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Linha Direta

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Rating
★★★★☆
4
from
1 reviews
Categories
Country
United States
This podcast has
65 episodes
Publisher
RFI Brasil
Explicit
No
Date created
2020/01/03
Latest episode
2026/10/02
Average duration
7 min.
Release period
2 days

Description

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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Sem debate, mas com ataques, candidatos irão ao 1° turno após campanha dominada por Lula e Flávio Bolsonaro
2026/10/02
O cancelamento do debate na TV Globo com os presidenciáveis, na quinta-feira (1°) evidenciou uma campanha na qual a discussão dos programas e projetos ficou em segundo plano. Nas ruas, o eleitor de esquerda se mostra mais apreensivo às vésperas da votação. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Quem anda pelas ruas da capital federal não sente bem o clima da eleição. Diferentemente de quatro anos atrás, quando eleitores vestiam camisetas e exibiam a bandeira do Brasil e faixas em suas janelas, a eleição desta vez empolgou menos as ruas e se acirrou mesmo nas redes sociais e no poder Judiciário. Mas isso não significa que a rivalidade diminuiu. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) polarizaram a disputa mostrando que o Brasil continua dividido e que não houve nomes do meio capazes de impactar a disputa dos dois. O candidato do Missão, Renan Santos, surpreendeu angariando apoio de jovens, especialmente na internet, mas não deslanchou nas pesquisas. Já Augusto Cury, do Avante, chegou a atrair os holofotes atingindo 10% das intenções de voto, mas logo desidratou. Ao mesmo tempo, nomes conhecidos da política como Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo, não avançaram. Debate cancelado O sonho desses coadjuvantes de ocupar um espaço ao vivo na reta final da campanha em um canal aberto de televisão acabou caindo por terra. A desistência em cima da hora de Flávio Bolsonaro e um "vai e vem" de decisões judiciais acerca das regras e dos participantes levaram a TV Globo a cancelar o debate com os presidenciáveis que movimentaria a noite desta quinta-feira. Lula já havia comunicado dias antes que não estaria presente. Os memes nas redes sociais sobraram para Flávio, que havia confirmado, mas cancelou sua participação assim que a presença de Renan Santos, um ávido crítico dos dois principais candidatos, foi assegurada por decisão de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. “O medo que Flávio Bolsonaro tem de mim o levou a cancelar a participação no debate apenas três minutos depois que minha presença foi confirmada”, falou em vídeo o candidato do Missão. O PL organizou uma transmissão pela internet com presença de vários aliados políticos onde a tônica foram os ataques ao adversário do PT. “O povo nordestino e o povo brasileiro abriu o olho e não acredita mais nas suas promessas. Você já deu. O povo está cansado de você. Vai para casa descansar, Lula. Deixa o Brasil em paz”, declarou Flávio Bolsonaro. Já Lula participou de uma entrevista ao vivo no podcast Flow no mesmo horário do debate da TV, onde focou em programas desenvolvidos por sua gestão. Também se defendeu de acusações do passado. “Os meus princípios continuam os mesmos. Eu sei de onde eu vim, sei para onde vou. Quando eu estava sendo acusado na Lava Jato, eu cansei de desafiar empresário, banqueiro, meus inimigos. Mostre um telefonema meu. Mostre um centavo depositado na minha conta. E nunca teve”, ressaltou Lula.                                                                          A voz do eleitor A dois dias da eleição, o clima é de uma esquerda um tanto apreensiva e de uma direita um pouco mais confiante. A RFI conversou com eleitores nas ruas de Brasília. “Só de pensar que a família Bolsonaro pode voltar ao poder, dá um certo medo. A gente viu o que aconteceu com quatro anos de Bolsonaro. E o Flávio todo submisso ao governo dos Estados Unidos, dá uma apreensão”, disse o estudante de arquitetura João Martins, que vai votar eleitor em Lula. “Eu estou muito esperançoso, gostando bastante do atual cenário. Eu vou votar no Flávio Bolsonaro e a gente espera mudar o Brasil daqui pra frente. Acho que ele tem muita chance de vencer, muita mesmo. Acho que agora vai”, declarou o analista de sistema Bruno Luís. Mas tem eleitor com menos convicção. É o caso da diarista Terezinha Moreira, que afirma não ter candidato. “Não sei, acho que porque não confio mais em ninguém. Acho que vou votar tudo nulo”. Mesmo tom do eleitor Alef de Oliveira, proprietário de um lava jato em Brasília. “Eu estou um pouco indeciso ainda, estudando mais sobre os candidatos, mas já vi muita coisa que de Flávio e Lula que me desanimou. E até o momento meu candidato é o Caiado. Num segundo turno tendo a ficar com Lula. Ainda preciso escolher deputado e senador, ainda não decidi.”
Na Alemanha, passeata e fiscalização eleitoral mobilizam apoiadores de Lula e Flávio
2026/10/01
Eleitores brasileiros na Alemanha se preparam para votar neste domingo (4) organizando passeatas e fiscalização das seções no dia da eleição. O país é o segundo maior colégio eleitoral na Europa e aumentou em quase cinco vezes o número de eleitores desde 2010, mas costuma enfrentar uma grande taxa de abstenção. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha São mais de 41 mil brasileiros aptos a votar, um aumento de 15% em relação a 2022 e quase 400% em relação à 2010. A Alemanha fica atrás apenas de Estados Unidos, Portugal, Japão e Canadá como maior colégio eleitoral brasieiro no exterior. Esses 41 mil eleitores ainda são um número relativamente baixo se comparado à estimativa de brasileiros vivendo na Alemanha, que é de cerca de 170 mil pessoas. E o número total de eleitores brasileiros no exterior este ano está quase chegando a 1 milhão: são 918 mil, pouco mais de meio por cento do eleitorado total. A maior mobilização de grupos políticos é, claro, dos dois que lideram as pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio Bolsonaro. Um grupo chamado Liga Conservadora Brasil-Alemanha, que conta com mais de 100 mil seguidores nas redes sociais, está convocando militantes para serem fiscais de eleição deste ano. A líder do grupo, a empresária Samia Sittel-Faraj, fez uma campanha de mobilização de militantes do PL na Alemanha para se inscreverem como fiscais, que são voluntários que acompanham a votação, desde a abertura das urnas até a emissão do Boletim de Urna. A Liga Conservadora Brasil-Alemanha organiza eventos regulares e, no dia 7 de setembro, levou algumas dezenas de pessoas às ruas de Munique para uma celebração da Independência. Polarização menor fora do país Pelo outro lado, um grupo chamado Comitê Popular de Luta de Frankfurt e o núcleo do PT na Alemanha estão planejando uma passeata na véspera da eleição, no sábado (3), em Frankfurt, em apoio ao presidente Lula. “O brasileiro que vive aqui acaba vendo o Brasil a partir de outros olhares, de pessoa que não está mais vivendo no país, e acaba tendo outros tipos de informações e conversando com pessoas que tem outro ponto de vista”, afirma o cientista político Edmar Leão, que integra o Comitê Popular de Luta de Frankfurt. “Eu tenho muitos amigos aqui que não votam no Lula, mas a gente conversa de uma forma super tranquila, até porque, dentro da comunidade brasileira, tem também essa questão da fraternidade”. O recente estremecimento das relações entre o Brasil e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está despertando o interesse dos alemães na eleição brasileira, de acordo com Leão: “Vem sendo reportado aqui nos meios de comunicação da Alemanha essa possível interferência de Trump na eleição no Brasil, colocando em dúvida a credibilidade das urnas, indicando um candidato favorito e colocando taxas nas exportações brasileiras nos Estados Unidos.” A RFI Brasil também tentou contato com a Liga Conservadora Brasil-Alemanha, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria. Perfil do eleitor O eleitor brasileiro por aqui é principalmente feminino, escolarizado e tem votado na esquerda. As mulheres são 65% dos eleitores brasileiros na Alemanha. Por aqui o eleitorado brasileiro também é mais escolarizado do que a média: 51% têm curso superior, contra apenas 38% da média dos eleitores brasileiros em outros países. Depois de 2014, quando Aécio Neves venceu, a vitória foi sempre do PT. Em 2022, a vitória petista foi esmagadora, com 76% dos votos indo para Lula. Os locais de votação são as cidades de Berlim, Munique, Frankfurt, Colônia e Hamburgo, uma variedade grande se comparada a outros países na Europa. Munique costuma ser o maior colégio eleitoral, ficando à frente da capital, e Hamburgo é o menor - para 2026 o TSE ainda não divulgou essa distribuição por cidade. Mesmo com estas cinco opções de locais de votação, a taxa de abstenção costuma ser bastante alta, e possivelmente devido às distâncias, que na Alemanha também são grandes para os padrões europeus. Muita gente do interior acaba não se deslocando no dia da votação para uma dessas cinco cidades. A abstenção no segundo turno das eleições anteriores sempre superava os 60%. Em 2022 ela caiu para pouco mais de 50%, mesmo assim sendo mais que o dobro da abstenção que se verifica no Brasil. Para este ano, as três representações diplomáticas brasileiras no país prometem uma estrutura robusta para evitar filas. Em Munique, o consulado alerta os eleitores a se deslocarem com antecedência, já que domingo também será o último dia da Oktoberfest, o que aumenta o movimento e o tráfego nas ruas.
