1493558077
Linha Direta

Advertise on podcast: Linha Direta

Rating
★★★★☆
4
from
1 reviews
Categories
Country
United States
This podcast has
65 episodes
Publisher
RFI Brasil
Explicit
No
Date created
2020/01/03
Latest episode
2026/10/21
Average duration
6 min.
Release period
2 days

Description

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

Unlock Linha Direta podcast Email contact info,
Listeners & Audience details

Email contact information

Direct podcast contact details

Listeners

Audience numbers & engagement insights

Audience details

Podcast Insights

Podcast episodes

Check latest episodes from Linha Direta podcast


Itália cria novo crime para punir violência em manifestações; medida faz parte de pacote de segurança
2026/10/21
O governo italiano aprovou um decreto com novas medidas de segurança dois dias após protestos estudantis se tornarem violentos em Milão, com saques a lojas e depredação de espaços públicos. O pacote inclui medidas voltadas a menores de idade, que representam a maioria dos detidos nos atos, segundo as autoridades. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão O novo pacote foi anunciado na noite de terça-feira (20), após uma reunião do Conselho de Ministros. Uma das principais medidas é a criação do crime de participação violenta em manifestações. Quem participar de um grupo de cinco ou mais pessoas e, por exemplo, lançar pedras ou bombas, poderá pegar até cinco anos de prisão e pagar multa de até 20 mil euros. A pena aumenta se a pessoa estiver com o rosto coberto ou se alguém for ferido. O decreto também prevê que pais ou responsáveis paguem pelos danos causados por menores, tanto a bens públicos quanto privados. Outra mudança afeta a responsabilização penal de jovens de 14 a 18 anos. Agora, presume-se que pessoas dessa faixa etária são capazes de entender seus atos, a menos que provem o contrário. A maioridade penal na Itália continua aos 18 anos, mas, por lei, a partir dos 14, o adolescente já pode responder na Justiça juvenil.  A detenção preventiva, que antes valia apenas para adultos, agora também poderá ser aplicada por até 24 horas a menores considerados um risco. Além disso, o governo decidiu enviar 500 militares a mais para Milão, que permanecerão até o fim do ano. Manifestações vêm sendo realizadas em várias cidades italianas, como Turim, Bolonha e Roma. Milão, porém, concentrou os episódios de violência mais graves, com saques e danos a lojas e ao espaço público, no último fim de semana. Segundo a Confederação do Comércio (Confcommercio), os prejuízos devem chegar a 1 milhão de euros.  Ao anunciar o decreto, a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que a violência vista em Milão é injustificável: “Não há nada de revolucionário em destruir e roubar. Destruir e roubar não é protesto: é crime. E a resposta do Estado precisa ser firme”, afirmou. A premiê disse ainda que entende a dificuldade dos jovens e trabalha para enfrentar estes problemas. “O sofrimento social nunca pode servir de desculpa para a violência. Em primeiro lugar, porque a violência aumenta esse sofrimento, não o resolve”, completou. Segundo Meloni, 330 pessoas foram detidas no país entre sábado e domingo. Ela, que lidera um governo de extrema direita com uma agenda anti-imigração, ainda fez questão de destacar que metade dos detidos é de origem estrangeira. De acordo com dados da polícia de Milão, dos 271 jovens levados à delegacia, 220 são menores de idade. As pautas dos protestos Os atos na Itália começaram, de certa forma, inspirados pelas manifestações estudantis na França, mas também têm pautas próprias. Na sexta-feira (16), estudantes protestaram por mais recursos e melhores condições nas escolas. Também se manifestaram contra a decisão do governo, no mês passado, de limitar o número de estudantes estrangeiros em cada sala de aula. Já o ato de sábado (17), em Milão, foi convocado, principalmente, com foco no alto custo de vida e para expressar a preocupação dos jovens com o futuro. A Itália está entre os países europeus com os salários mais estagnados. Segundo a OCDE, nos últimos 30 anos, os salários médios no país subiram apenas 2,3%, já descontada a inflação. Nesse contexto, aumenta a fuga de jovens, que buscam emprego em países vizinhos, com condições mais atrativas. Além dessas reivindicações, o governo Meloni também sofre pressão de outros setores. No sul do país, caminhoneiros bloqueiam estradas em protestos contra o alto custo dos combustíveis. Os bloqueios têm prejudicado o abastecimento de supermercados. Movimento estudantil marca novo protesto para sábado Depois dos últimos protestos, surgiu nas redes sociais um grupo que se apresenta como “Movimento 17 de Outubro” e que anunciou mobilizações todos os sábados, em oito cidades italianas, até a queda do governo. Nas postagens online, o movimento diz não confiar nas instituições nem no governo e critica a repressão. Em Milão, as autoridades locais se reúnem nesta quarta-feira (21) para coordenar as ações em atos futuros, em especial para o próximo sábado (24). O prefeito Giuseppe Sala, de centro-esquerda, afirmou que é preciso entender a origem do descontentamento dos jovens. Hoje, ele participa de um protesto convocado por uma central sindical com o lema “Milão não quer violência”.
Especialista minimiza risco de intervenção militar em pleito nos EUA, mas teme contestação de resultados
2026/10/20
A duas semanas das eleições legislativas nos Estados Unidos, governo de Donald Trump intensifica ações judiciais contra estados e suspeitas de fraude eleitoral. Especialista ouvido pela RFI afirma que autoridades locais estão preparadas para garantir a votação. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York A menos de duas semanas das eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos, autoridades eleitorais enfrentam uma nova onda de ameaças, enquanto o governo do presidente Donald Trump intensifica ações judiciais para questionar registros de eleitores e impedir a contagem de determinados votos. Apesar das tensões e das especulações sobre uma possível intervenção federal, o especialista em eleições David Becker afirma estar confiante de que a votação ocorrerá normalmente e que os candidatos eleitos tomarão posse. Em entrevista à RFI, Becker, diretor-executivo e fundador do Center for Election Innovation & Research (CEIR), organização apartidária dedicada à integridade eleitoral, disse que as autoridades estaduais e locais estão preparadas para enfrentar eventuais tentativas de interferência da Casa Branca. "Estou absolutamente confiante de que, independentemente de quem vença essas disputas, os eleitos tomarão posse graças ao trabalho das autoridades eleitorais estaduais e locais, republicanos e democratas de todo o país", afirmou. A avaliação contrasta com o aumento das preocupações sobre as medidas que Trump poderia adotar antes, durante ou depois da votação. Entre os cenários levantados por aliados do presidente e discutidos publicamente estão a declaração de uma emergência nacional, a mobilização de forças federais e até a imposição de lei marcial. Becker reconhece que não é possível prever todas as iniciativas da administração Trump, mas considera improvável que eventuais tentativas de intervenção consigam impedir a realização das eleições. "Em nossos 250 anos de história, nunca adiamos ou cancelamos uma eleição federal. Nem durante a Guerra Civil, nem durante duas guerras mundiais, nem durante duas pandemias globais", destacou. Outro obstáculo seria o próprio calendário constitucional. Os mandatos dos integrantes da Câmara dos Representantes terminam em 3 de janeiro, e não existe previsão de prorrogação automática caso as eleições não sejam realizadas. "Se deixarmos todo esse barulho de lado e observarmos como o processo de votação está acontecendo, veremos que tudo está transcorrendo de maneira incrivelmente tranquila", disse Becker. Governo federal e estados travam disputas sobre regras eleitorais A administração Trump tem buscado ampliar sua atuação sobre o processo eleitoral, cuja organização é atribuída principalmente aos estados pela Constituição americana. Segundo Becker, nos últimos 21 meses, o governo tentou impor mudanças nas regras eleitorais por meio de duas ordens executivas, apresentou ações judiciais para obter dados de eleitores de dezenas de estados e promoveu investigações sobre eleições anteriores. Diversas iniciativas foram bloqueadas pela Justiça, incluindo decisões de magistrados nomeados pelo próprio Trump. Para Becker, a relação entre Washington e as autoridades eleitorais estaduais atravessa uma situação sem precedentes recentes. Historicamente, segundo ele, governos federais de ambos os partidos atuaram em cooperação com os estados na organização das eleições. A atual administração, em sua avaliação, tem adotado uma postura de confronto. O especialista considera que as tentativas de intervenção podem continuar, mesmo diante das derrotas judiciais. Uma das principais preocupações é a possibilidade de Trump voltar a fazer acusações infundadas sobre a integridade do processo eleitoral durante a apuração dos votos. "Acho que uma coisa podemos afirmar com quase toda a certeza: na noite de 3 de novembro, muito provavelmente ouviremos o presidente dos Estados Unidos, da Casa Branca, espalhando mentiras e desinformação sobre nossas eleições, ameaçando autoridades eleitorais e difamando o trabalho delas", afirmou. Presença de agentes do ICE nas urnas é considerada improvável Outra preocupação envolve a possibilidade de mobilização de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) ou de militares nos locais de votação. Becker descarta uma operação federal generalizada desse tipo. Ele cita a seção 592 do Título 18 do Código dos Estados Unidos, que estabelece sanções para determinadas formas de interferência militar em eleições, incluindo penas de até cinco anos de prisão. "O ICE e as tropas não estarão nos locais de votação. Isso não vai acontecer. Se acontecer em algum lugar, será um caso isolado, acidental", afirmou. A legislação mencionada pelo