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Brasil-Mundo

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Categories
Country
United States
This podcast has
57 episodes
Publisher
RFI Brasil
Explicit
No
Date created
2020/01/03
Latest episode
2026/04/18
Average duration
7 min.
Release period
9 days

Description

Reportagens de nossos correspondentes em várias partes do mundo sobre fatos políticos, sociais, econômicos, científicos ou culturais, ligados à realidade local ou às relações dos países com o Brasil.

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Uma bailarina brasileira na Alemanha em defesa da dança “que incomoda”
2026/04/18
Estamos no Ballethaus, o impressionante complexo de ensaios da companhia de dança Ballett am Rhein, o Balé do Reno, em Düsseldorf, na Alemanha. Por estes corredores, a bailarina brasileira Norma Magalhães caminha como se estivesse em casa. Aqui é onde ela passa a maior parte do seu tempo. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf “Basicamente o dia inteiro. A gente começa a trabalhar às dez, com aula de balé, todo mundo, por uma uma hora e vinte. E depois começam os ensaios, as criações, até às seis da tarde. Isso é uma semana comum para a gente.” O prédio de 3000 metros quadrados desenhado pelos arquitetos Gerkan und Marg & Partner foi inaugurado em 2015, justamente no ano em que a brasileira de 33 anos, na época com apenas 22, se tornou parte do corpo de 45 bailarinos do Ballett am Rhein. Abrimos uma porta, e nos deparamos com um dos quatro enormes estúdios de ensaio. Outra porta, e damos de cara com um spa completinho. “A gente aqui é super privilegiado”, conta Norma. “Não é toda companhia na Alemanha que tem essa estrutura. Tem sauna, para quando a gente está meio quebrado, tem banheira de gelo, fisioterapeuta, academia”. Os espetáculos ocorrem nos dois teatros de ópera da região: o Theater Duisburg e a Opernhaus Düsseldorf, a casa da Deutsche Oper am Rhein, a Ópera Alemã do Reno. Eu já vi Norma se apresentar algumas vezes na Opernhaus e sempre fiquei impressionado com a complexidade de suas performances. Então é claro que eu preciso começar a nossa conversa perguntando sobre como ela gera o medo do palco em um ambiente tão exigente. “Quando estou no palco é mais prazer, eu não penso muito. Mas os segundinhos antes de entrar parece que tem aquele momento de realização: ‘Meu Deus, essa casa com mil pessoas, qualquer coisa pode dar errado!’”, conta Norma. “E isso é o legal do ao vivo, você pode trabalhar e se preparar o quanto for, mas se você pisar naquele lugar, escorregar e cair… Erros coreográficos são muito comuns, mas a gente aprende a esconder”. “Não sabia o que esperar da Alemanha” Voltamos no tempo para entender como é que esta bailarina de Ribeirão Preto veio parar em um dos corpos de balé mais prestigiados da Alemanha. “Meu interesse pela dança foi sempre um mistério na minha família. De alguma forma, sempre tive certeza de que eu queria ser bailarina. Fazia tudo na meia-ponta. Minha mãe sempre dizia que, se ela me pedisse um copo d'água, eu fazia duas piruetas, pegava no copo e voltava com o copo vazio, porque a água caía no chão.” Norma encontrou suporte para começar a carreira na ONG cultural FINAC, de Ribeirão Preto, e o passaporte para estudar balé fora do Brasil veio quando venceu o Festival Internacional de Dança de Brasília. A bolsa de estudos oferecida à ganhadora a levou para estudar na Universidade de Música e Artes Cênicas de Mannheim, no sudoeste da Alemanha. “Eu vim realmente sem nenhuma expectativa, sem saber nada do que esperar daqui. Eu sabia que era frio e que era um idioma em que eu ia ficar super perdida, mas o resto foram surpresas e novidades.” Na escola, ela teve de lidar com a disciplina exigida pela profissão e pela cultura alemã: “Era uma coisa meio militar, não podia ter um fiozinho de cabelo fora do lugar, não podia esquecer nenhum passo, era uma coisa bem mais puxada. O balé tem essas regrinhas, coisinhas bobas tipo: não pode bocejar, porque aí parece que você está desinteressado, ou você não pode necessariamente demonstrar cansaço, dependendo de quem está ali na frente levando o ensaio.” Autógrafos na rua Depois dos estudos, Norma passou pelo teatro de ópera de Karlsruhe e pelo Balé da Turíngia, até desembarcar no Ballett am Rhein, em Düsseldorf, onde está há 11 anos e onde diz ter se encontrado. “Eu cresci aqui, então o pessoal fala que eu sou uma brasileira já alemanizada. Aqui não só o bailarino e a companhia dão muito valor ao balé, mas também as pessoas. Às vezes estou andando na rua e as pessoas param para dizer que me viram no teatro e pedem um autógrafo.” O envolvimento da sociedade faz com que boa parte da Ópera e do Balé do Reno sejam financiados por um clube de mecenas e patrocinadores, em conjunto com o estado. A casa cheia em quase todas as apresentações também demonstra que o balé e a ópera estão mais vivos do que nunca, ao contrário do que disse o ator franco-americano Timothée Chalamet no início do ano. “Ele fez um comentário muito infeliz, mas também bem ignorante”, crava Norma. “Estando nessa profissão por tantos anos, consigo ver como está crescendo. As pessoas têm sede de ver ao vivo, não só pela televisão. Acontece o mesmo no balé, os teatros estão lotando.” Balé contra a lógica dos algoritmos Nestes 11 anos de carreira em Düsseldorf – e 16 na Alemanha –, Norma Magalhães interpretou clássicos como a Rainha das Neves, em "O Quebra-Nozes", mas é também uma ferrenha defensora do balé mais conceitual, que é uma das especialidades do Ballett am Rhein, mesmo que ele seja mais difícil para a compreensão do público. “Às vezes a gente também tem que se colocar em lugares e viver experiências que não são confortáveis para a gente. Em uma era de algoritmos que te mostram no Instagram ou na Netflix somente coisas que você vai curtir, é importante sentir esse desconforto e aprender o quê o desconforto pode te ensinar, pode trazer para te fazer questionar. Então não tem que ser sempre uma historinha ou uma experiência agradável para te fazer sentir coisas. A gente está desacostumado a ‘se incomodar’ um pouquinho.” Na saída do Ballethaus, em Düsseldorf, eu cruzo com o francês Raphaël Coumes-Marquet, que é um dos atuais diretores do Ballett am Rhein, ao lado de Bridget Breiner. Peço para ele encerrar nosso passeio falando sobre o trabalho de Norma Magalhães: “Norma é um verdadeiro raio de sol. Ela traz uma positividade e um olhar fresco sobre a criação e o trabalho no estúdio de ensaio.”
'Notes on Collagen': atriz brasileira discute o medo do envelhecimento em peça em cartaz em Nova York
2026/04/12
Uma palavra simples, cada vez mais presente no cotidiano, colágeno, virou ponto de partida para que a atriz, escritora e diretora brasileira Fabiana Mattedi construísse uma reflexão sobre envelhecimento, identidade e pressão estética. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York  Fabiana Mattedi conta que a inspiração veio de uma percepção pessoal ao longo dos últimos anos. A artista relata que passou a notar como o termo “colágeno” começou a aparecer com frequência em seu dia a dia. "Era uma coisa que, antes de vir para Nova York, antes de eu ter 40 anos, não sabia do que se tratava", confessa.  O estalo definitivo veio de uma cena aparentemente banal no metrô da cidade. Durante uma viagem no L Train, Mattedi ouviu duas jovens, na casa dos vinte anos, discutindo preocupações com envelhecimento e com a necessidade de “cuidar” do corpo desde cedo. A conversa chamou atenção justamente pela antecipação dessa ansiedade. Para a artista, esse comportamento reflete uma mudança geracional. Ela observa que pessoas mais jovens já estão conectadas a preocupações estéticas e corporais que, para gerações anteriores, sequer eram conhecidas. Segundo Mattedi, muitas vezes há um medo de perder algo que nem se sabe exatamente o que é. A partir dessa experiência, o que começou como uma crônica cotidiana evoluiu para uma investigação mais profunda, quase uma escavação, sobre o corpo, o tempo e as pressões sociais. A atriz afirma que o espetáculo nasce de uma inquietação central: o envelhecimento passou a ser tratado como problema. E, para ela, existe uma cobrança mais intensa e complexa em relação à aparência feminina. "Tem um questionamento dessa ditadura de beleza, de padrão de beleza, principalmente com nós mulheres. Com a gente tudo é mais complicado, mais difícil", analisa. No palco, esse conflito aparece com humor, mas também com densidade reflexiva. Mattedi explica que utiliza a comédia como ferramenta para abordar temas mais profundos. Segundo ela, o riso funciona como um filtro para expressar questões filosóficas e experiências pessoais. Mas a trajetória que levou à criação de "Notes on Collagen" começa muito antes de Nova York. Natural da Bahia, a artista se formou em teatro em Salvador, onde iniciou sua carreira e construiu suas primeiras referências. Ela destaca que participou de um projeto marcante ao lado da companhia baiana Os Argonautas, experiência que considera fundamental em sua formação. Foi nesse ambiente que surgiram encontros importantes com nomes como Vladimir Brichta e Emanuelle Araújo, além de uma rede de contatos que segue presente em sua trajetória. Anos depois, já com o projeto em andamento em Nova York, esses vínculos se transformaram em apoio concreto: Brichta e Araújo participaram da produção com vídeos que ajudaram na arrecadação de recursos para viabilizar a montagem. Para Mattedi, essa continuidade revela como a construção artística também depende de comunidade e colaboração. Ela também destaca a influência de suas origens. Segundo a atriz, a Bahia, que "deu régua e compasso para um monte de gente", teve papel fundamental na formação de sua identidade artística, funcionando como base para sua trajetória. Hoje, essa história ganha uma nova camada com a experiência de viver e atuar em outra língua. Construir identidade em outro idioma Apresentar a peça em inglês, segundo Mattedi, exige precisão técnica na fala, mas também envolve uma dimensão mais profunda: a de construir identidade em outro idioma. Ela afirma que atuar em uma segunda língua é um desafio que vai além da comunicação, e passa pela própria forma de existir em um novo contexto. "Tem o desafio técnico de falar as palavras com cuidado e com atenção para poder ser entendida. Mas, ao mesmo tempo, como eu falo em inglês é quem eu sou. E tem que ser assim, porque senão eu perco a minha autenticidade", explica, defendendo o "desafio de 'ser' em outra língua". Nesse processo, o sotaque também se torna parte central da discussão. A atriz critica a pressão, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, para neutralizar a forma de falar. Segundo ela, há uma “padronização” da linguagem que privilegia determinados sotaques, especialmente os do eixo Rio-São Paulo, em detrimento de outras identidades regionais. A montagem de "Notes on Collagen" também reflete os desafios do teatro independente em Nova York, com equipe reduzida, direção compartilhada e soluções cênicas simples para se adaptar à dinâmica intensa dos festivais. O espetáculo integra o circuito do Fringe Festival, conhecido por abrir espaço para produções autorais e independentes. Nesse contexto, a peça encontra um ambiente propício para dialogar com o público. Mais do que falar sobre estética ou colágeno, o trabalho levanta uma questão mais ampla: em que momento o envelhecimento deixou de ser um processo natural e passou a ser motivo de medo? "Notes on Collagen" terá quatro apresentações em abril, no teatro Under St. Marks, no East Village, em Nova York.
