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Ilustríssima Conversa

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Rating
★★★★★
4.8
from
19 reviews
Categories
Country
Brazil
This podcast has
224 episodes
Explicit
No
Date created
2018/04/11
Latest episode
2026/10/03
Average duration
52 min.
Release period
15 days

Description

A equipe de jornalistas da Ilustríssima, da Folha, entrevista autores de livros de não ficção ou de pesquisas acadêmicas.

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Letícia Cesarino: Big techs aceleram radicalização intoxicando fantasia e imaginação
2026/10/03
É comum que se diga que o Discord e outras plataformas não são mais que ferramentas tecnológicas, como um carro: se um motorista matar alguém atropelado, a culpa é de quem dirige, não do veículo, que não passaria de um meio de transporte. Para a antropóloga Letícia Cesarino, essa comparação é absurda. O que as big techs oferecem, ela diz, são ambientes, cada vez mais tóxicos, que moldam formas de socialização e identidades —e nesses espaços, crianças e adolescentes, particularmente vulneráveis, estão sendo seduzidos pelo extremismo. Em "Ecologias de Crise", a autora investiga como as plataformas digitais impulsionam espirais de radicalização. O livro discute o papel delas desde o recrutamento de novos membros por comunidades extremistas até a realização de atos de violência. A ideia de ecologia de crise se inspira na obra do antropólogo Gregory Bateson, um dos grandes nomes da teoria cibernética, e concebe o extremismo como uma teia de que participam o modelo de negócio das big techs, o funcionamento dos algoritmos e as trajetórias individuais das pessoas que se radicalizam. Neste episódio, a pesquisadora explica o que a internet plataformizada contemporânea tem a ver com a ascensão de um extremismo que não quer mais implodir uma sociedade vista como degenerada para criar outra das suas cinzas: em muitos casos atuais, o horizonte é só acelerar o fim e produzir ruínas —um cenário de violência pela violência. Cesarino é professora do Departamento de Antropologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e foi assessora do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania em 2023 e 2024. Em 2022, publicou "O Mundo do Avesso". Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
André Singer: Esquerda deve continuar em frente democrática sem deixar de ser esquerda
2026/09/19
Resistir à onda reacionária que avança no Brasil e no mundo, diz o cientista político André Singer, depende de novas formas de organização de classe. Sem o engajamento político dos trabalhadores, o regime democrático tende a se esvaziar e a esfera pública, se dissolver. Essa interpretação é desenvolvida no recém-lançado "Impasse", que propõe que a coalizão formada ao redor de Lula (PT) na última eleição vive uma contradição: a construção de uma frente democrática ampla foi indispensável, mas, por reunir grupos sociais com interesses antagônicos, pode se fraturar. Do lado de cima, estão elites econômicas que defendem um programa de austeridade fiscal e diminuição do tamanho do Estado. Do lado de baixo, trabalhadores que esperavam uma melhoria nas condições de vida como nos primeiros mandatos de Lula, o que demanda mais investimento social, e se frustam com os resultados do governo. Para Singer, o melhor que a esquerda pode fazer nessa conjuntura é se opor à política econômica neoliberal —defendendo a revisão do arcabouço fiscal e a queda dos juros, por exemplo— sem deixar a frente democrática. Nesta entrevista, o pesquisador também aborda os desdobramentos desse impasse na campanha eleitoral, como a oscilação do grupo com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos entre Lula e o Flávio Bolsonaro (PL). André Singer é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e foi porta-voz e secretário de imprensa da Presidência da República entre 2003 e 2007, nos primeiros mandatos de Lula. Ele é autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo", de 2012, uma das obras mais influentes sobre os governos do PT e as transformações da base social do partido. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Renato Meirelles: Mulheres pobres adoram Lula, mas só Michelle fala de igual para igual
2026/09/05