Argentina: radiografia do país com mais votos brasileiros na América Latina
2026/09/30
Buenos Aires é a cidade latino-americana com mais eleitores brasileiros. O perfil majoritário do voto brasileiro na Argentina é jovem, feminino e de alta escolaridade. Uma consultoria local divulgou uma pesquisa sobre o eleitorado brasileiro e aponta a tendência de votos.  Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires A maior quantidade de brasileiros na América Latina fica no Paraguai (270 mil), deixando a Argentina (70 mil) em segundo lugar. Mas no que se refere a eleitores, as posições se invertem: Buenos Aires é a cidade latino-americana com mais brasileiros votantes (11.873 eleitores), enquanto, em segundo lugar, com menos da metade, vem a paraguaia Cidade do Leste (5.102), na fronteira com o Brasil. México (3.975), Bolívia (3.627), Chile (3.569) e Uruguai (3175) completam a lista dos países, mas bem longe do Paraguai (9.225) e da Argentina (13.138), segundo o TSE. Buenos Aires concentra 90,4% desses votos, mas também representa 12 províncias que vão desde a fronteira com o Brasil até a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente. As mulheres representam dois de cada três eleitores na Argentina (66%). Os jovens, de 25 a 29 anos de idade, são os mais numerosos, contabilizando 22,5% do total. Somadas faixas etárias até 39 anos, eles atingem 60% do eleitorado na Argentina. Esse perfil é mais jovem do que o voto brasileiro no exterior em geral e está associado à grande quantidade de universitários e a profissionais no âmbito do Mercosul. Essa juventude explica que 75,6% seja solteiro. Entre universitários e formados, há 56,7% dos eleitores. Somados aos que tem o ensino médio completo, são quase 90%, uma proporção de escolaridade superior à média do voto brasileiro no exterior. Além de Buenos Aires, haverá zonas eleitorais em outras quatro cidades: Córdoba, Mendoza, Paso de los Libres e Puerto Iguazú, essas duas últimas na fronteira com o Brasil. A sede da votação em Buenos Aires abrange doze províncias, enquanto a de Mendoza, três; a de Puerto Iguazú, duas e a de Córdoba, sete. Em Buenos Aires, são 15 seções, com 30 urnas. Nas demais cidades, apenas uma urna. Queda de eleitores Entre 2018 e 2022, o número de eleitores aumentou em 78%, graças à uma campanha do Núcleo do PT na Argentina para transferência do título de eleitor. Nenhum outro partido tem representação no país. Em 2018, Jair Bolsonaro ganhou as eleições no primeiro turno com os votos dos universitários, mas, no segundo turno, perdeu para Fernando Haddad, quem obteve 53,4% dos votos válidos. A chegada de Bolsonaro ao poder levou os militantes do PT na Argentina a se dedicarem a reverter aquela derrota, mapeando a comunidade brasileira e fazendo uma campanha de conscientização sobre a importância da participação popular. “Essas contribuições fortalecem o trabalho da Secretaria de Relações Internacionais e ampliam a capacidade do partido de formular estratégias de integração e participação que correspondam às necessidades reais de brasileiras e brasileiros no exterior”, explica um relatório produzido pelas coordenadoras do Núcleo Danielle Santana e Renata Codas. “O princípio orientador permanece claro: migrar não significa abrir mão de direitos”, aponta o trabalho intitulado “Características Demográficas da População Brasileira Residente na Argentina”, de agosto de 2025. Entre 2022 e agora, o número de eleitores inscritos na Argentina aumentou em apenas 392 pessoas, embora a campanha tenha continuado até o prazo de 6 de maio para a transferência do título. “Em 2026, temos 5,28% eleitores a menos em Buenos Aires do que em 2022”, observa o cônsul-geral do Brasil em Buenos Aires, Raymundo Magno. A população brasileira tem se reduzido devido ao aumento do custo de vida na Argentina, identificam tanto no Consulado do Brasil em Buenos Aires quanto no Núcleo do PT. Números do Registro Nacional das Pessoas (RENAPER) da Argentina mostram que, se em 2022, 12.255 brasileiros deram entrada no documento argentino, em 2024, esse número tinha caído a 6.644 e, no ano passado, ficou abaixo de dois mil (os dados mais recentes disponíveis são até julho de 2025). É uma desaceleração inédita, só comparável ao período de pandemia, quando a Argentina teve a quarentena mais prolongada e estrita do mundo, fazendo com que muitos brasileiros fossem embora e ninguém pudesse entrar. Em 2020, foram apenas 3.173 pedidos de documento e, em 2021, 2.736 registros. Com isso, se em 2022 havia cerca de 89.020 brasileiros, esse número em julho de 2025 era de 69.538 brasileiros, uma queda de quase 20 mil em três anos. Em 2024, o TSE registrava 14.590 eleitores brasileiros na Argentina; agora, 13.138. A queda sugere que, pelo menos, 1.452 eleitores chegaram a transferir o título para a Argentina, mas foram embora antes das eleições dois anos depois. Na cidade de Buenos Aires, moram 24.701, equivalentes a 35,5% do total, bem acima de Rosario, em segundo lugar, com 5.969 brasileiros (8,6%) ou de La Plata, em terceiro, com 3.195 (4,6%). Rosario e La Plata atraem muitos estudantes brasileiros, sobretudo de Medicina. O voto de 2022 e os desafios de 2026 Em 2022, Lula ganhou com 63,5% dos votos. A abstenção de 43% na Argentina, mais do que duplica a média do Brasil. E esse é um grande desafio que requer informação, mobilização e presença territorial, segundo o relatório “Brasileiros no exterior: dados para compreender o eleitorado de 2026”, publicado pelo Núcleo do PT na Argentina. A importância da participação popular é justamente o fortalecimento de direitos e de vínculos com a Democracia. As razões para uma abstenção tão alta são a falta de informação para a transferência do título de eleitor e a distância dos locais de votação. As distâncias entre as províncias e a Embaixada do Brasil em Buenos Aires são significativas. Podem ser 400 Km, 1.700 Km e até 2.500 Km. Se pegarmos apenas as cidades onde há forte presença de estudantes brasileiros, Mar del Plata e Rosario, por exemplo, ficam a 400 quilômetros de Buenos Aires. “A distância até a sede de votação não se mede apenas em quilômetros: envolve tempo, custos e ajustes de rotina. Aos domingos, a redução da oferta de transporte amplia esperas e exige combinações de trajetos, o que pode impedir a realização de ida e volta no mesmo dia e elevar os gastos. Condições climáticas e horas de luz também influenciam o planejamento, reforçando a ideia de que a localização das sedes eleitorais, somada à ausência de alternativas próximas, funciona como desestímulo à transferência de título e como barreira prática ao exercício do voto”, observa o estudo. Segundo o cônsul-geral do Brasil em Buenos Aires, Raymundo Magno, o grande desafio de 2026 é a organização para evitar as cenas de 2022, quando uma fila serpenteante de eleitores dava voltas nos quarteirões e demorava mais de quatro horas até as urnas. Desta vez, serão cinco filas, 60 mesários e um total de 100 pessoas na organização apenas no Centro Cultural do Palácio Pereda, residência do Embaixador, onde será a votação em Buenos Aires. Sondagem Argentina A Argentina vive o pleito brasileiro com muita atenção e expectativa. O resultado terá impacto direto na relação de Buenos Aires com o seu principal sócio estratégico e efeitos políticos, domésticos e internacionais. A consultora argentina CB fez uma sondagem sobre as eleições, entrevistando de forma online 4.275 brasileiros de todo o Brasil. A pesquisa, realizada entre os dias 7 e 11 de setembro, não alcançou os anúncios do presidente Lula sobre aumento do Bolsa Família, implementação das canetas emagrecedoras no SUS e proibição das BETS. A pesquisa foi difundida na segunda-feira (28), de forma restrita a um limitado grupo de jornalistas, entre os quais a RFI. Lula ganharia no primeiro turno com 43,5%, enquanto Flávio Bolsonaro ficaria com 36,1%. Os que dizem que nunca votariam em Lula somam 50,4%, mas os que nunca votariam em Flávio Bolsonaro chegam a 52,9%. A margem de erro é de 1,5% e o nível de confiança, de 95%. “Na contramão do que dizem todos, acredito que, se Lula ganhar o primeiro turno com uma diferença ampla de oito pontos, isso possa provocar um acomodamento da militância do PT e uma reação dos eleitores opositores que projete Bolsonaro à vitória. Vimos isso em recentes eleições na região. Se, no entanto, Lula ganhar com uma diferença de cinco pontos no primeiro turno, então a tendência é que ganhe também no segundo turno”, aponta para a RFI o diretor da CB, Cristian Buttié, autor da pesquisa. Segundo o consultor argentino, se fosse hoje, a projeção indica que Lula ganharia no segundo turno com 52%, enquanto Bolsonaro ficaria com 48%. “Devido à rejeição a Bolsonaro, maior do que a de Lula, vejo mais possibilidades para Lula. Uma eleição disputadíssima, mas com mais possibilidades para Lula”, aposta Buttié.