especialista trata especificamente do uso de tropas ou homens armados em locais eleitorais. Ela não constitui, por si só, uma proibição geral de toda atividade do ICE nas proximidades das urnas. Segundo Becker, autoridades eleitorais de diferentes estados já discutem respostas jurídicas para eventuais tentativas de intimidação ou interferência. "Qualquer tribunal do país bloquearia isso imediatamente, e poderia haver uma enorme reação política", disse. Cartas com pó branco e ameaças são investigadas pelo FBI As preocupações com a segurança das eleições aumentaram depois que autoridades eleitorais de diferentes estados começaram a receber correspondências suspeitas, algumas contendo ameaças e um pó branco. Uma investigação publicada em 15 de outubro pelo Votebeat, organização jornalística independente especializada em eleições, revelou que mais de 100 cartas suspeitas teriam sido enviadas a autoridades e instituições em diferentes partes do país. O FBI e o Serviço de Inspeção Postal dos Estados Unidos investigam os episódios. Parte das correspondências foi interceptada antes de chegar aos destinatários, e testes realizados em alguns dos materiais não identificaram substâncias perigosas. Becker afirmou à RFI que conversou com funcionários eleitorais que receberam as cartas e teve acesso a algumas das mensagens. Segundo ele, o conteúdo reproduz argumentos associados a teorias conspiratórias sobre eleições e busca intimidar os responsáveis pela votação. "Já vimos isso antes. Vimos outros covardes, teóricos da conspiração e indivíduos que tentam prejudicar nosso processo eleitoral ameaçarem e intimidarem autoridades eleitorais. E todos eles, republicanos e democratas, continuam firmes, fazendo seu trabalho", afirmou. O especialista considera que os episódios fazem parte de um ambiente de crescente hostilidade contra funcionários públicos envolvidos na administração das eleições, mas ressalta que os profissionais continuam desempenhando suas funções. Governo Trump intensifica campanha contra voto de não cidadãos Paralelamente às preocupações com a segurança eleitoral, o governo Trump intensificou uma campanha para identificar pessoas sem cidadania americana que possam ter se registrado ou votado ilegalmente. A legislação federal já proíbe que não cidadãos participem das eleições para presidente e Congresso. O governo, porém, argumenta que são necessárias medidas adicionais para impedir fraudes. Uma das principais propostas defendidas pela Casa Branca é o SAVE America Act, que estabelece novas exigências para comprovação de cidadania no registro eleitoral e identificação com foto na votação. Os republicanos apresentam a iniciativa como uma medida para reforçar a segurança das eleições. Os democratas e organizações de defesa do direito ao voto argumentam que as novas exigências poderiam dificultar a participação de cidadãos americanos que não dispõem imediatamente dos documentos necessários. Becker questiona a dimensão do problema apontado pelo governo federal. "Se observarmos o que o Departamento de Justiça revelou nas últimas semanas, enquanto tenta ampliar as alegações de que não cidadãos estão se registrando ou votando, veremos que, entre literalmente centenas de milhões de votos depositados nas últimas eleições federais, foram identificadas apenas algumas dezenas de pessoas acusadas e presas - não condenadas - por votar sem ter cidadania americana", afirmou. O Departamento de Justiça anunciou nesta segunda-feira (19) acusações contra 28 residentes permanentes na Califórnia por supostas irregularidades relacionadas ao registro eleitoral e à votação. Segundo as autoridades federais, 21 deles teriam depositado votos ilegalmente. As acusações ainda precisam ser examinadas pela Justiça e não equivalem a condenações. Becker também critica a confiabilidade dos dados utilizados pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) para identificar os eleitores. "O DHS tem um histórico muito ruim na identificação de pessoas sem cidadania americana. Também tem um histórico de divulgar números exagerados e depois admitir que os casos eram muito menos numerosos", afirmou. Ação contra Califórnia amplia disputa sobre contagem dos votos Um dos episódios mais recentes dessa disputa ocorreu em 15 de outubro, quando o Departamento de Justiça entrou com uma ação contra a Califórnia para impedir a contagem de votos por correspondência de aproximadamente 20 mil eleitores cuja cidadania é questionada pelo governo federal. A administração Trump afirma ter identificado, por meio de análises conduzidas em conjunto com o DHS, pessoas que provavelmente não possuem cidadania americana, mas que constam dos registros eleitorais do estado. O governo solicitou que a Califórnia verificasse a situação dessas pessoas e separasse seus votos até que a elegibilidade fosse confirmada. A secretária de Estado da Califórnia, Shirley Weber, rejeitou as exigências, afirmando que o governo federal não apresentou evidências suficie
Provocações e acusações marcam primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro
2026/10/19
O eleitor que ainda não decidiu se votará no candidato do PT ou do PL teve pouca chance de conhecer as propostas no primeiro enfrentamento entre eles na TV. O balanço ficou mais por conta da postura de cada um, inclusive na fuga de respostas. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília O debate entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, promovido pela TV Band nesse domingo, teve provocações, muita troca de acusações – a maioria ficou sem resposta – e quase nada de propostas substanciais. Ainda assim, como a eleição está muito apertada, cada voto indeciso, branco ou nulo modificado em frente à tela pode fazer diferença. “O que vimos, representado pelo Flávio Bolsonaro, foi o extremismo em sua plenitude. Truculento, mal-educado, incivilizado, não responde, mente, inventa fatos e faz isso de cara lavada. E o Flávio Bolsonaro é mais competente no papel de extremista do que o pai dele, então ele vai conseguir fincar o voto de todos os fanáticos do Brasil. Mas o voto moderado eu já não tenho tanta certeza. Eu estou apostando no antibolsonarismo de chegada”, afirmou a economista e pesquisadora Mônica de Bolle, em comentário na internet. Já para a deputada Bia Kicis (PL/DF), que considerou o debate enfadonho no começo, com os dois jorrando acusações, Flávio teve leve vantagem: “Esse debate não vira voto de ninguém. Quem vota no Lula continua votando no Lula, quem vota no Flávio continua votando no Flávio. Se tiver aí talvez algum indeciso, aí eu acho que o Flávio ganhou o debate porque o Lula estava inseguro e o Flávio foi pra cima dele no caso da lobista Roberta.” Um dos pontos mais debatidos foi a segurança pública, com o candidato do PL acusando a gestão petista de ineficiência, enquanto Lula tentou mostrar que esse tema é da alçada dos governos estaduais e que um projeto de sua autoria pode unificar as políticas na área. O assunto também gerou um dos principais memes nas redes sociais. Voto de presidiários “Inclusive, você pode explicar por que 73% dos presidiários votaram em você?”, perguntou Flávio. “Eu quero que votem 100% em mim. Até teu pai”, respondeu Lula. Os intermediadores do debate chamaram a atenção do candidato do PL, que se movimentava muito atrás do adversário enquanto este falava, o que críticos atribuíram a uma tentativa de dificultar edições e recortes do material para uso nas redes sociais. Ou seja, imagens de Lula sempre teriam Flávio ao fundo. Sobre economia, o senador falou que vai criar o Ministério da Prosperidade e prometeu refinanciar a dívida de pessoas físicas e empresas. “No meu governo, a gente vai comprar a sua dívida dos bancos. E pra você que é pessoa física, seu débito vai ficar seis meses congelado. Você não vai pagar boleto nenhum nesse tempo. Você, ao invés de pagar sua dívida, você vai poder ir ao mercado, você vai poder passear com a sua família de novo. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano.” Já Lula pontuou avanços de sua gestão: “Quando eu peguei o país pela primeira vez, ele estava quebrado. Eu deixei o país com quase 270 bilhões de reserva, crescendo a 7,5%. Agora eu peguei o país quebrado outra vez e somente depois que eu voltei o país começou a crescer acima de 3%. O país está preparado para muito mais agora. Já recuperamos a indústria naval, já recuperamos a indústria de fertilizantes, que eles tinham privatizado. Aliás, eles querem privatizar a Petrobras, querem privatizar 95% das estatais brasileiras. Eu quero empresa estatal forte e produtiva.” Mostrar contas bancárias e telefônicas Nas considerações finais, Lula propôs que ambos os candidatos abram suas contas bancárias e telefônicas, inclusive de seus familiares, para mostrar quem é corrupto. Flávio saiu pela tangente e não respondeu, o que foi uma tônica do debate de ambos os lados. “Em 2009, como deputado estadual, de 49 votos, você foi o único que votou contra ampliar a licença-maternidade para funcionárias da Assembleia Legislativa. Por que você é contra as mulheres, Flávio?”, indagou Lula. “Eu não tenho absolutamente nada contra as mulheres, pelo contrário. Eu sou casado com a Fernanda, uma mulher maravilhosa, sou pai de duas meninas lindas, a Luísa e a Carol. E eu vou dar sempre o meu melhor como presidente da República, como homem, para defender a minha família e fazer o melhor para elas. Agora, Lula, você conhece Roberta Luchsinger?”, retrucou Flávio. “Você não respondeu à pergunta. Você não disse por que não garantir que as mulheres tenham apenas mais dois meses para cuidar de uma criança”, insistiu Lula. “E Roberta Luchsinger, Lula? Ela fez acusações muito graves contra você. Por que a Polícia Federal está investigando ela?” “Ela é parceira do seu sócio, o careca do INSS, Flávio. E Roberta é um problema da Polícia Federal, que está investigando”, respondeu Lula, que cobrou explicações sobre o dinheiro repassado por Daniel Vorcaro para Flávio, que, por sua vez, lembrou suspeitas envolvendo o filho de Lula. O próximo debate será o da TV Globo, na sexta-feira.
