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500 episodes
Language
Portuguese (Brazil)Publisher
@PauloSilvestreExplicit
No
Date created
2019/06/08
Latest episode
2026/04/18
Average duration
9 min.
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7 days
Description
Jornalista (preferencialmente digital), educador (preferencialmente digital), trabalhando para tornar o mundo um lugar melhor
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Como o medo vende a inteligência artificial
2026/04/18
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
A indústria da inteligência artificial descobriu que pode explorar o medo para ampliar seu poder e vender mais.
No dia 7 de abril, a Anthropic, criadora da plataforma Claude, anunciou que não liberará a nova versão do seu produto para o público, por considerá‑la “poderosa demais” e que “o mundo não estaria preparado para ela”. Mas apesar dessa negativa, isso pode ser ótimo para seus negócios.
Batizada de Claude Mythos Preview, a empresa acredita que ela poderia ser usada para explorar vulnerabilidades de sistemas de computador, o que tem feito melhor do que as IAs já lançadas. Por isso, a Anthropic oferecerá o modelo apenas a um consórcio de cerca de 40 empresas de tecnologia, incluindo Google, Microsoft, Apple e Amazon, algumas delas suas concorrentes. A expectativa é que elas o usem para encontrar e corrigir vulnerabilidades de segurança em seus próprios softwares estratégicos.
A decisão foi suficiente para causar alvoroço no mercado e reacender medos em torno das possibilidades da IA. De fato, o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, disparou temores nas pessoas que iam desde a substituição em massa de empregos –o que já começa a acontecer– até visões apocalípticas, como indícios de uma possível revolta das máquinas, que levaria ao extermínio da humanidade.
Pelo menos nesse último caso, nada aponta que acontecerá, não em um horizonte visível. Mas isso não é trivial e envolve capacidades cognitivas artificiais surpreendentes e um poder computacional assustador, que não param de crescer.
Chega a ser contraintuitivo uma empresa anunciar que desenvolveu um produto que, de tão poderoso, representaria um risco à humanidade. Sendo assim, o mais razoável seria simplesmente destruí-lo, o que obviamente não acontecerá. E isso se deve ao fato de que essa ansiedade fabricada é um excelente marketing para algo que acabará chegando ao mercado, depois de legitimado com alguma narrativa redentora.
É assim que esse mercado cresce captando bilhões de dólares de investidores.
E você, tem medo da IA ou acha isso uma bobagem?
IA ajuda e prejudica criadores de conteúdo
2026/04/13
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
A inteligência artificial está favorecendo a criatividade, enquanto prejudica os criadores.
A economia criativa segue crescendo, mas os criadores estão ficando para trás. Essa é a tensão central do relatório “Re|Shaping Policies for Creativity”, publicado recentemente pela Unesco. Com dados de 133 países, ele alerta sobre uma transformação estrutural acelerada pela digitalização e pela IA, que está redesenhando quem ganha, quem perde e quem controla a produção cultural.
Nunca foi tão fácil criar, distribuir e acessar conteúdo. O mercado global de bens culturais atingiu US$ 254 bilhões em 2023. Mas isso vem junto com o aumento da precarização do trabalho criativo. O documento destaca que há pouco emprego estável para criadores, os modelos de remuneração são frágeis e as plataformas digitais concentram valor. Com isso, o órgão projeta uma queda de até 24% na receita dos criadores até 2028, impulsionada pela IA e pelo uso não autorizado de conteúdos.
O estudo indica que as redes sociais deixaram de ser espaços de interação para impactar a democracia, o bem-estar e a regulação global. Há uma preocupação crescente com saúde mental, governança das plataformas e desinformação.
Nesse sentido, é inevitável pensar em como essas mudanças atingem o jornalismo. Quando se fala em perda de receita, desintermediação e captura de valor por plataformas, é exatamente a crise que o setor vive há duas décadas. Isso se agrava com a IA generativa, pois não só as redações perdem o controle de seu produto, como ele ainda passa a ser reprocessado e reapresentado, sem tráfego para a fonte.
A cultura é um ativo econômico relevante. Mas o sistema que a sustenta está deslocando valor dos criadores para intermediários tecnológicos. Temos mais produção e circulação, porém menos remuneração. E esse desequilíbrio corrói um pilar de qualquer sociedade.
Como resolver isso? É o que falo neste episódio.