Espanha propõe medidas emergenciais em resposta aos protestos contra a crise habitacional
2026/09/29
O governo da Espanha anunciou nesta terça-feira (29) a suspensão dos despejos por inadimplência até 2030 e a renovação automática dos contratos de aluguel, em uma tentativa de conter a crise habitacional que atinge o país. A população espanhola se mobiliza há dias, motivada pela situação de Maricarmen Abascal, 87 anos, despejada na semana passada, após sete décadas no imóvel, pela nova empresa proprietária do apartamento onde vivia. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri, e AFP O caso de Maricarmen levou milhares de pessoas às ruas em defesa do direito à moradia e intensificou a pressão sobre o governo para avançar com um novo decreto relacionado à habitação. Um acordo foi fechado na segunda-feira (28) entre a empresa Urbagestión e os representantes de Maricarmen, depois de mais de quatro horas de reunião mediada pela Empresa Municipal de Habitação de Madri. As partes chegaram a um entendimento para que seja assinado um novo contrato de aluguel e Maricarmen possa voltar ao apartamento, caso esteja de acordo com as condições. O Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madri, organização à frente dos protestos, já afirmou que o acampamento reivindicativo que acontece na capital continua porque as demandas apresentadas vão muito além do caso Maricarmen. Depois de o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, prometer que medidas emergenciais seriam anunciadas nesta terça-feira para conter a crise, a ministra da Saúde, Mónica García Gómez, publicou no X novas normas que visam à suspensão dos despejos por inadimplência até 2030 e à renovação automática dos contratos de aluguel, após difíceis negociações dentro da coalizão governista. Elas fazem parte de dois projetos apresentados pelo Executivo, que ainda precisam ser aprovados pelo Parlamento, onde o governo do socialista Pedro Sánchez não dispõe de maioria. A ministra informou ainda que o governo pretende implementar, dentro desse pacote de medidas, a proibição da compra de imóveis por fundos especulativos, conhecidos na Espanha como fundos abutres. Esses fundos de investimento, assim como as plataformas de aluguel turístico de curta duração, como o Airbnb, são alvo de críticas dos movimentos em defesa do direito à moradia. Segundo os manifestantes, a prática contribui para a disparada dos preços ao adquirir imóveis no país e reduzir a oferta de habitação. O governo também prevê, entre outras iniciativas, regular os aluguéis de temporada e o aluguel de quartos, segundo Mónica García Gómez. Gota d’água da crise da moradia na Espanha O caso Maricarmen foi o estopim de um problema que já vinha provocando muita insatisfação na Espanha, sobretudo nas grandes cidades. Depois do despejo, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas em diferentes regiões do país. Em Madri, parte dos manifestantes permanece acampada na Praça Puerta del Sol, no centro da cidade, para pressionar o governo por medidas mais duras relacionadas ao direito à moradia. Os números ajudam a entender esse descontentamento. Segundo a OCDE, entre 2015 e 2025, o acesso à moradia ficou cerca de 25% mais difícil na Espanha quando comparado à evolução da renda da população. Ao mesmo tempo, 26,8% dos inquilinos destinam mais de 40% da renda ao pagamento do aluguel, incluindo despesas de manutenção e serviços, segundo dados de 2025 da agência de estatísticas da União Europeia, Eurostat. Governo negocia novo decreto de habitação Nesta terça-feira (29), o Executivo de Pedro Sánchez tenta levar ao Conselho de Ministros um novo decreto sobre habitação. O Partido Socialista de Sánchez e seu parceiro de coalizão, o Sumar, negociam pontos centrais do texto, como a proteção contra despejos, a regulamentação dos aluguéis temporários e a renovação dos contratos. Paralelamente, o governo busca garantir o apoio dos demais grupos parlamentares necessários para aprovar a medida.  As propostas integram o chamado “decreto Maricarmen”, pacote mais amplo de medidas, reivindicado pelo Sindicato de Inquilinas. Entre elas estão o congelamento dos preços dos contratos atuais e a renovação automática dos contratos de aluguel para que passem a ser indefinidos. O sindicato já avisou que a mobilização não termina necessariamente com a aprovação de um decreto e que continuará pressionando se considerar as medidas insuficientes. Sete décadas no mesmo endereço Maricarmen morou durante setenta anos no mesmo apartamento, no bairro do Retiro, em Madri, onde chegou em 1956. O contrato de aluguel do imóvel passou do pai para a mãe e, após a morte dela, em 2005, Maricarmen permaneceu no local. Mas a Justiça considerou que essa segunda transferência contratual não era válida e que o contrato já estava extinto. Com uma aposentadoria de cerca de € 1.400 (cerca de R$ 8.280), ela nunca deixou de pagar o aluguel previsto no contrato antigo e as contas, que, somados, representavam aproximadamente € 500 (R$ 2.960) por mês. Depois que o imóvel mudou de mãos, o apartamento acabou sendo adquirido pela Urbagestión por um preço muito abaixo do praticado na região, justamente porque Maricarmen já vivia ali. Em 2020, a empresa, que chegou a propor sua permanência mediante um novo contrato, com um aluguel muito superior ao que ela pagava, informou que a idosa deveria deixar o imóvel. Segundo a defesa de Maricarmen, outras propostas para evitar o despejo foram apresentadas posteriormente, mas não houve acordo. Maricarmen venceu a disputa em primeira instância, mas a decisão foi revertida em 2022 e os recursos posteriores não foram admitidos. Depois de três tentativas de despejo suspensas ou adiadas, a ordem foi cumprida em 23 de setembro, provocando forte repercussão e intensificando o debate sobre o direito à moradia na Espanha.
Semana decisiva da campanha no Brasil tem guerra santa, debate sobre bets e apelo da direita por voto útil
2026/09/28
O Brasil vai às urnas no próximo domingo (4) numa eleição em que é difícil prever o resultado final da disputa à presidência da República. Pesquisas apontam que deve haver segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolonaro (PL), mas, em tese, os dois principais adversários, que aparecem tecnicamente empatados, ainda têm condições de vencer no primeiro turno. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Os próximos dias são cruciais porque em geral é quando indecisos sedimentam a escolha e quando eleitores avaliam se migram para nomes com mais chance na disputa. “É aquele famoso caso de brasileiros que deixam para a última hora a escolha do voto. É um pequeno grupo, mas numa campanha acirrada, é um público importante”, afirmou Bhreno Vieira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. “Por exemplo, está sendo suscitado dentro do Partido Novo uma movimentação para já abandonar o voto a (Romeu) Zema no primeiro turno e focar em Flávio Bolsonaro. Mas, do jeito que as coisas estão postas e como as pesquisas estão demonstrando, nenhum dos dois candidatos tem maioria absoluta de votos necessária para encerrar a disputa no primeiro turno. O cenário eleitoral está bastante aberto sobre quem vai ser o vencedor”, destacou o analista. Desafios de Lula O candidato do PT tem entre seus desafios convencer o maior número de apoiadores a comparecer às urnas, já que o índice de abstenção costuma ser maior entre os eleitores de baixa renda, nicho em que Lula é mais forte. “Essa vantagem de Lula nesse segmento enfrenta uma questão que é o debate sobre o comparecimento eleitoral, e a tendência é de maior ausência entre eleitores com menor rendimento”, disse Vieira.  O analista também frisou que hoje o maior adversário de Lula não é exatamente a figura de Flávio, mas a ideia de mudança buscada por muitos eleitores que compraram a narrativa do candidato do PL, ainda que ele seja um nome construído no sistema. A campanha de Lula, que teve dificuldade em defender o legado das gestões petistas e de apresentar bandeiras novas consolidadas, inclusive em meio à crise envolvendo Supremo Tribunal Federal, lançou mão de medidas como o reajuste do Bolsa Família e o fim das apostas online, na tentativa de gerar um debate programático nesta reta final. Desafios de Flávio Os últimos dias foram marcados por novas revelações que reforçam a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, como viagens no avião do ex-dono do banco Master, em apuração no Supremo Tribunal Federal. No entanto, foram polêmicas mais distantes da toga que geraram repercussão. Uma delas foi o embate eleitoral nos púlpitos religiosos, impulsionado pela preocupação de setores da Igreja Católica com o protagonismo do segmento evangélico na campanha de Flávio, assunto que ganhou força nas redes sociais diante da repulsa demonstrada por parte desse grupo à figura de Maria. Além de correr para conter estragos entre os eleitores católicos, Flávio tenta equilibrar o discurso para manter os eleitores de direita que já aderiram a seu nome e avançar sobre aqueles que ainda o veem como um expoente de ideias conservadoras mais radicais. “A campanha dele, de certa forma, encontra um teto, que é a questão das ideias extremas. Há uma parcela, ainda que muito pequena da sociedade, que opta em não querer nenhum e nenhum outro, mas vai ter que escolher alguém e isso pode fazer diferença”, afirmou o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. A relação com Donald Trump é outro exemplo. Os apoiadores de Lula são contrários à interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira. Já os eleitores de Flávio tedem a vê-la de forma mais favorável. E uma pequena parcela ainda pesa se isso representa um risco importante a ser considerado nas urnas. Fim das bets Outro tema que virou embate entre os dois principais nomes foi a medida provisória (MP) assinada pelo presidente Lula que acabou com as apostas online. “Eu conversei com uma mulher que tentou se matar, com outra cujo filho tirou a própria vida por causa de dívida de jogo. Então eu tomei essa decisão, porque é uma coisa muito séria”, disse Lula. “Interrompo minha campanha mais uma vez para falar à nação brasileira. Lula está cometendo mais uma estelionato eleitoral, acabando com as Bets a nove dias da eleição”, criticou Flávio. O candidato do PL diz que foi o governo petista que regulamentou as apostas online, inclusive cobrando impostos desse segmento. Sustenta que não há, portanto, motivo para uma proibição às vésperas do pleito, o que classifica como medida eleitoreira. A campanha de Lula rebate afirmando que o governo regulamentou e criou regras sobre algo aprovado pelo Congresso em 2018, durante o governo de Michel Temer. E que decidiu proibir agora porque verificou que a regulamentação, feita em 2023, não surtiu efeito. Frisa também que durante o governo Bolsonaro, as bets já estavam autorizadas a funcionar, mas sem nenhuma regra, porque o ex-presidente não editou normas para regulamentá-las. Embora a MP tem força de lei imediata, o Congresso terá de pronunciar sobre o tema, o que deve ser feito após as eleições. E o assunto, que envolve de clubes de futebol a influenciadores digitais, deve render também ações na justiça. Pelas pesquisas, a maioria dos brasileiros tem defendido a proibição das bets.
Dinamarca: trabalhadores manuais podem ganhar tanto quanto profissionais com ensino superior
2026/09/25
Salários de trabalhadores com formação profissional cresceram 22% em cinco anos, enquanto os de acadêmicos aumentaram 17%. Especialistas também analisam os possíveis efeitos da inteligência artificial no mercado de trabalho. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague Os salários dos trabalhadores manuais e dos profissionais com formação técnica cresceram mais do que os dos trabalhadores com ensino superior na Dinamarca nos últimos cinco anos. O aumento foi de 22%, contra 17% entre os profissionais com diploma universitário, percentual próximo ao da inflação. Os dados são do Instituto de Estatística da Dinamarca (Danmarks Statistik). Segundo Jesper Grunnet-Lauridsen, chefe de análise da 3F, o maior sindicato do país, a forte demanda por mão de obra qualificada pode ter pressionado os salários para cima. “A procura por trabalhadores com formação profissional pode ter elevado os salários”, afirma Grunnet-Lauridsen. O analista também observa que, em algumas áreas, o mercado pode estar formando mais profissionais com ensino superior do que necessita, o que ajudaria a explicar o crescimento salarial mais modesto nesses setores. Entre as profissões qualificadas estão eletricistas, pedreiros, técnicos de instalações hidráulicas, aquecimento e ventilação, mecânicos industriais, metalúrgicos e marceneiros. Salários competitivos Dependendo da profissão, da experiência, do setor e do sistema de remuneração, trabalhadores manuais podem alcançar salários comparáveis aos de profissionais com ensino superior. Um profissional experiente da área de instalações hidráulicas, aquecimento e ventilação, por exemplo, pode chegar a uma remuneração semelhante à de um acadêmico recém-formado, em torno de R$ 28 mil mensais, conforme os dados citados do estudo. A Dinamarca também mantém uma lista oficial de profissões qualificadas e reconhecidas para fins de trabalho e imigração. Entre as ocupações incluídas estão eletricistas, cozinheiros, padeiros, açougueiros e mecânicos. Impacto da IA O pesquisador de inteligência artificial Mark Friis Hau, da Universidade de Roskilde, afirma que os dados mais recentes são compatíveis com o fato de que a IA ainda não deixou marcas claras na economia dinamarquesa a curto prazo. Uma análise do Conselho Econômico do Movimento Trabalhista dinamarquês (AE) mostra que sete das nove funções consideradas mais vulneráveis à tecnologia registraram crescimento do emprego desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022. Segundo Frederik Olsen, analista da AE, “ainda não houve uma substituição em larga escala dos empregos, mas ainda é cedo para avaliar todos os efeitos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho”. Os dados indicam que, até o momento, o avanço da nova tecnologia não provocou uma redução generalizada do emprego nas funções consideradas mais vulneráveis. Os efeitos de longo prazo, porém, ainda permanecem incertos.
