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Brasil-Mundo

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Country
United States
This podcast has
56 episodes
Publisher
RFI Brasil
Explicit
No
Date created
2020/01/03
Latest episode
2026/09/06
Average duration
7 min.
Release period
12 days

Description

Reportagens de nossos correspondentes em várias partes do mundo sobre fatos políticos, sociais, econômicos, científicos ou culturais, ligados à realidade local ou às relações dos países com o Brasil.

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Diretor de 'Kardec' e 'Nosso Lar' faz estreia mundial de 'As Irmãs Fox' em Hollywood
2026/09/06
Wagner de Assis é conhecido por transformar em cinema histórias que questionam os limites entre o que podemos ver e o que escolhemos acreditar. Responsável por levar multidões às salas brasileiras com os sucessos da franquia "Nosso Lar" e a cinebiografia "Kardec", o cineasta agora atravessa fronteiras para estrear seu projeto mais ambicioso, o primeiro totalmente em língua inglesa. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles O lançamento mundial de "As Irmãs Fox", coprodução com os Estados Unidos, aconteceu no North Hollywood CineFest e traz a fascinante e conturbada trajetória de Leah, Kate e Maggie Fox, jovens norte-americanas, que, em meados do século XIX, se transformaram nas figuras centrais de um movimento que se espalhou dos Estados Unidos para diferentes partes do mundo. Se em trabalhos anteriores o diretor carioca buscou a consolidação doutrinária ou a jornada após a morte, esse novo longa combina drama histórico, suspense, elementos sobrenaturais e desperta debates sobre ciência, crença e os limites entre o mundo material e o espiritual. Segundo Assis, a trama funciona quase como uma reparação histórica. Para ele, trazê-la, principalmente, ao público norte-americano é expor um capítulo negligenciado da própria cultura local. "Essas mulheres eram as mais famosas da América no século XIX e a minha maior surpresa foi descobrir que foram quase apagadas da história. As poucas coisas registradas sobre elas dizem que eram uma fraude, que eram mentira e isso não é verdade. Quando eu entendi que esse tipo de história merecia ser contada, comecei a descobrir o quanto essa América inteira do século XIX tinha desaparecido", contou o diretor à RFI. Para fazer a produção e o roteiro, também assinados por ele, foram cerca de 10 anos de pesquisas e imersão em arquivos históricos. "Eu conhecia a história delas de uma maneira muito enciclopédica. Quando eu decidi fazer o filme, percebi a quantidade de livros que existiam naquela época. Pelo menos duas biografias, um livro da Leah Fox, que a gente menciona no próprio filme. Jornais, artigos, elas chegaram a frequentar a Casa Branca para ajudar como médiuns. Eu fui para lugares impensáveis. A costa leste norte-americana tinha mais de 70 jornais espiritualistas", detalha. "Eu tinha feito a biografia do Kardec e falei: 'Acho que é bom fechar o ciclo.' Começa com elas, o que o Arthur Conan Doyle chamou de uma 'invasão organizada dos espíritos'. Porque quando explode o movimento, explode para o mundo inteiro e depois chega a Kardec, eu achei que seria válido entender essa realidade e colocar na tela", explica Assis. O Brasil como cenário A história se passa totalmente nos Estados Unidos; é uma produção de época, mas a maioria das filmagens foi no interior de casarões históricos no Rio de Janeiro, com algumas cenas no país norte-americano. “Olhar para o passado é muito fácil. Julgar o passado é muito fácil e distorcer o passado é muito fácil também. Mas talvez tirar um pouco desse julgamento, pular lá para trás e tentar respirar aquela época e deixar essa época funcionar é um desafio de produção enorme. A gente precisava de um desenho de produção potente e de interpretações que absolutamente estão à altura", avalia Assis. Mas foram as filmagens no próprio país onde aconteceu a história que flertaram com o extraordinário. Nas locações no estado de Connecticut, a equipe precisava de paisagens cobertas pela neve para retratar com autenticidade passagens cruciais do roteiro. "E eu queria muito que tivesse neve, porque naquele dia 31 de março de 1848, tinha um relato de que nevou muito na área. Quando a gente começou a ver a previsão do tempo, as pessoas diziam assim: ‘não há a menor condição de ter neve’ porque não neva há quatro anos. E eu falei: 'claro, se não tiver neve, vou ter que colocar neve digital. Mas bem que podia ter neve'. Eu falei só isso. E no dia em que a gente ia filmar o exterior, que precisaria filmar com neve, caíram 10, 15 centímetros de neve pesada, e depois não nevou mais. Falei: 'Gente, é quase uma bênção'. Sei que é só um fenômeno da natureza, mas gosto de falar que a natureza ajudou a arte", lembra o diretor. O elenco reúne talentos dos Estados Unidos e do Brasil. As irmãs Fox são interpretadas pelas norte-americanas Sionne Elise, Jamie Hughes e Marie McHugh (essa última também com cidadania brasileira). No papel de Margareth Fox, mãe das três, está a atriz paulista Daniela Galli. "A família Fox tem uma linhagem de mulheres fortes para a época em que viveram. Pesquisando sobre a minha personagem, soube que ela cresceu no Canadá, em uma família de imigrantes russos e mudou para os Estados Unidos porque se casou com um norte-americano", explica a atriz. "O marido enveredou pelo alcoolismo, ela decidiu se separar e criou a primeira filha sozinha num país que não era o dela no início do século 19. Então, as mulheres da família Fox também sofreram as consequências sociais e o preconceito por terem uma vida diferente dos padrões morais e do conhecimento disponível na época”, conclui Daniela Galli. O filme estreia nos cinemas brasileiros em 24 de setembro.
Brasileira lança romance depois de descobrir ser descendente do bibliotecário de D. João VI
2026/09/05
Radicada em Portugal há seis anos, Deborah Trois se divide entre a contabilidade e o fascínio pela genealogia, área a que se dedica há 11 anos. Nas pesquisas, descobriu ser a descendente direta do bibliotecário real de D. João VI, na transferência da corte de Portugal para o Brasil. Fábia Belém, correspondente da RFI em Portugal Contadora apaixonada por genealogia, Deborah Trois decidiu investigar o passado da família quando ainda morava em Niterói, sua cidade natal. Localizou as raízes franco-suíças da mãe e, quando mudou-se para Portugal em 2020, dedicou-se a pesquisar as origens do pai. O que ela não esperava era descobrir um antepassado ligado à corte portuguesa, o que acabou por dar origem ao seu primeiro livro — o romance de ficção histórica “O Segredo de Marrocos”. “Tive essa grande surpresa de ser descendente direta. Eu sou sexta neta de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, que foi o bibliotecário real de D. João VI na transferência da corte de Portugal para o Brasil”, explica. Em 1811, três anos depois da transferência da corte, Marrocos partiu de Lisboa para o Rio de Janeiro com a missão de acompanhar a segunda remessa de livros e manuscritos da Real Biblioteca, que constituíram o acervo inicial da Biblioteca Nacional do Brasil, instalada na capital fluminense. Na nova sede, ele foi encarregado de organizar os manuscritos da Coroa Portuguesa, o que o levou a trabalhar no Paço Imperial, onde ficava o gabinete do então príncipe regente D. João, que se tornou rei D. João VI, em 1816, com a morte da sua mãe. Como sublinha Trois, Marrocos “tinha uma proximidade grande com Dom João VI; ele participava do 'beija-mão' (cerimônia na qual suditos prestavam reverência ao rei). Então, ele estava por dentro daquela corte”. Pesquisa documental Até chegar a Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, a autora brasileira recorreu a registros paroquiais do Arquivo Distrital de Lisboa e a documentos oficiais da Torre do Tombo, que é o Arquivo Nacional português. Ela também utilizou plataformas digitais de genealogia e de coleções históricas da imprensa da época. Toda a investigação seguiu o Padrão de Prova Genealógica, método que serve para confirmar a exatidão de dados históricos. Nesse processo, alguns documentos serviram como peças-chave para ajudar a desvendar o passado da família paterna de Deborah. “Quando eu obtive a certidão do meu avô, a avó dele já era uma Marrocos”, recorda Deborah Trois.   Depois que descobriu ser descendente do bibliotecário real, a autora começou mais uma investigação que durou cerca de dois anos. O pilar da pesquisa foi o epistolário de Marrocos — o conjunto de 186 cartas que ele escreveu à família, em Lisboa, entre 1811 e 1821, ano em que D. João VI embarcou de volta a Portugal. Os documentos, muito usados por historiadores, revelam os bastidores da corte e a rotina da colônia. Deborah Trois, que, à época, não tinha o epistolário de Santos Marrocos, conta que “foi uma corrida nos sebos e alfarrabistas (livrarias especializadas em livros raros)" para conseguir o acervo. E, depois de ler todas as correspondências, “consegui ter uma visão, a minha visão do homem inteiro. Eu, como descendente, fui [pesquisar] desde o nascimento até o fim”, afirma. Livro 'O Segredo de Marrocos' A coletânea de cartas do bibliotecário real foi a principal matéria-prima do livro “O Segredo de Marrocos”, publicado pela editora portuguesa Cordel d'Prata e lançado em agosto na cidade do Porto. Sem dar detalhes, a autora diz que a obra “conta mais sobre o homem inteiro do que só sobre aquela parte do epistolário, que é mais usada pelos historiadores”. “Esse livro não esconde nada. Ele abre o arquivo em vez de fechá-lo. E eu acho que essa é a minha grande missão: abrir esse arquivo do Luiz Joaquim e deixar que as pessoas o conheçam, nem absolvendo o Luiz Joaquim, nem condenando o Luiz Joaquim, [mas] conhecendo ele por inteiro”, antecipa Trois, lançando um tom de mistério para os futuros leitores. E sem revelar o segredo de Marrocos, a autora garante que o livro guarda uma descoberta pessoal, porque “vai além da vida que ele construiu no Rio de Janeiro e com um achado inédito meu, que nunca foi falado, nunca foi escrito por nenhum historiador”. 'Dobra no tempo' A expectativa de Deborah é que “O Segredo de Marrocos” seja lançado no Brasil até o início de outubro, mas ainda este mês a autora já tem agendada uma sessão de autógrafos em Lanhelas, no norte de Portugal. Foi nessa vila do município de Caminha, a cerca de 100 quilômetros da cidade do Porto, que Trois localizou os descendentes da família Marrocos que permaneceram em Portugal — um encontro que imprimiu uma face contemporânea à própria pesquisa. “Eu me sinto exatamente como se fosse uma dobra no tempo. Luiz sempre quis muito voltar a Portugal, [mas] acabou por ficar no Brasil, e acabou que uma descendente de sexta geração volta e reencontra os Marrocos que ficaram aqui. É muito bonito; é um ciclo que se fecha e um ciclo que se abre”, analisa a autora.