A IA avança, mas os robôs ainda tropeçam
2026/04/05
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
Há alguns dias, vi um robô humanoide funcionando em um hospital. Ele cambaleava pelos ambientes, pegava objetos em gavetas e fazia lentamente ações simples, que renderam muitas visualizações.
Mas diante desses vídeos, às vezes vendidos como produtos prontos em uso, sempre penso que jamais aceitaria ser atendido por aquilo. E, se fosse gestor do hospital, não gastaria um tostão em tal máquina.
Estou muito longe de ser um ludita. Pelo contrário, sou um entusiasta de diferentes formas de tecnologia e pesquisador de inteligência artificial. Mas, talvez justamente por isso, desenvolvi um olhar bastante crítico sobre essas supostas “operações”.
É um fato que as versões mais recentes de robôs humanoides fazem movimentos incríveis, como se fossem pessoas. Muitos aparecem “trabalhando” em empresas, em atividades diversas. Isso desperta grande entusiasmo em parte do público, como se a ficção científica estivesse se materializando diante de nossos olhos.
Mas a verdade nua e crua é que isso não passa de propaganda. Ironicamente, a inteligência artificial que controla essas máquinas avança de maneira galopante, mas seus corpos ainda se comportam como brinquedos caros e limitados.
Esses robôs funcionam bem em ambientes extremamente controlados, com tarefas previsíveis. Mas o mundo insiste em ser caótico e inesperado. Além disso, os sentidos de uma criança superam largamente os sensores de qualquer robô, permitindo que ela se adapte a situações simplórias cotidianas em que a máquina não sabe o que fazer.
Se há algo que podemos tirar disso é que, apesar de a robótica e principalmente a IA estarem cada vez mais incríveis, há coisas que elas não conseguem fazer, pelo menos ainda. Mas principalmente há aquilo que elas não devem fazer, mesmo sendo capazes. E isso tem a ver com como posicionamos a nossa humanidade nesse cenário.
Então, onde robôs humanoides serão realmente úteis? E quando eles ficarão confiáveis de verdade? É sobre isso que falo neste episódio.
O julgamento que pode redefinir as redes sociais
2026/03/30
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
Um julgamento histórico desafiou o modelo de negócios das redes sociais, e isso pode mudar tudo!
A decisão do Tribunal Superior da Califórnia pode mudar decisivamente a maneira como usamos as redes sociais e até como elas são construídas. Depois de deliberar por uma semana, o júri concluiu na quarta passada que Facebook, Instagram e YouTube viciam seus usuários e que provocaram problemas de saúde mental em uma jovem.
A decisão do julgamento, iniciado no dia 17 de fevereiro, pode ser considerada histórica, pois ela não se baseou no conteúdo publicado nessas plataformas, e sim nos seus algoritmos e no seu design, considerados nocivos por manter online as pessoas de maneira artificial e deliberada. Isso cria um precedente para os cerca de 2.000 outros processos semelhantes que estão ativos nos EUA.
KGM, hoje com 20 anos, processou a Meta, o YouTube, o Snapchat e o TikTok em 2023. Ela começou a usar as redes sociais aos 6 anos e alegou que os sites causaram danos pessoais, incluindo dismorfia corporal e pensamentos suicidas. O Snapchat e o TikTok fizeram acordos antes do julgamento, mas a Meta e o YouTube prosseguiram com o processo, pois afirmam ser muito difícil provar que redes sociais causam dependência e danos pessoais.
Com a decisão, a Meta (dona do Facebook e do Instagram) e o Google (dono do YouTube) devem pagar US$ 3 milhões em indenização, com a primeira sendo responsável por 70% do valor. As empresas disseram que vão recorrer.
Foi a primeira vez que o júri de um caso como esse teve acesso a documentos internos das big techs e ouviu depoimentos de seus principais executivos, incluindo Mark Zuckerberg, CEO da Meta. Essa confrontação exibiu um posicionamento que chega a ser cínico dessas empresas. Elas têm consciência dos danos, não fazem tudo que podem para mitigá-los, mas afirmam ser preocupadas com seus usuários.
Agora resta saber como essa exposição determinará o futuro dessas plataformas. É isso que eu explico neste episódio.
Amor em tempos de inteligência artificial
2026/03/23
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
Em um mundo de relacionamentos banalizados, você acredita que aplicativos de namoro ainda podem encontrar a “pessoa certa”?