A classe C abarca 107 milhões de pessoas e expressa como nenhum outro grupo as dinâmicas da sociedade brasileira, não só por ser a maioria da população ou por estar no meio da distribuição de renda. Renato Meirelles apresenta esse argumento no seu novo livro, que discute as transformações da classe C nos últimos 25 anos e explora, entre outros temas, os seus hábitos de consumo, as suas inclinações políticas e os seus valores sociais. Em "Brasil da Maioria", ele diz que o conservadorismo da classe C é real, mas muito mais empático com quem tem que lidar com os reveses do dia a dia e avesso a soluções punitivistas. Meirelles, que pesquisa o comportamento das pessoas de baixa renda no Brasil desde o começo dos anos 2000, destaca o pragmatismo político da classe C: a divisão ideológica entre direita e esquerda, ele afirma, é muito menos importante que conseguir encontrar uma creche para os filhos ou ser atendido no posto de saúde. Neste episódio, o pesquisador fala sobre como a classe C concebe a sua prosperidade material, explica o que esse grupo espera do Estado e diz que tanto a direita quanto a esquerda têm dificuldades em entender os desejos dessas pessoas. Para Meirelles, o mau humor atual de boa parte da classe C com a economia brasileira é mais capturado pelo bolsonarismo que por Lula na campanha eleitoral. Por outro lado, pautas como o fim da escala 6x1, que dialogam com a ideia de empoderamento do trabalhador, e o voto das mulheres, que tendem a rejeitar o radicalismo e são mais sensíveis à qualidade dos serviços públicos, favorecem o campo do presidente. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Anita Prestes: Como o anticomunismo deturpou a trajetória de Luiz Carlos Prestes
2026/08/22
Luiz Carlos Prestes foi acusado de mandonismo, incompetência —incluindo mediocridade como estrategista militar— inabilidade política, agressividade, vaidade, personalismo e dogmatismo, além de agente de Moscou. As qualificações são citadas em "Entre Memória e História", o livro mais recente de Anita Prestes, filha do líder comunista e professora aposentada da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). A historiadora, que completa 90 anos em novembro, nasceu em uma prisão nazista antes de Olga Benário, a sua mãe, ser assassinada em um campo de concentração e passou a infância no México e a adolescência na URSS. Depois de um período de exílio na URSS durante a ditadura militar, Anita passou a pesquisar a trajetória política de Prestes e a história do PCB (Partido Comunista Brasileiro), do qual foi uma das dirigentes. Prestes ganhou status de personagem de peso da política nacional muito jovem, nos anos 1920, por ter comandado a coluna que percorreu o interior do país e virou um marco do movimento tenentista. Já a partir da década de 1930, Anita diz, o pai passou a ser perseguido pela adesão ao comunismo e pela filiação ao PCB. Para a autora, as representações do líder comunista costumam distorcer os fatos —ou falsificando ou silenciando a trajetória de Prestes, morto em 1990—, algo que atribui à força do anticomunismo no Brasil. Neste episódio, a pesquisadora fala sobre alguns episódios controversos da biografia de Prestes, como a participação na Intentona de 1935, e discute as concepções equivocadas do PCB sobre a realidade brasileira. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Ronaldo Lemos: IA captura coração, corpo e mente e pode nos emburrecer
2026/08/08
A inteligência artificial e plataformas de big techs tentam capturar a nossa mente, e tantas pessoas —hipnotizadas pela rolagem infinita e pela montanha-russa emocional criada pelas telas— perdem o controle das próprias vidas. No recém-lançado "O Monge, o Iogue e o Faquir", Ronaldo Lemos discute esse cenário a partir da metáfora de uma carruagem desgovernada, em que as suas partes —o corpo, as emoções e a mente— são cooptadas pela tecnologia, o que rompe o equilíbrio necessário para ser bem conduzida. Neste episódio, Lemos fala sobre os três arquétipos do título do livro, inspirados em tradições espirituais da China, da Índia e do Ocidente, e aponta caminhos para cultivar o faquir, o monge e o iogue no interior de toda pessoa. O autor defende que é preciso resistir à guerra do Vale do Silício contra a introspecção e se opõe às ideologias que prometem, por exemplo, que a IA vai criar um mundo de abundância universal. Lemos sustenta que não existem trocas reais entre a IA e os humanos, por mais que as máquinas sejam ótimas ilusionistas e tentem convencer do contrário. Por isso, não ache que uma IA pode ser a sua namorada ou a sua terapeuta. Também não é bom pensar em terceirizar o raciocínio para elas: em vez de virar um super-herói da produtividade, ele diz, é mais provável fritar o cérebro e ficar burro. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Dora Kaufman e Giselle Beiguelman: Criatividade brasileira pode reinventar IA