Cúpula da UE chega ao segundo dia em Bruxelas: Ucrânia, energia e orçamento em debate
2026/10/16
Sem acordo sobre o orçamento para 2028-2034, e diante de um calendário apertado, os líderes europeus agendaram uma reunião extraordinária para 26 de novembro. Nesta sexta-feira (16), Volodymyr Zelensky participa das discussões sobre a Ucrânia. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas A Cúpula do Conselho Europeu chegou ao segundo dia em Bruxelas, reunindo os 27 chefes de Estado e de Governo do bloco. Desde que assumiu a presidência do Conselho, o ex-primeiro-ministro português António Costa se comprometeu a encerrar esses encontros em apenas um dia. Ele vinha conseguindo cumprir a meta, ainda que algumas reuniões invadissem a madrugada, mas desta vez não foi possível, muito por conta do debate sobre o novo orçamento do bloco. A reunião foi pausada perto da meia-noite para ser retomada nesta sexta-feira, com discussões sobre imigração e Ucrânia, com a presença do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Um orçamento para sete anos O MFF, sigla em inglês para Multiannual Financial Framework, ou Quadro Financeiro Plurianual, foi debatido no primeiro dia da cúpula. Este é um tema recorrente em Bruxelas porque define o orçamento do bloco de 2028 a 2034, um período considerável. António Costa não abre mão de que os líderes cheguem a uma conclusão até o fim do ano, para que o Parlamento Europeu possa debater o texto em 2027. Mas alguns países, como a Itália, já deixaram claro que, para eles, o conteúdo importa mais do que o prazo. Existe um temor de que o atraso se amplie por conta da série de eleições previstas para o ano que vem, com pleitos na França, Itália, Polônia, Finlândia, Estônia, Eslováquia e Grécia. A situação francesa é a que chama mais atenção. A candidata de extrema direita Marine Le Pen aparece, no momento, como favorita na disputa presidencial e prometeu limitar a contribuição líquida do país a € 5 bilhões por ano. Seria um corte drástico em relação ao patamar atual da segunda maior economia do bloco, que gira em torno de € 8 bilhões. Como não houve acordo, ficou agendada uma cúpula extraordinária para o dia 26 de novembro. Cada país com seu interesse Se não há acordo nem sobre o prazo, a discussão sobre o conteúdo é ainda mais complicada. Na prática, cada governo defende seus próprios interesses. Espanha e Itália dão mais importância aos fundos agrícolas, enquanto os Estados Bálticos, vizinhos da Rússia, olham para o investimento em defesa. Há ainda um grupo de seis países que podemos chamar de “time dos austeros”. Liderados pela Alemanha, eles querem cortes no orçamento. A Irlanda, que ocupa a presidência rotativa do Conselho, apresentou uma proposta com redução de € 141 bilhões, amplamente rejeitada na cúpula. Agora, António Costa toma as rédeas das negociações e deve apresentar, nas próximas semanas, um esboço totalmente diferente, que prevê um novo pacote de impostos em toda a União Europeia para financiar o orçamento, além de uma flexibilidade maior para imprevistos. Depois da pandemia de Covid e das guerras na Ucrânia e no Irã, a cúpula do bloco parece ter aprendido a lição e quer garantir margem de manobra para situações como essas. Mercado de carbono no centro da discussão sobre energia A instabilidade no Oriente Médio pesa sobre os preços do petróleo e do gás e atinge diretamente o bolso das famílias e das empresas europeias. Com a chegada do inverno, a pressão deve aumentar. O principal ponto de discordância, que tomou horas de debate, foi o ETS, o Sistema de Comércio de Emissões, o mercado de carbono europeu. Simplificando bastante, por esse sistema indústrias e usinas pagam para poluir, comprando licenças de emissão. Quanto mais caro o carbono, mais cara fica a energia. Alterar a precificação para que ela fique mais estável e menos suscetível a crises pontuais seria uma forma de reduzir os preços no curto prazo. Um grupo de países, porém, argumenta que a medida pode enfraquecer a política climática da União Europeia. Nenhuma decisão foi tomada até agora, mas a expectativa é que os líderes adotem alguma medida para diminuir a volatilidade desse mercado.
Escala 6x1: batalha por voto e poder permite mudança histórica na legislação trabalhista no Brasil
2026/10/15
Proposta que virou bandeira de Lula teve apoio inclusive do PL de Flávio Bolsonaro, embora partido já fale em compensações. Trabalhador celetista terá direito a dois dias de folga por semana, sem redução salarial. Desafio do PT é reverter vitória em votos. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília A disputa acirrada pelo poder num país dividido é capaz de pavimentar as condições para mudanças históricas que dificilmente aconteceriam em outros cenários, já que contrariam quem detém o poder econômico. E foi assim que, a 11 dias do segundo turno das eleições, o Senado aprovou numa única noite, em dois turnos, a emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho no Brasil de 44 para 40 horas semanais, com a garantia de pelo menos dois dias de descanso na semana para contratos regidos pela CLT, sem redução salarial. Até um mês atrás, a proposta estava parada no Senado e parecia impossível imaginar sua aprovação, ainda mais depois da vitória esmagadora da direita na eleição para o Congresso. Mas o tema, abraçado pelo governo Lula no último ano de mandato, virou uma espécie de bote salva-vidas para o petista e, com a campanha pegando fogo na disputa voto a voto, até o PL de Flávio Bolsonaro, que abertamente trabalhou contra a mudança, no fim votou a favor. No meio da disputa nacional, destaca-se ainda a articulação de Davi Alcolumbre (União Brasil/AP) de permanecer no comando do Senado, apesar da força que o PL terá na Casa Legislativa, ainda mais se vencer o segundo turno. Flávio Bolsonaro não esteve no plenário na votação, mas registrou o voto de forma remota. E seus parceiros que votaram e discursaram não esconderam o desconforto, alguns já falando em compensações, especialmente para o comércio. Uma das propostas levantadas foi a desoneração da folha de pagamento, que tem impacto direto na Previdência Social, e mesmo de votar um caminho alternativo de negociação entre patrão e empregado. “Eu recebi milhares de pedidos sobre essa votação. E esse pedido é legítimo, sem dúvida nenhuma, eu respeito. Por isso, o meu voto será sim. Mas é preciso falar também, além das vantagens, dos riscos para o trabalhador. Nós não podemos permitir que essa conquista se transforme lá na frente, a médio e longo prazos, em prejuízo para quem queremos proteger”, disse o senador Marcos Pontes (PL/SP). O texto aprovado foi o mesmo que já tinha sido votado na Câmara e que tem como primeiro signatário o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG). No Senado, houve apenas um voto contrário, o do senador Hamilton Mourão (Republicanos/RS), que foi vice de Jair Bolsonaro. Érica Hilton comemora “É vitória dos trabalhadores, é vitória das mulheres, é vitória de quem está nessa escala desumana. Daqui a 60 dias, a escala 6x1 acaba no Brasil. Para todos aqueles que duvidaram, para a extrema-direita e os aliados do Flávio Bolsonaro, que articularam o tempo inteiro para que isso não acontecesse, amarguem essa derrota. A voz do povo venceu”, comemorou a deputada Érika Hilton (PSOL/SP), que levantou a bandeira do tema na Câmara e acompanhou a votação no Senado. O desafio de Lula é transformar essa vitória em votos, uma vez que já era conhecida sua posição favorável ao tema e a de Flávio Bolsonaro, contrária. E o petista também já havia lançado mão de outras estratégias, como o reajuste do Bolsa Família. “Nós estamos falando de 170 milhões de brasileiros. Reconverter a cabeça desses eleitores exige algo como fazer uma curva com transatlântico. Então é uma curva devagar num espaço muito curto de tempo. E, no segundo turno, o nível de abstenção e o nível de pessoas que votam nulo costuma ser maior que no primeiro”, destacou o cientista político Alexandre Bandeira. O analista comentou os pacotes de bondades de Lula no meio da campanha e as promessas sem detalhamento de Flávio de cortar despesas em mais de R$ 200 bilhões. Nos dois casos, a pergunta é como fechar a conta. “No momento em que estamos vivendo, os dois candidatos prometem demais, mentem demais, se atacam demais e se comprometem demais. E nesta reta final, muito do que está sendo prometido como atos futuros de um governo são medidas inexequíveis. E mais do que isso, são medidas que não estão contidas nos planos de governo dos candidatos, portanto não têm ressonância naquele contrato que o candidato assinou com a sociedade ao registrar a sua candidatura.” Para Bandeira, “ou o candidato eleito não vai cumprir, ou, se decidir cumprir, nós vamos entrar num outro problema, que é um país de cobertor curto que não tem dinheiro para pagar tudo aquilo que está sendo prometido. A quem vai sobrar essa conta?”, indaga o especialista.