Atriz brasileira leva Clarice Lispector aos palcos de Hollywood
2026/08/01
Clarice Lispector morreu em 1977 e agora, quase meio século depois, vive um renascimento literário impulsionado pelas redes sociais. O que antes era descoberto nas estantes das bibliotecas ou por indicação de professores, hoje viraliza em vídeos de poucos segundos ao redor do mundo.  Do saudoso Orkut ao TikTok, passando por Facebook, YouTube e Instagram, novas gerações têm encontrado, em uma das mais importantes escritoras brasileiras, uma voz surpreendentemente atual. Influenciadores literários, criadores de conteúdo e clubes de leitura online compartilham as frases marcantes de Clarice Lispector e ajudam a transformar suas obras em verdadeiros fenômenos internacionais. É nesse momento de redescoberta da autora brasileira de origem ucraniana que a atriz e produtora catarinense Bruna Fachetti, radicada em Los Angeles, sobe ao palco do Broadwater Theater, em Hollywood, para apresentar uma adaptação teatral de “A Hora da Estrela”, último romance de Clarice Lispector, publicado pouco antes de sua morte. Sob a direção de Alex Tietre, a montagem terá cinco apresentações entre o fim de julho e o início de agosto e pretende aproximar ainda mais o público norte-americano de uma das maiores obras da literatura brasileira. " ‘A Hora da Estrela’ é um livro que sempre me tocou profundamente, desde que eu era pré-adolescente. Eu tive uma fase, nos meus 20 anos, em que li muitos livros de Clarice, e, para mim, esse sempre foi o que mais me tocou. Eu acredito que, como artista, a gente sonha com a nossa ‘hora da estrela’, e Macabéa, personagem principal desse livro, sonhava também em ser artista de cinema. Mas, na verdade, ela não tinha essa consciência, pois se sentia invisível para o mundo, sem, de fato, poder desejar, sem ter essa permissão”, conta Bruna. A identificação com a personagem também ajudou a definir onde essa história deveria ganhar vida. Los Angeles, cidade conhecida por atrair pessoas do mundo inteiro em busca de fama e reconhecimento artístico, pareceu o cenário perfeito para apresentar Macabéa a uma nova audiência. "Achei que tinha tudo a ver com Los Angeles, porque é uma cidade onde muitas pessoas estão em busca da sua ‘hora da estrela’ e também, às vezes, vivem, de certa maneira, com muita indignidade, trabalhando muito em condições talvez não muito dignas de sobrevivência e até sem perceber. Então, eu acho que essa história se conecta muito com a realidade de Los Angeles, que também pode ter um pouco a ver com a questão das aparências. Além disso, há muitas vozes maravilhosas, cada uma com a sua grandeza, que ainda não tiveram a oportunidade de se expressar ou que estão em busca dessa autenticidade ou do seu lugar no mundo." Clarice viraliza nas redes sociais As novas traduções para o inglês publicadas pela editora New Directions (2011–2015) contribuíram para apresentar Clarice Lispector a uma nova geração de leitores estrangeiros, mas a redescoberta ganhou força mesmo nas redes sociais, desde a era do Orkut. A comunidade literária do TikTok, conhecida como BookTok, levou Clarice a milhares de jovens leitores. Vídeos comentando ‘A Hora da Estrela’, ‘Água Viva’ e ‘A Paixão Segundo G.H.’ acumulam milhões de visualizações e frequentemente descrevem a autora como uma experiência de leitura transformadora e impossível de explicar. Uma das responsáveis por esse movimento é a influenciadora norte-americana Courtney Henning Novak, que conquistou milhares de seguidores ao compartilhar sua jornada de leitura. Depois de descobrir Clarice Lispector, Novak passou a recomendar os livros, frequentemente, e a indicar a autora para quem busca uma literatura mais profunda. A influenciadora mora nos arredores de Los Angeles, e já anunciou nas redes sociais que está ansiosa e vai estar presente na performance, pois considera Clarice uma grande experiência. O reconhecimento da obra de Clarice também chegou às estrelas da Sétima Arte. Durante uma cerimônia de premiação no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha, a atriz Cate Blanchett citou Clarice Lispector como uma das escritoras que mais admira, ajudando a apresentar seu nome a um público ainda maior. “Clarice, hoje, está em alta nos Estados Unidos", comenta Bruna, que percebe esse fenômeno de perto. "As pessoas ficam muito admiradas com a singularidade da sua escrita. Eu, quando liguei para a livraria Barnes & Noble, que a gente queria fazer um evento lá de divulgação da peça, a moça me falou ao telefone: ‘vendemos muito os livros da escritora brasileira; ela está trending’. Eu e o Alex Tietre, diretor da peça, fomos fazer a divulgação na Calçada da Fama, em Hollywood. Uma moça muito jovem estava com o namorado, os dois norte-americanos, e ela me viu segurando o livro e falou: 'Meu Deus, eu amo essa autora.’ E aí a gente perguntou para ela de onde conhecia Clarice, e ela tinha ouvido falar em algum vídeo do YouTube". Uma história brasileira com alcance universal Enquanto novas gerações descobrem Clarice Lispector por meio de vídeos curtos, Bruna Fachetti aposta que a força de sua literatura continua exatamente onde sempre esteve: na capacidade de fazer o leitor olhar para dentro de si. A atriz acredita que a jornada de Macabéa, embora profundamente brasileira, fala diretamente com pessoas de qualquer nacionalidade e que o poder das obras está justamente na maneira como Clarice consegue revelar sentimentos universais de pertencimento, invisibilidade e esperança. A adaptação busca preservar a poesia do romance e explorar uma linguagem teatral baseada na imaginação, na luz, no figurino e na interpretação, sem abrir mão da essência da obra original. “A gente quer muito que essa peça chegue para além de um público que já foi conquistado por Clarice, a um público realmente que possa se beneficiar dessa história, dessa montagem, que queira fazer essa troca e que possamos compartilhar essa parte do nosso Brasil para um público novo”, afirma Bruna Fachetti.