Artista brasileira assina identidade visual de Páscoa de tradicional chocolateria portuguesa
2026/04/04
Radicada no Porto, a artista visual brasileira Camila Senna assina para esta Páscoa a identidade de uma das casas de chocolates mais tradicionais de Portugal. O trabalho marca um momento de afirmação da sua trajetória artística.   Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Portugal “Foi muito especial receber esse convite, porque eu já me identificava com a marca. Eu já era cliente desde que cheguei em Portugal”, afirma a artista. O desafio, segundo Camila, foi encontrar um ponto de equilíbrio entre passado e presente. “Foi trazer um frescor, uma novidade, mas sem perder esse lado tradicional da marca.” Para construir essa nova linguagem visual, Camila Senna partiu da origem do próprio chocolate. “Eu fui buscar o cacau, que tem uma forte ligação com o Brasil, e trabalhei com aquarela, que é uma forma manual, assim como o próprio processo de produção do chocolate.” A técnica escolhida reforça a dimensão artesanal do projeto. Nas embalagens, cores mais vibrantes aparecem integradas a uma composição equilibrada, marcada por gestos delicados e atenção aos detalhes, que se revelam de forma gradual. A artista buscou provocar sensações e ativar memórias afetivas. “A ideia é que as pessoas não vejam só como um produto, mas como algo especial, com cuidado artístico, que desperte curiosidade, prazer e até um toque de nostalgia”, explica. Entre o Rio e o Porto: uma identidade em construção A linguagem visual desta coleção nasce de um percurso marcado por deslocamentos e reinvenção. Camila deixou o Rio de Janeiro em 2019 e consolidou a carreira em Portugal. "Foi aqui que mergulhei na cerâmica e comecei a explorar novos materiais”, aponta.  Apesar das novas influências, a artista sublinha a importância das suas raízes: seu trabalho reflete o cruzamento de referências. “Eu mantive muito a minha essência brasileira, trazendo cor, alegria, o lado mais espontâneo. É uma mistura de um toque de tropicalidade com um olhar mais calmo e detalhista, que fui desenvolvendo aqui em Portugal", afirma. “O Rio, as cores, a alegria me inspiram muito. O meu trabalho acaba sendo esse encontro entre o que eu vivo aqui e o que eu trago comigo. Essa alma colorida continua sempre presente.” O Porto como território criativo A instalação em Portugal aconteceu em circunstâncias imprevistas. “Vim com a ideia de ficar um mês, e acabei me apaixonando pela cidade”, diz a artista visual.  Instalada no norte do país, a artista encontra na cidade uma fonte de inspiração para seu processo criativo. “O Porto respira arte. Eu me inspiro no que vejo no dia a dia, nas texturas, nas cores.” A colaboração com uma marca de doces e chocolates surge em um momento de amadurecimento da sua carreira. Com ateliê próprio no Porto, Camila Senna desenvolve hoje projetos autorais e iniciativas de partilha criativa. “Faço workshops de desbloqueio criativo, onde o processo é tão importante quanto o resultado. Quero continuar a crescer de forma mais estruturada, com colaborações e projetos que reforcem a minha identidade.”
Coletivos e associações contra o racismo e a xenofobia entregam ao Parlamento português proposta para alterar o Código Penal
2026/03/28
Em Portugal, mais de 80 coletivos e associações, que fazem parte do Grupo de Ação Conjunta contra o Racismo e a Xenofobia (GAC), entregaram, este mês, à Assembleia da República, as assinaturas que faltavam para viabilizar uma proposta legislativa que altera o Código Penal. O objetivo do grupo é fazer com que a legislação seja capaz de criminalizar e punir todas as práticas de discriminação no país. Fábia Belém, correpondente da RFI em Portugal O artigo 240 do Código Penal português prevê que todas as práticas de discriminação e incitamento ao ódio e à violência contra qualquer pessoa, em razão da sua religião, cor, nacionalidade, entre outras motivações, são consideradas crime. E, dependendo do caso, a pena de prisão pode chegar a 8 anos. No entanto, a atual legislação só criminaliza um ilícito, se ele for praticado em meios “destinados à divulgação”, como em cartazes, na imprensa ou na internet, por exemplo. Se a prática de racismo ou xenofobia decorrer em ambiente privado, deixa de ser considerado crime e passa a ser classificado como uma contraordenação. No Brasil, teria o mesmo peso que uma infração de trânsito - um ato que não resulta em prisão, e que é punível, apenas, com multa. Por julgar imprescindível uma reformulação jurídica, o projeto de lei propõe tornar a divulgação pública um fator agravante, e não um requisito para criminalizar atos e práticas de discriminação. Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil de Lisboa - uma das associações que fazem parte do Grupo de Ação Conjunta - argumenta que o artigo 240 do Código Penal acaba por deixar as vítimas numa situação de grande vulnerabilidade, em Portugal. “Imagina um paciente que, na relação com o seu médico ou a sua médica, sofre racismo e xenofobia, e a porta do consultório tá fechada, por exemplo. É racismo e xenofobia, mas dificilmente nós conseguimos enquadrar [essa conduta] dentro do Código Penal do [artigo] 240, porque não houve ali um meio de divulgação. O agressor racista acaba por pensar que ele vai sair impune, e, muitas vezes, sai mesmo impune”, frisa Costa. No documento, os coletivos e as associações afirmam que as condutas “discriminatórias e racistas”, por violarem direitos constitucionalmente protegidos, “merecem não só a censura social, ética e política, mas também uma condenação penal firme e inequívoca”. “Esta realidade enfraquece a confiança das vítimas” No documento entregue ao Parlamento português, o grupo também ressalta que “a legislação em vigor falha no seu objetivo fundamental de combate à discriminação em Portugal”, e que “esta realidade enfraquece a confiança das vítimas e da sociedade no sistema de justiça que deveria garantir igualdade e proteção”. Na exposição de motivos do projeto de lei, o GAC ainda alerta para a ineficácia do sistema jurídico, realçando antigos números da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) , uma estrutura independente, que funciona na Assembleia da República para receber e analisar denúncias de discriminação, instaurando processos de contraordenação. De acordo com o último relatório anual da entidade, apresentado em 2022, o volume de punições aplicadas se mostrava baixo em comparação ao total de denúncias. Das 491 queixas recebidas, apenas 97 geraram processos de contraordenação, resultando em apenas 11 condenações. Cenário desafiador A iniciativa legislativa do GAC, que precisou de um mínimo de 20 mil assinaturas de eleitores portugueses maiores de 18 anos, e agora segue para tramitação, vai enfrentar um cenário desafiador, segundo Ana Paula Costa. Por conta da sua atual configuração política, a Assembleia da República, que é majoritariamente de direita, pode impor barreiras à inciativa, além de outros obstáculos estruturais, capazes de gerar resistência entre parlamentares. “Muitas vezes, aposta-se aqui numa neutralidade, de dizer que nós, aqui em Portugal, não temos um problema de racismo, não temos um problema de discriminação. E Portugal, infelizmente, tem uma dificuldade em reconhecer o problema do racismo como um problema estruturante da sociedade portuguesa, infelizmente”, lamenta a presidente da Casa do Brasil de Lisboa. Para Ana Paula, que também é cientista política, o não reconhecimento do racismo impossibilita até a construção de políticas públicas, como também uma abordagem igualitária junto a diversas comunidades, como as de imigrantes. Costa afirma que reconhecer o racismo e a xenofobia, como também “as mazelas” que deixam nas sociedades, é um ato de coragem. “Não é um ato que traz vergonha, muito pelo contrário. Corrigir, reparar desigualdades é um ato que torna o Estado digno, que torna o Estado legítimo também”, assegura. E se o projeto de lei avançar e for aprovado no Parlamento, salienta, “será uma mensagem de que nós queremos ser cada vez mais uma sociedade igualitária, e isso é fundamental, porque estamos a falar da democracia, e de como nós queremos que, de fato, haja igualdade para todos.”