Trump recebe Xi Jinping para encontro estratégico em meio à guerra tarifária
2026/09/24
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebe nesta quinta-feira (24) o presidente da China, Xi Jinping, na Casa Branca para um encontro que terá como foco as relações comerciais entre os dois países, o acesso a minerais estratégicos e a crescente competição pelo desenvolvimento da inteligência artificial. Xi Jinping chegou a Washington na quarta-feira (23) para uma visita de Estado de três dias. Patrícia Vasconcellos, de Washington, especial para a Rádio França Internacional A visita de Xi Jinping a Washington é a primeira em mais de uma década e ocorre em um momento de tentativa de estabilização das relações entre os dois países, ainda marcadas por disputas comerciais e tecnológicas, além de divergências sobre Taiwan e o Irã. O presidente chinês deve chegar à Casa Branca às 10h desta quinta-feira, no horário de Washington (11h em Brasília). O protocolo inclui uma recepção com honras de Estado, presença de militares e um sobrevoo de um bombardeiro B-2 acompanhado de quatro caças F-22. Após a cerimônia, Trump e Xi seguem para uma reunião bilateral reservada e, na sequência, participam de um encontro ampliado com integrantes dos dois governos. A primeira-dama Melania Trump passará parte do dia com Peng Liyuan. As duas visitarão o Museu Nacional de Arte Asiática do Smithsonian. À noite, a Casa Branca oferecerá um jantar de Estado em homenagem ao casal chinês, com previsão de discursos dos dois presidentes. Na sexta-feira, Xi cumprirá uma agenda mais enxuta antes de deixar os Estados Unidos, incluindo uma cerimônia do chá. A dimensão da recepção evidencia a importância atribuída pela Casa Branca à visita. Embora Trump critique frequentemente as práticas comerciais chinesas, o presidente americano tem investido na relação pessoal com Xi na tentativa de avançar nas negociações econômicas e estratégicas. Trégua na guerra comercial é estendida O líder chinês chegou a Washington dias depois de os dois governos anunciarem uma nova extensão da trégua comercial. O acordo, que venceria em 10 de novembro, foi prorrogado por dois meses, até janeiro de 2027. A extensão foi acertada após negociações entre o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng. A medida mantém a redução de parte das tarifas e evita, ao menos temporariamente, a imposição de novas restrições comerciais. Isso permite que Trump e Xi iniciem a reunião desta quinta sem a ameaça imediata de uma nova escalada tarifária e abre espaço para negociações sobre um acordo comercial mais amplo. A estrutura das tarifas americanas sobre produtos chineses, no entanto, continua complexa. Não existe uma única alíquota aplicada a todas as importações da China. Há tarifas gerais, cobranças anteriores ao atual governo Trump e sobretaxas específicas para setores considerados estratégicos. Produtos chineses de setores como aço, alumínio, veículos elétricos, baterias e semicondutores continuam sujeitos a tarifas adicionais e a outras restrições. Washington também mantém controles sobre a exportação para a China de determinados chips e tecnologias avançadas. Pequim, por sua vez, preserva tarifas e outras medidas sobre produtos americanos, embora parte das retaliações tenha sido suspensa durante as negociações comerciais. Terras raras e fentanil Outro ponto estratégico da reunião são as terras raras e outros minerais críticos, essenciais para a produção de equipamentos tecnológicos, veículos elétricos, sistemas militares e componentes da indústria aeroespacial. A posição chinesa é particularmente relevante porque o país controla uma parcela significativa da cadeia global de processamento desses materiais. O acesso a minerais críticos tornou-se, assim, uma das principais ferramentas de negociação de Pequim nas disputas comerciais e tecnológicas com Washington. O combate ao narcotráfico também deve figurar entre os temas discutidos. Trump acusa há anos a China de ser uma importante origem dos precursores químicos usados na fabricação do fentanil que chega ilegalmente aos Estados Unidos. Washington pressiona Pequim a reforçar o controle sobre a produção e a exportação dessas substâncias. Inteligência artificial  A inteligência artificial tornou-se outra área central da competição entre Estados Unidos e China. Empresas dos dois países disputam o desenvolvimento dos modelos mais avançados, enquanto os governos buscam garantir acesso aos chips, minerais e à infraestrutura necessários para sustentar essa tecnologia. O tema ganhou ainda mais relevância após alertas de CEOs, pesquisadores e especialistas sobre os riscos associados ao desenvolvimento acelerado da inteligência artificial. Trump argumenta que os Estados Unidos não podem desacelerar as pesquisas se isso significar abrir espaço para o avanço chinês. Na terça-feira (22), durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, Donald Trump defendeu uma mudança de terminologia e afirmou que pretende substituir a expressão "inteligência artificial" por "superinteligência" em documentos do governo americano. Washington e Pequim também iniciaram discussões sobre mecanismos de diálogo relacionados à segurança da inteligência artificial, incluindo formas de comunicação entre os dois países diante de eventuais incidentes graves envolvendo a tecnologia. A disputa pela IA está diretamente ligada à competição por semicondutores avançados e pelas cadeias de fornecimento de minerais críticos. Trata-se de uma área em que Estados Unidos e China concorrem diretamente, apesar de permanecerem economicamente interdependentes. Taiwan e Irã também estão na agenda Além da economia e da tecnologia, Taiwan continua sendo um dos pontos mais delicados da relação entre Washington e Pequim. O Irã também deve entrar nas conversas. Os dois temas estão entre as questões consideradas centrais para a cúpula desta quinta-feira. Washington busca ainda ampliar as compras chinesas de produtos americanos e melhorar o acesso a minerais críticos. Pequim, por sua vez, pressiona pela redução das restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso chinês a tecnologias avançadas. A última vez que Xi Jinping esteve nos Estados Unidos foi em 2023, durante o governo de Joe Biden, quando participou de um encontro na Califórnia. A última visita de Estado do líder chinês a Washington havia ocorrido em 2015, durante o governo de Barack Obama. A visita atual ocorre, portanto, em um contexto muito diferente do de onze anos atrás. Estados Unidos e China chegam à reunião tentando evitar uma nova escalada comercial, ao mesmo tempo em que ampliam a competição em setores considerados decisivos para as próximas décadas, especialmente semicondutores, minerais críticos e inteligência artificial.
Eleitorado brasileiro na itália cresce 17,5% em 4 anos, mas votação segue concentrada em duas cidades
2026/09/23
A Itália tem o quarto maior eleitorado brasileiro da Europa, atrás de Portugal, Espanha e Alemanha. Neste ano, a votação será realizada em Milão e Roma. O consulado na capital lombarda reforça a organização para evitar repetir as longas filas registradas em 2022. Júlia Valente, correspondente da RFI em MIlão,  Dos 54 mil brasileiros que residem na Itália, 38.829 estão registrados para votar no próximo dia 4 de outubro. O número representa um crescimento de 17,5% em relação a 2022, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quem vive no norte da Itália votará em Milão, enquanto os brasileiros que moram nas regiões central e sul do país votarão em Roma. A maior parte do eleitorado brasileiro na Itália está concentrada em Milão, com 24.632 pessoas registradas. Neste ano, o Consulado-Geral do Brasil em Milão trocou o local de votação e reservou um centro de provas para receber as seções eleitorais. O espaço fica em Turro, no norte da cidade, uma área afastada do centro, mas com fácil acesso de metrô. Na última eleição presidencial, as principais reclamações em Milão foram a desorganização e o tempo de espera. As filas começaram logo cedo, ocuparam vários metros de calçada e o tempo de espera chegou a passar de três horas. Para evitar que o problema se repita, o consulado informou que o local alugado fornecerá 36 funcionários para trabalhar na organização das filas. Além disso, 156 agentes eleitorais brasileiros foram convocados para atuar durante a votação e ajudar a manter um fluxo contínuo de eleitores. Já em Roma, assim como nos anos anteriores, a votação será realizada na Embaixada do Brasil, localizada na Piazza Navona, um dos principais cartões-postais da capital italiana. Para facilitar o acesso, as entradas da embaixada serão divididas de acordo com as seções eleitorais. O local também costuma ficar cheio nos dias de votação, mas o número de eleitores é menor. Neste ano, 14.197 brasileiros estão registrados para votar na capital italiana. Em eleições anteriores, Veneza e Florença também tiveram locais de votação. Desde 2022, porém, o pleito brasileiro na Itália está concentrado apenas em Milão e Roma. Por isso, um dos principais desafios é organizar uma estrutura capaz de receber um eleitorado ainda maior do que em 2022. Abstenção na Itália fica historicamente acima da média no exterior  A abstenção entre os eleitores brasileiros no exterior costuma ser significativamente maior do que no Brasil. Desde as eleições de 2010, o índice na Itália varia entre 60% e 68%. No primeiro turno de 2022, a abstenção média entre os eleitores brasileiros no exterior foi de 56,24%, segundo o TSE. A Itália ficou acima da média, com 67,4%. Um dos principais motivos é a distância e o custo do deslocamento até os locais de votação. Como apenas duas cidades concentram todo o pleito na Itália, muitos eleitores precisam viajar durante horas para chegar a Milão ou Roma. Por isso, o consulado em Milão informou que espera receber menos da metade dos eleitores registrados. A estimativa é que cerca de 10 mil pessoas compareçam às urnas na cidade para o primeiro turno. Eleitorado na Itália acompanhou resultado nacional nas últimas eleições Nas duas últimas eleições presidenciais, o resultado na Itália acompanhou o cenário nacional. Em 2018, Jair Bolsonaro (PSL) foi o candidato mais votado entre os brasileiros no país, com 52,04% dos votos no primeiro turno, contra 17,89% de Fernando Haddad (PT). No segundo turno, Bolsonaro recebeu 62,08%, e Haddad, 37,92%. Em 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou à frente, com 52,02% dos votos no primeiro turno, contra 37,29% de Jair Bolsonaro (PL). No segundo turno, Lula recebeu 55,37%, e Bolsonaro, 44,63%. Por isso, não é possível afirmar que o eleitorado brasileiro na Itália seja tradicionalmente mais alinhado à direita, à esquerda ou a um partido específico. Para saber qual será a tendência neste ano, será preciso aguardar o resultado das urnas.