No dia 12, o Tinder anunciou novos recursos com inteligência artificial para tentar corrigir um problema que ele ajudou a criar. Seu excesso de escolha transformou a busca por sexo e por amor em um exercício de fadiga.
A promessa agora é trocar o malfadado “cardápio de gente” pela “curadoria de relacionamentos”. Resta saber se a IA terá sucesso onde os algoritmos tradicionais vêm falhando miseravelmente.
O uso da tecnologia para encontrar o par perfeito não é novo. Há três décadas, esses sistemas evoluem de formulários de características simples, como idade, religião e hobbies, para plataformas que cruzam dados, comportamento e preferências. As versões recentes tentam inferir e combinar padrões invisíveis ao próprio usuário, tornando-se, para muitos, o principal, se não o único, caminho para conhecer alguém.
Mas tanta “eficiência” tem cobrado um preço alto na saúde mental e na qualidade dos vínculos. Vemos uma distorção sistemática dos relacionamentos, resultando em laços extremamente frágeis e no fenômeno do “dating burnout”. Essa exaustão, derivada da esperança de que o próximo perfil será ligeiramente melhor, gera solidão, ansiedade e baixa autoestima.
As pessoas nunca estiveram tão conectadas, mas raramente se sentiram tão sozinhas diante de uma lista infinita de opções descartáveis.
Se o amor nunca foi tão “mensurável”, tampouco foi tão instável. A dúvida é se a inteligência artificial pode, de fato, aproximar pessoas reais para relações saudáveis, ou apenas tornará mais eficiente um sistema que já vem sendo considerado falido pelos próprios usuários, pela pretensa “otimização” que corrói o investimento emocional necessário para relacionamentos de longo prazo.
Como você tem conhecido pessoas ultimamente? Isso vale para relacionamentos pessoais e profissionais. Será que os algoritmos estão ocupando espaços grandes demais nisso?
Como a IA pode ajudar a educação
2026/03/16
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
As escolas começam a se organizar para um uso pedagógico da inteligência artificial, e essas medidas podem servir para todos nós.
Além das transformações intensas por toda a economia, a IA está transformando a maneira como falamos e até pensamos. Por isso, temos que buscar um uso consciente e construtivo dela. Esse cuidado se torna crítico na educação, justamente onde desenvolvemos valores, novas habilidades e formamos cidadãos.
Nesse quadro, o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, publicado na quinta passada pelo Ministério da Educação, é muito bem-vindo. O documento orienta educadores e instituições e oferece diretrizes para políticas públicas sobre como fazer bons usos dessa tecnologia nas escolas da educação infantil à pós-graduação.
Criar um arcabouço de propostas com essa complexidade leva tempo, mas professores e alunos já usam a IA generativa há anos. Infelizmente, por falta de orientação, muitos deles não aproveitam tudo que a tecnologia oferece ou fazem até usos questionáveis dela.
Isso não é exclusivo da educação. Pelo contrário, vemos adoções inadequadas dessa tecnologia em todos os setores. A rapidez da sua evolução supera nossa capacidade de compreender o que cada mudança representa. Além disso, nunca algo havia invadido nossos sagrados campos da cognição e da criatividade.
Assim, embora seja voltado à educação, a proposta do MEC explicita princípios que podem, com adaptações, orientar outros setores no uso de IA. Ela enfatiza supervisão humana efetiva, transparência e explicabilidade dos sistemas, proteção rigorosa de dados pessoais, avaliação de impacto algorítmico, promoção de equidade e inclusão e soberania tecnológica. Dessa forma, suas diretrizes têm potencial de inspirar políticas públicas e práticas organizacionais muito além do ambiente educacional.
Nesse episódio, eu explico com isso funciona. E você, acha que está usando bem a IA no seu cotidiano?
Como a IA afeta a redução do trabalho
2026/03/09
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
A inteligência artificial nos fará mesmo trabalhar menos?
Na esteira dos debates sobre a extinção da jornada de trabalho 6x1, alçada pelo governo como sua principal bandeira neste ano eleitoral, reportagens publicadas no fim de fevereiro na Veja e na Folha provocaram indignação de parte do público. Os textos transpareciam ideias de que o brasileiro já trabalha pouco, não é suficientemente esforçado e que o descanso semanal é um custo.
No centro da polêmica, está o conceito de “produtividade”. E, de fato, geramos muito menos riqueza por hora trabalhada do que profissionais de nações desenvolvidas. O problema se agrava quando, diante dos números, as análises incorporam moralismo, como se isso fosse um traço da cultura brasileira, e catastrofismo, que sugere que melhorar as condições de vida das pessoas levaria a economia a um colapso.