Jornalista brasileiro do Critics’ Choice avalia chances de vitória do Brasil no Oscar 2026
2026/03/14
Para quem é apaixonado por cinema, o Oscar sempre cria uma atmosfera especial — e quando o Brasil entra na disputa, a expectativa ganha contornos de final de Copa do Mundo. A RFI conversou com Rodrigo Salem, jornalista radicado em Los Angeles e membro do Critics’ Choice, associação de críticos responsável por um dos prêmios mais influentes da indústria, que analisou as categorias em que brasileiros podem conquistar uma estatueta. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Enquanto Hollywood prepara o tapete vermelho no Dolby Theatre, onde a cerimônia do Oscar é realizada, o público brasileiro está atento a cada previsão e a cada análise, como quem acompanha a escalação da Seleção antes de uma decisão. Grupos online viram arquibancada, redes sociais se transformam em mesa-redonda e a pergunta é sempre a mesma: será que vem mais uma estatueta para o Brasil? Essa não seria qualquer conquista. Se acontecer, o país pode viver um feito histórico: ser "bicampeão" com o gostinho de ganhar por dois anos consecutivos. No ano passado, o Brasil celebrou a vitória de “Ainda Estou Aqui”, que marcou a primeira estatueta do Brasil em 97 anos de festa. Agora, em 2026, o cinema brasileiro volta com mais força: quatro indicações importantes de “O Agente Secreto” e uma campanha que permanece forte desde o último Festival de Cannes. Wagner Moura na corrida de Melhor Ator Wagner Moura já faz história só pelo fato de ser indicado na categoria de Melhor Ator, algo inédito no Brasil. Se levar a estatueta, ele será o segundo latino-americano a ganhar o prêmio. A primeira vez foi há 75 anos, com o portoriquenho José Ferrer (Cyrano de Bergerac). No entanto, Rodrigo Salem não acredita que o ator baiano seja o favorito. “Tem a minha torcida, mas quem está realmente na frente para esse prêmio é o Michael B. Jordan”, diz Rodrigo Salem, referindo-se ao protagonista de "Pecadores". O artista americano ganhou força após receber o prêmio no Sindicato dos Atores (SAG). Paralelamente, Timothée Chalamet, de “Marty Supreme”, inicialmente apontado como o principal candidato ao prêmio, perdeu o Bafta para Robert Aramayo. Com isso, a disputa ganhou um elemento inesperado: abriu espaço para possíveis surpresas. Para Salem, com essa dinâmica, Wagner Moura, Leonardo DiCaprio ("Uma Batalha Após a Outra") e Ethan Hawke ("Blue Moon"), ganham força. "Existe um certo ar de que tudo pode acontecer nessa categoria. É difícil, mas não é impossível, como era há dois meses que todo mundo falava que o Timothée ganharia fácil. Então, foi bom o que aconteceu porque abriu um pouco mais e deixou um pouquinho mais emocionante uma cerimônia que tem tudo para ser sem surpresas e meio chata", avalia. O Agente Secreto e as apostas brasileiras Além da indicação de Wagner Moura, “O Agente Secreto” concorre em outras três categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Seleção de Elenco. Na principal modalidade da noite, a disputa deve se concentrar entre dois títulos, diz Salem. "Acho que esse duelo já está meio estabelecido que vai ser entre 'Pecadores' e 'Uma Batalha Após a Outra', com favoritismo para esse último." Na categoria Melhor Seleção de Elenco, o jornalista afirma que seria "uma boa alternativa" conceder o prêmio para o Brasil, mas pondera: "eu tenho uma teoria de que as pessoas que não votarem em 'Pecadores' para Melhor Filme vão votar nele para Melhor Seleção de Elenco. Por isso, segundo Salem, "O Agente Secreto" não tem tantas chances quanto "Pecadores" para vencer essa estatueta. A melhor chance brasileira A categoria em que o Brasil aparece mais forte é a de Melhor Filme internacional. O principal adversário é o norueguês “Valor Sentimental”, que acumula impressionantes nove indicações, além de contar uma história sobre um diretor de cinema, o que sensibiliza muitos votantes. Ainda assim, muitos analistas acreditam que o filme não conseguiu criar a mesma conexão emocional com os membros da Academia e essa categoria seria a de maior chance do Brasil levar um Oscar para casa. “Eu não sinto que a campanha de 'Valor Sentimental' engrenou aqui. Por mais que tenha nove indicações, é muita coisa para um filme internacional. Mas eu acho que é um filme muito frio", observa Salem. Segundo o jornalista, o longa de Kleber Mendonça Filho fez uma campanha estratégica. “Acredito que isso esteja valendo muito mais a pena hoje em dia no cinema: você ter um filme inesperado, que te leva para situações ou lugares que você normalmente não vê em uma série de TV ou em um filme hollywoodiano", diz. Adolpho Veloso e a corrida pela fotografia O diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso concorre ao Oscar por seu trabalho em “Sonhos de Trem”, de Clint Bentley, um filme intimista que começou pequeno, sem pretensão de se tornar um gigante da temporada de premiações. O longa acabou conquistando espaço pela força e delicadeza de sua estética. Durante boa parte da corrida, muita gente acreditava que o prêmio de melhor fotografia iria para a primeira mulher negra indicada nesta categoria, Autumn Durald Arkapaw, pelo trabalho em “Pecadores”. O filme acumulou troféus importantes e parecia consolidado na liderança. Mas, nas últimas semanas, “Uma Batalha Após a Outra”, com direção de fotografia de Michael Bauman, venceu prêmios dentro da própria indústria. Para Salem, esse é o grande favorito.  “É muito difícil que ele perca pelo fato de ter vencido já a associação dos diretores de fotografia e de ter ganhado outros prêmios mais relativos à própria indústria. Agora, eu diria que está resolvido? Não. Eu vejo ainda que o Adolpho tem boas chances", avalia. A cerimônia do Oscar acontece neste domingo (15) e tem início às 20 horas pelo horário de Brasília.
Maestra brasileira Andréa Botelho estreia em orquestra alemã com Pixinguinha no repertório
2026/03/07
A maestra carioca Andréa Huguenin Botelho, radicada há 27 anos na Alemanha e já reconhecida por sua trajetória na música erudita, está prestes a encarar um desafio para poucos. Ela acaba de se tornar a primeira mulher a ocupar o posto de regente titular da Orquestra Sinfônica do Palatinado Ocidental, tradicional da cidade de Kusel, no oeste da Alemanha, com mais de 130 anos de história. Para o concerto de estreia, marcado para 21 de junho, Andréa adiantou que fará questão de incluir a música brasileira no programa: Pixinguinha deverá representar o país no palco. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha Andréa contou à RFI como foi o processo de seleção para reger a orquestra: “O processo para você ser escolhido para uma orquestra, seja ela amadora, semi-profissional ou profissional, aqui na Alemanha, demora um pouquinho, porque é muito difícil. É um processo que eu acho muito bonito, porque, além da sua competência, você é escolhido pelos músicos da orquestra. A orquestra tem a voz para escolher o seu líder. Dentro das entrevistas que a gente tem de fazer, a gente tem que dizer o nosso conceito, porque a orquestra vai ter a minha cara. Então, eu falei que o meu conceito é que nenhum repertório, nenhum concerto vai ser só  com obras de homens”. Pesquisar e dar visibilidade a compositoras atuais e do passado se tornou uma das missões da maestra. Além, é claro, de trazer mais mulheres para os palcos. “Até metade do século 20 e até hoje, a gente tinha um problema de que as mulheres tinham dificuldade de entrar no mercado de trabalho de orquestras. O que se faz na seleção de músicos agora são as blind auditions, onde o teste é feito atrás de um biombo para a gente não ver quem está lá. E isso surgiu porque se descobriu que, quando se fechava o biombo e as pessoas não sabiam quem estava tocando, começou a aumentar o número de mulheres nas orquestras.” Andréa é curadora da série de apresentações Komponistin! (ou Compositora!, em alemão), que ocorre em Berlim, e também é membro do conselho do arquivo musical Frauen und Musik (Mulheres e Música), instituição baseada em Frankfurt focada na redescoberta, valorização e divulgação de obras de compositoras historicamente negligenciadas. Música erudita, um mundo masculino A percepção de que o mundo da música erudita era bastante masculino ocorreu ainda cedo, no Rio de Janeiro, quando Andréa começou sua carreira. “Quando fui falar com meu professor na época em que eu queria reger, ele disse: ‘não sabia que você era de igreja’. Eu disse que não era. Mas é que na cabeça dele, mulheres só regiam corais de igreja”. Foi na Rússia – um dos países fundamentais para sua trajetória musical, ao lado de Alemanha e Estados Unidos – que veio a ideia de começar a pesquisar o trabalho de autoras mulheres: “A virada de chave foi exatamente em São Petersburgo, onde fui chamada para reger uma obra de Shostakovich, que é um dos compositores que mais aprecio. Quando fui estudar a ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, vi que ela degrada a mulher de uma forma, até com um estupro coletivo na personagem principal. É muito pesado. E aí eu falei, ‘mas peraí, eu garanto que mulher não ia escrever isso.’ Daí logo pensei: mas será que elas escreveram?” Não só elas escreveram sobre muitos temas, como a maestra estará apresentando algumas de suas mulheres preferidas da música em um concerto neste domingo (8), dia da mulher, no mesmo castelo Britz, em Berlim, tendo no repertório Ivone Lara, Elza Soares, Dinorá de Carvalho, Maria Amélia e Babi de Oliveira, entre outras. Música brasileira em escola alemã A divulgação da música brasileira também tem ocupado a atribulada agenda da maestra Andréa na Alemanha. Em 2016, ela criou o Brasilianische Musik in der City West, um programa dedicado exclusivamente ao ensino da música do Brasil a estrangeiros, e inteiramente financiado pelo governo alemão. Para Andréa, há diferenciais que valorizam a música de seu país natal. “A música brasileira não proporciona o que a gente chama de estranhamento cultural. Como a música europeia teve um berço enorme, ela teve o seu caminho pelo Brasil, e também a gente teve as relações com as músicas de países africanos, e ela se mesclou. E na década de 1960, com as misturas do jazz, a música brasileira se tornou uma música muito agradável para diversas culturas”. Parceria com a filha Nos últimos anos, Andréa conta com a parceria de alguém bastante próximo, sua filha Duda Botelho que, aos 18 anos, já é uma contrabaixista que acumula prêmios, como o Concurso Internacional de Música Grunewald e o prêmio do Festival Internacional de Contrabaixo da Bélgica. “O trabalho da minha mãe foi uma grande influência, não só no meu repertório, mas também na minha musicalidade e técnica no contrabaixo. Ao longo dos anos, conforme ela foi arranjando mais peças de compositoras, ela sempre me perguntava se o que ela estava escrevendo era possível de tocar no contrabaixo. E, com isso, sem a gente perceber, esse processo contribuiu muito para o meu desenvolvimento. Eu me desafiava constantemente a conseguir tocar essas obras”, conta a jovem.