2026/07/25
A IA  vai dizimar o trabalho dos artistas e acabar com a arte? Ou nunca vai ser capaz de substituir os humanos porque as nossas mentes são, supostamente, excepcionais? Para Dora Kaufman e Giselle Beiguelman discutir as relações entre arte e IA nesses termos não faz sentido. Em "Tecnologias da Invenção", as autoras se recusam a contrapor pessoas e máquinas. Em vez disso, propõem que uma análise mais sofisticada deve levar em consideração que, há décadas, é impossível separar criatividade humana e tecnologia no terreno da criação artística e que a IA, com uma lógica de funcionamento e vieses próprios, muda os termos desse entrelaçamento. O livro traz conversas com artistas e o psicanalista Christian Dunker —os entrevistados falam sobre como usam chatbots e outras aplicações em seu processo criativo—, e as pesquisadoras defendem que a arte com IA não é só uma possibilidade, mas uma realidade atual. Kaufman e Beiguelman lembram que as bases de dados usadas para treinar IAs carregam as marcas do colonialismo e que big techs dos Estados Unidos e da China dominam o desenvolvimento da tecnologia. Ao mesmo tempo, indicam que a IA abre espaço para práticas artísticas que contestam essa ordem social e repensam o mundo de hoje. Na entrevista, as autoras também destacam o horizonte de precarização do trabalho e o papel do Brasil nesse cenário: o país, afirmam, pode se tornar uma fazenda de data centers ou virar a chave para produzir soluções que impulsionem a nossa diversidade cultural. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Djamila Ribeiro: Lugar de fala não se reduz a 'pode não pode'
2026/07/11
Alguém escreve um comentário em uma rede social e logo recebe a resposta: "Você não tem lugar de fala para isso". Afirmações desse tipo se tornaram comuns nos últimos anos. A publicação de "Lugar de Fala", em 2017, é o grande marco desse debate no Brasil, mas a ideia nunca foi proibir que homens ou pessoas brancas e privilegiadas tratassem de outros universos sociais —por exemplo, escrevendo obras de ficção com personagens negros e mulheres. É isso que Djamila Ribeiro, autora do livro, defende neste episódio. A obra acaba de voltar às livrarias em uma edição revista e ampliada. Para a escritora, coordenadora da coleção Feminismos Plurais e colunista da Folha, a popularização do termo foi acompanhada de muitas interpretações equivocadas, como a que reduz a noção a um debate sobre quem pode e quem não pode se manifestar. Na entrevista, Djamila diz que a proposta de lugar de fala é sublinhar as relações de poder que fizeram com que um grupo muito restrito de pessoas pudesse falar e ser ouvido ao longo da história, além de lembrar que outros sujeitos, como intelectuais negras, também produziram um conhecimento que, mesmo indispensável, foi deixado de lado por muito tempo. A autora também faz um balanço do retrocesso da agenda de diversidade e inclusão nos últimos anos e explica por que considera que termo "pessoas que menstruam" ofensivo para as mulheres, tema que lhe rendeu acusações de transfobia. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Jairo Nicolau: Eleitores com ensino médio, mulheres e paulistas devem decidir a eleição
2026/06/27