Brenda Liz, uma brasileira em um restaurante 3 estrelas Michelin em Hollywood
2026/07/18
Em uma discreta rua de West Hollywood, onde apenas 14 clientes por noite conseguem um lugar à mesa, uma brasileira está na cozinha de um dos restaurantes mais exclusivos do mundo. O Somni, comandado pelo chef catalão Aitor Zabala, conquistou três estrelas Michelin apenas sete meses após a inauguração – e todas de uma vez, um feito raríssimo e histórico na gastronomia mundial. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Entre os cozinheiros responsáveis por manter esse alto padrão, está a capixaba Brenda Liz Rocha Vieira, de apenas 30 anos. Sua história revela não apenas o caminho de uma brasileira até um dos endereços mais cobiçados da alta gastronomia, mas também como a profissão de chef ganhou uma nova dimensão nas últimas décadas. Há pouco mais de 20 anos, cursar Gastronomia ainda era visto no Brasil como uma escolha pouco convencional. Hoje, impulsionada por escolas especializadas, reality shows e pelo reconhecimento internacional da culinária brasileira, a profissão passou a atrair jovens que enxergam na cozinha uma carreira de excelência. "Eu acho que mudou, sim. Eu acho que tem um pouco mais de respeito pela profissão. Antes, era a segunda, terceira opção de carreira", diz a chef. A paixão pela cozinha, ou a vontade de comer bem, veio muito antes das estrelas Michelin entrarem no seu horizonte. "Eu sempre tive muita curiosidade na cozinha, desde pequena. Cresci com a minha avó, e ela é uma cozinheira muito boa. Eu mudei para a casa da minha mãe quando era adolescente e ela não cozinhava. Eu comecei a sentir muita falta da comida da minha avó e quis muito aprender a cozinhar." Brenda formou-se em Gastronomia em Vila Velha (ES) e começou a carreira em restaurantes brasileiros até seguir para o exterior, onde transformou cada país por onde passou em uma etapa de aprendizado. "Eu sempre busquei trabalhar em restaurantes que tenham alguma coisa que eu não sei e preciso aprender", conta. Essa busca a levou para o Canadá e também para Barcelona, onde trabalhou em restaurantes estrelados. Foi ali que começou a acompanhar o trabalho de Aitor Zabala, um dos nomes mais respeitados da gastronomia espanhola. Quando soube que o chef reabriria o Somni em Los Angeles, decidiu criar a própria oportunidade: comprou passagem e pediu para passar um dia trabalhando no local para conhecer a cozinha. Brenda insistiu por uma vaga e o que não imaginava era que o chef também enxergaria nela o perfil que procurava. Segundo Zabala, experiência e talento podem ser adquiridos ao longo da carreira, mas o que ele considera indispensável é outra característica: “atitude”, contou o badalado chef espanhol. Brenda mostrou que tem esse ingrediente e o chef trouxe a brasileira para o seu elenco. Disciplina por trás das três estrelas Ao contrário do glamour que muitos imaginam, trabalhar em um restaurante três estrelas Michelin significa viver uma rotina rígida de disciplina constante. Em Los Angeles – cidade cheia de estrelas do cinema –, há apenas dois restaurantes que ostentam o topo do guia francês, que leva em conta a qualidade dos ingredientes, o domínio das técnicas culinárias, harmonia e equilíbrio dos sabores, a personalidade do chef e a consistência ao longo do tempo. Para conseguir o feito, o caminho é árduo e para manter a constelação, é necessário rigor e precisão absoluta. "O que eu quero muito é treinar o que você tem que aprender como profissional para ter um restaurante desse nível. O que eu vejo todo dia é muita disciplina, foco e consistência. Todos os dias, nos mínimos detalhes, são milhares de detalhes. Aqui, tudo é feito todos os dias. Nada congelado. Nada cortado antes. Nada. Tudo chega todos os dias, tudo é feito todos os dias". Conseguir uma mesa no Somni não é fácil. O restaurante, que recebe clientes do mundo inteiro, possui apenas 14 lugares e as reservas costumam se esgotar rapidamente. A clientela é confidencial, mas já passaram pelo local Selena Gomez, Kanye West e Aaron Paul, astro de Breaking Bad. A cozinha mistura raízes espanholas e catalãs com ingredientes californianos e técnicas francesas, sempre em um menu altamente criativo. Para Brenda, trabalhar nesse nível também significa cozinhar para pessoas que conhecem profundamente gastronomia e que investem muito na experiência. O sonho continua sendo brasileiro Mesmo construindo uma carreira internacional entre Canadá, Espanha e Estados Unidos, Brenda nunca deixou de pensar na cozinha brasileira. Ela já levou inspirações nacionais para restaurantes onde trabalhou anteriormente, mas ainda não teve o gostinho de trazê-las para Hollywood. Embora nunca tenha visitado o Brasil, Aitor Zabala demonstra curiosidade pela culinária do país. Ele admite à RFI que conhece apenas os pratos mais tradicionais, mas acredita que ainda há muito a descobrir. O chef conta que já conversa com Brenda sobre futuras colaborações com sabores brasileiros. Mas, por enquanto, o projeto dele é seguir com as estrelas conquistadas com sua própria alquimia. Enquanto isso, Brenda vai descobrindo e aproveitando esse brilho, e aperfeiçoa a receita do seu próprio sonho: aprender entre os melhores do mundo para, um dia, colocar a alta gastronomia brasileira ainda mais em evidência. "Eu quero abrir um restaurante de comida brasileira, um fine dining brasileiro. Algo que remeta ao Brasil, à minha trajetória, a tudo que aprendi, mas a minha comida é brasileira."
Brasileiro Rodrigo Torres realiza sua primeira exposição individual na Itália
2026/06/27
A galeria italiana Rhinoceros recebe em Roma a primeira exposição individual do artista brasileiro Rodrigo Torres na Itália. Intitulada "Água Mole em Pedra Dura", a mostra é fruto de uma parceria com a galeria brasileira A Gentil Carioca e permanece em cartaz até 13 de agosto. Gina Marques, correspondente da RFI em Roma A RFI encontrou o artista em Roma, na pré-estreia da exposição. “Eu apresento um conjunto de esculturas em cerâmica com essa técnica trompe-l'oeil de imitação de papelão, de papel rasgado, de pedra. Tudo que você vê aqui não é o que parece, e eu trago também muitas referências de Roma”, conta Rodrigo Torres. Inspirado nos monumentos da Cidade Eterna e na natureza do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde nasceu e cresceu, o artista apresenta um novo ciclo de obras. Entre as peças, estão esculturas em cerâmica, além de uma série de desenhos e pinturas em papel, nunca antes exibidos publicamente. “Todas as obras são em cerâmica, em pintura, mas quando você olha parece que é um papelão ou um papel. Algumas peças parecem pedras, porque a cor se assemelha a cor da pedra, assim como a pintura sobre papel dá a impressão de estar rasgado, mas não está, que é uma colagem, mas não é”, diz Márcio Botner, um dos fundadores e sócio da galeria A Gentil Carioca. Convergências com a natureza Na Floresta da Tijuca, árvores centenárias tombam e encostas cedem sob a ação do vento e da água. Em Roma, Rodrigo Torres encontrou a situação inversa: rachaduras são reparadas, superfícies estabilizadas e estruturas reforçadas para adiar o colapso. Dessa observação surgiu uma série de esculturas com efeito de colagem, evocando a possibilidade iminente de uma ruptura. Da presença constante da água nas inúmeras fontanas de Roma nasce a obra Por um Fio de Água, uma fonte apoiada sobre pedras. A fonte em cerâmica criada pelo artista brasileiro dá a impressão que é feita de tubos de papelão pintados amarrados por barbantes. “Eu já trabalho há algum tempo fazendo fontes de água. Aqui, eu pensei nela como agente de erosão e como isso se combina com os materiais e toda a cultura de Roma”, esclarece Rodrigo Torres. A Cidade Eterna é fonte de inspiração e de descoberta de novos materiais, destaca Márcio Botner. “Em Roma, Rodrigo descobre ainda mais elementos, a força da questão histórica com a conexão da natureza. Aqui ele descobre um barro para fazer a cerâmica que é diferente do Brasil, que tem uma cor muito similar ao tufo, que é essa pedra vulcânica.” Projeto O projeto das galerias é expor a criação de artistas estrangeiros depois de residirem em Roma por um breve período. Em 2023 a Rhinoceros teve a ideia de colaborar com outras galerias internacionais que não têm uma sede em Roma. A colaboração com A Gentil Carioca começou em março deste ano, inaugurando a mostra “O Tempo Mora em Mim” de Miguel Afa, o primeiro artista brasileiro a expor individualmente nesta galeria romana. “Esse projeto com a Rhinoceros nasce do convite para realizar uma parceria. A ideia foi trazer dois artistas. O primeiro (Miguel Afa) residiu aqui na capital italiana por quase três meses, realizando suas obras em Roma”, conta o fundador da A Gentil Carioca. “Essa experiência do artista de poder se aprofundar na cidade de Roma traz trabalhos inéditos. Roma é uma cidade que a cada esquina você descobre um pouco, uma nova página da história, e isso os artistas trouxeram intensamente dentro de cada obra”, salienta Botner. A Rhinoceros Gallery “O artista vive em Roma e imprime sua própria alma, o próprio espírito, seu olhar sobre a beleza de Roma, e de alguma forma isso transparece nas obras em exposição. Portanto, é uma ponte de comunicação.” afirma Alessia Caruso Fendi, fundadora da galeria Rhinoceros, à RFI. Para ela, o projeto com o Brasil representa o dinamismo do espaço artístico. "É um momento importante para nós também.” A galeria já apresentou exposições de grande impacto, incluindo uma da Galeria François Ghebaly, seguida por uma exposição individual do designer francês Ronan Bouroullec e a exposição coletiva Profili e Gesti, com obras de outros designers importantes, ambas com curadoria da Galerie kreo. Mais recentemente, também acolheu a galeria parisiense Nathalie Obadia e a trilogia de exposições da Galeria Bigaignon. As galerias convidadas podem trazer a sua própria identidade e curadoria para o espaço ou desenvolver projetos concebidos para Roma, por vezes produzindo obras diretamente na cidade.  Experiência em Roma Depois de morar quase três meses na Cidade Eterna, Rodrigo Torres descreve esta experiência nas suas criações: “Em Roma eu andei por aí, fiz vários desenhos, busquei referências em materiais como os mármores”, indica. “Esta é uma edição realmente especial para Roma, onde você vê aqui obras que provavelmente eu não vou produzir novamente, porque são feitas especialmente para cá.”