Pela primeira vez, uma brasileira assume cargo administrativo e jurídico que existe há 223 anos na Suíça
2026/02/28
Uma brasileira que mora há mais de 25 anos na Suíça vai assumir o cargo de autoridade administrativa e judicial da região metropolitana de Lausanne, que é a quarta maior cidade do país. A partir da próxima segunda-feira (2), a socióloga Carine Carvalho Arruda, de Fortaleza (CE), que já foi vereadora, duas vezes deputada estadual no Cantão de Vaud e diretora da Secretaria de Igualdade da Universidade de Lausanne, começa a atuar na nova função. Valéria Maniero, correspondente da RFI na Suíça Carine entra para a história ao se tornar a primeira pessoa nascida no Brasil a ocupar a função de préfète – cargo considerado estratégico por garantir a proximidade entre a administração pública e as cidadãs e os cidadãos suíços. Em entrevista exclusiva à RFI, ela detalhou o que fará na prática, explicou se existe no Brasil alguma função comparável à dela, contou como foi o processo de seleção – Carine foi nomeada pelo governo do Cantão de Vaud – e revelou quais competências pesaram a seu favor. Uma das atribuições desse posto, criado há 223 anos, é atuar como “autoridade judicial de primeira instância”. Carine explica que, quando cidadãos cometem um delito, uma contravenção, recebem uma multa ou uma advertência, são denunciados à prefeitura, que pode convocá‑los para ouvir as partes envolvidas. “É uma função interessante porque evita que as pessoas sejam automaticamente denunciadas aos tribunais, que acabem com uma ficha penal, ou tenham depois dificuldades para pagar advogado etc. Então, impede que as pessoas sejam judicializadas. E tem uma ideia de bom senso: escutar as pessoas, entender quais são suas dificuldades e julgar as situações mais simples”, afirmou a brasileira, que recebeu a reportagem da RFI na Secretaria de Igualdade da Universidade de Lausanne, no seu último dia de trabalho ali, após 18 anos atuando na instituição. Cargo sem equivalente no Brasil E no Brasil, existe algum cargo semelhante? Carine explica que não. Apesar de o nome em francês, préfète, remeter à palavra “prefeita” em português, a função não tem qualquer relação com o cargo exercido pelos prefeitos de cidades brasileiras. “É um falso amigo nesse sentido, porque, na verdade, nós somos um emissário do governo, uma autoridade judicial e administrativa para uma região específica. E é um cargo muito ligado à relação entre o governo e os municípios, ligado também à supervisão da ação municipal, à supervisão das eleições e das votações. Nós supervisionamos também alguns cargos da administração.” Ela conta que outra parte do trabalho envolve conceder uma série de autorizações — por exemplo, permissões de pesca, de caça e de venda de produtos de tabaco. “Não existe essa mesma função no Brasil, mas é uma função importante aqui, que existe desde 1803, desde a criação do cantão de Vaud. Desde a sua independência, foram criados os distritos e a função de prefeito de cada um.” O processo de escolha para o cargo Em nota, o governo do cantão de Vaud destacou a trajetória da brasileira por combinar experiência política, responsabilidade administrativa e dedicação ao serviço público. À RFI, ela explicou como é o processo de escolha para um cargo assim. Disse, por exemplo, que não precisa ser advogado, mas ter experiência institucional, conhecer bem o governo, a sua organização, a administração pública, as políticas públicas. “Eu, como já tinha vários anos no serviço público, tinha um perfil interessante. Já fui deputada e vereadora, então, conheço bem a organização política institucional do nosso cantão. É isso que foi valorizado e é importante, porque nessa função vamos estar em contato com as prefeituras dos municípios, as administrações municipais e a administração cantonal, estadual.” O que pesou a favor A RFI perguntou à brasileira quais habilidades dela contaram a favor para a nomeação. “Você tem que saber ler as leis e aplicá-las, ter clareza na comunicação com os outros. É importante ter uma certa sensibilidade ao serviço público, à coletividade, ao bem estar comum. Como vamos julgar situações, temos que julgá-las de acordo com a lei, mas também de acordo com o bom senso e com o senso de justiça.” Também, é importante, segundo ela, ser uma pessoa que dialogue bem, porque o cargo prevê a mediação quando há, por exemplo, problemas dentro de uma prefeitura ou entre municípios. Mas não para por aí. Carine deve atuar também em problemas mais corriqueiros. “Uma das funções que nós temos é de presidir uma comissão de conciliação entre proprietários e locatários de imóveis, por exemplo, então se você tiver um problema no seu apartamento com o proprietário, sobre o estado do apartamento, o aluguel, primeiro, pode tentar uma mediação na prefeitura. Então, a gente tem esse papel de achar uma solução comum entre pessoas que tenham conflitos na área civil.” Para Carine, o aspecto mais desafiador desse novo cargo – que a levou a deixar o segundo mandato de deputada estadual e o trabalho na Universidade de Lausanne, onde chefiava a Secretaria de Igualdade de Gênero desde 2019 – foi a possibilidade de continuar servindo ao interesse público. “Tenho 12 anos de experiência política e sempre fui muito engajada, mas, nesse momento da minha vida, eu queria um cargo em que eu pudesse continuar esse engajamento em favor da coletividade, mas sem forçosamente estar dentro da arena política”, destaca. Num país pequeno como a Suíça, há poucas pessoas exercendo a mesma função que ela. No cantão de Vaud, por exemplo, são apenas 14 préfets e préfètes: 10 homens e 4 mulheres. Supervisão de eleições Questionada pela RFI se entre suas atribuições estará, por exemplo, a organização de referendos – como o previsto para junho, que propõe limitar a população da Suíça a 10 milhões de habitantes –, Carine respondeu que “sim e não”. Isso porque as prefeituras exercem uma função de vigilância no processo eleitoral. “Então, não diretamente nessa votação, mas em geral, nós somos autoridade de recurso em caso de fraude. Por exemplo, se o município, quando faz a apuração dos boletins de voto, achar que tem algum elemento que deixe pensar que teve fraude organizada ou não, pode levar o caso para a prefeitura, que vai analisar a situação e julgar o caso.” Nesse tema, uma das primeiras atividades de Carine no novo posto já está marcada: o dia 8 de março, data em que haverá na Suíça eleições e votações importantes em nível municipal, cantonal e nacional. “Vai ser um pouco a minha primeira entrada. Uma das minhas primeiras atividades vai ser dar a volta nos municípios e nos locais de voto para ter certeza de que tudo está se passando bem. Essa é uma atividade interessante, que permite a democracia direta, que é um pouco o DNA da Suíça, que as cidadãs e os cidadãos tenham confiança nessas votações”, conclui a socióloga.