Tudo muda muito rápido no cenário eleitoral. Os analistas de política, diz Jairo Nicolau, são um pouco como os comentaristas de futebol: especulam sobre o que vai acontecer e, às vezes, precisam voltar atrás. O seu novo livro, "O País Dividido", não escapou totalmente dessa armadilha. O pesquisador diz que, quando entregou o original para a editora, via uma possibilidade de arrefecimento da polarização nas eleições deste ano, algo que agora parece distante em uma disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). No entanto, em vez de se concentrar na conjuntura eleitoral, a obra tem outro espírito. Jairo, professor titular do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV (Fundação Getúlio Vargas), documenta as mudanças demográficas do país e as transformações da base social do PT e da direita entre 2002 e 2022, se debruçando sobre o segundo turno das eleições presidenciais. O trabalho ilumina questões essenciais para entender a evolução do voto no Brasil nas últimas duas décadas. Em relação às disputas de 2018 e 2022, o cientista político mostra a força de Fernando Haddad e de Lula entre as mulheres pretas e pardas, o apoio maciço de homens brancos e escolarizados a Jair Bolsonaro e a consolidação do eleitorado com ensino médio como bastião da direita e da extrema direita. Nesta entrevista, o autor fala sobre as tendências da polarização política no Brasil e, a partir dos movimentos que analisa no livro, diz que as mulheres, as pessoas com ensino médio e os paulistas devem definir quem vai ser o próximo presidente —mas reconhece que isso envolve um tanto de especulação. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Paula Sibilia: Por que desejamos o tempo todo e nunca estamos satisfeitos
2026/06/13
Todo o mundo mente, escreve a antropóloga Paula Sibilia, mas existe uma diferença fundamental entre os hipócritas e os cínicos. Os hipócritas partem da premissa de que existe uma verdade e que devem seguir regras de convívio social —tentam esconder as transgressões porque, no fundo, acreditam que mentir não é certo. Já os cínicos rejeitam completamente essa moralidade: não fingem que respeitam leis ou normas que nunca valeram para todo o mundo e sentem que têm o direito de adotar até discursos violentos —e ainda podem receber aplausos por serem vistos como autênticos ou sinceros. Sibilia, ensaísta argentina e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), recorre às noções de hipocrisia e cinismo para debater a mudança, nas últimas décadas, do solo moral em que a vida social está enraizada. No recém-lançado "Eu Mereço", a pesquisadora se debruça sobre a erosão das engrenagens subjetivas da modernidade e o fortalecimento de uma moralidade consumista e individualista desde os anos 1960, período em que um eu empoderado passou a ser estimulado a desejar o tempo todo em vez de ser reprimido em nome do funcionamento da sociedade. Neste episódio, Sibilia fala sobre o papel das tecnologias digitais nesse processo —que, para ela, são muito mais que só causa ou só reflexo das sociabilidades atuais— e discute os novos tipos de sofrimento psíquico que ganham força no mundo de hoje. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Adriana Negreiros: Dercy Gonçalves foi heroína decolonial pioneira
2026/05/23
Ao ouvir o nome Dercy, uma imagem costuma vir à cabeça: uma mulher de 70 ou 80 anos dizendo absurdos e emendando palavrões na televisão —ou mostrando os seios no programa de Hebe Camargo. Não dá para fugir da caricatura de velha escrachada e indecente ao pensar em Dercy Gonçalvez. Ao mesmo tempo, não dá para reduzir a comediante, que morreu aos 101 anos em 2008, a essa personagem que se tornou inconfundível. Neste episódio, Adriana Negreiros, autora da biografia "Dercy: a Diva Debochada", faz essa distinção e fala sobre as tantas contradições da atriz, que teve uma vida marcada pela tragédia e pela violência e encontrou no humor uma salvação. Para a autora, poucos artistas brasileiros construíram uma relação tão visceral com o público como Dercy Gonçalves, mas a pecha de comediante imoral ou pornográfica impediu que a sua genialidade fosse reconhecida. Negreiros fala sobre a postura anti-intelectual da atriz, artista da improvisação que era vista como rebelde nos palcos e dizia ter sido formada pela realidade dura do Brasil, não por qualquer influência europeia. A autora também discute as posições preconceituosas de Dercy a respeito de feministas e pessoas LGBTQIA+, por exemplo, que contrastavam com boa parte das atitudes dela ao longo da vida, e explica por que a considera uma heroína decolonial pioneira. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael Concli See omnystudio.com/listener for privacy information.