Com maioria ameaçada, Trump intensifica ofensiva eleitoral para salvar controle do Congresso nos EUA
2026/10/14
A menos de três semanas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o Partido Republicano enfrenta disputas cada vez mais competitivas, inclusive em estados tradicionalmente conservadores. Para tentar preservar o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, o presidente Donald Trump e o vice-presidente JD Vance intensificaram a participação em campanhas eleitorais, enquanto o partido amplia os investimentos em publicidade e mobilização de eleitores. Patrícia Vasconcellos, de Washington, especial para a RFI O cenário preocupa os republicanos porque parte dos recursos está sendo direcionada a estados onde Trump venceu com ampla vantagem nas eleições presidenciais de 2024, como Texas, Ohio, Iowa e Alasca. O Cook Political Report acompanha 37 distritos competitivos para a Câmara dos Representantes. Uma pesquisa realizada em setembro nesses distritos mostrou os democratas com 49% das intenções de voto, contra 47% dos republicanos. A economia ocupa um lugar central na campanha. Inflação, custo de vida, preços dos combustíveis e os efeitos da guerra com o Irã estão entre as preocupações dos eleitores. Os democratas tentam associar essas dificuldades às decisões do governo Trump, enquanto os republicanos destacam suas propostas econômicas, a política migratória e a segurança. Texas: reduto republicano que exige atenção de Trump O Texas se tornou um dos exemplos mais significativos das dificuldades enfrentadas pelo Partido Republicano. Trump venceu o estado por quase 14 pontos percentuais em 2024, mas agora precisa participar diretamente da campanha para tentar garantir a vitória de seus aliados. Na semana passada, o presidente esteve em San Antonio, em sua terceira visita ao Texas em menos de um mês. A principal disputa é por uma cadeira no Senado. O procurador-geral do estado, Ken Paxton, apoiado por Trump nas primárias republicanas, enfrenta o democrata James Talarico. Paxton derrotou o senador John Cornyn, que ocupava a cadeira havia mais de duas décadas. Sua candidatura, no entanto, provocou divisões entre republicanos, principalmente pelas controvérsias envolvendo sua trajetória política. Além da disputa pelo Senado, Trump pressionou os republicanos do Texas a redesenhar os distritos eleitorais para tentar ampliar a representação do partido na Câmara. Mesmo com a mudança, algumas dessas disputas continuam competitivas. O Texas não elege um democrata para o Senado americano desde 1988. Uma eventual vitória de Talarico representaria uma mudança histórica no cenário político do estado. Leia tambémTrump promete US$ 5 mil para cada americano se republicanos vencerem eleições de meio mandato Ohio, Iowa e Alasca também concentram investimentos A preocupação republicana se estende a outros estados conservadores. Em Ohio, a eleição especial para o Senado entre o republicano Jon Husted e o democrata Sherrod Brown se tornou uma das disputas mais caras do país. Segundo dados da empresa AddImpact, os gastos com publicidade eleitoral chegaram a aproximadamente US$ 111 milhões em Ohio, US$ 96 milhões no Texas, US$ 48 milhões em Michigan, US$ 44 milhões na Carolina do Norte e US$ 43 milhões em Iowa. No Iowa, tradicionalmente republicano, o aumento dos custos de produção agrícola, os preços dos combustíveis e as consequências econômicas da guerra com o Irã estão presentes no debate eleitoral. O Alasca também passou a receber atenção nacional. O vice-presidente JD Vance esteve no estado para apoiar a campanha de reeleição do senador republicano Dan Sullivan, que enfrenta a democrata Mary Peltola. Disputas em estados como Kansas também ganharam visibilidade, ampliando o número de territórios onde os republicanos precisam investir recursos e mobilizar lideranças nacionais. Candidatos republicanos tentam se distanciar de Trump Outro desafio para o partido é a relação dos candidatos com o próprio presidente. Uma análise publicada pela agência Reuters identificou que, em 41 das 62 disputas competitivas para a Câmara e o Senado examinadas, candidatos republicanos se distanciaram de Trump em alguma questão específica ou reduziram a associação pública com ele durante a campanha. Em alguns casos, referências ao presidente foram retiradas de materiais eleitorais. Em outros, candidatos criticaram decisões da administração, principalmente relacionadas à guerra com o Irã. O movimento não representa necessariamente um rompimento com Trump. A maioria dos candidatos continua apoiando as principais propostas do governo, mas tenta conquistar eleitores independentes e moderados sem perder o apoio da base conservadora. Uma pesquisa Reuters/Ipsos citada no levantamento apontou a aprovação do presidente em 32%, um indicador das dificuldades enfrentadas por candidatos que dependem do apoio de eleitores além da base republicana. Leia tambémTrump aposta em convenção inédita para mobilizar republicanos antes das eleições de meio de mandato Pleito pode mudar os últimos anos do governo Trump As eleições de 3 de novembro vão definir a composição da Câmara dos Representantes, onde todas as 435 cadeiras estarão em disputa, e de parte do Senado. Atualmente, os republicanos controlam 53 cadeiras no Senado, contra 47 do bloco democrata, que inclui dois independentes. Para conquistar a maioria, os democratas precisam obter um ganho líquido de quatro cadeiras. Na Câmara, onde a vantagem republicana é menor, uma mudança de maioria permitiria aos democratas bloquear parte da agenda legislativa do presidente, convocar integrantes do governo para prestar depoimentos e abrir investigações parlamentares. Os republicanos ainda contam com recursos financeiros expressivos, o apoio de organizações conservadoras e uma base eleitoral mobilizada em torno de Trump mas a necessidade de defender estados tradicionalmente republicanos demonstra como a disputa pelo controle do Congresso se ampliou nas últimas semanas. Para Trump, o resultado será um teste de sua influência política. A principal questão é se o presidente conseguirá transferir sua força eleitoral para os candidatos republicanos numa eleição em que seu próprio nome não estará na cédula.
Venezuela: nova rodada de negociações entre chavismo e oposição deve focar nas garantias políticas e civis
2026/10/12
A mesa de negociação entre o chavismo e o grupo opositor conhecido como Assembleia Nacional de 2015 deve ser retomada nesta semana, para uma terceira rodada de conversas. De acordo com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a reunião vai acontecer na próxima quarta-feira (14). As garantias políticas e civis vão estar no centro das discussões, afirmou à RFI uma pessoa envolvida nas conversas, que ocorrem sob a tutela de Washington. Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela A nova rodada de negociações foi confirmada por Marco Rubio na última sexta-feira (9), após uma reunião com Dinorah Figuera, que encabeça o grupo opositor. As delegações já haviam se reunido em Caracas em meados de agosto e no final de setembro. “Esse processo conta com apoio integral, o mais forte apoio possível, dos mais altos escalões do nosso governo”, afirmou Rubio. O secretário de Estado disse, ainda, que o processo de diálogo “deve resultar em eleições livres e democráticas”. O responsável pela diplomacia da Casa Branca também ressaltou que as negociações devem ir além da realização de novas eleições. O objetivo final, segundo ele, é fortalecer as instituições democráticas do país caribenho. As negociações entre os dois grupos incluem propostas de reforma dos sistemas judiciário e eleitoral, defendidas pela oposição como medidas necessárias para assegurar eleições justas. Até o momento, não há previsão para a realização de um novo pleito na Venezuela. “Estamos comprometidos com a reinstitucionalização dos poderes públicos, como o Tribunal Supremo de Justiça e o Conselho Nacional Eleitoral, para apresentar ao país um processo de garantias políticas e civis e estabelecer um espaço para o reencontro e reconciliação. Não é um processo fácil, mas é um processo possível”, afirmou Dinorah Figuera, ao lado de Marco Rubio. A Assembleia Nacional de 2015, eleita quando a oposição conquistou a maioria do Parlamento venezuelano, foi esvaziada em 2017, após a criação de uma Assembleia Constituinte pelo governo de Nicolás Maduro. Desde então, seus integrantes reivindicam a legitimidade do Poder Legislativo. Do lado do chavismo, as conversas são lideradas por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. Sua irmã, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, desembarcou neste domingo (11) em Roma para participar do Fórum Mundial da Alimentação, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). “Trazemos a experiência da Venezuela e o compromisso de ampliar a cooperação internacional em prol da produção agrícola, da segurança e soberania alimentar e do desenvolvimento sustentável”, afirmou a mandatária ao canal estatal VTV após desembarcar na Itália. Cooperação com os EUA Neste domingo (11), o Procurador-Geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, afirmou que Washington prendeu o colombiano Álvaro Pulido, ex-sócio de Alex Saab, homem forte do governo de Nicolás Maduro que há cinco meses está detido na Flórida, após ser extraditado pelo governo de Delcy Rodríguez. Pulido é alvo de duas acusações por lavagem de dinheiro de recursos que teriam sido desviados das Bolsas Clap, um programa de distribuição de alimentos implementado na Venezuela a partir de 2016, durante o início da severa crise econômica enfrentada no país. “Segundo as acusações, suas ações demonstram desprezo pelo povo venezuelano, ao desviar, em benefício próprio, recursos de programas governamentais destinados a garantir alimentos, medicamentos e moradia, além de utilizar o sistema financeiro americano para viabilizar as operações”, disse Blanche em uma publicação nas redes sociais que ratificou a prisão do colombiano. O Procurador-Geral não confirmou que a prisão se deu após um novo caso de extradição, mas, de acordo com diversas publicações da imprensa local, Pulido estava detido na Venezuela desde 2023, acusado de corrupção. O governo venezuelano não se pronunciou sobre o caso.