Correndo por fora, a IA surge como uma força que magicamente melhoraria a nossa produtividade. Economistas e empresários, com destaque para Bill Gates, argumentam que os ganhos trazidos por essa tecnologia poderiam viabilizar semanas com quatro e até três dias de trabalho apenas.
A redução da jornada de trabalho é um tema naturalmente popular, mas que não permite leituras apressadas ou populistas de nenhum lado. E a inteligência artificial, a despeito de todo o seu poder, não muda nada quando o debate já nasce enviesado.
É preciso abandonar as promessas fáceis, as acusações e as ameaças para entender como aumentar nossa produtividade, como a tecnologia pode nos ajudar nisso e o que mais precisa ser feito para sairmos dessa histórica situação trabalhista subalterna.
Essa tecnologia pode ser, sim, uma importante aliada em qualquer caminho que escolhamos. Mas nada virá automaticamente. É sobre isso que falo nesse episódio.
Trump ameaça Anthropic por ser ética
2026/03/02
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
Por que Trump decidiu banir a criadora da plataforma de IA Claude?
Na semana passada, neste mesmo espaço, abordei em artigo como a militarização da inteligência artificial pode se tornar um severo risco existencial para a humanidade, especialmente em cenários em que limites éticos no desenvolvimento e uso dessa tecnologia sejam desrespeitados.
Pois bem, na sexta passada, Donald Trump, resolveu banir a Anthropic de qualquer contrato com o governo, justamente por ela insistir nesses cuidados.
Ironicamente, o Claude, plataforma de IA da Anthropic, era, até então, a única classificada como segura para aplicações em redes secretas de militares nos EUA. Agora eles exigem essa tecnologia para “qualquer finalidade legal”. Isso inclui a vigilância em massa de cidadãos e seu uso em armas letais totalmente autônomas. Foi quando o CEO da empresa, Dario Amodei, não concordou.
Outras empresas, aparentemente com menos escrúpulos, ocuparam o espaço da Anthropic assim que Trump a escorraçou. A primeira foi a xAI, criadora do Grok, seguida de perto pela OpenAI, dona do ChatGPT. Vale dizer que a Anthropic nasceu quando Amodei e outros pesquisadores se demitiram da OpenAI em 2021 por discordarem da redução na segurança.
Um funcionário do governo disse ao jornal Financial Times que o Claude continua sendo o melhor modelo para uso militar, e que cortá-lo imediatamente prejudicaria as operações. De fato, apesar das ameaças e dos insultos de Trump, a transição deve durar seis meses, período em que um acordo ainda pode ser feito.
Não se trata de um problema pontual entre uma empresa e militares, ou de mais um arroubo autoritário de Trump. As exigências são profundamente antidemocráticas. Se isso for adiante, criará um Estado autoritário sem precedentes, que violará liberdades fundamentais de cidadãos do mundo todo.
E as big techs serão cúmplices.
Nesse episódio, eu explico tudo que está por trás dessa crise e como isso afeta você.
#InteligênciaArtificial #Anthropic #segurança #ética #democracia #PauloSilvestre
Egos e incoerência no caminho da superinteligência
2026/02/22
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
O caminho para a superinteligência artificial está tomado de egos inflados e incoerências.
Na quinta, durante a Cúpula de Impacto da IA em Nova Délhi, Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic, se recusaram a dar as mãos para uma foto ao lado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Seria uma bobagem, se eles não liderassem as empresas criadoras do ChatGPT e do Claude, duas das principais plataformas de IA do mundo.
O gesto explicita a corrida insana pela superinteligência artificial, um cenário hipotético em que as máquinas teriam ampla autonomia operacional e seriam melhores que os seres humanos em quase todas as tarefas cognitivas. Quem chegar lá primeiro assumirá uma inigualável liderança econômica e política. Mas há sérios riscos que não podem ser ignorados nesse desenvolvimento.
De certa forma, essa concorrência desmedida contraria o que diz o documento final da cúpula indiana, que prega que “a promessa da IA só se realiza plenamente quando seus benefícios são compartilhados por toda a humanidade”. Mas vozes dissonantes nas próprias organizações afirmam que, para vencer essa disputa, empresas e governos estão perigosamente abandonando a ética e a segurança.