Produções brasileiras destacam temas íntimos e universais na Berlinale
2026/02/15
O Brasil representado este ano na Berlinale ilustra bem a tradição do Festival de Cinema de Berlim: um evento engajado e atento às múltiplas facetas do mundo. Entre os filmes brasileiros exibidos em diferentes seções, muitos exploram dilemas existenciais, revelando como o cinema nacional aborda, à sua maneira, temas universais. As questões da família, da velhice e, principalmente, do luto permearam as narrativas apresentadas na capital alemã nos primeiros dias de programação. Silvano Mendes, enviado especial da RFI a Berlim Coincidência ou não, o luto esteve presente em ao menos três produções brasileiras exibidas no festival. Uma delas é “Nosso Segredo”, primeiro longa-metragem de Grace Passô, que mergulha na intimidade de uma família mineira lidando com a morte do pai, enquanto fenômenos misteriosos mantêm o espectador em alerta até o último minuto. A trama, que flerta com o surrealismo, expõe a dificuldade de enfrentar perdas – que podem se manifestar das maneiras mais inesperadas. “’Nosso Segredo’ é um filme que fala sobre a capacidade das pessoas de se juntarem dentro de um universo afetivo para tentar vencer seus traumas, seus problemas. Fala da capacidade de união”, comentou Grace pouco antes da estreia mundial do longa, na noite de sábado (14). Outro filme que aborda essa temática, ainda que de forma secundária, é “Feito Pipa”, de Allan Deberton, que acompanha a história de um garoto criado pela avó desde a morte da mãe. A relação entre os dois é abalada quando a avó adoece, e o menino tenta esconder a situação temendo ter que morar com o pai – alguém que, segundo ele, “deveria ter morrido no lugar da mãe”, como esbraveja o pequeno Gugu, interpretado com grande sensibilidade por Yuri Gomes, um ator baiano de 11 anos. O luto em um road movie introspectivo A questão do luto e as formas de enfrentá-lo também estão no centro de “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, dirigido por Janaina Marques. Rodado no Ceará, o longa começa com ares de Thelma & Louise: duas mulheres na estrada, fugindo e, ao mesmo tempo, se reencontrando. Entre sonho e realidade, Rosa revisita sua relação com a irreverente mãe, Dalva, que passou anos presa por matar um homem prestes a cometer feminicídio. Juntas, embarcam em uma viagem delirante, buscando reencontrar memórias de um período em que poderiam ter sido felizes. Aqui, a perda é vivida como uma imersão no inconsciente da protagonista. Rosa deseja “matar essa mulher que já não se reconhece na vida, para fazer renascer uma nova mulher”, resume a diretora, que enxerga nessa busca uma forma própria de elaborar o luto. Em “Se eu fosse vivo… vivia”, de André Novais Oliveira, a morte de um ente querido é o mote inicial. “O projeto veio do luto que a gente viveu, com minha família e meus amigos, com a morte da minha mãe”, conta o cineasta, que se inspirou nessa dor para retratar um casal que segue apaixonado após 50 anos juntos. O filme começa nos anos 1970, com uma cuidadosa reconstituição da época em que os protagonistas – interpretados na juventude por Jean Paulo Santos e Tainá Evaristo – ainda namoravam. Em seguida, o espectador acompanha o casal já idoso, refletindo sobre como cada um lidaria com a ausência do outro. Entre as cenas mais marcantes, está o momento em que Jacira, a personagem principal, sugere que o marido Gilberto poderia se casar com a cunhada após sua morte. O longa de André Novais é um verdadeiro projeto familiar: o personagem de Gilberto é interpretado pelo próprio pai do diretor, Norberto Novais Oliveira, cuja atuação impressiona pelo realismo. Ele dá vida, com extrema delicadeza, a um idoso como tantos encontrados nas famílias brasileiras, que enfrenta o luto pela companheira de décadas. Ator não profissional, ele contracena com a escritora Conceição Evaristo, que também surpreende em sua estreia como atriz. “Ter ela na equipe foi bem especial. Mesmo não tendo experiência como roteirista, ela ajudou bastante a pensar também o roteiro”, comenta o diretor. A Berlinale continua até o próximo sábado (21).
Longa brasileiro 'Antônio Odisseia' concorre no Slamdance Film Festival em Los Angeles
2026/02/14
Entre dezenas de produções independentes do mundo inteiro, um filme brasileiro marca presença na competição do Slamdance Film Festival, que começa no próximo dia 19, em Los Angeles. É com a estreia mundial de “Antônio Odisseia” que o Brasil desembarca no evento conhecido por revelar grandes nomes do cinema como Sean Baker, Christopher Nolan e o sul-coreano Bong Joon-ho. O longa, dirigido pelo paranaense Thales Banzai, leva à tela uma jornada intensa, caótica, visceral e bem brasileira. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Na história, Tony e sua melhor amiga, Ivy, assaltam o bar onde ele trabalha e roubam drogas que os levam a uma odisseia surrealista rumo a um encontro com Deus. O que começa como um roubo impulsivo rapidamente se transforma em uma jornada existencial, atravessada por delírio, espiritualidade e encontros inesperados. O cineasta Thales Banzai mora em Los Angeles desde 2020 e depois de anos tentando viabilizar projetos por editais e plataformas, decidiu apostar em uma produção completamente independente.“A gente financiou por conta da nossa produtora, a Seiva, que é a nossa coprodutora no Brasil, e produtores, amigos, próximos passaram o chapéu, todo mundo botou uma grana no filme porque acreditava no projeto e a gente resolveu fazer", diz. Filmado no fim de 2024, em São Paulo, em 17 dias, o roteiro foi desenvolvido ao lado de Kelson Succi, artista vindo do teatro e que também interpreta Antônio. Uma mistura de universos que ajudou a definir o tom do filme em uma produção toda em preto e branco. “Eu adoro trabalhar em preto e branco, fotografo em preto e branco faz muito tempo. Então é algo que consigo trabalhar nessa linguagem com facilidade e de que gosto muito. Dentro da nossa situação de produção, ajuda muito num filme de baixo orçamento, para a gente conseguir fazer, trazer mais valor de produção com menos, conseguir filmar mais rápido com poucos recursos de luz, criar uma situação expressiva interessante”, reitera. Além da trilha sonora (assinada por Kiko Dinucci e arranjo de cordas de Arthur Verocai) também ser peça central da narrativa, costurando realidade e delírio, o filme reúne participações especiais de Antônio Pitanga, Teuda Bara (que faleceu em dezembro), Leci Brandão e Chico César (narração). “O mais difícil foi chegar o roteiro no Pitanga, mas quando chegou, ele leu e curtiu muito. Foi a parte que também deu energia, colocou ainda mais energia. Ele falou que [o roteiro] lembrava dos personagens que fazia nos anos 1960 e 1970 e que estava animado", relembra. Festival alternativo Criado há mais de 30 anos como uma alternativa independente, o Slamdance aconteceu durante décadas simultaneamente ao Festival de Sundance em Park City, aproveitando a concentração de profissionais da indústria que já estavam na cidade nessa época do ano. Mas, a partir de 2025, o festival saiu de Utah e se estabeleceu em Los Angeles, marcando uma nova fase na capital do cinema. “Eu sinto que pra todo mundo com quem eu falo, e que está mais ligado na indústria, esse é um festival que todo mundo curte muito e admira muito, porque é feito com uma curadoria real. É um processo super democrático de pessoas que fazem filmes mesmo e que assistem a todos os filmes e debatem extensivamente o que deve entrar", diz Banzai. Para ele, o momento é propício ao cinema brasileiro, principalmente diante do sucesso de "Ainda Estou Aqui" e "Agente Secreto". “Acho que é algo que a gente pode começar a dar esses passos no Brasil, também, de sair só dos grandes cinco festivais, Cannes, Berlim, Toronto, Oscar e Veneza, e conseguir olhar para outros lugares, que são também super catalisadores de carreiras no mundo todo não só aqui”, diz Thales. Uma coprodução Brasil–Estados Unidos, “Antônio Odisseia”, chega a Los Angeles com apresentações nos dias 23 e 24 de fevereiro dentro da programação do Slamdance Film Festival.
Wikipédia: projeto completa 25 anos em cenário tumultuado por inteligência artificial
2026/02/08
Lançada há 25 anos como um inovador projeto de enciclopédia colaborativa e acessível a todos, a Wikipédia hoje é uma consolidada fonte de informação e conhecimento. Mas, assim como grande parte da internet que conhecemos, a enciclopédia se vê diante dos problemas e das soluções introduzidas pela mais disruptiva novidade dos últimos anos: a presença massiva e permanente da inteligência artificial.  Edison Veiga, correspondente da RFI em Bled, Eslovênia A versão em português da Wikipédia, chamada pelos wikipedistas de Wikipédia Lusófona, é um gigantesco manancial de conhecimento. Ela foi inaugurada em maio de 2001, cinco meses depois da fundação do projeto global, em inglês, e tem hoje quase 1,2 milhão de verbetes. O administrador e editor da Wikipédia Lusófona, Rodrigo Padula, é um dos mais experientes membros atuantes do projeto. Formado em Ciências da Computação, com mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele analisa os gargalos do atual cenário e fala com a autoridade de quem está no projeto há 20 anos.  “Chega aos 25 anos com um sucesso colaborativo que nenhum projeto similar alcançou. É um dos maiores projetos colaborativos já criados pela humanidade”, avalia em entrevista à RFI. IA afeta uso da Wikipédia A inteligência artificial, cada vez mais presente nos ecossistemas digitais, também está afetando diretamente a maneira como a Wikipédia vem sendo utilizada. Para os wikipedistas, é um momento de encruzilhada histórica. E muita reflexão para que o modelo colaborativo não só resista, como saia ainda mais fortalecido. Padula acredita que a Wikipédia enfrenta um momento “turbulento” e de “grandes desafios”: “O maior desafio hoje é essa transição do modelo de busca de conteúdo na internet para um modelo de respostas mais sintéticas com o surgimento desses vários mecanismos de busca usando inteligência artificial”, explica.  O usuário comum de internet já notou. Cada vez mais, o resultado de uma busca é resolvido com as informações resumidas trazidas pelo próprio motor de busca, fazendo com que não seja mais necessário clicar nos links para obter a informação desejada. Se, por um lado, isso parece facilitar a vida do internauta, por outro, tem minado o acesso a sites tanto de jornalismo quanto de informação de referência, como no caso da Wikipédia.  Por conta do volume de informações e da credibilidade construída ao longo dos últimos 25 anos, a Wikipédia se tornou uma das principais fontes de conteúdo que alimenta as plataformas de inteligência artificial. Os textos acumulados em mais de 61 milhões de artigos disponíveis em 321 idiomas servem não só para munir as gigantescas bases de inteligência artificial com informações e dados, como também para sedimentar a linguagem desses sistemas, que cada vez mais se assemelham a uma comunicação humana natural.  “Esse problema do extrativismo de dados a gente vem enfrentando e vamos enfrentar, mas a gente não pode ser a fonte de conteúdo para alimentar esses algoritmos hoje, tornando-os úteis e funcionais, e isso matar o projeto a médio e longo prazo”, argumenta Padula.  Voluntários Outro problema trazido por Padula é a carência de voluntários. A Wikipédia Lusófona conta hoje com quase 5 mil editores wikipedistas ativos. Há cinco anos, eram mais de 10 mil. Conforme explica o administrador Padula, são considerados ativos todos os voluntários que trabalharam em pelo menos cinco artigos nos últimos 30 dias. “Estamos entre o prestígio da credibilidade construída e a fragilidade de nossa comunidade que não vem se renovando muito ao longo dos últimos anos”, diz o administrador. “A gente tem um volume muito pequeno de colaboradores para um volume crescente de conteúdo que foi criado, precisa ser mantido e atualizado.” No meio de tantas transformações, não faltam perguntas sobre o futuro da Wikipédia. Mas as respostas para que a plataforma continue se renovando, se atualizando e permanecendo relevante para uma sociedade que, cada vez mais, precisa de conteúdos informativos isentos, responsáveis e comprometidos com a verdade parecem apontar para um elemento essencial: a humanidade por trás da tecnologia. A Wikipédia, afinal, nasceu das contribuições de pessoas. E, a julgar pelo que conta o administrador brasileiro Padula, pretende continuar assim. “Mesmo com todas as transformações de inteligência artificial, a base humana da Wikipédia continua sendo relevante. “E temos de trabalhar cada vez mais fortes e focados para que a Wikipédia continue sendo relevante”, diz Padula.