Belgas voltam às ruas contra cortes no orçamento e alta de impostos
2026/10/09
Os dois maiores sindicatos da Bélgica realizam nesta sexta-feira (9) mais um dia nacional de mobilização contra as políticas de cortes fiscais do governo federal. Os trabalhadores temem que o novo orçamento, que prevê aumento do imposto sobre o consumo, volte a pesar no bolso da classe trabalhadora. Os protestos afetam o transporte público e a circulação de veículos em Bruxelas, além de provocar o cancelamento de voos. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas O alvo da mobilização é a elaboração de um novo orçamento público com mais cortes. O governo do primeiro-ministro Bart De Wever, apelidado de Arizona pelo conjunto de cores dos partidos da coligação, persegue o tão sonhado equilíbrio fiscal, tema recorrente em quase todas as grandes economias do mundo hoje. Os sindicatos daqui da Bélgica reconhecem a importância de equilibrar as contas públicas, mas temem que, mais uma vez, o custo recaia sobre os trabalhadores. São duas as grandes preocupações: o aumento do TVA, o imposto sobre o valor agregado, e a alteração do sistema de reajuste salarial. Como resposta, as centrais defendem um plano orçamentário alternativo, elaborado por elas, com medidas que poderiam arrecadar até € 21 bilhões sem a necessidade de cortes drásticos. Um dos sindicatos também vai protestar nas sedes dos partidos que compõem o governo, em Bruxelas, e pedir uma reunião com os líderes partidários. A manifestação começou oficialmente às 10h (horário local) e a expectativa é de que se confirme a presença de milhares de manifestantes. Inflação acima da brasileira Na Bélgica, o reajuste dos salários pela inflação é garantido por lei, sem necessidade de negociação com o empregador. O problema é que a inflação está muito alta para os padrões europeus, puxada pela alta dos preços de energia decorrente da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. A inflação anual no país chegou a 4,69%, acima até da registrada no Brasil (onde o IPCA acumulado em 12 meses está em 4,22%). Esse cenário amplia o impacto desses reajustes nas contas públicas e, diante dele, o governo aprovou uma lei que limita a correção automática a uma fatia do salário de até € 4 mil. Mudanças no imposto sobre o consumo No caso do TVA, o governo estuda elevar a alíquota de 21% para 22%, o que afetaria roupas, produtos de higiene e de limpeza, eletrônicos e combustíveis, entre outros itens. Já a alíquota de 6% passaria a 9% em alguns casos, como carnes, peixes e parte dos laticínios. Para outros produtos, como frutas, legumes, pão, leite e ovos, o imposto seria zerado. Voos cancelados e trânsito interrompido Tradicionalmente, os dias nacionais de mobilização organizados pelos sindicatos causam transtornos em diversos pontos do país. Segundo a imprensa local, ao menos 140 voos ligados ao aeroporto de Bruxelas foram cancelados. A marcha pela cidade deve interromper o tráfego regular de veículos ao longo do dia, e várias linhas de ônibus e metrô também estão afetadas. Os trens circulam normalmente nesta sexta-feira, mas um segundo protesto, marcado para segunda-feira (12), deve atingir a operadora ferroviária.
Prisão de chefe da inteligência alemã por espionagem acende alerta entre aliados
2026/10/08
A prisão do ex-chefe do Serviço Federal de Inteligência da Alemanha está despertando forte reação no país e em seus aliados. August Hanning foi detido na terça-feira (6) sob suspeita de espionagem e tentativa de traição. Ele teria obtido informações secretas e compartilhado com pelo menos um país estrangeiro depois de deixar o cargo. As agências de inteligência britânicas e americanas estão investigando se informações e até mesmo suas próprias fontes foram comprometidas pelo vazamento. Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf, Alemanha O que a Alemanha descobriu esta semana é que o homem que chefiou o seu Serviço Federal de Inteligência entre 1998 e 2005 obteve ilegalmente cerca de 2 mil documentos depois que deixou a agência, até pelo menos 2022. August Hanning, que hoje tem 80 anos, foi preso na região da Renânia do Norte-Vestfália, e o seu cúmplice, o homem que vazava os documentos para ele, foi preso na Baviera. O caso foi descoberto durante as investigações de outro crime não relacionado. A polícia investigava August Hanning por envolvimento com o caso da milionária Christina Block, herdeira de uma rede de churrascarias bem famosa aqui da Alemanha. Ela era acusada de ter encomendado o sequestro de seus dois filhos mais novos no final de 2023, na Dinamarca, em uma disputa pela guarda das crianças com o pai. Quando a polícia fez uma devassa no computador de August Hanning por causa desse caso, acabou descobrindo os milhares de documentos que ele obtinha ilegalmente do Serviço de Inteligência. A partir daí, foi só puxar o fio para desvendar o que pode se transformar na maior história de espionagem e traição da história recente da Alemanha. País beneficiado O ex-chefe do Serviço de Inteligência alemã August Hanning atuava no setor privado como consultor de segurança quando esses vazamentos teriam ocorrido. O ministério público diz que ele usou informações confidenciais para preparar uma análise para um funcionário de um serviço de inteligência estrangeiro. O caso surgiu justamente num momento de forte preocupação com a espionagem russa na Alemanha. Mas os investigadores indicam que, neste episódio, não se trata do regime de Vladimir Putin. Segundo investigação da revista Der Spiegel, o país em questão seria o Azerbaijão. Hanning tinha relações antigas com o país, tendo sido membro do conselho do Fórum Alemão-Azerbaijano. Entre os documentos supostamente obtidos estariam informações sobre o programa nuclear iraniano e as forças militares russas. Depois que deixou o cargo de chefe do Serviço de Inteligência, Hanning ainda trabalhou como Secretário de Estado no Ministério Federal do Interior, até 2009, quando passou para a iniciativa privada. Os vazamentos se davam através de seu ex-chefe de gabinete, que é chamado pela investigação de Manfred D. Ele trabalhou no serviço de inteligência até o início deste ano. O acordo entre os dois teria sido selado em 2010 e teria durado pelo menos até 2022. EUA e Inglaterra fazem auditoria A notícia caiu como uma bomba justamente na semana em que o atual chefe do serviço de inteligência, Martin Jäger, disse que a ameaça de ataques contra alvos na Alemanha continua real e presente e que “a Alemanha corre o risco de se ver envolvida em um conflito violento com a Rússia”. A agência de inteligência britânica, assim como diversas agências americanas, planejam realizar uma revisão interna sistemática de todas as informações sensíveis compartilhadas com aliados europeus durante o período em questão. Também há uma forte cobrança dos partidos da coalizão do governo por mudanças e fiscalização no Serviço de Inteligência. O chanceler Friedrich Merz já tinha uma proposta de reforma no serviço, mas seu próprio partido agora pede uma reformulação do zero. Um dos principais problemas apontados é a permeabilidade entre o público e o privado: muitos altos funcionários do governo vão trabalhar em consultorias ao deixar o poder e isso já foi motivo de atividades suspeitas no passado. Vale lembrar o célebre caso do ex-chanceler Gerhard Schröder, que depois de sair do governo assumiu cargos em empresas ligadas ao setor energético russo. Histórico de espionagem a traição Se as suspeitas forem confirmadas, este seria um caso de dimensão histórica, porque nunca houve na Alemanha uma acusação de traição envolvendo um ex-funcionário de nível tão alto quanto um antigo diretor do serviço de inteligência. Mas o próprio serviço já enfrentou outros casos graves. Em 2022, um funcionário de alto escalão, Carsten L., foi preso sob suspeita de ter vazado informações ultrassecretas. Segundo a acusação, o material chegou ao serviço de inteligência russo FSB por meio de um intermediário, e os dois teriam recebido centenas de milhares de euros.