Isso vem provocando reações. Mustafa Suleyman, CEO da unidade de IA da Microsoft, fala de uma “superinteligência humanista”. Enquanto isso, mais de 135 mil pessoas, incluindo alguns dos principais pesquisadores da IA do mundo, já assinaram uma declaração que propõe o fim dessa corrida. No Brasil, o manifesto ContAIn Now sugere financiar uma infraestrutura de governança que torne a contenção da IA mais rentável do que a imprudência.
Como diz o ditado, “onde há fumaça, há fogo”. O encontro na Índia deixou claro os descomunais interesses, os conflitos, as possibilidades e os riscos em torno da IA. Diante de tudo isso, não podemos ser ingênuos ou catastrofistas se quisermos buscar soluções verdadeiramente sustentáveis.
Então, no que devemos prestar atenção e como devemos nos comportar? É sobre isso falo nesse episódio.
Parem de dizer que a Geração Z é menos inteligente
2026/02/15
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
No dia 15 de janeiro, o neurocientista Jared Horvath declarou no Senado americano que “nossos filhos são cognitivamente menos capazes do que nós éramos na idade deles”.
A frase inundou as redes sociais, atropelando o debate acadêmico e sendo ampliada para afirmações mais alarmistas, como a de que “a Geração Z seria a primeira geração menos inteligente do que a anterior”.
Os senadores americanos investigam o impacto da tecnologia no desenvolvimento dos jovens. Horvath defende firmemente que a tecnologia digital prejudica o aprendizado nas escolas. Mas ele mesmo explica que isso não pode ser confundido com menos inteligência.
Como pesquisador, defendo a tecnologia como uma ferramenta capaz de ampliar nossa capacidade de pensar, mas isso só acontece se for conscientemente usada com esse propósito, o que acontece pouco. Ao mesmo tempo, apoio a restrição de telas na escola a atividades estritamente acadêmicas e sob orientação de professores.
O problema se agrava quando os jovens usam esses recursos fora da escola, pois normalmente fazem isso sem orientação e até supervisão de um adulto capacitado. Isso conversa com as recentes proibições de redes sociais a crianças e adolescentes na Austrália e na França, podem ser replicadas na Espanha, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido. No Brasil, o ECA Digital começa a valer em 18 de março, restringindo o uso de redes sociais por menores, mas sem barrar as plataformas.
Dizer simplesmente que os jovens são menos inteligentes que seus pais é como fogo em mato seco nas redes sociais. Mas essa informação, além de imprecisa, contamina um debate já muito polarizado entre pais, educadores e as big techs.
Não se podem negar os gravíssimos impactos do meio digital em crianças e adolescentes, que vão muito além da educação, mas soluções eficientes exigem equilíbrio e racionalidade. É sobre isso que falo nesse episódio.
E você, como vê essas diferenças cognitivas e comportamentais entre gerações? Você acha que a tecnologia digital impacta a aprendizagem de maneira mais positiva ou negativa?
Moltbook explica nossos limites diante da IA
2026/02/08
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
Como uma rede social sem humanos está revelando nossos limites diante da inteligência artificial?
Nos últimos dias, grandes veículos de comunicação e a Internet foram tomados pelo frenesi em torno do Moltbook, uma rede social com a inusitada característica de que apenas agentes de IA participam, enquanto os humanos podem, no máximo, se tornar voyeurs do que os robôs lá publicam.
Porém, a maioria do que as pessoas estão dizendo sobre esse caso demonstra o quanto ainda entendemos pouco da IA e como nossos medos desse desconhecimento podem capturar nossa atenção.
Os mais apocalípticos veem nessa improvável plataforma o “despertar das máquinas” que em breve nos exterminarão, enquanto outras pessoas a desdenham como um modismo desimportante. Há ainda aqueles que a acham genial.
Se você ainda não sabe do que se trata, o Moltbook é uma rede social lançada em 28 de janeiro em que apenas agentes de IA podem publicar e interagir. Pessoas limitam-se a ler o que as máquinas fizerem. Neste momento, há 1,8 milhão desses sistemas cadastrados nela, que já criaram mais de 300 mil posts e 12 milhões de comentários.
O fenômeno do Moltbook deveria servir para que aprendamos mais sobre o funcionamento, limites e possibilidades da IA. Não para nos protegermos de uma improvável “revolta dos robôs”, mas para entendermos que, ao entregarmos crescentemente informações a sistemas que não compreendemos e ao delegarmos a eles decisões sofisticadas e prosaicas, abrimos mão do mais nobre de nossa humanidade.