Lula vai abrir Assembleia da ONU com defesa do multilateralismo e da soberania brasileira
2026/09/22
Presidente brasileiro será o primeiro chefe de Estado a discursar nesta terça-feira (22), em Nova York, seguido por Donald Trump; encontro acontece em meio a conflitos internacionais, crise financeira da ONU e processo de escolha do sucessor de António Guterres. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre nesta terça-feira (22), em Nova York, o debate de líderes da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. O brasileiro deve levar à tribuna uma defesa do multilateralismo, da soberania dos países e de uma reforma da ONU, em um momento marcado pela multiplicação de conflitos internacionais e por questionamentos sobre a capacidade da organização de responder às crises globais. O debate geral reúne quase 130 chefes de Estado e de governo e se estende até 28 de setembro. O tema escolhido para esta edição é “Restaurar a confiança, administrar a transformação: uma ONU que funcione para todos”. Como manda a tradição, o Brasil será o primeiro país a discursar. Lula será seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que abre a possibilidade de que os dois se encontrem informalmente nos bastidores, embora, até agora, não exista uma reunião bilateral confirmada. Multilateralismo e soberania O principal eixo do discurso de Lula deve ser a defesa do multilateralismo. Segundo a diplomacia brasileira, o presidente vai apresentar a negociação como caminho para a solução de disputas internacionais e defender o respeito ao direito internacional humanitário e ao princípio da não interferência nos assuntos internos de outros países. A reforma das Nações Unidas também deve ocupar espaço importante. O Brasil defende há anos mudanças na composição do Conselho de Segurança, atualmente formado por 15 integrantes, dos quais cinco — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — têm assentos permanentes e poder de veto. A posição brasileira é de que a atual estrutura não representa adequadamente a distribuição de poder e a diversidade do mundo contemporâneo. O tema ganha ainda mais peso diante da dificuldade do Conselho de Segurança de chegar a consensos sobre alguns dos principais conflitos internacionais. Lula também deve abordar a defesa da soberania brasileira. A diplomacia nega que o discurso tenha caráter eleitoral, e a expectativa é de que o presidente não mencione Trump nominalmente. O brasileiro, no entanto, deve defender as instituições nacionais e rejeitar interferências estrangeiras nos assuntos internos do país. A passagem do presidente por Nova York será curta. Depois do discurso, Lula deve retornar ao Brasil ainda nesta terça-feira. Possível encontro entre Lula e Trump A proximidade entre os discursos de Lula e Trump aumenta a expectativa sobre um possível encontro dos dois presidentes nos corredores da ONU. No ano passado, os dois se encontraram brevemente nos bastidores da Assembleia Geral. Desta vez, porém, o eventual contato acontece depois de uma série de divergências públicas entre os dois governos, envolvendo comércio, tarifas, soberania e a atuação dos Estados Unidos no cenário internacional. Na véspera do discurso, Lula voltou a criticar Trump durante uma entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional. O brasileiro disse discordar da maneira como o presidente americano governa e voltou a compará-lo a um “imperador”. Lula afirmou ainda que Trump foi eleito para governar os Estados Unidos, mas não tem o direito de governar outros países. A questão eleitoral também apareceu na entrevista. Lula afirmou ter pedido diretamente a Trump que os Estados Unidos não interfiram no processo eleitoral brasileiro e disse que o presidente americano tem sinalizado que não pretende se envolver na disputa. Apesar das divergências, os dois governos mantêm canais de diálogo, inclusive nas negociações comerciais. Até a noite desta segunda-feira, porém, não havia confirmação de uma reunião bilateral em Nova York. Guerras e energia dominam encontros Trump já iniciou sua agenda diplomática às margens da Assembleia. Nesta segunda-feira, o presidente americano se reuniu com o presidente francês, Emmanuel Macron, para discutir, entre outros assuntos, a guerra na Ucrânia e a situação no Mar Vermelho. Macron classificou a conversa como “muito construtiva”. Segundo o francês, os dois discutiram a possibilidade de uma moratória entre Rússia e Ucrânia para interromper ataques contra infraestruturas de energia. Macron também defendeu acelerar o fornecimento de interceptadores para reforçar as defesas ucranianas. As crises energéticas devem atravessar boa parte das discussões desta semana em Nova York. Os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia vêm provocando perturbações nas cadeias de abastecimento e fortes pressões sobre os preços dos combustíveis. Nesta semana, os preços globais do diesel atingiram níveis recordes em meio às interrupções de oferta relacionadas aos conflitos no Irã e na Ucrânia. ONU sob pressão A 81ª Assembleia Geral acontece em um momento particularmente delicado para o sistema multilateral. Além das guerras e tensões geopolíticas, as Nações Unidas enfrentam dificuldades financeiras e uma discussão cada vez mais intensa sobre a capacidade de suas instituições de responder às crises internacionais. O Conselho de Segurança é um dos principais alvos desse debate. O uso do poder de veto pelos membros permanentes tem impedido decisões em diferentes conflitos e reforçado as cobranças por mudanças na estrutura criada no pós-Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que países como o Brasil defendem uma maior representação das nações em desenvolvimento nos principais órgãos de decisão da ONU. A própria organização escolheu como tema da 81ª sessão “Restaurar a confiança, administrar a transformação: uma ONU que funcione para todos”. Além do debate geral, a semana de alto nível terá encontros dedicados a temas como clima, elevação do nível do mar, preparação para futuras pandemias e direito ao desenvolvimento. Sucessão de Guterres Outro elemento torna esta Assembleia particularmente importante: António Guterres está no último ano de seu segundo mandato como secretário-geral, e o processo para a escolha da próxima liderança das Nações Unidas já está em andamento. A sucessão ocorre em meio a uma discussão sobre o futuro da própria instituição e à pressão para que, pela primeira vez em oito décadas de história, uma mulher assuma o principal cargo da ONU. A escolha do secretário-geral passa pelo Conselho de Segurança, que recomenda um nome à Assembleia Geral — o que dá aos cinco membros permanentes, na prática, grande influência sobre o processo. A transição acrescenta uma dimensão política a uma Assembleia já marcada por guerras, tensões entre grandes potências e questionamentos sobre a capacidade de atuação das instituições multilaterais. Agenda brasileira continua após saída de Lula Embora Lula deixe Nova York depois do discurso, a agenda diplomática brasileira continua durante a semana. O chanceler Mauro Vieira permanece na cidade para uma série de reuniões multilaterais. Estão previstos encontros de grupos como Brics, G77, G4, IBAS, CPLP e Celac, além de discussões sobre a Palestina e a solução de dois Estados, direito internacional humanitário, segurança alimentar, combate à desigualdade e cooperação internacional. Na quarta-feira (23), Vieira também participa de uma reunião ministerial da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa lançada pelo Brasil durante a presidência brasileira do G20. A 81ª Assembleia Geral segue até a próxima segunda-feira (28), com discursos de líderes mundiais e uma extensa agenda de encontros paralelos em Nova York.