'Sinto que não vou poder voltar a ser quem eu era', diz sobrevivente brasileira do 7 de Outubro em Israel
2026/10/07
Três anos depois, Israel ainda tem muitas feridas abertas desde os ataques de 7 de Outubro de 2023. Às vésperas das primeiras eleições gerais desde a ação do Hamas que mudou o Oriente Médio, a sociedade ainda está marcada.  Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Se para o resto do mundo o foco está na Faixa de Gaza, nas mortes de milhares de palestinos e nas frentes de guerra que continuam em aberto, em Israel é como se o tempo tivesse parado. “Nós, enquanto sociedade, falamos do 7 de Outubro como se fosse ontem. Ou hoje. O governo e o país não pararam (para refletir). E só quando se para e se reconhece que algo aconteceu, é possível iniciar o processo de luto pelo que se perdeu”, afirma Tuli Flint, um dos principais especialistas israelenses em estresse pós-traumático. Do ponto de vista político, os ataques também tiraram a questão palestina do debate interno em Israel.  “O país virou-se à direita. Todo a discussão em torno dos palestinos já não está na agenda. Mesmo na esquerda este assunto não é mais parte da discussão. Isso talvez represente um sentimento do público de falta de confiança na possibilidade de haver uma mudança significativa ou de que esta não é questão mais urgente neste momento”, diz Guy Ben-Porat, especialista em política comparada e sociologia política na Universidade Ben-Gurion do Neguev.  O Ministério da Defesa de Israel e o Instituto Nacional de Seguros divulgaram os números atualizados de mortos desde os ataques do Hamas: 1.029 civis assassinados, além de 1.153 membros das forças de segurança. Do outro lado da fronteira, o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, controlado pelo Hamas, registra 74 mil mortos. O ministério não diferencia civis de combatentes. Cenário político A menos de 20 dias das eleições, a taxa de aprovação do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu continua em tendência de queda. Dados do Instituto de Democracia de Israel (IDI) mostram que a desaprovação pessoal dos israelenses ao primeiro-ministro oscila entre 57% e 60%. O Índice de Democracia de Israel aponta que apenas 26% dos cidadãos declaram que se sentem plenamente representados pelo atual sistema político, o número mais baixo registrado desde 2003. Apesar disso, segundo as pesquisas, o Likud, partido liderado por Netanyahu, ainda consegue obter cerca de 20 dos 120 mandatos do Knesset, o parlamento. O número é inferior ao conquistado nas duas eleições anteriores, em 2022 e 2021, quando o partido obteve, respectivamente, 32 e 30 assentos. No entanto, as sondagens também apontam que, mesmo com 20 assentos, a legenda liderada por Netanyahu deverá ser a segunda força no Knesset, atrás apenas do recém-criado Yashar, partido de centro-direita liderado pelo ex-general Gadi Eisenkot. “A votação não é sobre o dia 7 de Outubro, sobre a Reforma Judiciária, ou sobre o recrutamento dos Haredim (os judeus ultraortodoxos) para o exército; é sobre se o eleitor odeia mais a direita ou a esquerda. Árabes ou judeus. Netanyahu é muito hábil em transformar o medo em ódio”, diz Uriel Abulof, professor de Ciências Políticas na Universidade de Tel Aviv e na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Netanyahu muda de estratégia Se nas eleições anteriores a campanha de Netanyahu procurava demonstrar o seu acesso a líderes internacionais, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e até o presidente russo, Vladimir Putin, agora o foco é enviar uma mensagem clara aos eleitores.  No enorme cartaz exposto num edifício em Tel Aviv, uma montagem apresenta lado a lado o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem. A mensagem é simples e direta: “Eles querem que Netanyahu perca. Não os deixem vencer”. Neste momento, apesar de uma ligeira vantagem para o bloco da oposição a Netanyahu, nenhum dos lados consegue alcançar a maioria mínima de 61 dos 120 mandatos do parlamento para formar uma coalizão de governo.  O fiel da balança está com os partidos árabes que, juntos, deverão obter entre dez a 14 mandatos. Historicamente, estes partidos optam por não se unir a coalizões, mas, em 2021, o Ra’am, partido ligado ao movimento islâmico em Israel, optou por quebrar esta tradição e juntou-se ao então bloco de partidos da oposição, viabilizando um governo heterogêneo formado por partidos de esquerda, centro e direita. Uma das expectativas das próximas eleições é precisamente entender qual será a decisão destes partidos, que representam os cerca de 20% de árabes-israelenses. A dor dos que viveram o 7 de Outubro Longe do jogo político, Pérola Gaz procura reconstruir a sua vida. Desde 1993, ela vive no Kibutz Be’eri, uma das comunidades do sul de Israel atacadas pelo Hamas no dia 7 de Outubro. O Kibutz é uma comunidade coletiva baseada na agricultura e hoje também em indústrias tecnológicas e que tem como inspiração princípios socialistas de igualdade e propriedade. Nos ataques de 7 de Outubro, 10% dos residentes do Kibutz Be’eri foram mortos. Pérola permaneceu trancada num abrigo durante cerca de 20 horas ao lado das duas netas, então com seis e dez anos de idade. Em meados do próximo ano, após o processo de reconstrução do kibutz, o plano é que os moradores retornem.  “Eu sei que tenho de voltar a morar no lugar em que morava, o Kibutz Be’eri, eu sei que é a minha casa, mas é uma casa que não me traz segurança. A sensação é de que eles (os terroristas do Hamas) sempre voltarão e que pode acontecer outro evento como aquele. Sinto que não vou poder voltar a ser o que eu era”, diz. A RFI entrou em contato com o Kibutz Be’eri para buscar uma estimativa numérica sobre o retorno dos moradores. A direção do kibutz avalia que 90% dos que sobreviveram deverão regressar até o prazo máximo estipulado de julho de 2027. Os membros da comunidade têm até março do ano que vem para decidir.
‘Não existe cenário tranquilo para a democracia brasileira’, diz analista sobre disputa entre Flávio e Lula
2026/10/06
Às vésperas do segundo turno das eleições no Brasil, a direita afirma colher os resultados de anos de trabalho com jovens nas redes sociais, enquanto a esquerda é pressionada a ampliar espaço para novos representantes e a fazer o combate de ideias nas plataformas digitais. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer, terá muito poder para passar a "boiada" de projetos da direita, de meio ambiente a pauta de costumes, diante da força que o Partido Liberal e seus aliados mostraram na eleição, especialmente para o Legislativo, mas também nos governos estaduais. Se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sair vitorioso do pleito, terá muita dificuldade para tocar programas que dependam do Congresso, especialmente na indicação de autoridades que precisam do crivo do Senado. Ou seja, para observadores e analistas, qualquer projeção futura acerca do segundo turno traz incertezas e preocupações institucionais importantes. “É de se esperar que Lula se torne incapaz, se reeleito, de indicar ministros para o Supremo Tribunal Federal. E ainda mais claro, se Flávio Bolsonaro ganhar, a tentativa da extrema direita de caminhar para uma destruição do arcabouço democrático, das garantias constitucionais. Então, não existe, no horizonte próximo, um cenário tranquilo para a democracia brasileira”, avalia o cientista político Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília. Um dos desafios para a reeleição do petista, diz Miguel, é que o discurso em defesa de uma sociedade mais igualitária, justa e sustentável perdeu espaço para as conquistas individuais. Além disso, nem a praça pública nem o programa eleitoral são mais os locais de convencimento, mas sim templos religiosos e redes sociais, sendo que a esquerda não acompanhou tão bem esse movimento. “O governo Lula teve problemas, mas, ao mesmo tempo, avançou em medidas altamente populares, como o fim da escala 6x1, que daria a um contingente gigantesco de trabalhadores mais um dia de descanso semanal sem redução de salário. E também a proibição das apostas online, uma medida que era desejada por uma maioria expressiva da população. E, ainda assim, ele não foi capaz de transformar isso em votos”, disse o analista. Estratégias para atrair eleitores  A fala de dois jovens deputados de Minas Gerais, um colégio eleitoral crucial na eleição, ajuda a entender os desafios de Lula e o desempenho de Flávio no primeiro turno. Nikolas Ferreira (PL/MG) afirmou que houve um trabalho árduo nos últimos anos nas redes sociais, principalmente com os jovens, e a direita colhe agora os frutos: “Em 2021 eu perguntei para o Olavo (de Carvalho) o que precisávamos fazer. Ele disse ‘trabalho de base’. E eu cravei isso no meu coração. De lá para cá, trabalhamos jovens no país todo. O Partido Liberal terá a maior bancada no Senado e teremos votos, finalmente, para o impeachment do Alexandre Moraes.” A também mineira Ana Elisa, que aos 21 anos conseguiu se eleger deputada federal pelo (PT/MG), afirmou que a esquerda precisa abrir mais espaço para novos nomes, a fim de que a juventude se veja representada em seus candidatos, e fazer o combate nas redes sociais. “O que às vezes falta para a esquerda é ter tato com a realidade. Vai a um ponto de ônibus, às seis horas da tarde, e vê se tem alguém que não está com a mão no telefone. E eu não estou dizendo que fazer um comício na rua não é importante. Eu estou te falando que, se você não tiver presença nas redes sociais, o mundo pode estar ótimo, a economia pode estar ótima, o poder de compra pode estar ótimo. Mas, se tiver alguém aqui na rede social falando que o mundo está uma b..., as pessoas vão acreditar”, diz Ana Elisa.  Até aqui, nenhuma eleição presidencial no Brasil teve o resultado do primeiro turno revertido na segunda etapa. Por isso, apoiadores de Lula tentam manter a militância ativa enquanto a coordenação estuda mudanças na equipe responsável pela campanha. “Não é uma diferença irrisória, mas não é uma diferença muito grande. Ela é, em tese, reversível. O problema é que as armas que o governo tinha ele já apresentou no primeiro turno e elas tiveram um efeito muito pequeno. Ao mesmo tempo, os inúmeros escândalos que envolvem o candidato Flávio Bolsonaro já são conhecidos e é difícil imaginar que algo mais grave possa surgir que leve pessoas a desenvolver repulsa por ele”, disse o professor da UnB. “A esperança para a campanha do Lula é o grande contingente de quase 40 milhões de eleitores que não foram votar ou votaram em branco ou nulo”, conclui o cientista político Luis Felipe Miguel.