Isso pode nos causar um prejuízo irreparável. Ao longo de milhões de anos, assumimos o controle do planeta ao raciocinarmos e decidirmos. Agora, a despeito de sua inegável capacidade, entregamos, por preguiça, insegurança ou ganância, esse nosso diferencial a máquinas estatísticas que parecem inteligentes.
Então como aprender com o Moltbook? É sobre isso que falo neste episódio.
Celulares, IA e redes sociais na volta às aulas
2026/02/02
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
Como a inteligência artificial avança nas escolas antes do debate sobre segurança dos jovens amadurecer?
No início do ano letivo de 2025, a grande novidade foi a proibição de celulares nas escolas mesmo em intervalos. Agora, com as aulas deste ano prestes a começar, cresce a preocupação sobre a influência das redes sociais e até da IA na formação de crianças e adolescentes.
A discussão floresce em vários países. A Austrália baniu, em dezembro, as redes sociais para menores de 16 anos em qualquer ambiente, depois de um longo debate. Leis semelhantes estão sendo discutidas na França, Dinamarca, Reino Unido e Nova Zelândia.
No caso da IA, o think tank americano Centro para Educação Universal da Brookings Institution acaba de divulgar um estudo que indica que os riscos do uso da IA na educação de crianças e jovens superam seus benefícios. Segundo ele, a dependência excessiva dessa tecnologia pode afetar a capacidade dos estudantes de aprender, seu bem-estar social e emocional, suas relações de confiança com professores e colegas, bem como sua segurança e privacidade.
No Brasil, o Insper e a ESPM, duas das principais faculdades particulares do país, começaram 2026 proibindo dispositivos eletrônicos nas aulas de graduação, exceto em atividades acadêmicas. Na primeira, notebooks e tablets ainda são tolerados; na ESPM, nem isso. A justificativa é a grande queda no aprendizado devido à distração causada por esses aparelhos.
Essas iniciativas indicam sociedades incapazes de enfrentar os evidentes problemas que as tecnologias digitais criam na formação dos mais jovens. Mas esses recursos digitais continuam vitimando crianças e adolescentes fora da escola.
Diante de uma cínica falta de colaboração das empresas que criam essas plataformas, as restrições acabam sendo necessárias, pois o problema continua existindo em qualquer tela.
Qual é o nosso papel para melhorar esse debate e a segurança dos mais jovens? É sobre isso que falo nesse episódio.
Passou da hora de influenciadores se profissionalizarem
2026/01/26
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
O mercado de influenciadores pode estar diante de um sopro de seriedade.
A ocupação cresce vertiginosamente há anos, graças à falsa ideia de que, para se tornar famoso e rico, basta ligar a câmera do celular e falar, mesmo não tendo qualquer preparo para tal. Agora isso pode mudar.
Vários países, inclusive o Brasil, estão criando leis para disciplinar, em maior ou menor escala, a atividade dos criadores de conteúdo digital. Pelo menos em tese, isso oferece algumas garantias a esses profissionais, assim como diminui práticas condenáveis, incluindo a desinformação (consciente ou não).
Essas regras ficam ainda mais importantes em tempos de inteligência artificial generativa. Graças a ela, pessoas sem qualquer conhecimento sobre determinado assunto conseguem produzir conteúdo que parece verdadeiro, mas que pode estar completamente errado. Como não são capazes de avaliar a produção da IA, passam a bobagem adiante, que pode ganhar grande escala e afetar decisivamente o público.
A OpenAI, criadora do ChatGPT, está atenta a isso. Desde novembro, ele oficialmente não oferece mais “aconselhamento” jurídico, financeiro ou sobre saúde, passando a se comportar menos como um “consultor” e mais como uma “ferramenta educacional”.
Segundo um estudo da organização de saúde americana KFF, 17% dos americanos adultos usam a IA todos os meses para informações sobre saúde (25% se tiverem menos de 30 anos), mas 56% deles não têm certeza se a informação é correta. Por isso, a mudança no ChatGPT visa evitar processos por informações erradas, mas ela impacta diretamente aqueles que usam o serviço para criar seus conteúdos digitais.