Vitória de partidos radicais nas eleições estaduais evidencia novo cenário político na Alemanha
2026/09/21
As duas eleições estaduais ocorridas na Alemanha neste domingo (20) deram vitória a dois partidos considerados radicais no espectro político: o partido de esquerda Die Linke, em Berlim, e o de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. O partido do chanceler Friedrich Merz, a CDU, ficou de fora de um parlamento regional pela primeira vez na história. Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf, Alemanha As vitórias do Die Linke e da AfD representam a consolidação de um processo que começou há algum tempo: os eleitores estão abandonando as forças tradicionais de direita e esquerda e buscando partidos mais radicalizados nos dois campos. O que se vê cada vez mais é o esvaziamento dos dois partidos que dominaram a política alemã desde o pós-guerra: a CDU, pela centro-direita, e o SPD, pela centro-esquerda; a democracia cristã versus a social-democracia.  Nas votações de ontem, ficou muito claro como o Die Linke sugou votos do SPD em Berlim, e a AfD praticamente esvaziou a CDU em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Nesse estado, foram tão poucos os votos para o partido do chanceler Friedrich Merz que, pela primeira vez na história da Alemanha, a CDU ficou de fora de um parlamento regional por não ter conseguido ultrapassar a cláusula de barreira de 5%.  Coalizão de esquerda em Mecklemburgo  O resultado final na eleição regional de Mecklemburgo ficou bastante polarizado entre dois partidos, com a AfD em primeiro lugar, com 38,2% dos votos, seguida pelo SPD, com 35,5%. O segundo pelotão veio bem atrás, com o Die Linke atingindo 6,5%, os Verdes com 5,7% e a CDU com 4,9%. A vitória consolida a AfD como uma força política muito forte na região correspondente à antiga Alemanha Oriental. Há duas semanas, o partido de extrema direita também venceu a eleição na vizinha Saxônia-Anhalt, com uma votação ainda maior: 44%.  Mas, apesar da vitória de ontem, ficou um gosto amargo para a AfD porque, até poucos dias antes da eleição, as pesquisas apontavam uma vitória muito mais ampla. A atual governadora do SPD, Manuela Schwesig, conseguiu uma ascensão meteórica na reta final. Na prática, ela possivelmente conseguirá se manter no cargo, mesmo tendo chegado em segundo lugar. A coalizão mais provável será entre SPD, Die Linke e Verdes.     Berlim: vitória sem governo garantido  O governo da cidade-estado de Berlim poderá trocar de mãos, da direita tradicional da CDU para a esquerda radical do Die Linke. É uma vitória inédita do Die Linke, que chegou em primeiro lugar, mas em um cenário bastante fragmentado: o partido obteve 25,7% dos votos, seguido pela CDU, com 18,8%, pela AfD, com 16,3%, pelos Verdes, com 14,3%, e pelo SPD, com 12,1%.  A principal liderança do Die Linke em Berlim é Elif Eralp, de 45 anos, de origem turca, que concentrou sua campanha eleitoral inteiramente na questão da habitação. Ela agora tentará formar uma maioria para liderar o governo da capital, mas não será fácil, porque um dos partidos de esquerda de que precisaria para formar uma coalizão, o SPD, tem fortes restrições a posições consideradas radicais demais do Die Linke, como a socialização de empresas de habitação e declarações de alguns líderes consideradas antissemitas.  O Die Linke sofre do mesmo mal da AfD: consegue cada vez mais obter boas votações, mas não formar maiorias parlamentares para governar. O partido só conseguiu liderar um governo estadual até hoje, na Turíngia. Agora, Elif Eralp poderá repetir esse feito, mas isso não é garantido. As duas coalizões possíveis em Berlim são Die Linke, Verdes e SPD, ou CDU, Verdes e SPD.  Merz na corda bamba  O dado mais relevante surgido das urnas ontem foi a grande derrota do chanceler Friedrich Merz, em especial o fiasco histórico em Mecklemburgo. O mau resultado de seu partido, a CDU, nas três eleições de setembro é visto como um protesto contra o próprio governo Merz. Há alguns dias, surgiram rumores de uma revolta interna no partido contra ele.  Merz está em plena operação para conter os danos. Ele falou logo cedo ontem, assim que as urnas se fecharam, classificando o resultado em Mecklemburgo como um “desastre”. Em seguida, porém, fez um pronunciamento contundente sobre a continuidade das reformas que vem implementando na Alemanha. O recado que quis passar foi claro: sabe que o momento é difícil, mas não aceitará ser substituído facilmente pelo partido.  Merz agora tenta ganhar tempo. A próxima eleição regional será apenas em 2027, e a economia alemã deve crescer 1,3% este ano, o que tecnicamente tiraria o país da crise econômica. O chanceler dedicará esta semana a dar explicações internas à CDU e a conter revoltas dentro do partido. Mas há também um crescente descontentamento dentro do SPD, que integra a coalizão federal.  O bom desempenho da governadora Manuela Schwesig ontem representa o fortalecimento de uma ala do SPD bastante crítica a Merz. A verdade é que o chanceler, a partir de agora, passa a caminhar na corda bamba para tentar concluir seu mandato.
Alemanha volta às urnas, com olhos voltados para desempenho de partido de extrema direita AfD
2026/09/18
Depois da vitória, há duas semanas, no estado da Saxônia-Anhalt, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) terá mais dificuldades em repetir o bom desempenho em outras duas regiões do país neste domingo (20). Em Berlim, a AfD pode atingir sua maior votação histórica, mas aparece em terceiro nas pesquisas. Já em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, a sigla tem reais chances de vitória, mas enfrenta uma disputa acirrada com a atual governadora. Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf (Alemanha) A Saxônia-Anhalt foi um bom exemplo de como a AfD vem obtendo vitórias apenas relativas nestas eleições regionais de setembro. No estado do centro-leste do país, o partido fez a sua maior votação na história, chegando a 43,8% dos votos. Mesmo assim, a sigla ainda patina para chegar ao poder, já que não obteve maioria absoluta. A primeira reunião do novo parlamento no estado está marcada para outubro e ainda não se sabe se haverá condições de se formar um acordo para um governo da AfD. Neste domingo a votação ocorre em outro estado que fazia parte da antiga Alemanha Oriental, Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, e também em Berlim, que era dividida entre Alemanha Oriental e Ocidental. Em nenhum dos dois a AfD deve atingir uma votação tão alta quanto na Saxônia-Anhalt, mas deve conseguir seu melhor desempenho até então em ambos. Nas duas últimas semanas, a popularidade do chanceler Friedrich Merz chegou a um dos níveis mais baixos desde que assumiu o governo. Isso se reflete em baixa intenção de voto no seu partido, a CDU, que representa a direita mais tradicional da Alemanha e que governa grande parte do país. Também dominaram o noticiário local as declarações em favor da Rússia da líder nacional da AfD, Alice Weidel. Ela disse que a Alemanha deveria voltar a comprar gás russo, cortar qualquer ajuda à Ucrânia e inclusive exigir que a Ucrânia devolva a ajuda enviada pelos alemães até aqui. A vitória da AfD na Saxônia-Anhalt foi saudada tanto por Vladimir Putin quanto por Donald Trump, que são duas figuras com baixa popularidade entre os alemães. Este é o cenário de fundo e nacional das votações deste domingo, mas o que mais pesa – assim como nas eleições para governador no Brasil – é a realidade local de cada estado. Votação fragmentada em Berlim Pobreza, lixo e moradia resumem bem a pauta do debate eleitoral na região da capital alemã, que é uma cidade-estado. Ao contrário da maioria dos outros países europeus, na Alemanha a capital tem um peso menor no PIB do país. Berlim é uma cidade-estado menos rica se comparada às outras metrópoles da Alemanha, como Munique, e está entre os estados alemães com maior proporção da população dependente de benefícios sociais. Os problemas se acumulam, com deficiência de limpeza urbana e acúmulo de lixo, além de um preço de aluguel que disparou nos últimos anos. O custo da moradia foi um dos principais temas do debate entre os candidatos na quarta-feira (16). O debate não contou com a presença do atual governador, Kai Wegner, que desistiu de tentar a reeleição. Wegner foi muito criticado pela maneira como lidou com o apagão que atingiu Berlim em janeiro deste ano, quando um grupo extremista atacou cabos de energia, deixando milhares de pessoas sem luz. Mas o partido de Wegner, a CDU, segue com boas intenções de voto. A última pesquisa mostra uma votação fragmentada, com nenhum partido despontando na liderança isolada. O Die Linke lidera a pesquisa com 22%, seguido de perto pela CDU, com 20%, AfD com 18%, Verdes com 15% e SPD com 12%. A atual coalizão que governa a cidade é das duas tradicionais forças políticas do país: CDU e SPD, centro-esquerda com centro-direita. Só que, se estes resultados da pesquisa se concretizarem, dessa vez os dois partidos não terão maioria para governar. Será preciso uma coalizão de três partidos. O certo é que o Die Linke, mesmo que chegue em primeiro, terá dificuldade em formar alianças. Dentro da esquerda, o próprio SPD tem divergências centrais com o Die Linke, como na proposta de estatização de empresas privadas de habitação. A diferença entre social-democratas e a esquerda radical fica cada vez mais evidente nesta eleição. AfD pode levar virada em Meclemburgo No estado de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste da Alemanha, a AfD vinha liderando as intenções de voto até a quinta-feira (17) à noite, mas parece estar havendo uma virada de última hora. A atual governadora social-democrata da SPD, Manuela Schwesig, vinha há dias crescendo e na última pesquisa teria ultrapassado a AfD, agora num apertado 37% contra 36%. Schwesig é uma figura popular no estado, e ficou conhecida por enfrentar um câncer sem deixar a cadeira de governadora. Ela tem feito uma campanha bem personalista contra a AfD, com o slogan Die Frau gegen Blau ("A mulher contra o azul", em referência à cor da AfD). A expectativa é que a extrema-direita atinja sua maior votação da história nos dois estados que votam no domingo, mas nada parecido com os 44% conquistados na Saxônia-Anhalt.