Copa do Mundo impulsiona estreia da LiveModeTV em Portugal com Cristiano Ronaldo como sócio
2026/06/21
A Copa do Mundo de 2026 está servindo de palco para a primeira expansão internacional da LiveModeTV. A empresa brasileira criada por executivos responsáveis pelo antigo Esporte Interativo e pelo sucesso da CazéTV no Brasil escolheu Portugal para lançar sua operação fora do país e, poucos dias após o início do Mundial, já acumula números históricos. O projeto ganhou ainda mais dimensão com a entrada de Cristiano Ronaldo como investidor e sócio estratégico. Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa Nos primeiros dias da competição, a LiveModeTV alcançou mais de 1,26 milhão de dispositivos únicos nas transmissões realizadas pelo YouTube, o equivalente a cerca de 30,5% dos lares portugueses. A partida entre Brasil e Marrocos tornou-se, segundo dados da plataforma Playboard, a maior transmissão ao vivo da história do YouTube em Portugal, com mais de 302 mil dispositivos conectados em simultâneo. A emissão também entrou para o Top 10 das maiores lives do mundo naquele dia. Segundo dados da própria empresa, 71,4% da audiência está concentrada na faixa entre 18 e 44 anos, justamente o público que a LiveModeTV pretende aproximar do esporte por meio das plataformas digitais. Por trás do projeto estão executivos que acompanham a transformação do consumo esportivo há mais de uma década. Para Fábio Medeiros, Diretor de Conteúdos da LiveMode TV, a história começou ainda nos tempos do Esporte Interativo, quando o grupo iniciou as primeiras experiências com transmissões digitais. “Naquela época, as pessoas estranhavam. Depois, passaram a esperar. Foi ali que começamos a perceber que existia uma mudança de comportamento”, afirma. Segundo Medeiros, a empresa nunca teve a pretensão de alterar os hábitos do público. “A gente nunca nem se sentiu capaz de mudar o comportamento de ninguém. A gente entendeu que ele já estava mudando e que existia uma demanda por esse tipo de conteúdo no lugar onde as pessoas já estavam. O jovem já estava no YouTube. Então, se você leva o conteúdo para onde ele já está, você aumenta muito as possibilidades de sucesso.” Mais do que uma empresa de transmissões esportivas, a LiveModeTV foi construída em torno da ideia de comunidade. “A sensação de comunidade é diferente de simplesmente assistir. A pessoa sente que faz parte do projeto”, explica. Essa participação influencia diretamente o conteúdo das transmissões. “O chat muda o nosso roteiro. É como uma conversa entre amigos. Você pode até ter alguns assuntos preparados, mas alguém traz um tema novo e a conversa segue outro caminho.” Essa relação com a audiência vem desde os tempos do Esporte Interativo e foi sendo aperfeiçoada ao longo dos anos, destaca Medeiros. “A sensação de ser parte do projeto é diferente de apenas assistir a um projeto. Quando a pessoa sente que aquilo está sendo valorizado, ela tem mais prazer em participar.” Outro elemento central da estratégia é a escolha dos criadores de conteúdo. “O direito por si só gera uma conexão superficial. Você precisa das pessoas aqui no meio, que se conectam com o fã do outro lado.” A expansão para Portugal, segundo o executivo, exigiu a construção de uma equipe local. “Não adianta trazer um influenciador do Brasil com milhões de seguidores. A gente precisava de pessoas que já tivessem essa linguagem orgânica com o público português.” Por isso, a LiveModeTV apostou em criadores portugueses vindos do universo digital, além de narradores com forte ligação com o esporte. “A gente precisava de uma equipe que tivesse conhecimento, informação, mas também linguagem. Porque, senão, você perde a conexão com quem está do outro lado.” Portugal como primeiro capítulo da expansão internacional Depois do sucesso da CazéTV no Brasil, a internacionalização tornou-se um passo natural. “Portugal não é um teste. É o primeiro capítulo de um projeto internacional”, resume Medeiros. Nascido nos Açores e criado em Portugal até os 10 anos, antes de se mudar com a família para o Brasil, o executivo sempre manteve uma forte ligação com o país e admite que a chegada da LiveMode ao mercado português também representa a realização de um projeto pessoal. Para João Mesquita, diretor geral da LiveModeTV, as razões que explicaram o sucesso do modelo brasileiro não estavam restritas ao Brasil. “À medida que fomos desenvolvendo e entendendo as razões do sucesso do projeto no Brasil, percebemos que elas não eram exclusivas daquele mercado. O crescimento do consumo de vídeo no ambiente digital, a influência dos criadores de conteúdo, a importância das comunidades e da participação são tendências globais.” Segundo Mesquita, o desafio nunca foi reproduzir a experiência brasileira. “Não tentamos copiar o que foi feito no Brasil. Procuramos adaptar a mesma filosofia ao contexto português e ao comportamento da juventude em Portugal.” Na avaliação do executivo, as novas gerações continuam interessadas em esporte, mas muitas vezes não se identificam com os formatos tradicionais. “O jovem quer participar dos grandes eventos esportivos. Muitas vezes ele apenas não os encontra na sua linguagem. O que nós quisemos fazer foi aproximar a transmissão esportiva da forma como essas gerações já vivem todo o resto do entretenimento.” Para ele, o sucesso do projeto confirmou que a estratégia estava correta. “O sucesso acabou por confirmar que essa hipótese estava certa e que poderia haver uma procura muito forte por uma experiência mais próxima, mais participativa e mais integrada com a cultura digital.” Cristiano Ronaldo e a validação da ambição global A entrada de Cristiano Ronaldo na operação portuguesa da LiveModeTV como investidor e sócio estratégico acrescenta peso a um projeto que, desde a origem, foi pensado para ganhar dimensão internacional. “Cristiano Ronaldo entra como sócio estratégico porque acredita neste modelo de mídia esportiva e acredita que a LiveModeTV tem capacidade para alcançar uma escala global”, afirma João Mesquita. Embora a gestão continue nas mãos da equipe da empresa, o General Manager destaca a experiência internacional do capitão da seleção portuguesa. “Ele tem uma compreensão muito profunda da relação entre atletas, fãs e plataformas digitais. Mas talvez o mais importante seja que a entrada dele representa uma validação definitiva da visão, da ambição e do potencial de crescimento da LiveModeTV.” Fã declarado de Cristiano Ronaldo, Medeiros admite que a parceria também tem um significado pessoal. “Para mim, indiscutivelmente, ele é o maior de todos.” Segundo ele, a chegada do craque português não alterou a estratégia da empresa. “Na verdade, ela reforçou aquilo que a gente já acreditava. Existe um alinhamento de visão sobre como usar inovação e tecnologia para aproximar o esporte dos jovens e levá-lo para o mundo digital.” Ao todo, a LiveModeTV transmitirá 34 partidas da Copa do Mundo e produz cerca de oito horas diárias de programação.“O nosso foco agora é entregar um Mundial que seja um exemplo”, resume Medeiros. “O projeto veio para ficar”, conclui.
Luso-brasileiros estão entre os vencedores do 'Concurso Sardinhas' de Lisboa
2026/06/06
Os artistas conquistaram o júri da competição que reuniu trabalhos de 66 países, como Brasil, Moçambique, Dinamarca, Canadá, Chile e Austrália Fábia Belém, correspondente da RFI em Lisboa A sardinha está para os Santos Populares em Portugal assim como o milho para as festas juninas no Brasil. E, neste ano, há dois talentos luso-brasileiros ajudando a dar cara nova ao peixe: o carioca Eduardo Ferrão e Letícia Amaral de Araújo, natural de Belo Horizonte. Eles são dois dos cinco vencedores da 16ª edição do “Concurso Sardinhas” de Lisboa, que neste ano recebeu 3.128 desenhos, enviados por 1.762 autores de 66 países. O resultado surpreendeu Letícia e Eduardo. “Quando chegou o e-mail [com o resultado], eu até tive que conferir algumas vezes. Eu não sabia se era golpe ou coisa do tipo, né? Para ver se era sério mesmo. E eu fiquei super satisfeito, porque é um concurso que acho muito bonito”, conta o designer gráfico. A notícia, que chegou por meio de uma ligação telefônica, foi recebida por Letícia com surpresa e felicidade. Ela também explica que, por retratar na sardinha uma cena tipicamente portuguesa, havia o receio de cometer algum equívoco. No entanto, a aprovação do júri português afastou qualquer dúvida. “Achei que [o resultado] validou a minha ideia”, afirma a designer. O concurso foi criado em 2011 pela EGEAC, empresa pública que promove ações culturais em Lisboa. O objetivo dos organizadores é estimular a participação e a criação artística, desafiando amadores e profissionais das artes a criar novas roupagens para a sardinha. As propostas vencedoras são utilizadas como imagem da campanha visual das tradicionais festas dos santos populares, equivalentes às festas juninas no Brasil. 'Bolo de arroz' Para participar da competição, Eduardo Ferrão se inspirou no projeto “O Último Bolo de Arroz de Lisboa”, lançado por uma associação de moradores que busca proteger, valorizar e dar visibilidade a cafés e pastelarias que fazem parte da história dos bairros. Chamou a atenção do designer gráfico a notícia de que muitos desses estabelecimentos tradicionais estão fechando as portas devido ao aumento do preço dos aluguéis e das matérias-primas, além de estarem sendo substituídos por comércios voltados a turistas e moradores estrangeiros com alto poder aquisitivo. Quando leu sobre o assunto, ele não teve dúvidas. “Foi como uma revelação, sabe? E aí a ideia estava ali”, relembra. A “Bolo de Arroz”, assinada pelo luso-brasileiro, molda o famoso doce português no formato de sardinha. A ilustração destaca a textura fofa da massa, a icônica crosta de açúcar no topo e a base envolta na clássica cinta de papel vegetal. “Fico realmente esperando que [a minha ilustração] abra o apetite das pessoas, sabe? Assim que passarem por uma pastelaria, peçam um bolo de arroz”, pede o carioca, que espera que sua criação também possa ajudar a manter o bolo de arroz e sua receita tradicional nas pastelarias portuguesas. “O Telefone das Coscusvilheiras” Na sardinha, a que deu o nome de "O Telefone das Coscuvilheiras”, Letícia Amaral de Araújo recorreu ao bom humor ao fazer uma leitura de uma cena cotidiana: a coscuvilhice de quem fica à janela ou na sacada dos apartamentos a fofocar e até a monitorar a vida alheia. “Este exagero visual não busca realismo, mas sim evidenciar um comportamento social reconhecível: o prazer na conversa e na construção coletiva de histórias”, destaca a EGEAC na descrição oficial do projeto. A ilustração da mineira destaca duas varandas tradicionais com uma senhora em cada lado a estender roupa na espinha dorsal da sardinha, que ganha nova vida como um varal e um "telefone de lata” ao mesmo tempo. Uma cena que resgata os conhecidos telefones de copinho ou de barbante das brincadeiras infantis. “E essas duas senhoras estão a se comunicar por meio de um telefone de lata, que eu fiz essa analogia com o varal”, explica Letícia. Sardinhas de Lisboa Além das sardinhas “Bolo de Arroz” e “O Telefone das Coscuvilheiras”, também conquistaram o júri da competição as ilustrações portuguesas “Sardinha Guitarrista” e “Patrimônio Fragmentado” e a “Tomatazo”, do Uruguai. O autor de cada uma delas ganhou um prêmio em dinheiro no valor de 1.500 euros (quase R$ 9 mil na cotação atual). A maior recompensa para os vencedores, contudo, é ter as sardinhas exibidas nos ônibus e no metrô da capital, nos painéis publicitários e nas decorações dos arraiais. Eduardo Ferrão, que vive na cidade do Rio de Janeiro, pensa até em ir a Lisboa para não perder a festa. “Eu ainda estou considerando isso, se pego semana que vem um voo. Enfim, vamos ver. É um evento muito relevante para a cidade, e eu gostaria muito de fazer parte desse momento”, confessa. Letícia, que mora há seis anos em Lisboa, já teve a chance de ver o resultado de seu trabalho e testemunhar a reação das pessoas. “Foi muito interessante. Eu fiquei mais como espectadora, vendo as pessoas com a sardinha na mão, conversando nesse contexto popular das festas, e senti uma sensação de orgulho”, disse. Ícone pop O Concurso Sardinha celebra um dos mais populares símbolos da identidade do país. Alimento básico das comunidades pesqueiras e de quem vivia e trabalhava no campo, a sardinha se tornou uma das marcas da capital portuguesa, uma espécie de ícone pop, estampada em roupas, acessórios e peças de decoração. E é no pico do verão deste lado do atlântico, que ela chega ao ponto para ser consumida. O preparo é nas grelhas ao ar livre às portas das casas e tascas. Para a designer mineira Letícia, que assim como Eduardo, gosta de sardinha, a partir de agora, a iguaria vai ter “esse gostinho especial, essa memória afetiva que vai ficar pra sempre”.