Casal de mágicos brasileiros transforma sonho de infância em carreira em Portugal
2026/01/31
Por mais de 30 anos, o ilusionismo tem sido não apenas uma paixão, mas a profissão de André Corrêa, conhecido artisticamente como Andrély, e sua esposa, Flávia Molina. Nascidos no Rio de Janeiro, o casal encontrou em Portugal o cenário perfeito para transformar o encanto em carreira, conquistando plateias de todas as idades e mantendo viva a tradição de uma arte milenar. Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa Desde a infância, André Corrêa se encanta pelo impossível. “Eu tinha nove anos, vi um mágico na televisão, num programa americano chamado The Magic Castle, e pensei: ‘poxa, mágico é legal’”, lembra. A curiosidade se tornou paixão quando, ao passar em frente a uma loja, viu a primeira “caixa de mágica”. “Fui picado pelo vírus da mágica. É um vírus que te pica e não sai mais do corpo”, diz Andrély. A partir de então, começou a estudar sozinho, economizando para comprar livros, frequentando bibliotecas e aprendendo truques cada vez mais complexos. Aos 12 anos, Andrély fez seu primeiro show profissional em uma festa infantil no Rio de Janeiro, acompanhado pelo pai. “Foi a primeira vez que falei em público. Eu era tímido, mas tive coragem e foi muito legal”, recorda. Entre bibliotecas, festivais e encontros com outros mágicos, ele se aprofundou na arte, descobrindo os diversos ramos do ilusionismo: close-up, manipulação, grandes ilusões, mentalismo e até hipnose de palco. A trajetória de Andrély se entrelaça com a de Flávia Molina, também ilusionista, que conheceu ainda no Brasil. “A magia nos une muito. Às vezes queremos brigar, mas vemos um truque e esquecemos a discussão”, conta Flávia filha do dono do Circo Molina. O casal compartilha não apenas a vida, mas o palco, criando números que combinam técnicas clássicas e inovações modernas, muitas vezes com elementos digitais, luzes e interação com o público. Entre shows, viagens e preparação para festivais internacionais, encontram tempo para a família e para o constante desenvolvimento da arte. “A magia é quase um vício para nós, mas é o que nos realiza, nos desafia e nos conecta com o público”, afirma Andrély. “É uma arte que te pica, como a música ou a pintura. Você se apaixona e nunca mais larga.” Portugal: um novo começo Chegar a Portugal, há mais de 20 anos, significou um novo começo. “Quando viemos, minha filha tinha apenas dois anos. Trabalhei alguns meses em uma loja de mágica até começar a receber convites para shows”, lembra Andrély. A adaptação ao mercado português foi rápida: os portugueses, acostumados a programas de televisão com mágica e hoje à presença digital de mágicos na internet, demonstram grande interesse e entusiasmo. “Os espetáculos de magia esgotam com facilidade, seja com shows de comédia, grandes ilusões ou close-up. Há público para todas as categorias”, explica Andrély. O público brasileiro, porém, apresenta diferenças sutis. Em cidades brasileiras, há grande demanda por shows teatrais ou festas infantis, enquanto o público português aprecia o entretenimento corporativo, festas privadas e espetáculos familiares. “No Brasil, o close-up é mais difícil de fazer porque o público quer descobrir o segredo, compete com o ilusionista tentando descobrir a magia. Em Portugal, as pessoas se encantam, aproveitam o momento, prestam atenção, sem se preocupar em decifrar os truques”, comenta Andrély. O encantamento que proporcionam ao público é, para ele e Flávia, a maior recompensa: “O sorriso das crianças, os aplausos dos adultos, isso faz a gente querer evoluir cada vez mais”, completa Flávia. Festivais internacionais  Em fevereiro, o casal estará em Blackpool, na Inglaterra, para participar do maior congresso de mágica do mundo, onde 4 mil mágicos se reúnem para workshops, conferências e apresentações. “É essencial se reciclar, conhecer novas técnicas e produtos, e aprender com outros profissionais”, diz Andrély. A carreira também é marcada pela versatilidade: da grande ilusão em teatros a números de comédia interativos, ele adapta seus shows ao público. O ilusionista leva a magia a lugares inusitados, como centros de Alzheimer, onde a plateia, mesmo com dificuldades cognitivas, conecta-se profundamente com o espetáculo. O retorno da plateia transforma cada apresentação em um momento único para ambos, salienta ele. Quando questionado sobre a essência de sua arte, Andrély resume: “O que encanta é ver o impossível acontecer ao vivo, como efeitos especiais de um filme, mas diante dos seus olhos. As pessoas sabem que é truque, mas o impossível parece real”. Dicas para os novos ilusionistas As tecnologias podem representar uma oportunidade para a profissão, nota ele. “A magia vai continuar sendo necessária, especialmente em tempos de tecnologia e inteligência artificial. As pessoas querem ver a experiência ao vivo, sentir o encantamento”, aposta. “É uma profissão com futuro, mesmo em um mundo cada vez mais digital. Começar em pequenos eventos e crescer paralelamente aos estudos garante segurança e experiência.” Após mais de três décadas de carreira, Andrély segue inspirado por grandes mestres da ilusão, como Lance Burton e David Copperfield, e deixa a dica para a nova geração de mágicos: “Aprendam os clássicos, desenvolvam seu estilo, assistam shows ao vivo e nunca deixem de estudar. Há espaço e mercado para quem se dedica de verdade”. Andrély sabe o valor de começar desde cedo e garante que assistir apresentações ao vivo faz toda a diferença. “A experiência de ver a mágica acontecer diante dos olhos é totalmente diferente de assistir a vídeos ou na internet. O sentimento é único e o aprendizado é mais profundo.” Em Portugal, Andrély e Flávia Molina transformaram o sonho infantil de um menino do Rio de Janeiro em profissão e paixão, levando a magia para plateias pela Europa e provando que o impossível pode, sim, se tornar realidade.
Alta nos pedidos de repatriação revela vulnerabilidade e discriminação vividas por brasileiros em Portugal
2026/01/25
O fluxo migratório de brasileiros em Portugal está passando por mudanças significativas. Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) indicam que em 2025 foram 231 pedidos de retorno ao país entre janeiro e outubro, bem acima dos 149 pedidos de todo o ano anterior. Este aumento, segundo a OIM, reforça o papel do maior consulado brasileiro da Europa em meio a relatos de vulnerabilidade, violência e discriminação em Portugal. Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Lisboa Os dados dos dois últimos meses do ano ainda estão sendo consolidados. Mas o aumento já identificado revela uma combinação de fatores econômicos, sociais e emocionais que têm levado parte da comunidade brasileira a reavaliar a permanência no exterior. No centro desse cenário está Portugal, que abriga hoje cerca de 800 mil brasileiros, a maior comunidade brasileira fora do país. Somente em Lisboa vivem aproximadamente 400 mil brasileiros, número que transformou o Consulado-Geral do Brasil na capital portuguesa na maior unidade consular da Europa em volume de atendimentos. Segundo o cônsul-geral Alessandro Candeas, o consulado de Lisboa “abriga hoje a maior comunidade brasileira fora do continente americano. São mais de meio milhão de pessoas vivendo, trabalhando e construindo novas histórias em Portugal”, afirma. Ao longo de 2025, o consulado analisou 85.677 requerimentos de serviços por meio do sistema e-consular. Desse total, 15.826 foram pedidos de passaporte e autorizações de retorno ao Brasil — um dado que dialoga diretamente com o aumento apontado pela OIM. Outros 13.642 atendimentos envolveram atos notariais, como registros de nascimento, procurações e reconhecimentos de assinatura. O setor de Assistência a Brasileiros realizou 2.745 atendimentos, incluindo orientação jurídica e psicológica, além de milhares de respostas a e-mails e consultas presenciais. A “caixa de ressonância” da comunidade brasileira De acordo com Alessandro Candeas, o consulado funciona como uma espécie de termômetro social da comunidade brasileira em Portugal: “Identificamos, muito claramente, que cresceu o número de brasileiros que buscam o consulado e dizem que querem voltar ao Brasil”. Ele destaca que o papel do brasileiro em Portugal é frequentemente retratado de forma negativa no debate público, o que não condiz com a realidade econômica e social. “O papel do imigrante brasileiro em Portugal é muito estereotipado e muito injusto. O brasileiro é um imigrante produtivo”, ressalta. Segundo o cônsul-geral, os brasileiros exercem funções essenciais no mercado de trabalho português, pagam impostos e contribuem de forma significativa para a previdência social do país. “A mão de obra necessária para o mercado português não compete com nenhum emprego ocupado por cidadão português. Muitos brasileiros ocupam posições que estão vazias porque a mão de obra portuguesa está em outros países”, explica Candeas. Vulnerabilidade, violência e saúde mental Outro dado que chama a atenção nos registros consulares é o crescimento dos atendimentos psicológicos, especialmente relacionados a vulnerabilidade social e violência. Casos de sofrimento emocional, conflitos familiares e violência de gênero têm sido cada vez mais relatados por brasileiros que procuram ajuda institucional. Para Candeas, esse aumento reflete não apenas dificuldades individuais, mas também o impacto do isolamento, da pressão econômica e das experiências de discriminação vividas por parte da comunidade. Leia tambémAumento da demanda por apoio psicológico entre migrantes gera novas frentes em saúde mental Racismo, xenofobia e bullying contra brasileiros Os temas da xenofobia e do racismo entraram oficialmente na agenda diplomática entre Brasil e Portugal. Segundo o cônsul-geral, trata-se de uma estratégia ampla, que envolve diferentes frentes do poder público e da sociedade civil. “É preciso trabalhar em políticas públicas comparadas, legislação, judiciário e sociedade civil. Não adianta você ter uma legislação robusta se o judiciário não faz sua parte”, afirma. Entre as iniciativas previstas está o programa “Amigos do Brasil”, voltado para escolas portuguesas, com foco em crianças e adolescentes — especialmente filhos de brasileiros que enfrentam episódios de bullying. Leia tambémFamília de menino brasileiro mutilado em escola de Portugal inicia acompanhamento psicológico “Há criancinhas que chegam chorando em casa. ‘Você não fala português’. Como assim? Eu falo português”, relata o embaixador. O programa prevê concursos de redação, vídeos e músicas, além de parcerias público-privadas que podem resultar em intercâmbios e viagens ao Brasil. “A ideia é transformar o problema em algo positivo”, resume Candeas. Entre o aumento do retorno ao Brasil, a sobrecarga dos serviços consulares e a criação de políticas de enfrentamento à discriminação, Lisboa se consolida como um dos principais centros da experiência migratória brasileira no mundo. Um retrato complexo, marcado por trabalho, integração, desafios sociais — e pela busca por reconhecimento e pertencimento.