Na ONU, Lula vai insistir em soberania e rejeitar interferência externa em assuntos internos dos países
2026/09/17
Em seu discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (AGNU), na próxima terça-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistirá no tema da soberania e vai defender a não interferência externa em assuntos internos dos países. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília O risco de os Estados Unidos tentarem ajudar a campanha do senador do PL Flávio Bolsonaro, visto pela atual administração americana como um forte aliado, permanece no topo da lista de preocupações do governo, sobretudo diante da crise instalada no Supremo Tribunal Federal e da proximidade entre os dois candidatos nas intenções de voto, apontada pelas últimas pesquisas de opinião. A viagem para Nova York será rápida, a última deste terceiro mandato, e com uma comitiva mais enxuta do que as anteriores. Mas o presidente não quer deixar de falar aos 193 países-membros e aos dois Estados observadores neste que pode ser seu décimo e último discurso de abertura, caso seja derrotado na eleição de outubro. Tradicionalmente, cabe ao Brasil abrir os trabalhos da Semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas. Na saída, é possível que Lula "esbarre" em Donald Trump no corredor de acesso ao plenário, já que o presidente americano discursará em seguida. Até o momento, não há previsão de um encontro bilateral entre os dois. Mas a hipótese também não está descartada. Foi o que aconteceu no ano passado, quando tiveram uma breve conversa de 39 segundos, marcada por uma "boa química", como ambos teriam confirmado depois. O momento não é dos melhores para a relação bilateral, embora Lula e Trump tenham tido uma conversa telefônica cordial no mês passado, a pedido do brasileiro. Um encontro entre os dois ocorreria dias depois de Washington acusar o Brasil de "falhar no combate ao PCC e ao CV". Este é um dos assuntos que têm provocado tensão entre os dois países, sobretudo depois que os Estados Unidos resolveram classificar as duas facções como grupos terroristas. E não é só. O governo brasileiro teme novas tentativas de interferência americana no processo eleitoral. Os Estados Unidos deixaram claro seu interesse no que vem sendo chamado de "onda azul" na América Latina, marcada pela ascensão de líderes de direita alinhados a Washington, o que torna a eleição brasileira ainda mais estratégica para a Casa Branca. Risco nas redes sociais No Palácio do Planalto, não está claro em que momento essa interferência poderia ocorrer, nem de que forma se daria. Acredita-se que o entorno de Trump, sobretudo os aliados ligados ao secretário de Estado, Marco Rubio, esteja considerando alguma iniciativa entre o primeiro e o segundo turnos. A ideia seria evitar que uma nova ação acabasse atrapalhando o desempenho de Flávio Bolsonaro. Até recentemente, o discurso da soberania vinha rendendo pontos a Lula, que atribui ao clã Bolsonaro a responsabilidade pelo tarifaço e por outras sanções. Com as pesquisas de opinião mostrando Lula e o filho do ex-presidente cada vez mais próximos nas intenções de voto, algumas delas até com leve vantagem para Flávio, a avaliação é de que qualquer movimento pode acabar influenciando o resultado final da eleição. Crise no Supremo O julgamento no STF, por exemplo, traz à tona um tema polarizador desta campanha que já havia sido alvo da atenção dos americanos: a atuação do Judiciário. Em julho do ano passado, Trump editou um decreto presidencial por meio do qual impunha um tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras como suposta resposta ao que chamou de "caça às bruxas", em referência aos processos judiciais que levaram à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em seguida, impôs sanções financeiras ao ministro do STF Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky. As medidas foram retiradas meses depois, após negociações entre os dois governos. Mas, em julho deste ano, Washington reeditou o decreto. Como a tarifa de 50% foi derrubada pela Suprema Corte americana no início do ano, permanece a possibilidade de que a Lei Magnitsky volte a ser utilizada contra Moraes e até mesmo contra outros ministros do STF. Há outro temor, revelado por fontes do governo: a disseminação de informações falsas, amplificadas pelos algoritmos por meio da instrumentalização das big techs. O fato é que os riscos são considerados evidentes no entorno do presidente Lula. Comitiva enxuta Em Nova York, a comitiva presidencial deste ano será enxuta. Lula será acompanhado pelo chanceler Mauro Vieira, pela ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, pelo ministro dos Povos Indígenas, Luiz Eloy Terena, e pela ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira. Lula chega a Nova York na noite de domingo (20) e terá reuniões bilaterais ainda a serem confirmadas no dia seguinte. Entre elas, está em análise pelo entorno do petista uma conversa com o prefeito da cidade, Zohran Mamdani, um dos principais opositores de Donald Trump. O democrata socialista assumiu o cargo no início deste ano. A avaliação no governo é que uma eventual reunião seria acompanhada de perto pela Casa Branca e poderia ser vista como uma provocação em um dos piores momentos da relação bilateral em 200 anos.
Trump e China defendem avanço da IA enquanto CEOs americanos discutem limites e segurança
2026/09/16
A discussão sobre o crescimento, ou os limites, do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) ganha, a cada dia, novas camadas. Os debates colocam em primeiro plano os CEOs das empresas que estão construindo os sistemas mais poderosos do mundo, alguns dos quais já defendem frear o ritmo dessa corrida. No contraponto, Donald Trump diz que o medo da IA é uma farsa. O governo chinês também tem interesse em impedir que essa discussão seja usada para criar barreiras que prejudiquem sua corrida tecnológica. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Diante das preocupações com a segurança da IA e apelos para um maior controle desta tecnologia, três grandes empresas do setor – OpenAI, Anthropic e Google DeepMind – anunciaram na terça-feira (15) que trabalham na criação de um órgão de autorregulação. No entanto, a iniciativa esbarra na visão de dois dos maiores governos do mundo: Estados Unidos e China. Na última segunda-feira (14), durante o All-In Summit, em Los Angeles, Trump proporcionou uma cena inusitada mesmo não estando presente fisicamente no evento. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, estava no palco justamente discutindo o futuro da inteligência artificial quando recebeu uma ligação – que disseram que foi inesperada – do presidente americano. Huang colocou o republicano em viva-voz, diante de centenas de pessoas, e o presidente chamou de "hoax" – uma farsa – os temores de que os “robôs vão assumir o controle” no mundo e defendeu que os Estados Unidos continuem acelerando o desenvolvimento da IA. Trump chegou a dizer que quem estiver à frente da corrida da inteligência artificial vai vencer uma disputa estratégica global e chamou os data centers de “o petróleo dos próximos 20 ou 25 anos”. Para Trump, a IA não é apenas uma questão tecnológica: é a moeda de poder econômico e geopolítico. É bom lembrar que quem recebeu a ligação e colocou o telefone no microfone nessa ligação "inesperada" foi o diretor-geral da Nvidia, atualmente a empresa de capital aberto mais valiosa do mundo, com valor de mercado acima de US$ 5 trilhões. Em quatro anos, a Nvidia, que fabrica chips que são a infraestrutura fundamental que alimenta os grandes modelos de IA generativa, multiplicou mais de dez vezes seu valor de mercado, impulsionada pela corrida da inteligência artificial e talvez seja a empresa mais diretamente beneficiada por essa explosão do setor. Quanto mais rápido as empresas de IA avançam, maior é a demanda por chips e data centers. Desacelerar ou não, eis a questão Esse episódio aconteceu no momento em que nomes como Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic, pediem mais cautela e regras de segurança no desenvolvimento da IA. É, praticamente, uma demonstração pública de que Trump está escolhendo um lado na guerra que começou dentro do próprio Vale do Silício e que questiona: acelerar a IA ou desacelerar a corrida o suficiente para a segurança acompanhar. Foi esse o contexto do artigo publicado por Dario Amodei no último final de semana, no qual o argumento central é que a IA está avançando tão rapidamente que os mecanismos de segurança podem não conseguir acompanhar. E o interessante é que ele é o CEO de uma das principais empresas de IA do mundo, a criadora do Claude. Sam Altman, da OpenAI, escreveu que concorda que é preciso desacelerar o avanço da fronteira da IA e disse que sua companhia também adotaria a ideia de avaliadores independentes. Elon Musk, dono da empresa de inteligência artificial xAI, responsável pelo Grok, também apoiou o alerta. Em uma publicação no X, respondeu ao texto de Amodei com apenas três palavras: "Dario está certo". Alertas Na semana passada, Jacob Coxon, pesquisador da Anthropic, revelou ter deixado o emprego e publicou alertas sobre os riscos da tecnologia. O matemático britânico não desencadeou uma crise, mas ajudou a transformar uma preocupação que já existia dentro das empresas em uma discussão pública muito maior. Jacob disse que o temor não é que a IA tenha desenvolvido consciência, mas que esteja encontrando soluções que seus criadores não conseguem prever. Em julho, num teste da OpenAI, agentes de IA conseguiram se comunicar entre si e acessar sistemas da Hugging Face. O episódio acendeu o alerta sobre esse grau de autonomia que esses sistemas já estão alcançando, e Jacob citou, inclusive, esse evento. A partir daí, especialistas estão falando de aberturas para agentes de IA capazes de operar com autonomia, ataques cibernéticos, uso militar e desinformação. O americano Dan Selsam, pesquisador da OpenAI, publicou nesta segunda-feira (14) outro alerta e afirma que apenas desacelerar o desenvolvimento dos modelos mais avançados não é suficiente para evitar "o apocalipse da IA", como o fenômeno já está sendo chamado, e defende mais supervisão e coordenação para lidar com sistemas cada vez mais poderosos e difíceis de controlar. É interessante frisar também que todas essas falas respingam no mercado financeiro. Na última semana, as ações da Nvidia recuaram cerca de 6%, e os analistas já relacionam a queda à crescente preocupação dos investidores com os riscos e o ritmo do desenvolvimento da inteligência artificial. Sem previsão de leis No Congresso dos Estados Unidos, a pressão está crescendo, mas ainda não há acordo. Senadores dos dois partidos negociam propostas para obrigar as empresas a prevenir riscos graves e permitir que o governo bloqueie modelos considerados perigosos. O senador da oposição Bernie Sanders e o deputado Greg Casar querem ir muito além: eles lançaram o Ban Artificial Superintelligence Act, que propõe proibir a chamada superinteligência artificial e pausar temporariamente o desenvolvimento dos sistemas mais avançados, até que existam regras de segurança. Mas é difícil prever que seja aprovado em um horizonte próximo. Do outro lado do mundo A China reagiu acusando os CEOs das gigantes de tecnologia de espalhar medo. Pequim também rejeita a ideia de desacelerar o desenvolvimento da IA e afirma que esse confronto pode atrapalhar a criação de regras globais. No fim, Washington e Pequim, apesar de estarem em lados opostos em praticamente toda essa disputa tecnológica, convergem em um ponto: nenhum dos dois quer abrir mão da velocidade do desenvolvimento da inteligência artificial. E é justamente aí que ganha força a frase de Trump, que resume a dimensão geopolítica dessa corrida: “Quem vencer a IA vence”.