Exposição de fotógrafo brasileiro em Portugal transforma basquete de rua em manifesto visual
2026/05/30
Entre o concreto das cidades e o eco das quadras, o basquete de rua ganha densidade, memória e significado no olhar do fotógrafo brasileiro Dante Prochet. Em sua primeira exposição, no Porto, ele constrói uma narrativa visual que ultrapassa o esporte e se firma como um retrato sensível de identidade, pertencimento e vida urbana. Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa Nas imagens de Dante Prochet a quadra não é apenas um espaço delimitado por linhas, mas também um território simbólico. É ali que corpos se movem, histórias se cruzam e comunidades se formam. É dessa matéria viva que nasce a mostra “Basquete: O Manifesto”. A exposição de estreia do fotógrafo brasileiro em Portugal revela um olhar autoral consistente. Aos 20 anos, vivendo há cinco no país, o fotógrafo apresenta um trabalho que surpreende pela maturidade e pela clareza de intenção. O projeto teve origem em um livro, concebido como trabalho final acadêmico e, que ganha escala e intensidade em novo contexto. As imagens, ampliadas, impressas com cuidado e distribuídas de forma a manter o ritmo narrativo do livro, convidam o espectador a uma experiência mais lenta, quase imersiva. “Manifesto”, aqui, não é metáfora vazia e sim, como define o próprio artista, uma declaração. “Quis mostrar, pelas minhas fotos, a cultura do basquete de rua”, explica. Ele faz isso deslocando o olhar do jogo em si para os elementos que o sustentam e carregam história: os encontros, os códigos, os gestos e os espaços.   Lisboa e Nova York O trabalho se organiza a partir de um eixo geográfico e simbólico, entre Lisboa e Nova York. Duas cidades que, à primeira vista, pouco têm em comum, mas que se aproximam na linguagem universal do basquete de rua. “Nova York é o centro desse universo, com quadras icônicas por onde passaram e ainda passam jogadores da NBA e grandes nomes do basquete mundial. São espaços carregados de história, quase míticos dentro da cultura do esporte. O que me interessava era justamente colocar isso em diálogo com a realidade portuguesa, muito mais discreta em termos de projeção, mas que, para mim, tem o mesmo peso em significado. São contextos diferentes, mas que se encontram na forma como o basquete de rua constrói comunidade e identidade”, afirma. Um manifesto entre memória e território Nas imagens feitas na cidade americana, as quadras surgem como espaços carregados de memória, lugares onde passaram jogadores profissionais, onde nasceram lendas e onde o jogo se mistura à própria construção da identidade local. Em Lisboa, por outro lado, o olhar se volta também para as ausências, como a precariedade, a falta de incentivo, a fragilidade de estruturas das quais, muitas vezes, dependem comunidades inteiras. É nesse ponto que o trabalho ganha densidade crítica. Fotografias como Quadra Quebrada condensam essa tensão. A imagem nasceu de uma experiência pessoal, depois que uma quadra próxima à casa do fotógrafo teve a cesta retirada após reclamações de barulho. “Ali existia uma comunidade. Quando tiraram a cesta, aquilo simplesmente acabou”, lembra. O que se vê, então, não é apenas a ausência de um equipamento, mas o esvaziamento de um espaço de convivência. Uma estética que aproxima A força das imagens também reside na linguagem utilizada. Influenciado por nomes como William Klein, nova-iorquino e um dos fotografos mais influentes do século XX, Prochet aposta em uma estética mais crua, menos polida, que aproxima o espectador da ação. Há movimento, ruído, tensão. Ao mesmo tempo, referências como Robert Adams, fotógrafo americano ligado ao movimento New Topographics, ajudam a construir momentos de pausa e composição mais limpa, criando um equilíbrio que sustenta a narrativa visual. Outro contraste entre o basquete de rua e o basquete federado atravessa o trabalho. Enquanto o segundo é marcado por regras, uniformes e controle, o primeiro se afirma como espaço de liberdade. “Na rua, você joga como quer, se veste como quer. Existe uma liberdade total”, diz Prochet. Essa autonomia aparece não apenas nos gestos dos jogadores, mas também na forma como ocupam o espaço e constroem sua identidade. Em um tempo dominado pela circulação acelerada de imagens, o jovem também propõe uma reflexão sobre a materialidade da fotografia. Para ele, há uma diferença decisiva entre ver uma imagem na tela do celular e encontrá-la em uma parede. “Você perde detalhes importantes no digital, como o brilho e a textura do papel. Isso muda completamente a experiência”, afirma. Ainda assim, reconhece a ambivalência das redes sociais que, ao mesmo tempo em que ampliam o alcance do trabalho, também reduzem parte de sua potência sensorial. A estreia em Portugal surge a partir da relação com um coletivo artístico local, e o resultado, segundo o próprio fotógrafo, supera as expectativas iniciais. Mais do que um primeiro passo, Basquete: O Manifesto se apresenta como um gesto inaugural que já carrega identidade. Há, no trabalho de Dante Prochet, uma compreensão clara de que o essencial não está apenas no jogo, mas em tudo o que o cerca. E é nesse entorno, feito de pessoas, histórias e espaços, que sua fotografia encontra força, sentido e permanência. A exposição “Basquete: O Manifesto”, em cartaz na Temporada Social Club, no Porto, segue aberta ao público até 14 de julho
Dupla de coreógrafos brasileiros é indicada ao maior prêmio da dança mundial
2026/05/23
Dois corpos negros completamente nus, vestidos apenas com meias e tênis brancos. Rodeada pela plateia que se senta ao chão, a dupla de performers brasileiros marca o ritmo da coreografia com o bater dos pés. Com a obra Repertório número 3, os artistas cariocas Davi Pontes e Wallace Ferreira foram indicados ao maior prêmio da dança mundial, o Rose International Dance Prize, do Sadler's Wells, a principal casa de dança internacional do Reino Unido. Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres Uma performance política pós-colonial que explora questões centrais de gênero e raça no Brasil e no mundo, a obra indicada foi resultado de uma pesquisa de quase dez anos que teve lançamento na Bienal de São Paulo, em um momento político dominado pela retórica da extrema direita no Brasil. Wallace Ferreira explica que o Repertório número 3 é a segunda parte de uma trilogia que começa em 2018 e surge em um contexto histórico importante para o Brasil. E foi justamente essa performance que levou os dois artistas cariocas para o mundo. “Esse trabalho fala muito sobre o Brasil, mas também são questões que atravessam [fronteiras]. Pra gente não tem como falar sobre racialidade e violência, sem falar sobre o contexto político atual. Sinto que é um trabalho que responde a uma questão no Brasil, mas o mundo se reconhece” , diz Davi Pontes. Davi e Wallace se referem à violência, discriminação e ameaça à sua própria existência como pessoas negras periféricas. A coreografia tem marcação ritmada, com poses e gestos sedutores diante do olhar julgador do público. Em resposta, a dupla apresenta o que chama de "uma dança de autodefesa". “A cada situação de violência, a cada operação policial essa palavra [autodefesa] volta, ela precisa ser dita. A importância desse  trabalho é olhar para o contexto do mundo atual e perceber que as coisas não estão fáceis. E ainda assim conseguir trazer uma alternativa possível de continuar vivendo nesse mundo”, diz Davi. Para Wallace a autodefesa tem diversas maneiras de se acontecer: “ela está no embate, está no escape, no se camuflar, no constranger, na ironia, no deboche, no humor. Nos interessa pensar numa ideia de se autodefender que seja mais opaca, que não seja explícita.” E a autodefesa não é luta física. "É estar presente, ali, na sua frente. Dois dançarinos  negros, marginalizados que existem, resistem. É sobre a presença de corpos nus, rodeados pela platéia sentada em volta deles no chão. A obra dos brasileiros foi indicada ao prêmio aqui em Londres justamente por seu valor e qualidade como peça coreográfica e teatral, mas também por sua relevância e urgência. Por questionar a nossa percepção e o posicionamento que escolhemos ter", diz Wallace. Davi explica que ter a platéia tão próxima e no mesmo nível que os dançarinos é entender que todos os que estão presentes fazem parte do jogo e são responsáveis pelo o que está sendo apresentado. “Esse trabalho se coloca na situação de responder, de ouvir, de observar e estar atento.” A dupla nunca sequer cogitou estar vestida em cena “A pesença de um corpo negro nu no espaço de fato causa tanto incômodo que eu não preciso mover e criar embate, só a minha presença já torna insustentável de olhar. Dependendo do país, a gente entra na sala e as pessoas querem correr porque elas não conseguem lidar com aquilo", aponta. Wallace afirma que não se sente vulnerável: “Entendemos que o lugar da vulnerabilidade é também um lugar de potência”. Wallace foi criado em Vigário Geral e Davi em São Gonçalo, bem longe das famosas Ipanema ou Copacabana. Da periferia do Rio, fizeram carreira internacional desconstruindo padrões e expectativas da dança contemporânea. A  temática política continua a guiar o próximo trabalho deles - uma colaboração com outros coreógrafos estrangeiros. “É bom não esquecer onde tudo começou ainda numa sala vazia, pra quando chegar em uma sala lotada não pensar que tudo aconteceu do nada. A vitória vem se construindo todos os dias. Que eu ainda possa acordar e falar: -  hoje vou viver do meu trabalho, vou viver fazendo aquilo que eu acreditei, aquilo que eu sonhei”, conclui Wallace. O vencedor do prêmio será anunciado em fevereiro do ano que vem, quando os indicados brasileiros Davi e Wallace se apresentam nos palcos de Londres.