Bruno Blecher: Agronegócio agora vê mudança climática como risco
2026/05/09
Bruno Blecher, que acaba de lançar "O Sertão É o Mundo: Histórias de um Repórter Rural", é o convidado do Ilustríssima Conversa desta semana. O livro reúne 35 artigos e reportagens publicados nos últimos 40 anos e testemunha a trajetória do autor na cobertura de temas relacionados ao campo. Blecher passou pela Redação de veículos como Globo Rural e O Estado de S. Paulo e editou o Agrofolha, suplemento agrícola da Folha, nos anos 1990. Os textos da coletânea documentam como a agricultura brasileira se transformou profundamente nas últimas décadas, destacando, por exemplo, as inovações tecnológicas que abriram o cerrado para as grandes fazendas de soja e permitiram o aumento da produtividade agrícola do país. Neste episódio, Blecher fala sobre o conservadorismo dos líderes do agronegócio brasileiro e sobre como o setor vem se posicionando frente às mudanças climáticas —seja avançando em práticas mais recomendadas do ponto de vista ambiental, seja se mantendo fiel a um modelo predatório de produção. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Benjamin Moser: Nem Rembrandt ou Vermeer sabiam o destino que teriam
2026/04/25
O escritor Benjamin Moser diz que se mudar para um país desconhecido é como passar a viver em um mundo invertido. "No começo, você não sabe para onde olhar. Não sabe onde está nem o que está olhando. Não sabe nem por onde começar", ele escreve na introdução de "O Mundo de Ponta-cabeça", agora lançado no Brasil. Quando tinha 25 anos, Moser deixou Nova York e foi morar na Holanda. Para lidar com a condição de estrangeiro, começou a olhar para a pintura da Idade de Ouro do país —percorrendo galerias e museus, se deparou com obras de Rembrandt, Vermeer e outros grandes pintores do século 17. A curiosidade com esses artistas virou obsessão e, duas décadas depois, deu origem ao livro, que explora a vida e a obra de quase 20 deles, mas, sobretudo, a sua experiência de descobrir esses artistas e entender melhor o mundo invertido em que estava vivendo. Neste episódio, o escritor fala sobre as circunstâncias históricas do período em que os pintores viveram e defende que é impossível separar a obra e a vida de um artista. Moser, conhecido pelas biografias de Clarice Lispector e Susan Sontag, diz que tanto a trajetória das duas escritoras quanto a dos mestres holandeses lembra que nenhum artista sabe o destino que vai ter —um talento extraordinário não é suficiente para prosperar, e as chances de fracassar ou terminar a vida na miséria são enormes. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael Concli See omnystudio.com/listener for privacy information.
João Paulo Charleaux: Israel comete crimes de guerra em Gaza
2026/04/11
Pouca gente já leu o texto da Convenção de Genebra, e a maior parte das pessoas provavelmente tropeçaria se precisasse explicar a diferença entre a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional. No entanto, lembra João Paulo Charleaux, isso não é essencial para que quase todo o mundo entenda alguns princípios humanitários que devem ser respeitados nas guerras —por exemplo, que nada justifica atirar em inimigos rendidos, atacar ambulâncias e hospitais, matar uma população de fome ou torturar crianças. Charleaux, autor do recém-lançado "As Regras da Guerra", analisa como essas normas evoluíram ao longo dos últimos séculos. Neste episódio, ele fala sobre alguns conflitos atuais, como a ofensiva militar de Israel em Gaza e o ataque de Trump ao Irã. Para o autor, o Hamas cometeu uma longa lista de crimes de guerra no 7 de Outubro e Israel tem o direito de se defender. Contudo, em sua avaliação, o país vem ultrapassando de forma calculada os limites legais estabelecidos e isso deve ter um alto custo moral. Ele diz considerar que Israel está cometendo crimes de guerra gravíssimos em Gaza e que o mandado de prisão do TPI contra Netanyahu é acertado. Charleaux também discute os dilemas criados pelo uso cada vez mais frequente de drones e de ferramentas de inteligência artificial nas guerras e o papel que as Forças Armadas do Brasil devem ter em um cenário geopolítico mais extremo. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.