Eleitorado brasileiro cresce nos EUA, mas distância e medo do ICE desafiam votação em Nova York
2026/09/14
A menos de um mês das eleições presidenciais no Brasil, os Estados Unidos se preparam para receber o maior contingente de eleitores brasileiros fora do país. O número de pessoas aptas a votar em território americano cresceu cerca de 45% desde a última eleição presidencial, ao mesmo tempo em que consulados reorganizam locais de votação para atender à demanda e a um desafio novo: o temor provocado pelo endurecimento das operações de controle de imigração no país.   Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918,9 mil brasileiros estão aptos a votar no exterior nas eleições de 2026. Em 2022, eram 697,1 mil – um crescimento de 31,8% em quatro anos. O eleitorado brasileiro no exterior mais do que quadruplicou desde 2010, quando estava na casa dos 200 mil. Os Estados Unidos concentram o maior colégio eleitoral brasileiro fora do Brasil. São cerca de 265 mil eleitores registrados, contra quase 183 mil em 2022, um salto de aproximadamente 45%. Eles estão distribuídos entre diferentes postos de votação pelo país. Boston reúne o maior eleitorado brasileiro nos Estados Unidos, com 53,4 mil pessoas aptas a votar. Na sequência aparecem Miami, com 40.109 eleitores, e Nova York, com 39.026. Em Nova York, o eleitorado aumentou significativamente em relação a 2022, quando cerca de 28 mil brasileiros estavam aptos a votar. O crescimento ocorre em um momento em que a Justiça Eleitoral e o Itamaraty ampliam a estrutura para receber os brasileiros que vivem fora do país. Em abril, o TSE aprovou a transferência de R$ 13,2 milhões para a locação de imóveis no exterior. Neste ano, o Itamaraty trabalha com 66 endereços adicionais para a realização das eleições, 14 deles nos Estados Unidos. De Manhattan para o Queens Nas eleições de 2022, a votação de Nova York ocorreu em Manhattan. Mas este ano, o Consulado-Geral do Brasil decidiu transferir o pleito para uma instituição de ensino no Queens, provocando reclamações entre parte dos eleitores. A mudança ocorre justamente em um dos distritos com maior concentração de imigrantes da cidade e que tem sido alvo de operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), em meio ao endurecimento da política migratória do governo Donald Trump. O novo local fica a cerca de 16 quilômetros da sede do Consulado, em Manhattan, e não tem acesso direto ao metrô. A jurisdição consular de Nova York também atende brasileiros que vivem em Nova Jersey e na região da Filadélfia, que precisam se deslocar até a cidade para votar. É o caso de Amanda Lourenço, que trabalha com marketing e vive nos Estados Unidos há sete anos. Moradora da Pensilvânia, ela conta que já precisava dirigir cerca de uma hora e meia para votar em Nova York. Em 2022, conseguiu participar do primeiro turno, mas acabou não voltando para o segundo por causa da distância. Agora, com a transferência para o Queens, seu percurso ficará pelo menos meia hora mais longo. “Eu preferia quando era em Manhattan, que era mais central, a gente não tinha que atravessar para o outro lado. Estou considerando se vou ou não. Acho que vou sim, porque para mim votar é importante. Mas a verdade é que deu uma desanimada de pensar que é mais longe ainda”, diz a eleitora. A decisão já provocou uma mobilização de brasileiros que pedem ao Consulado a transferência da votação de volta para Manhattan. Medo do ICE também pesou na escolha Mas a distância não foi o único fator considerado na definição do novo endereço. Em meio ao aumento das operações de imigração nos Estados Unidos, o medo de abordagens de agentes do ICE também entrou no cálculo das autoridades brasileiras. O local escolhido no Queens permite que as filas sejam organizadas dentro do complexo educacional, evitando que milhares de brasileiros tenham de esperar nas calçadas. Segundo as informações reunidas sobre a preparação do pleito, a Secretaria de Relações Internacionais da Prefeitura de Nova York e a polícia da cidade também participaram do mapeamento de alternativas consideradas mais seguras. O mesmo complexo foi utilizado pelo Consulado-Geral do Peru para sua eleição presidencial em abril. A preocupação ganha peso em uma comunidade muito maior do que o eleitorado registrado. Estimativas do Itamaraty apontam para cerca de 2 milhões de brasileiros vivendo atualmente nos Estados Unidos, enquanto apenas cerca de 265 mil estão aptos a votar. Histórico de filas e abstenção A organização das filas já havia sido um desafio em Nova York nas últimas eleições presidenciais. Em 2022, eleitores chegaram a enfrentar cerca de meia hora de espera para percorrer aproximadamente 500 metros. Também houve tensão entre apoiadores de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, levando a polícia de Nova York a instalar barreiras e manter os dois grupos em lados diferentes da rua. Apesar do crescimento do número de eleitores cadastrados, levar esses brasileiros efetivamente às urnas continua sendo um dos principais desafios da eleição no exterior. Em 2022, a abstenção entre brasileiros que votavam fora do país chegou a 63,36% no primeiro turno e 61,44% no segundo. Assim como no Brasil, o voto é obrigatório para eleitores alfabetizados entre 18 e 70 anos, embora quem esteja ausente possa justificar a falta. No pleito passado, o eleitorado brasileiro nos Estados Unidos deu ampla vantagem a Jair Bolsonaro: o então presidente recebeu cerca de 65% dos votos válidos no país. Miami foi seu principal reduto, com 81,2%. Lula venceu em apenas três dos dez postos consulares, obtendo seu melhor resultado em São Francisco, onde alcançou 60,1%. Em 2026, portanto, o desafio das autoridades brasileiras será duplo: acomodar um eleitorado muito maior e transformar o crescimento dos registros em participação efetiva nas urnas, em uma eleição realizada sob um cenário migratório muito diferente daquele de quatro anos atrás.
Vice de Trump adota tom mais moderado e discursa como herdeiro político para 2028 em convenção
2026/09/11
Por dois dias, os principais nomes do Partido Republicano estiveram reunidos no Texas na primeira convenção nacional da legenda para as eleições de meio de mandato. Na noite de encerramento, os discursos do presidente Donald Trump e do vice JD Vance mostraram estratégias diferentes para tentar mobilizar o eleitorado antes da votação de novembro. Patrícia Vasconcellos, de Dallas, especial para a RFI Trump subiu ao palco prometendo ser breve, depois de ter discursado por quase duas horas no dia anterior. Cumpriu a promessa: falou por menos de meia hora. O presidente voltou a pedir para os eleitores votarem em novembro como se o nome dele estivesse nas cédulas e repetiu a promessa de pagar US$ 5 mil a cada adulto americano caso o Partido Republicano conquiste a maioria das cadeiras no Congresso. “Se os democratas dominarem, eles vão destruir tudo o que foi feito”, afirmou. Trump, no entanto, não explicou como seria feito o pagamento dos US$ 5 mil, nem de onde viriam os recursos. Também culpou os democratas pela inflação e o aumento da imigração ilegal nos Estados Unidos nos últimos anos. Para Vance, democratas 'são o partido do ódio' A imigração, carro-chefe da campanha presidencial republicana de 2024 e uma das principais bandeiras do atual  governo, teve espaço muito menor no discurso de JD Vance. O vice-presidente adotou um tom mais moderado do que Trump e outras autoridades que passaram pelo palco. Seguiu de perto o discurso preparado no teleprompter e mencionou a imigração ao afirmar que o governo havia revertido o fluxo de entrada ilegal de estrangeiros. O tema voltou a aparecer quando um manifestante na plateia exibiu uma bandeira do México. Vance respondeu que ele deveria então ir para o país latino-americano, mas não prolongou o assunto. Em outro momento, o vice-presidente fez uma declaração que soou como um reconhecimento de que existe descontentamento entre eleitores com algumas decisões do governo: “Não entreguem o país nas mãos de malucos porque vocês não concordam com uma política ou outra deste governo”, disse. Vance também tentou inverter a acusação de que o Partido Republicano promove um discurso de divisão. Segundo ele, são os democratas que representam o “partido do ódio”, enquanto os republicanos querem proporcionar “uma vida melhor” aos americanos. O vice-presidente concentrou boa parte da fala em temas como preços mais baixos, empregos e educação – uma combinação que reforçou a impressão de um discurso voltado não apenas para as eleições legislativas de novembro, mas também para uma possível candidatura presidencial em 2028. Vice ganha espaço como possível herdeiro de Trump O espaço dado a Vance na segunda noite também reforçou sua posição como possível herdeiro político de Trump. Oficialmente, o presidente disse estar cansado. Nos bastidores da convenção, porém, o desenho da agenda pareceu dar ao vice-presidente a oportunidade de se apresentar a um público nacional. Vance falou em tom de presidenciável e citou a própria mulher, Usha Vance, filha de imigrantes indianos, ao retomar uma disputa com Abdul El-Sayed, político democrata e candidato ao Senado por Michigan. A controvérsia começou depois que El-Sayed insinuou que o avô de Vance poderia ter problemas em conhecer Usha por causa de sua origem familiar. Na convenção, o vice-presidente negou a premissa e classificou a insinuação como uma demonstração do que chamou de “ódio” dos democratas. O contraste com Trump também apareceu na discussão sobre cidadania. Na quarta-feira (9), o presidente havia falado em assinar uma ordem executiva para proteger os Estados Unidos de uma “invasão estrangeira”. Vance não retomou essa retórica e fez uma declaração sobre identidade americana. “Toda criança nasce com o direito de ser americana, não pela forma como ela aparenta ou de onde seus antepassados vieram, mas porque ela é americana”, afirmou. A declaração chama atenção diante da política defendida por Trump de restringir a cidadania automática por nascimento para filhos de determinados imigrantes que estejam nos Estados Unidos sem autorização ou com status migratório temporário. Irã fica fora da última noite A guerra contra o Irã, que se estende há meses e pressiona os preços dos combustíveis, praticamente desapareceu do encerramento da convenção. Trump havia tratado do assunto no primeiro dia, quando afirmou que não negociaria com “lunáticos” e voltou a dizer que não permitiria que o Irã tivesse armas nucleares. Na última noite em Dallas, porém, o conflito no Oriente Médio não ganhou destaque. Trump preferiu falar da Venezuela, afirmando que os Estados Unidos “tomaram o petróleo” do país latino-americano, e insistiu repetidamente na necessidade de os republicanos comparecerem às urnas em novembro. Depois dos dois dias de convenção, ficou evidente a tentativa da liderança republicana de concentrar a mensagem eleitoral em economia, custo de vida, empregos e mobilização da base. Temas mais controversos da administração, como a guerra contra o Irã, as prisões e deportações em massa de imigrantes e as declarações de Trump sobre territórios estrangeiros, entre eles a Groenlândia e o Canadá, podem representar um problema principalmente entre republicanos mais moderados e eleitores independentes. Convenção deve ter efeito limitado nas pesquisas Apesar da dimensão do evento em Dallas, é improvável que a convenção, sozinha, provoque uma mudança significativa nos índices nacionais de aprovação de Trump. O público presente era majoritariamente formado por eleitores e ativistas fortemente identificados com o movimento MAGA – Make America Great Again (“Faça a América Grande Novamente”). Nas eleições de novembro, o desempenho republicano deverá depender também das disputas locais e das campanhas individuais para a Câmara e o Senado. Trump chega a essa etapa da campanha enfrentando forte desaprovação, em um cenário no qual inflação e custo de vida permanecem entre as principais preocupações dos eleitores.

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