Na capital mundial das abelhas, casal brasileiro ajuda a salvá-las da extinção
2026/05/16
Sem abelhas, grande parte do que chega ao nosso prato simplesmente não existiria: mais de 75% dos cultivos destinados à alimentação humana dependem da polinização. O problema é que esses insetos essenciais estão desaparecendo, um fenômeno já identificado há mais de um século e que ganhou até nome: Síndrome do Colapso das Abelhas. Edison Veiga, correspondente da RFI na Eslovênia Hoje, a situação se agrava com a poluição, o uso intensivo de pesticidas e a expansão urbana, fatores que tornam o ambiente cada vez mais hostil para esses polinizadores indispensáveis. Cientistas de todo o mundo buscam soluções para conter o declínio dos insetos polinizadores. Na Eslovênia, considerada a capital mundial das abelhas, um casal de brasileiros integra esses esforços. A bióloga Letícia Salvioni Ansaloni, de 31 anos, trocou as pesquisas com larvas de moscas no Brasil pelo estudo das abelhas na Universidade de Maribor, no leste do país europeu, onde atua desde 2022. “Trabalho com saúde e nutrição das abelhas”, explica. Seu foco é testar extratos fúngicos como suplementos alimentares e avaliar de que forma essas substâncias podem contribuir para melhorar a saúde dos insetos. Também biólogo, Caio Eduardo da Costa Domingues, de 35 anos, já pesquisava colmeias no Brasil desde 2014, com foco nos efeitos de agrotóxicos. Há cinco anos na Eslovênia, ele dá continuidade aos estudos na mesma universidade. Identidade apícola “Morando aqui, você percebe claramente como a apicultura faz parte da cultura e da identidade do país”, afirma Domingues. Não por acaso, foi a partir de uma iniciativa eslovena que a ONU instituiu o 20 de maio como o Dia Mundial das Abelhas. Com cerca de 2 milhões de habitantes, a Eslovênia reúne aproximadamente 10 mil apicultores e pelo menos 200 mil colmeias. “Eu não fazia ideia da importância que as abelhas têm para os eslovenos”, diz Ansaloni. “Você vê desde crianças até idosos trabalhando com abelhas, muitos apenas por hobby”, destaca a bióloga brasileira. A data escolhida celebra o nascimento de Anton Janša, esloveno que viveu no século 18 e é considerado um dos pioneiros da apicultura moderna. Originário de uma família que vivia da produção de mel em uma vila próxima a Žirovnica, ele se destacou ao desenvolver métodos inovadores de manejo de colmeias após estudar em Viena. Mais do que uma celebração simbólica, o Dia Mundial das Abelhas é um convite à reflexão sobre o papel desses insetos na manutenção da vida no planeta. “As abelhas são insetos incríveis. Estão muito além da produção de mel, própolis ou outros derivados”, destaca Domingues. “É importante destacar que elas são os principais polinizadores que temos no mundo. Sem elas, muitos dos alimentos que consumimos não existiram”, conclui.
Ícone da música brasileira, Sonia Santos volta aos palcos brasileiros aos 82 anos
2026/05/02
Sonia Santos é uma das vozes mais importantes da música brasileira, que muita gente ainda está descobrindo. Uma artista de trajetória rara, com 60 anos de carreira, que atravessa televisão, samba, soul e jazz com a mesma força e identidade. A cantora e compositora que construiu uma carreira singular dividindo palcos com grandes nomes internacionais e da MPB, agora retorna ao Brasil, em maio, para apresentar o espetáculo “O Samba Mandou Me Chamar”, marcando um reencontro com o público brasileiro após anos de atuação intensa no exterior. Radicada em Los Angeles há mais de três décadas, Sonia fez da cidade um polo de expressão afro-brasileira e consolidou-se como referência cultural. Foi na cidade californiana que concedeu uma entrevista à RFI. Aos 82 anos e cheia de energia que transborda nas conversas e nas suas músicas, subiu ao palco em Temecula, na Califórnia, no dia 17 de abril. Nos últimos meses realizou diversas apresentações na região, na qual é reconhecida como um símbolo de resistência e a ponte entre a ancestralidade e a modernidade global, de onde vêm suas inspirações. Ela afirma que a arte deve manter um olhar atento sobre a política para não transmitir mensagens equivocadas, motivo pelo qual acompanha de perto o tema. “Eu gosto de programas de governo que falam principalmente em saúde, educação, arte e cultura. Então, eu fico de olho nessas coisas, procuro valorizar a minha ancestralidade e fazer com que essas figuras que realmente, vamos dizer assim, fundaram o Brasil, que elas sejam vistas, que elas sejam ouvidas, que elas sejam reconhecidas e valorizadas”, contou à RFI. Uma lenda viva Ícone desde os anos 1960, Sonia compartilhou palcos com nomes como Tim Maia, Jorge Ben Jor e Luiz Melodia. A projeção nacional veio na década seguinte, quando se tornou presença marcante na televisão brasileira, especialmente no Fantástico, da TV Globo. Participou de performances musicais e de trilhas de novelas. Nos anos 1990, mudou-se para os Estados Unidos; logo no início já conquistou a Broadway e abriu shows de nomes como Ray Charles e Nancy Wilson, além de colaborações e encontros com Sérgio Mendes e outros artistas que ajudaram a projetar o reconhecimento da música brasileira, e a potência que é hoje, no exterior. “Eu cantei num festival de artes populares na Tunísia, há uns anos. Havia 54 países representados e quando anunciaram que era música brasileira, todo mundo aplaudiu. Nós tocamos na Rússia, ginásio cheio, e o patrocinador, que era a Coca-Cola, divulgou muito 'Água de beber'. E o povo cantarolova isso (ela canta). Basta dizer que é música brasileira e uma rendição incondicional acontece", revela. Ao lado da cantora Ana Gazzola, integrou o projeto Brazil Brazil, com o qual fez diferentes circuitos internacionais, incluindo cidades na Ásia, Europa e África. O grupo foi responsável por levar repertório brasileiro a festivais de jazz e música do mundo inteiro. Uma missão, segundo Sonia, com muito ritmo e cadência para transmitir amor ao mundo. A artista diz que sua trajetória é guiada pela “voz do seu coração”, uma proposta de vida que a levou a circular por mais de 40 países. Para ela, “todo artista é um canal”, responsável por “transmitir coisas boas e bonitas”. Sonia parte do princípio de que “tudo é energia, força magnética” e acredita ter uma mensagem a passar para as pessoas. “Escolhi as palavras das minhas músicas nessa direção”, conta. Samba como DNA e pioneirismo Seu talento visionário se expressa em músicas como Poema Rítmico do Malandro (1971), que antecipou a cadência do rap anos antes do gênero ganhar força no Brasil. Sonia já experimentava com a métrica e a rima, e adiantou tendências com uma visão artística que sempre esteve décadas à frente. Mas o samba, ah, o samba. Esse bate mais forte e constante no peito. É o eixo central de uma carreira que desafiou fronteiras. Embora tenha transitado com maestria pelo jazz e pelo blues, é na cadência do tambor que sua identidade se solidifica. Tempos de redescoberta Apesar dessa magnitude, o nome de Sonia Santos parece ainda escondido, esquecido do grande público, sendo muitas vezes um segredo guardado por músicos e historiadores. Por isso, o significado ainda maior desse retorno ao Brasil. Será a síntese de uma trajetória que volta ao palco de onde saiu. No novo espetáculo “O Samba Mandou Me Chamar”, Sonia revisita diferentes fases da própria trajetória por meio de um repertório que mistura memória e reinvenção: com clássicos como “Upa Neguinho”, “Água de Beber” e “Brasileirinho”. O show também inclui releituras que dialogam e refletem sua vivência entre Brasil e Estados Unidos e tributos a mulheres que, assim como ela, levaram a música brasileira aos palcos do mundo, como Carmen Miranda e Tânia Maria. “Eles podem esperar de mim uma entrega total, entendeu? Estou completamente rendida às belezas do meu país. Eu amo o Brasil. Eu acho que ele não é a pátria do futuro, ele é a pátria do presente. Eu acho que definitivamente ele está chegando naquele ponto de ter o reconhecimento e o respeito mundial", conclui. As apresentações acontecem nos dias 7 e 8 de maio de 2026, às 20h, no Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis, em São Paulo.