Rita Carelli: Mito indígena evoca origem comum de todos os povos
2026/03/28
No começo de "O Mundo Fora da Pedra", Rita Carelli narra as longas viagens de barco da sua infância rumo à aldeia dos enawenê-nawês, no noroeste do Mato Grosso. Ela se lembra, mais que tudo, das noites que passou no barraco do Vicente Cañas, às margens do rio Juruena. O jesuíta espanhol chegou ao Brasil em 1966 e rumou para o estado. Era um tempo em que as missões da Igreja Católica na amazônia se transformavam: os religiosos mandados à região para converter os indígenas ao catolicismo e supostamente civilizá-los começaram a tentar entender os seus modos de vida e lutar para garantir os seus direitos. Visto mais como riponga que como missionário, Vicente Cañas passou a viver entre os indígenas e, em abril de 1987, foi assassinado no seu barraco. O processo sobre o crime, cheio de falhas, só foi concluído em 2025, quando a Justiça determinou a prisão de um delegado aposentado condenado pelo homicídio. Três décadas depois do assassinato, Carelli resolveu se dedicar a reconstituir essa história. Filha de uma antropóloga e de um cineasta envolvidos com a causa indígena, ela visitou os enawenê-nawês e outros povos desde criança e, hoje, o seu trabalho como escritora e diretora de cinema é perpassado por essas experiências. Neste episódio, a autora fala sobre como construiu a narrativa de "O Mundo Fora da Pedra", que ela diz ser um livro estranho por combinar um mergulho em um inquérito policial de milhares de páginas, uma reflexão sobre a história do país e uma costura das suas próprias memórias. Carelli explica algumas práticas rituais e outros aspectos da cultura exuberante dos enawenê-nawês e fala sobre como o mito de origem do grupo —sair de uma pedra ancestral em que todas as pessoas viviam juntas— ajuda a pensar o mundo de hoje. Veja fotos de fotos de Vicente Cañas e dos enawenê-nawês Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael Concli See omnystudio.com/listener for privacy information.
Uirá Machado: Obsessão por xadrez e fervor religioso marcaram vida de Mequinho
2026/03/14
Em 1979, o maior jogador brasileiro de xadrez da história mal conseguia se mexer. Trancado no seu apartamento, Mequinho sentia muita fraqueza e tinha medo de morrer a qualquer momento. O enxadrista teve que se afastar dos tabuleiros por causa da doença, que ele acreditava ser miastenia grave, e começou a frequentar um grupo de oração da Renovação Carismática Católica. No auge dessa crise, Mequinho recebeu em casa uma das pioneiras no país das sessões de cura, que se impressionou com a suposta graça instantânea alcançada. O enxandrista retomou os movimentos e passou a dizer que tinha sido curado por Jesus —não totalmente, mas 99%. Esse é um dos momentos de virada da vida de Mequinho, esquadrinhada por Uirá Machado, jornalista da Folha, na biografia recém-lançada "Entre Bispos e Reis". O livro narra a infância do garoto prodígio no interior do Rio Grande do Sul, a glória nos anos 1960 e 1970 e o fervor religioso que marcou a vida do enxadrista a partir da década de 1980. Convidado deste episódio, Uirá fala sobre a importância de Mequinho na história do esporte brasileiro e explica como o enxadrista trocou a obsessão pelos tabuleiros pela pregação religiosa —Mequinho passou a dizer nos últimos anos, por exemplo, que foi escolhido por Jesus como profeta do apocalipse. Veja galeria de fotos da trajetória de Mequinho Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael Concli See omnystudio.com/listener for privacy information.

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