“Oscar da voz”: na temporada de ouro, brasileiros brilham em Hollywood
2026/01/24
Em uma temporada em que o Brasil volta a ocupar espaço de destaque nas grandes premiações, de festivais europeus a Hollywood, os artistas da voz também entram em cena. No último fim de semana, mais de duas dezenas de brasileiros participaram da premiação do 12º SOVAS (Society of Voice Arts & Sciences) Voice Awards, conhecido como o “Oscar da voz”. O paranaense Sebastian Zancanaro consolidou esse protagonismo ao estabelecer o recorde da noite e aparecer, com sua equipe, em 11 indicações e vencer em duas categorias. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles A cerimônia premia profissionais de dublagem, locução, audiolivros, animação, publicidade e audiodescrição e aconteceu no mesmo palco em que, no domingo anterior, Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho receberam o Globo de Ouro, em Beverly Hills. “Receber o SOVAS é uma honra imensa. Esse prêmio tem um peso real em Hollywood porque celebra a excelência da voz e de quem vive contando histórias. Estar aqui cercado pelos melhores dos melhores da nossa indústria me inspira, contagia e eleva o nosso trabalho, eleva o meu trabalho. Representar o Brasil e a nossa comunidade nesse espaço é motivo de muito orgulho”, conta Sebastian. No SOVAS deste ano, cinco projetos produzidos pelo brasileiro — três longas-metragens e duas séries — chegaram à lista final. As indicações vieram pelo trabalho como produtor e diretor de elenco, e as estatuetas vieram por “Escape From ISIS” e “Crônicas de Exorcismo: O Início”. Este é o segundo ano consecutivo em que Sebastian é indicado ao SOVAS. Em 2025, ele já havia levado duas estatuetas pelo trabalho no filme “Deep Sea”. De Ponta Grossa a Hollywood A trajetória do brasileiro começou cedo e longe dos estúdios californianos. “Nasci em Ponta Grossa, no Paraná, e fiz teatro lá. Com 14 anos, peguei carteira profissional como ator. Então fiz muito teatro, escrevi também peças, poesias e tinha alguns membros da minha família que também faziam parte do teatro em Curitiba. Sempre tive essa paixão, essa curiosidade pelas artes. Sempre quis morar nos Estados Unidos, porque eu tinha uma paixão, uma afinidade muito grande pela língua inglesa, e com 18 anos eu vim para cá, na década de 1990”, relembra. Nos Estados Unidos, Zancanaro se formou pela Academia Americana de Artes Dramáticas, em Nova York, mas fincou residência em Los Angeles, onde há duas décadas se dedica a tudo o que envolve voz e atuação. Já trabalhou em grandes produções internacionais de animação, como A Era do Gelo, e em produções gravadas integralmente em seus estúdios, como Diário de um Banana. Hoje, a maioria de seus projetos é na língua inglesa, mas ele também já fez conteúdos em português para televisão e streaming. “Acho que um dos projetos de que eu mais gostei foi a série de época O Nome da Rosa, que foi para o Brasil, inclusive; a dublagem, a gente fez bem antes da pandemia. Foi um projeto supercorrido, mas tinha um roteiro maravilhoso, com uma qualidade muito boa e um time maravilhoso, com Jonas Torres, Erik Marmo, Eduardo Carvalho e Carlos Machado.” À frente de um estúdio que realiza dublagens e gravações de voz para cinema e TV, Zancanaro divide o tempo entre produção, direção de elenco e escrita. O próximo passo, admite, é assumir mais projetos como diretor e roteirista, talvez fazendo ainda mais essa ponte Hollywood–Brasil. “Fico feliz em fazer parte dessa comunidade aqui em Hollywood, que está sendo reconhecida no Globo de Ouro, no Oscar, no SOVAS. Muitos atores brasileiros — Mabel César, por exemplo, que ganhou no SOVAS o prêmio de diretora de dublagem em inglês pelo filme Homem com H (Netflix) — e eu ganhando a premiação também como diretor de elenco. Fico muito, muito inspirado para continuar fazendo trabalhos de qualidade, não só em Hollywood, mas no Brasil também, quem sabe um dia.” Na avaliação de Zancanaro, Califórnia e Brasil “estão com tudo”, e os artistas brasileiros estão ajudando a criar essa ponte de acesso à cultura e à arte, para fazer projetos de excelência para audiências globais.
Advogada brasileira dedica carreira a ajudar vítimas de violência doméstica em Portugal
2026/01/03
A história de muitas mulheres brasileiras que deixam o país em busca de segurança, estabilidade e uma vida melhor no exterior nem sempre encontra o final feliz que elas imaginavam. Para algumas, a violência atravessa oceanos. É nesse cenário complexo e muitas vezes invisível que atua a advogada Luana Ferreira, líder do Comitê de Direito das Mulheres do Grupo Mulheres do Brasil, em Lisboa. Lizzier Nassar, correspondente da RFI em Lisboa A violência viaja silenciosa, escondida dentro de malas, memórias, fragilidades e dependências. Em outras vezes, ela surge justamente no estrangeiro, onde a solidão da imigração, a falta de rede de apoio e o desconhecimento do sistema local criam o ambiente perfeito para que o ciclo se repita — ou se intensifique. A advogada brasileira Luana Ferreira, líder do Comitê de Direito das Mulheres do Grupo Mulheres do Brasil em Lisboa, conhece bem essas armadilhas. Ela se tornou, na prática, aquilo que tantas mulheres procuram desesperadamente quando decidem romper o silêncio: uma ponte. Uma mão estendida. Um lugar seguro onde é possível contar o que não se consegue nem admitir para si mesma. “Desde muito pequena eu vi e ouvia histórias de violência. Situações bem complicadas. Isso me tocou desde muito nova”, ela conta. O que poderia ter sido apenas uma lembrança dolorosa transformou-se em vocação. Hoje, ela trabalha diariamente para acolher mulheres que vivem aquilo que tantas outras, por gerações, foram ensinadas a suportar. O Comitê de Direito das Mulheres, que ela lidera, é dedicado à promoção e defesa dos direitos das mulheres, com especial atenção ao combate à violência doméstica — e com um objetivo central que vai além da assistência: sensibilizar a sociedade. “É importante trazer para as pautas sociais e para a sociedade que a violência doméstica é um problema de todos”, afirma. Os números comprovam que o problema é mais amplo do que a maioria imagina. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, 1.631 casos de violência doméstica e de gênero contra brasileiras foram registrados em embaixadas e consulados em 2024 — um aumento de 4,8% em relação ao ano anterior. Os Estados Unidos lideram as notificações (397 casos), seguidos da Bolívia (258), Itália (153), Portugal (144) e Reino Unido (102). Cada número desses representa uma história que atravessou fronteiras carregando medo, insegurança e, muitas vezes, silêncio. Em Portugal, onde a advogada atua, a violência doméstica continua sendo o crime mais reportado. Só entre janeiro e agosto deste ano, a APAV — Associação Portuguesa de Apoio à Vítima — apoiou 14.008 mulheres. As situações de vitimação ocorreram em 89,9% dos municípios do país, com maior incidência nos distritos de Lisboa, Faro, Braga e Porto. Até setembro, 18 pessoas foram assassinadas em contexto de violência doméstica — 16 eram mulheres. E, segundo a PSP e a GNR, foram registradas 25.327 ocorrências nos primeiros nove meses do ano de 2025, o maior número dos últimos sete anos. Relutância em se reconhecer como vítima Esses dados ajudam a contextualizar uma realidade que, aos olhos da advogada, aparece diariamente em forma de relatos fragmentados, mensagens rápidas, áudios enviados com cuidado para que ninguém ouça, e pedidos de ajuda que começam hesitantes: “Não sei se isso é normal.” Muitas vezes, ela é a primeira pessoa a quem a mulher se direciona quando finalmente decide falar. “A mulher vive com medo: no lar, na sociedade, no dia a dia… Ela não sabe o que pode vir a acontecer se cruzar com o agressor ou se ele tiver acesso à vida que ela está construindo agora”, explica. Para ela, a violência doméstica não termina quando a relação termina. “É um crime que, muitas vezes, rouba a paz para sempre.” Entre os casos que chegam ao comitê, há agressões físicas e psicológicas, mas também formas de violência que muitas mulheres só descobrem quando já estão presas a elas. Uma das mais comuns entre brasileiras em Portugal é a violência administrativa. “O agressor retém, esconde ou inutiliza documentos da vítima. Já tivemos casos de passaportes rasgados, queimados, inutilizados — da mulher e das crianças”, relata. Impedida de viajar, de