Brasileiro roda o mundo gravando viagens de trem e faz sucesso no YouTube
2026/04/25
Os mais de 400 vídeos do canal Rail Relaxation já acumulam 42 milhões de visualizações. O goiano David Sousa, que vive em Liubliana há 21 anos, deixou de lado a profissão de motorista para se dedicar ao projeto. Edison Veiga, correspondente da RFI na Eslovênia Meio de transporte comum em diversas partes do mundo, o trem não fazia parte da rotina do brasileiro David Sousa até a vida levá-lo para fora do país. Nascido em 1972 no estado de Goiás, ele vive há 21 anos na Eslovênia – e foi em Liubliana que acabou encontrando, quase por acaso, o tema que mudaria sua trajetória profissional. Apaixonado por filmagens, Sousa começou a registrar viagens de forma despretensiosa, em um canal pessoal no YouTube voltado a passeios e montanhas. A ideia inicial era mostrar a Eslovênia para brasileiros. Mas um vídeo específico, gravado dentro de um trem, mudou tudo. O conteúdo viralizou. A repercussão inesperada revelou um público fiel interessado em acompanhar trajetos ferroviários completos, com paisagens e sons ambientes. Foi o ponto de partida para a criação do canal Rail Relaxation, há cerca de quatro anos. Hoje, o canal reúne mais de 400 vídeos publicados e ultrapassa a marca de 42 milhões de visualizações. A guinada digital veio acompanhada de uma decisão ousada. Após 16 anos trabalhando como motorista da embaixada brasileira na Eslovênia, Sousa decidiu deixar o emprego formal para se dedicar integralmente à produção de conteúdo. A escolha, segundo ele, foi motivada tanto pelo crescimento do projeto quanto pela possibilidade de realizar um antigo objetivo: viver da internet. Viagens cada vez mais longe No início, as gravações aconteciam apenas nos fins de semana e em países próximos, como Áustria, Itália, Croácia e Suíça, mas hoje a necessidade de diversificar o conteúdo levou o brasileiro a expandir horizontes. Viagens mais longas passaram a fazer parte da rotina. A produção segue um método rigoroso. Sousa publica dois vídeos por semana e costuma gravar várias viagens de uma só vez, organizando o material posteriormente. Cada vídeo pode demandar cerca de oito horas de edição. Em trajetos mais longos, ele divide o conteúdo em partes: uma viagem de 12 horas, por exemplo, pode virar uma série com quatro episódios. Apesar do sucesso, ele admite que produzir conteúdo ferroviário não é simples. Em muitos casos, é necessário lidar com processos burocráticos para obter autorização de filmagem junto a empresas de transporte – um desafio comum para criadores desse nicho. Ainda assim, o público segue crescendo e aguardando cada nova publicação. O interesse é alimentado pela diversidade de paisagens e rotas, que vão de trechos alpinos a longas travessias internacionais. Nos planos, estão destinos ainda mais ambiciosos. Uma viagem à Ásia, especialmente para registrar trajetos ferroviários na Índia e em Bangladesh, está sendo preparada há anos e pode sair do papel em breve. Para quem passou a infância sem sequer ter visto um trem de perto, Sousa hoje percorre o mundo sobre trilhos – e transformou esse percurso em destino.
Uma bailarina brasileira na Alemanha em defesa da dança “que incomoda”
2026/04/18
Estamos no Ballethaus, o impressionante complexo de ensaios da companhia de dança Ballett am Rhein, o Balé do Reno, em Düsseldorf, na Alemanha. Por estes corredores, a bailarina brasileira Norma Magalhães caminha como se estivesse em casa. Aqui é onde ela passa a maior parte do seu tempo. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf “Basicamente o dia inteiro. A gente começa a trabalhar às dez, com aula de balé, todo mundo, por uma uma hora e vinte. E depois começam os ensaios, as criações, até às seis da tarde. Isso é uma semana comum para a gente.” O prédio de 3000 metros quadrados desenhado pelos arquitetos Gerkan und Marg & Partner foi inaugurado em 2015, justamente no ano em que a brasileira de 33 anos, na época com apenas 22, se tornou parte do corpo de 45 bailarinos do Ballett am Rhein. Abrimos uma porta, e nos deparamos com um dos quatro enormes estúdios de ensaio. Outra porta, e damos de cara com um spa completinho. “A gente aqui é super privilegiado”, conta Norma. “Não é toda companhia na Alemanha que tem essa estrutura. Tem sauna, para quando a gente está meio quebrado, tem banheira de gelo, fisioterapeuta, academia”. Os espetáculos ocorrem nos dois teatros de ópera da região: o Theater Duisburg e a Opernhaus Düsseldorf, a casa da Deutsche Oper am Rhein, a Ópera Alemã do Reno. Eu já vi Norma se apresentar algumas vezes na Opernhaus e sempre fiquei impressionado com a complexidade de suas performances. Então é claro que eu preciso começar a nossa conversa perguntando sobre como ela gera o medo do palco em um ambiente tão exigente. “Quando estou no palco é mais prazer, eu não penso muito. Mas os segundinhos antes de entrar parece que tem aquele momento de realização: ‘Meu Deus, essa casa com mil pessoas, qualquer coisa pode dar errado!’”, conta Norma. “E isso é o legal do ao vivo, você pode trabalhar e se preparar o quanto for, mas se você pisar naquele lugar, escorregar e cair… Erros coreográficos são muito comuns, mas a gente aprende a esconder”. “Não sabia o que esperar da Alemanha” Voltamos no tempo para entender como é que esta bailarina de Ribeirão Preto veio parar em um dos corpos de balé mais prestigiados da Alemanha. “Meu interesse pela dança foi sempre um mistério na minha família. De alguma forma, sempre tive certeza de que eu queria ser bailarina. Fazia tudo na meia-ponta. Minha mãe sempre dizia que, se ela me pedisse um copo d'água, eu fazia duas piruetas, pegava no copo e voltava com o copo vazio, porque a água caía no chão.” Norma encontrou suporte para começar a carreira na ONG cultural FINAC, de Ribeirão Preto, e o passaporte para estudar balé fora do Brasil veio quando venceu o Festival Internacional de Dança de Brasília. A bolsa de estudos oferecida à ganhadora a levou para estudar na Universidade de Música e Artes Cênicas de Mannheim, no sudoeste da Alemanha. “Eu vim realmente sem nenhuma expectativa, sem saber nada do que esperar daqui. Eu sabia que era frio e que era um idioma em que eu ia ficar super perdida, mas o resto foram surpresas e novidades.” Na escola, ela teve de lidar com a disciplina exigida pela profissão e pela cultura alemã: “Era uma coisa meio militar, não podia ter um fiozinho de cabelo fora do lugar, não podia esquecer nenhum passo, era uma coisa bem mais puxada. O balé tem essas regrinhas, coisinhas bobas tipo: não pode bocejar, porque aí parece que você está desinteressado, ou você não pode necessariamente demonstrar cansaço, dependendo de quem está ali na frente levando o ensaio.” Autógrafos na rua Depois dos estudos, Norma passou pelo teatro de ópera de Karlsruhe e pelo Balé da Turíngia, até desembarcar no Ballett am Rhein, em Düsseldorf, onde está há 11 anos e onde diz ter se encontrado. “Eu cresci aqui, então o pessoal fala que eu sou uma brasileira já alemanizada. Aqui não só o bailarino e a companhia dão muito valor ao balé, mas também as pessoas. Às vezes estou andando na rua e as pessoas param para dizer que me viram no teatro e pedem um autógrafo.” O envolvimento da sociedade faz com que boa parte da Ópera e do Balé do Reno sejam financiados por um clube de mecenas e patrocinadores, em conjunto com o estado. A casa cheia em quase todas as apresentações também demonstra que o balé e a ópera estão mais vivos do que nunca, ao contrário do que disse o ator franco-americano Timothée Chalamet no início do ano. “Ele fez um comentário muito infeliz, mas também bem ignorante”, crava Norma. “Estando nessa profissão por tantos anos, consigo ver como está crescendo. As pessoas têm sede de ver ao vivo, não só pela televisão. Acontece o mesmo no balé, os teatros estão lotando.” Balé contra a lógica dos algoritmos Nestes 11 anos de carreira em Düsseldorf – e 16 na Alemanha –, Norma Magalhães interpretou clássicos como a Rainha das Neves, em "O Quebra-Nozes", mas é também uma ferrenha defensora do balé mais conceitual, que é uma das especialidades do Ballett am Rhein, mesmo que ele seja mais difícil para a compreensão do público. “Às vezes a gente também tem que se colocar em lugares e viver experiências que não são confortáveis para a gente. Em uma era de algoritmos que te mostram no Instagram ou na Netflix somente coisas que você vai curtir, é importante sentir esse desconforto e aprender o quê o desconforto pode te ensinar, pode trazer para te fazer questionar. Então não tem que ser sempre uma historinha ou uma experiência agradável para te fazer sentir coisas. A gente está desacostumado a ‘se incomodar’ um pouquinho.” Na saída do Ballethaus, em Düsseldorf, eu cruzo com o francês Raphaël Coumes-Marquet, que é um dos atuais diretores do Ballett am Rhein, ao lado de Bridget Breiner. Peço para ele encerrar nosso passeio falando sobre o trabalho de Norma Magalhães: “Norma é um verdadeiro raio de sol. Ela traz uma positividade e um olhar fresco sobre a criação e o trabalho no estúdio de ensaio.”