Flávio Bolsonaro e Lula disputarão segundo turno; desafio da esquerda é mobilizar abstencionistas
2026/10/05
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputarão o segundo turno das eleições presidenciais em 25 de outubro. Com 99,92% das urnas apuradas, Flávio somava 47,05% dos votos (56,1 milhões), enquanto Lula registrava 45,14% (53,8 milhões). A diferença apertada reforça a polarização que marca o cenário político brasileiro e evidencia o avanço institucional do PL, que conquistou as maiores bancadas no Senado e na Câmara dos Deputados, além de eleger cinco governadores já no primeiro turno. A abstenção recorde, de 33,4 milhões de eleitores, revela os limites da capacidade de mobilização dos dois campos e desponta como um dos fatores potencialmente decisivos para o resultado da disputa. Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Rio de Janeiro O primeiro turno das eleições gerais de 2026 parece ter produzido, num primeiro balanço, mais confirmações do que rupturas. A manutenção da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, a força do petismo no Nordeste, o avanço da direita nos governos estaduais e a definição da disputa presidencial em dois turnos já figuravam entre os cenários considerados plausíveis por pesquisas e analistas ao longo da campanha. Embora tenha trazido resultados relevantes em algumas disputas estaduais, o pleito não parece ter alterado substancialmente a geografia política do país, consolidada desde a década passada. Com 99,92% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro somava 47,05% dos votos (56,1 milhões), contra 45,14% (53,8 milhões) de Lula. A distância relativamente estreita entre os dois indica uma segunda etapa de alta competitividade, na qual cada ponto percentual tende a ganhar importância decisiva. PL se instala no Senado e vai dominar pautas estratégicas Mas, se a disputa presidencial terminou indefinida e empurrou o país para o segundo turno, a eleição para o Senado produziu um resultado muito mais claro. O grande vencedor político da noite foi o PL, partido de Flávio Bolsonaro, que ampliou sua força e passará a controlar a maior bancada da Casa, transformando o Senado em um dos principais centros de poder do próximo ciclo político. A eleição renovou dois terços do Senado e definiu quem terá influência sobre pautas estratégicas pelos próximos oito anos, incluindo indicações ao Supremo Tribunal Federal, sabatinas de ministros, autoridades do Banco Central, procuradores-gerais e pedidos de impeachment de integrantes de tribunais superiores. O partido elegeu 19 senadores e passará a ter 28 das 81 cadeiras da Casa, tornando-se, com ampla margem, a maior bancada do Senado. O resultado sugere que a direita não apenas manteve seus redutos eleitorais, mas aprofundou sua representação institucional em Brasília. Leia tambémDois Brasis distintos vão às ruas no último dia de campanha; pesquisas confirmam país fraturado Abstenção recorde A abstenção foi, sem sombra de dúvida, um dos pontos mais significativos. A eleição de 2026 registrou mais de 33 milhões de eleitores ausentes, cerca de 21% do eleitorado, o maior contingente absoluto de abstenções já observado em uma eleição presidencial brasileira. O comparecimento foi de 78,16% do eleitorado, o equivalente a 124 milhões de votantes. Esses 33 milhões de ausentes superam largamente a votação de qualquer candidatura fora dos dois polos dominantes da disputa, transformando a não participação em uma das principais forças silenciosas da eleição de 2026. O dado indica que a polarização entre Flávio Bolsonaro e Lula, embora mobilize amplas parcelas do eleitorado, não foi suficiente para reduzir significativamente o contingente de brasileiros que optaram por não comparecer às urnas. Brasil dividido O primeiro turno consolidou um mapa eleitoral dividido. Enquanto Flávio Bolsonaro dominou o Sul, os principais colégios do Sudeste e o Centro-Oeste, Lula voltou a registrar votações expressivas no Nordeste. O resultado reproduziu clivagens observadas nas eleições anteriores e revelou um país repartido entre áreas de forte influência conservadora e redutos historicamente ligados ao petismo. De um lado, Flávio Bolsonaro venceu com folga em Santa Catarina, onde obteve 66,66% dos votos válidos; no Paraná, 59,91%; no Rio Grande do Sul, 55,64%; em São Paulo, 51,93%; e no Rio de Janeiro, 53,02%. Do outro, Lula manteve ampla vantagem no Nordeste, vencendo com percentuais elevados na Bahia (65,80%), no Piauí (70,86%), em Pernambuco (63,31%), no Ceará (62,98%) e no Maranhão (63,78%).  A divisão de poder nos estados da federação O resultado para os governos estaduais sugere que a força eleitoral de Flávio Bolsonaro não ficou restrita à disputa presidencial. A direita ampliou presença territorial ao conquistar ou manter governos estaduais importantes, consolidando estruturas administrativas, orçamentárias e partidárias que permanecerão ativas até 2030 e a força da direita, nestas eleições, emergiu como um dos principais contrapontos ao desempenho nacional do campo lulista.  Dos 20 governos definidos já no primeiro turno, 10 ficaram com candidatos de direita ou centro-direita, incluindo vitórias em estados estratégicos como São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, Lula preservou seus principais bastiões no Nordeste, com as reeleições de Jerônimo Rodrigues (PT) na Bahia, Elmano de Freitas (PT) no Ceará e Rafael Fonteles (PT) no Piauí.  Por outro lado, o sucesso de candidatos de centro, PSD, MDB, União Brasil e outras forças regionais sugere que uma parcela relevante do eleitorado continuou separando a avaliação nacional da escolha local. Foi uma votação menos ideológica do que o debate das redes sociais costuma sugerir. As urnas revelaram em 2026 um país dividido, mas também surpreendentemente previsível em suas lealdades territoriais e políticas.  Segundo turno, a disputa final A largada para o segundo turno sugere uma disputa aberta, embora Flávio Bolsonaro entre na nova etapa com alguns trunfos políticos relevantes. O resultado fortalece o discurso de que a direita saiu das urnas com maior capilaridade territorial e legislativa, criando um ambiente politicamente favorável para a reta final da campanha.  Por outro lado, Lula preservou seu principal ativo eleitoral: a ampla vantagem no Nordeste. Estados como Bahia, Piauí, Pernambuco e Ceará mantiveram votações expressivas para o petista, garantindo uma base robusta de apoio para a segunda rodada da disputa. Além disso, a diferença entre os dois candidatos permaneceu relativamente estreita em estados decisivos, especialmente em Minas Gerais, indicando que há espaço para crescimento dos dois lados e reduzindo a possibilidade de qualquer favoritismo amplo neste momento. O próximo capítulo da disputa será escrito em 25 de outubro. Após um primeiro turno sem definição para o Palácio do Planalto e para o governo de alguns estados, os brasileiros voltarão às urnas para escolher quem comandará o país a partir de 2027.
Sem debate, mas com ataques, candidatos irão ao 1° turno após campanha dominada por Lula e Flávio Bolsonaro
2026/10/02
O cancelamento do debate na TV Globo com os presidenciáveis, na quinta-feira (1°) evidenciou uma campanha na qual a discussão dos programas e projetos ficou em segundo plano. Nas ruas, o eleitor de esquerda se mostra mais apreensivo às vésperas da votação. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Quem anda pelas ruas da capital federal não sente bem o clima da eleição. Diferentemente de quatro anos atrás, quando eleitores vestiam camisetas e exibiam a bandeira do Brasil e faixas em suas janelas, a eleição desta vez empolgou menos as ruas e se acirrou mesmo nas redes sociais e no poder Judiciário. Mas isso não significa que a rivalidade diminuiu. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) polarizaram a disputa mostrando que o Brasil continua dividido e que não houve nomes do meio capazes de impactar a disputa dos dois. O candidato do Missão, Renan Santos, surpreendeu angariando apoio de jovens, especialmente na internet, mas não deslanchou nas pesquisas. Já Augusto Cury, do Avante, chegou a atrair os holofotes atingindo 10% das intenções de voto, mas logo desidratou. Ao mesmo tempo, nomes conhecidos da política como Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo, não avançaram. Debate cancelado O sonho desses coadjuvantes de ocupar um espaço ao vivo na reta final da campanha em um canal aberto de televisão acabou caindo por terra. A desistência em cima da hora de Flávio Bolsonaro e um "vai e vem" de decisões judiciais acerca das regras e dos participantes levaram a TV Globo a cancelar o debate com os presidenciáveis que movimentaria a noite desta quinta-feira. Lula já havia comunicado dias antes que não estaria presente. Os memes nas redes sociais sobraram para Flávio, que havia confirmado, mas cancelou sua participação assim que a presença de Renan Santos, um ávido crítico dos dois principais candidatos, foi assegurada por decisão de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. “O medo que Flávio Bolsonaro tem de mim o levou a cancelar a participação no debate apenas três minutos depois que minha presença foi confirmada”, falou em vídeo o candidato do Missão. O PL organizou uma transmissão pela internet com presença de vários aliados políticos onde a tônica foram os ataques ao adversário do PT. “O povo nordestino e o povo brasileiro abriu o olho e não acredita mais nas suas promessas. Você já deu. O povo está cansado de você. Vai para casa descansar, Lula. Deixa o Brasil em paz”, declarou Flávio Bolsonaro. Já Lula participou de uma entrevista ao vivo no podcast Flow no mesmo horário do debate da TV, onde focou em programas desenvolvidos por sua gestão. Também se defendeu de acusações do passado. “Os meus princípios continuam os mesmos. Eu sei de onde eu vim, sei para onde vou. Quando eu estava sendo acusado na Lava Jato, eu cansei de desafiar empresário, banqueiro, meus inimigos. Mostre um telefonema meu. Mostre um centavo depositado na minha conta. E nunca teve”, ressaltou Lula.                                                                          A voz do eleitor A dois dias da eleição, o clima é de uma esquerda um tanto apreensiva e de uma direita um pouco mais confiante. A RFI conversou com eleitores nas ruas de Brasília. “Só de pensar que a família Bolsonaro pode voltar ao poder, dá um certo medo. A gente viu o que aconteceu com quatro anos de Bolsonaro. E o Flávio todo submisso ao governo dos Estados Unidos, dá uma apreensão”, disse o estudante de arquitetura João Martins, que vai votar eleitor em Lula. “Eu estou muito esperançoso, gostando bastante do atual cenário. Eu vou votar no Flávio Bolsonaro e a gente espera mudar o Brasil daqui pra frente. Acho que ele tem muita chance de vencer, muita mesmo. Acho que agora vai”, declarou o analista de sistema Bruno Luís. Mas tem eleitor com menos convicção. É o caso da diarista Terezinha Moreira, que afirma não ter candidato. “Não sei, acho que porque não confio mais em ninguém. Acho que vou votar tudo nulo”. Mesmo tom do eleitor Alef de Oliveira, proprietário de um lava jato em Brasília. “Eu estou um pouco indeciso ainda, estudando mais sobre os candidatos, mas já vi muita coisa que de Flávio e Lula que me desanimou. E até o momento meu candidato é o Caiado. Num segundo turno tendo a ficar com Lula. Ainda preciso escolher deputado e senador, ainda não decidi.”