Influenciadores têm um papel central em como as pessoas se informam hoje, mas muitos seguidamente demonstram despreparo e até falhas éticas graves. Por isso, as novas regras são muito bem-vindas para profissionalizar essa atividade.
Resta saber se elas funcionarão e melhorarão o que vemos nas redes sociais. É sobre isso que falo nesse episódio.
Revolta infantil no Roblox expõe falhas de segurança
2026/01/19
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
O Roblox está em pé de guerra, mas os motivos não são óbvios, nem para quem protesta.
Ele é uma das plataformas de jogos mais populares entre crianças no mundo, com 151 milhões de usuários, a maioria abaixo dos 13 anos. Nas últimas semanas, implantou restrições em seu chat e exigiu verificação facial para tentar proteger seus usuários contra predadores digitais.
Mas ironicamente essas medidas de segurança despertaram uma revolta visceral nas crianças, como se a proteção fosse uma afronta à sua liberdade de brincar, com protestos no próprio ambiente.
Longe de se limitar a um problema em um jogo, isso reflete dilemas de uma sociedade conectada. Casos trágicos, como o suicídio do jovem americano Ethan Dallas após sofrer extorsão iniciada no Roblox, mostram que as consequências do que ocorre nesses ambientes virtuais transbordam, muitas vezes de forma irreversível, para o mundo físico e para a estrutura familiar.
Os protestos parecem espontâneos, mas a forma coordenada como surgiram, com cartazes cheios de erros exagerados de grafia e linguagem infantil, levanta dúvidas. Não se pode descartar a hipótese de que adultos mal-intencionados, que se beneficiam da falta de regulação, estejam manipulando os menores para manter o acesso facilitado.
Embora as mudanças pareçam robustas na teoria, a eficácia dessas barreiras é questionável diante da criatividade humana para burlar regras. A tecnologia, por mais avançada que seja, frequentemente corre atrás do prejuízo, tentando remediar problemas que o próprio design da plataforma permitiu.
Resta a dúvida se tais ações vieram para resolver um problema estrutural ou apenas como uma resposta paliativa para conter uma crise de reputação. O fenômeno observado no Roblox é um microcosmo do que acontece em diversas redes sociais, no qual empresas aplicam correções superficiais para aplacar a opinião pública, enquanto a arquitetura que permite o risco permanece intacta e lucrativa.
Neste episódio, tento trazer um pouco de luz a essa confusão.
Como vencer a desinformação e o ódio nas redes
2026/01/12
Pílula de cultura digital para começarmos bem a semana 😊
Este ano eleitoral mal começou e alguns acontecimentos já deixaram claro que a combinação de inteligência artificial, redes sociais, oportunismo e mau-caratismo enterraram a verdade em um bloco de concreto que o cidadão comum não consegue romper.
Nesse cenário, o jornalismo surge como o contraponto urgente, e, por isso mesmo, sofre ataques de quem se beneficia da enorme mentirada.
O primeiro caso veio com a prisão de Nicolás Maduro, que desembarcou em Nova York usando um agasalho de uma famosa marca americana, que inundou as redes sociais com a foto do ditador venezuelano usando o seu produto. Até aí, é o marketing sendo marketing.
Mas não se pode ignorar como isso capturou o debate digital com uma mensagem do tipo “preferida até pelos criminosos”. E houve ainda as incontáveis imagens falsas dessa prisão geradas por IA, aumentando a desinformação.
Pior que isso foi o recente ataque orquestrado nas mesmas redes sociais contra o Banco Central e autoridades financeiras envolvidas com a liquidação do Banco Master. Até perfis de fofoca tentaram tirar a legitimidade de uma ação bem-feita.
Há ainda as agressões contra a jornalista Malu Gaspar, de “O Globo”, por realizar seu trabalho jornalístico, ao apresentar fatos suspeitos envolvendo um ministro do STF e sua esposa com o mesmo banco. Esses atentados se enquadram em três categorias ou na combinação livre entre elas: desconhecimento do trabalho jornalístico, manipulação das massas ou má-fé de interessados no caso.
Qualquer que seja o motivo e diante do enorme barulho que esses temas estão criando, é preciso esclarecer como funciona o jornalismo e por que ele se torna, cada vez mais, essencial para a sociedade, especialmente com a proximidade das eleições.
Você se sente preparado para enfrentar a enxurrada de fake news que será jogada sobre todos nós neste ano? E entende como o jornalismo profissional pode ajudar você? É sobre isso que falo nesse episódio.
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