'Notes on Collagen': atriz brasileira discute o medo do envelhecimento em peça em cartaz em Nova York
2026/04/12
Uma palavra simples, cada vez mais presente no cotidiano, colágeno, virou ponto de partida para que a atriz, escritora e diretora brasileira Fabiana Mattedi construísse uma reflexão sobre envelhecimento, identidade e pressão estética. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York  Fabiana Mattedi conta que a inspiração veio de uma percepção pessoal ao longo dos últimos anos. A artista relata que passou a notar como o termo “colágeno” começou a aparecer com frequência em seu dia a dia. "Era uma coisa que, antes de vir para Nova York, antes de eu ter 40 anos, não sabia do que se tratava", confessa.  O estalo definitivo veio de uma cena aparentemente banal no metrô da cidade. Durante uma viagem no L Train, Mattedi ouviu duas jovens, na casa dos vinte anos, discutindo preocupações com envelhecimento e com a necessidade de “cuidar” do corpo desde cedo. A conversa chamou atenção justamente pela antecipação dessa ansiedade. Para a artista, esse comportamento reflete uma mudança geracional. Ela observa que pessoas mais jovens já estão conectadas a preocupações estéticas e corporais que, para gerações anteriores, sequer eram conhecidas. Segundo Mattedi, muitas vezes há um medo de perder algo que nem se sabe exatamente o que é. A partir dessa experiência, o que começou como uma crônica cotidiana evoluiu para uma investigação mais profunda, quase uma escavação, sobre o corpo, o tempo e as pressões sociais. A atriz afirma que o espetáculo nasce de uma inquietação central: o envelhecimento passou a ser tratado como problema. E, para ela, existe uma cobrança mais intensa e complexa em relação à aparência feminina. "Tem um questionamento dessa ditadura de beleza, de padrão de beleza, principalmente com nós mulheres. Com a gente tudo é mais complicado, mais difícil", analisa. No palco, esse conflito aparece com humor, mas também com densidade reflexiva. Mattedi explica que utiliza a comédia como ferramenta para abordar temas mais profundos. Segundo ela, o riso funciona como um filtro para expressar questões filosóficas e experiências pessoais. Mas a trajetória que levou à criação de "Notes on Collagen" começa muito antes de Nova York. Natural da Bahia, a artista se formou em teatro em Salvador, onde iniciou sua carreira e construiu suas primeiras referências. Ela destaca que participou de um projeto marcante ao lado da companhia baiana Os Argonautas, experiência que considera fundamental em sua formação. Foi nesse ambiente que surgiram encontros importantes com nomes como Vladimir Brichta e Emanuelle Araújo, além de uma rede de contatos que segue presente em sua trajetória. Anos depois, já com o projeto em andamento em Nova York, esses vínculos se transformaram em apoio concreto: Brichta e Araújo participaram da produção com vídeos que ajudaram na arrecadação de recursos para viabilizar a montagem. Para Mattedi, essa continuidade revela como a construção artística também depende de comunidade e colaboração. Ela também destaca a influência de suas origens. Segundo a atriz, a Bahia, que "deu régua e compasso para um monte de gente", teve papel fundamental na formação de sua identidade artística, funcionando como base para sua trajetória. Hoje, essa história ganha uma nova camada com a experiência de viver e atuar em outra língua. Construir identidade em outro idioma Apresentar a peça em inglês, segundo Mattedi, exige precisão técnica na fala, mas também envolve uma dimensão mais profunda: a de construir identidade em outro idioma. Ela afirma que atuar em uma segunda língua é um desafio que vai além da comunicação, e passa pela própria forma de existir em um novo contexto. "Tem o desafio técnico de falar as palavras com cuidado e com atenção para poder ser entendida. Mas, ao mesmo tempo, como eu falo em inglês é quem eu sou. E tem que ser assim, porque senão eu perco a minha autenticidade", explica, defendendo o "desafio de 'ser' em outra língua". Nesse processo, o sotaque também se torna parte central da discussão. A atriz critica a pressão, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, para neutralizar a forma de falar. Segundo ela, há uma “padronização” da linguagem que privilegia determinados sotaques, especialmente os do eixo Rio-São Paulo, em detrimento de outras identidades regionais. A montagem de "Notes on Collagen" também reflete os desafios do teatro independente em Nova York, com equipe reduzida, direção compartilhada e soluções cênicas simples para se adaptar à dinâmica intensa dos festivais. O espetáculo integra o circuito do Fringe Festival, conhecido por abrir espaço para produções autorais e independentes. Nesse contexto, a peça encontra um ambiente propício para dialogar com o público. Mais do que falar sobre estética ou colágeno, o trabalho levanta uma questão mais ampla: em que momento o envelhecimento deixou de ser um processo natural e passou a ser motivo de medo? "Notes on Collagen" terá quatro apresentações em abril, no teatro Under St. Marks, no East Village, em Nova York.
Artista brasileira assina identidade visual de Páscoa de tradicional chocolateria portuguesa
2026/04/04
Radicada no Porto, a artista visual brasileira Camila Senna assina para esta Páscoa a identidade de uma das casas de chocolates mais tradicionais de Portugal. O trabalho marca um momento de afirmação da sua trajetória artística.   Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Portugal “Foi muito especial receber esse convite, porque eu já me identificava com a marca. Eu já era cliente desde que cheguei em Portugal”, afirma a artista. O desafio, segundo Camila, foi encontrar um ponto de equilíbrio entre passado e presente. “Foi trazer um frescor, uma novidade, mas sem perder esse lado tradicional da marca.” Para construir essa nova linguagem visual, Camila Senna partiu da origem do próprio chocolate. “Eu fui buscar o cacau, que tem uma forte ligação com o Brasil, e trabalhei com aquarela, que é uma forma manual, assim como o próprio processo de produção do chocolate.” A técnica escolhida reforça a dimensão artesanal do projeto. Nas embalagens, cores mais vibrantes aparecem integradas a uma composição equilibrada, marcada por gestos delicados e atenção aos detalhes, que se revelam de forma gradual. A artista buscou provocar sensações e ativar memórias afetivas. “A ideia é que as pessoas não vejam só como um produto, mas como algo especial, com cuidado artístico, que desperte curiosidade, prazer e até um toque de nostalgia”, explica. Entre o Rio e o Porto: uma identidade em construção A linguagem visual desta coleção nasce de um percurso marcado por deslocamentos e reinvenção. Camila deixou o Rio de Janeiro em 2019 e consolidou a carreira em Portugal. "Foi aqui que mergulhei na cerâmica e comecei a explorar novos materiais”, aponta.  Apesar das novas influências, a artista sublinha a importância das suas raízes: seu trabalho reflete o cruzamento de referências. “Eu mantive muito a minha essência brasileira, trazendo cor, alegria, o lado mais espontâneo. É uma mistura de um toque de tropicalidade com um olhar mais calmo e detalhista, que fui desenvolvendo aqui em Portugal", afirma. “O Rio, as cores, a alegria me inspiram muito. O meu trabalho acaba sendo esse encontro entre o que eu vivo aqui e o que eu trago comigo. Essa alma colorida continua sempre presente.” O Porto como território criativo A instalação em Portugal aconteceu em circunstâncias imprevistas. “Vim com a ideia de ficar um mês, e acabei me apaixonando pela cidade”, diz a artista visual.  Instalada no norte do país, a artista encontra na cidade uma fonte de inspiração para seu processo criativo. “O Porto respira arte. Eu me inspiro no que vejo no dia a dia, nas texturas, nas cores.” A colaboração com uma marca de doces e chocolates surge em um momento de amadurecimento da sua carreira. Com ateliê próprio no Porto, Camila Senna desenvolve hoje projetos autorais e iniciativas de partilha criativa. “Faço workshops de desbloqueio criativo, onde o processo é tão importante quanto o resultado. Quero continuar a crescer de forma mais estruturada, com colaborações e projetos que reforcem a minha identidade.”

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