moda do turismo de massas, são necessários operadores turísticos por um lado capazes de proporcionar estadias e experiências extraordinárias aos turistas e, por outro, que respeitem e preservem a natureza das ilhas. Até agora, o maior operador no país era o grupo HBD, do multimilionário Mark Shuttleworth, sendo também o maior empregador da ilha Príncipe.  Este grupo que gere actualmente a Roça Sundy, a Roça Paciência e os resorts Sundy Praia e Bombom, entre outros investimentos também em São Tomé, instalou-se no país no início dos anos 2010 e desde lá promove também acções a nível social. Entretanto, em Outubro deste ano, após disputas com o governo regional do Príncipe e desacordos com o Governo central, especialmente porque o HBD queria cobrar o acesso dos habitantes locais a praias dos seus resorts, o grupo anunciou que iria abandonar as ilhas. Mark Shuttleworth disse numa carta dirigida ao governo regional do Príncipe que se uma parte das lideranças políticas da ilha pensa que o trabalho do seu grupo é, e passo a citar, “feito de má-fé, com intenções neocoloniais”, o grupo iria retirar-se do país. Em entrevista à RFI, em Julho de 2025, o presidente da região autónoma do Príncipe, Filipe Nascimento, reconheceu o perigo de um possível monopólio e disse, já nessa altura, querer aposta na diversificação de investidores. "Como tudo na vida, temos sempre que lidar com os temas, com todos os cuidados, as cautelas, mas considerar que devemos trabalhar com confiança. E é isso que trabalhamos diariamente para estabelecer a confiança em toda a sociedade ou em todo o mercado, que é na relação, os poderes democráticos e os investimentos, nomeadamente dos empresários estrangeiros, mas também com uma componente muito importante que é a população. Criar as condições políticas para o ambiente de negócio, isto é, o sucesso dos investimentos e, ao mesmo tempo, que haja este benefício para todas as partes, sobretudo para a população, para as metas que as autoridades pretendem almejar. Em que é importante as receitas, a população, o emprego, mas também criar um quadro jurídico legal que regule de forma harmoniosa e equilibrada todas estas relações, que dê, por um lado, garantia de proteção dos investimentos, mas, por outro lado, respeito para não só as regras do mercado funcionarem, como também o respeito da cultura, o ambiente, as pessoas de um modo geral existe, embora no dia a dia as
Segunda edição de salão internacional em Marselha quer criar "laço forte" entre diáspora e Cabo Verde
2025/12/05
O Salão Internacional de Economia e Diáspora de Cabo Verde está de volta e acontece este ano em Marselha. Dina Mendes, empresária franco-cabo-verdiana que organiza este forúm de negócios entre Cabo Verde e a diáspora em França, diz que este é um momento de aproximar todos os cabo-verdianos. Na primeira edição do Salão Internacional de Economia e Diáspora de Cabo Verde, que aconteceu em 2023, em Paris, ficou a ideia de uma segunda edição deslocalizada da capital e que tocasse também outras cidades francesas. Marselha como cidade ligada ao mar surgiu como hipótese e fez todo o sentido para Dina Mendes, já que aqui há cerca de 5 mil cabo-verdianos recenseados nessa cidade e está também junto a Nice, onde a comunidade cabo-verdiana é relevante. Assim, este fórum de negócios, que apresenta empresas e oportunidades de investimento em Cabo Verde decorre este fim de semana, e conta este ano com a participação do primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, e de vários ministros do seu Governo. Estas figuras políticas de relevo vão falar à diáspora sobre a importância de apostarem no seu país de origem e de criarem laços fortes com Cabo Verde. "Esta edição tem como tema investir no futuro e queremos crias um laço forte entre a diáspora e Cabo Verde. Fazer com que a diáspora esteja entre os primeiros actores em matéria económica de promoção e de desenvolvimento sustentável inclusivo de Cabo Verde. É importante que se criem também condições para que cada jovem que tem interesse possa viajar, tenha emprego, formação. A juventude deve ser uma aposta de futuro de Cabo Verde", declarou Dina Mendes. Para animar os dois dias de encontros, também estará presente em Marselha o académico Charles Akibodé, conselheiro do Presidente da República e consultor da UNESCO para o património africano. Haverá ainda altos funcionários cabo-verdianos, autarcas de Cabo Verde e de França, assim como associações representada neste encontro da diáspora em França.

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