trabalhar ou de se movimentar, a vítima perde autonomia e fica ainda mais vulnerável. Escuta entre imigrantes Nesse contexto, a presença do comitê funciona como um abraço possível. A equipe escuta, orienta, encaminha e apoia. A rede inclui psicólogas, advogadas, associações especializadas e serviços públicos. E tudo começa com algo simples, mas fundamental: acreditar na vítima. “Quando são brasileiras — e elas são a maioria que nos procura — torna-se mais confortável encontrar outra imigrante do outro lado. É alguém que entende o medo, o idioma, a saudade, a culpa e a solidão.” Mas, apesar do apoio, o caminho institucional no país ainda apresenta lacunas importantes. Portugal não possui uma delegacia da mulher, como no Brasil. Não existe uma lei equivalente à Maria da Penha, que foi um divisor de águas no enfrentamento à violência doméstica no Brasil. O que há, em Lisboa, é o Espaço Júlia, na freguesia de Santo Antônio, que funciona como um atendimento especializado a vítimas — mas ainda insuficiente diante da dimensão do problema. “Falta muita coisa. É muito triste ver que ainda há quem finja que não é com ele. Precisamos de educação, conscientização e mudança cultural”, afirma. Manual de prevenção Nos últimos anos, algumas iniciativas importantes surgiram. O Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, em parceria com o Instituto Nós Por Elas, lançou o Manual de Prevenção da Violência contra Mulheres Brasileiras no Exterior, elaborado pelo Ministério das Mulheres e pelo Ministério das Relações Exteriores. O consulado também formalizou sua adesão à campanha Sinal Vermelho Contra a Violência Doméstica, que orienta vítimas a desenharem um “X” na mão ou em um pedaço de papel para pedir ajuda de forma silenciosa e segura. Pequenos gestos que podem salvar vidas. Mas, para a advogada, a mudança real depende de algo maior: transformação cultural. “Não adianta tratar apenas a consequência. Precisamos mexer na raiz”, diz. E a raiz, segundo ela, começa pela frase que repete sempre: “Uma mulher agredida é todas nós agredidas.” Onde pedir ajuda Esta reportagem também é escrita para quem lê em silêncio. Para quem está tentando decidir se aquilo que vive é violência. Para quem tenta justificar o injustificável. Para quem acha que merece o que recebe. Para quem teme pedir ajuda. Para quem saiu do Brasil acreditando que finalmente teria paz — e encontrou medo. Se esse for o seu caso, saiba que você não está sozinha. Há uma rede inteira pronta para caminhar com você. Há mulheres — como a advogada Luana Ferreira — que dedicam suas vidas para acolher, orientar e proteger. Há profissionais, instituições, organizações e serviços que podem te ajudar a romper um ciclo que nunca deveria ter começado. Por mais difícil que pareça, existe um futuro possível. Pedir ajuda não é fraqueza — é coragem. E coragem é algo que toda mulher carrega dentro de si, mesmo quando acha que não.
De Santos para Hollywood: brasileira trabalhou nos efeitos visuais de Avatar 2 e 3 ao lado de James Cameron
2025/12/20
Quando Avatar chegou aos cinemas em 2009, não foi apenas um sucesso de bilheteria, foi um divisor de águas na história do cinema. Entre os profissionais responsáveis por dar vida ao universo azul está Mel Quintas, uma brasileira que trabalhou por oito anos diretamente na construção dos efeitos visuais de Avatar 2 e Avatar 3. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles O filme de James Cameron não apenas se tornou o mais lucrativo de todos os tempos – tendo alcançado quase US$ 3 bilhões em bilheteria –, mas também redefiniu os limites dos efeitos visuais e da tecnologia cinematográfica. Agora, com a estreia de Avatar: Fogo e Cinzas, o público volta a Pandora sabendo que, por trás de uma história, há também um espetáculo visual, criado por Cameron e, claro, com o apoio de toda uma equipe criativa que põe em prática as ideias do gênio. Para Mel, tudo começou em 2009, quando ela viu o primeiro filme da saga: “Eu falei, literalmente, ‘é nesse tipo de filme que eu quero trabalhar, nesse tipo de universo’. Eu queria viver naqueles mundos, poder criá-los e trazer entretenimento também para as pessoas”, revelou Mel em entrevista exclusiva à RFI, direto de Hollywood. Na época, ela tinha 18 anos, vivia em Santos e estava se formando no ensino médio. Mesmo ouvindo de professores que deveria “fazer um teste vocacional para seguir um sonho realista e se inscrever no vestibular no Brasil”, a jovem arrumou as malas e partiu para a faculdade de Animação em Orlando. Cidade que logo também ficou pequena para os planos dela, que queria chegar a Hollywood. “Eu sabia que era o lugar certo para estar se eu quisesse seguir nessa carreira. E, graças a Deus, deu tudo muito certo. Uma coisa foi levando à outra coisa. Tive muita sorte mesmo”, conta. Currículo impressionante da brasileira Em Hollywood, logo o primeiro filme em que Mel trabalhou, Invocação do Mal (2013), já foi sucesso de bilheteria, em seguida foi uma superprodução atrás da outra. “No início, eu trabalhei mais na parte de conversão dos filmes para 3D. Na época, era o grande boom. Todo mundo queria fazer todos os filmes em 3D. Eles filmavam em 2D e aí convertíamos para 3D. Trabalhei em Homem de Ferro 3, Guardiões da Galáxia, Star Trek, Star Wars, Planeta dos Macacos, X-Men”, enumera Mel. Mas a lista é bem mais longa. Em 13 anos em Hollywood, a santista já acumula impressionantes 40 filmes no currículo, entre eles alguns dos campeões de bilheteria da última década, e a jornada a Pandora, da qual ela participou nos últimos oito anos. “O mais importante é acreditar. Não deixe que digam para você ser mais realista. Para sair da realidade em que você está, primeiro você precisa acreditar que pode viver em outra”, afirma. Avatar e James Cameron Em Avatar, Mel integrou a equipe responsável por criar as sequências do filme. Na prática, isso significa participar da construção do longa desde a pré-produção. “No nosso caso, era um negócio bem abrangente, porque a gente tinha que fazer de tudo. Estávamos montando o filme, literalmente montando o escopo do filme para ele se tornar alguma coisa. Esse processo começa desde a pré-produção, que a gente chama de pré-visualização de algumas cenas do filme, imaginando como vai ser essa sequência de ação. Uma animação mais rápida, não uma renderização final. Isso inclui capturar os atores no set para ver se estava dando certo, montar as cenas e gravar com câmeras virtuais”, explica.   As filmagens começaram em 2017, com regravações, ajustes e trabalho contínuo no departamento do qual Mel fez parte até julho de 2025. A brasileira trabalhou em grande parte das sequências do longa, que tem 3h17min de duração, e acompanhou de perto cada detalhe. Ela fez parte de uma equipe de cerca de 30 pessoas dentro da Lightstorm Entertainment, produtora de James Cameron. E estar nos projetos de Avatar 2 e 3 também significou conviver de perto com o cineasta, considerado um dos mais importantes e visionários da atualidade. “Ele é um gênio. Mais do que isso: ele explica tudo o que está fazendo. Ele gosta de ensinar”, diz Mel. “É uma aprendizagem que vale mais do que qualquer faculdade. Estar perto de uma pessoa assim é surreal. Foi como uma faculdade diária.” Do sonho adolescente ao Oscar O sonho que virou realidade já veio acompanhado de um Oscar. Avatar: O Caminho da Água (2022) venceu o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. “No dia seguinte ao prêmio, eu fui dar parabéns ao meu supervisor, que foi quem recebeu o Oscar, e ele me disse: ‘Esse prêmio é de todos nós; não existe esse prêmio sem vocês’. Acho que a gente não recebe esse reconhecimento em todos os lugares; aqui tem muito disso”, diz a brasileira. E tudo indica que a equipe vai estar, de novo, na festa do Oscar em 15 de março de 2026. O filme que estreou nesta semana nos cinemas brasileiros acaba de aparecer na lista dos dez pré-selecionados para disputar - novamente - na categoria de Melhores Efeitos Visuais. “Eu estou feliz que faço parte de algo tão grandioso com uma história sobre família e que a gente pode celebrar juntos todos esses anos de trabalho. Sempre tem momentos altos e baixos, mais altos. Mas é bom poder ser recompensada de alguma forma. Não é nem sobre ganhar o prêmio, mas saber que a gente fez parte disso e chegamos lá”, conclui Mel Quintas.

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