Na Alemanha, passeata e fiscalização eleitoral mobilizam apoiadores de Lula e Flávio
2026/10/01
Eleitores brasileiros na Alemanha se preparam para votar neste domingo (4) organizando passeatas e fiscalização das seções no dia da eleição. O país é o segundo maior colégio eleitoral na Europa e aumentou em quase cinco vezes o número de eleitores desde 2010, mas costuma enfrentar uma grande taxa de abstenção. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha São mais de 41 mil brasileiros aptos a votar, um aumento de 15% em relação a 2022 e quase 400% em relação à 2010. A Alemanha fica atrás apenas de Estados Unidos, Portugal, Japão e Canadá como maior colégio eleitoral brasieiro no exterior. Esses 41 mil eleitores ainda são um número relativamente baixo se comparado à estimativa de brasileiros vivendo na Alemanha, que é de cerca de 170 mil pessoas. E o número total de eleitores brasileiros no exterior este ano está quase chegando a 1 milhão: são 918 mil, pouco mais de meio por cento do eleitorado total. A maior mobilização de grupos políticos é, claro, dos dois que lideram as pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio Bolsonaro. Um grupo chamado Liga Conservadora Brasil-Alemanha, que conta com mais de 100 mil seguidores nas redes sociais, está convocando militantes para serem fiscais de eleição deste ano. A líder do grupo, a empresária Samia Sittel-Faraj, fez uma campanha de mobilização de militantes do PL na Alemanha para se inscreverem como fiscais, que são voluntários que acompanham a votação, desde a abertura das urnas até a emissão do Boletim de Urna. A Liga Conservadora Brasil-Alemanha organiza eventos regulares e, no dia 7 de setembro, levou algumas dezenas de pessoas às ruas de Munique para uma celebração da Independência. Polarização menor fora do país Pelo outro lado, um grupo chamado Comitê Popular de Luta de Frankfurt e o núcleo do PT na Alemanha estão planejando uma passeata na véspera da eleição, no sábado (3), em Frankfurt, em apoio ao presidente Lula. “O brasileiro que vive aqui acaba vendo o Brasil a partir de outros olhares, de pessoa que não está mais vivendo no país, e acaba tendo outros tipos de informações e conversando com pessoas que tem outro ponto de vista”, afirma o cientista político Edmar Leão, que integra o Comitê Popular de Luta de Frankfurt. “Eu tenho muitos amigos aqui que não votam no Lula, mas a gente conversa de uma forma super tranquila, até porque, dentro da comunidade brasileira, tem também essa questão da fraternidade”. O recente estremecimento das relações entre o Brasil e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está despertando o interesse dos alemães na eleição brasileira, de acordo com Leão: “Vem sendo reportado aqui nos meios de comunicação da Alemanha essa possível interferência de Trump na eleição no Brasil, colocando em dúvida a credibilidade das urnas, indicando um candidato favorito e colocando taxas nas exportações brasileiras nos Estados Unidos.” A RFI Brasil também tentou contato com a Liga Conservadora Brasil-Alemanha, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria. Perfil do eleitor O eleitor brasileiro por aqui é principalmente feminino, escolarizado e tem votado na esquerda. As mulheres são 65% dos eleitores brasileiros na Alemanha. Por aqui o eleitorado brasileiro também é mais escolarizado do que a média: 51% têm curso superior, contra apenas 38% da média dos eleitores brasileiros em outros países. Depois de 2014, quando Aécio Neves venceu, a vitória foi sempre do PT. Em 2022, a vitória petista foi esmagadora, com 76% dos votos indo para Lula. Os locais de votação são as cidades de Berlim, Munique, Frankfurt, Colônia e Hamburgo, uma variedade grande se comparada a outros países na Europa. Munique costuma ser o maior colégio eleitoral, ficando à frente da capital, e Hamburgo é o menor - para 2026 o TSE ainda não divulgou essa distribuição por cidade. Mesmo com estas cinco opções de locais de votação, a taxa de abstenção costuma ser bastante alta, e possivelmente devido às distâncias, que na Alemanha também são grandes para os padrões europeus. Muita gente do interior acaba não se deslocando no dia da votação para uma dessas cinco cidades. A abstenção no segundo turno das eleições anteriores sempre superava os 60%. Em 2022 ela caiu para pouco mais de 50%, mesmo assim sendo mais que o dobro da abstenção que se verifica no Brasil. Para este ano, as três representações diplomáticas brasileiras no país prometem uma estrutura robusta para evitar filas. Em Munique, o consulado alerta os eleitores a se deslocarem com antecedência, já que domingo também será o último dia da Oktoberfest, o que aumenta o movimento e o tráfego nas ruas.
Argentina: radiografia do país com mais votos brasileiros na América Latina
2026/09/30
Buenos Aires é a cidade latino-americana com mais eleitores brasileiros. O perfil majoritário do voto brasileiro na Argentina é jovem, feminino e de alta escolaridade. Uma consultoria local divulgou uma pesquisa sobre o eleitorado brasileiro e aponta a tendência de votos.  Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires A maior quantidade de brasileiros na América Latina fica no Paraguai (270 mil), deixando a Argentina (70 mil) em segundo lugar. Mas no que se refere a eleitores, as posições se invertem: Buenos Aires é a cidade latino-americana com mais brasileiros votantes (11.873 eleitores), enquanto, em segundo lugar, com menos da metade, vem a paraguaia Cidade do Leste (5.102), na fronteira com o Brasil. México (3.975), Bolívia (3.627), Chile (3.569) e Uruguai (3175) completam a lista dos países, mas bem longe do Paraguai (9.225) e da Argentina (13.138), segundo o TSE. Buenos Aires concentra 90,4% desses votos, mas também representa 12 províncias que vão desde a fronteira com o Brasil até a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente. As mulheres representam dois de cada três eleitores na Argentina (66%). Os jovens, de 25 a 29 anos de idade, são os mais numerosos, contabilizando 22,5% do total. Somadas faixas etárias até 39 anos, eles atingem 60% do eleitorado na Argentina. Esse perfil é mais jovem do que o voto brasileiro no exterior em geral e está associado à grande quantidade de universitários e a profissionais no âmbito do Mercosul. Essa juventude explica que 75,6% seja solteiro. Entre universitários e formados, há 56,7% dos eleitores. Somados aos que tem o ensino médio completo, são quase 90%, uma proporção de escolaridade superior à média do voto brasileiro no exterior. Além de Buenos Aires, haverá zonas eleitorais em outras quatro cidades: Córdoba, Mendoza, Paso de los Libres e Puerto Iguazú, essas duas últimas na fronteira com o Brasil. A sede da votação em Buenos Aires abrange doze províncias, enquanto a de Mendoza, três; a de Puerto Iguazú, duas e a de Córdoba, sete. Em Buenos Aires, são 15 seções, com 30 urnas. Nas demais cidades, apenas uma urna. Queda de eleitores Entre 2018 e 2022, o número de eleitores aumentou em 78%, graças à uma campanha do Núcleo do PT na Argentina para transferência do título de eleitor. Nenhum outro partido tem representação no país. Em 2018, Jair Bolsonaro ganhou as eleições no primeiro turno com os votos dos universitários, mas, no segundo turno, perdeu para Fernando Haddad, quem obteve 53,4% dos votos válidos. A chegada de Bolsonaro ao poder levou os militantes do PT na Argentina a se dedicarem a reverter aquela derrota, mapeando a comunidade brasileira e fazendo uma campanha de conscientização sobre a importância da participação popular. “Essas contribuições fortalecem o trabalho da Secretaria de Relações Internacionais e ampliam a capacidade do partido de formular estratégias de integração e participação que correspondam às necessidades reais de brasileiras e brasileiros no exterior”, explica um relatório produzido pelas coordenadoras do Núcleo Danielle Santana e Renata Codas. “O princípio orientador permanece claro: migrar não significa abrir mão de direitos”, aponta o trabalho intitulado “Características Demográficas da População Brasileira Residente na Argentina”, de agosto de 2025. Entre 2022 e agora, o número de eleitores inscritos na Argentina aumentou em apenas 392 pessoas, embora a campanha tenha continuado até o prazo de 6 de maio para a transferência do título. “Em 2026, temos 5,28% eleitores a menos em Buenos Aires do que em 2022”, observa o cônsul-geral do Brasil em Buenos Aires, Raymundo Magno. A população brasileira tem se reduzido devido ao aumento do custo de vida na Argentina, identificam tanto no Consulado do Brasil em Buenos Aires quanto no Núcleo do PT. Números do Registro Nacional das Pessoas (RENAPER) da Argentina mostram que, se em 2022, 12.255 brasileiros deram entrada no documento argentino, em 2024, esse número tinha caído a 6.644 e, no ano passado, ficou abaixo de dois mil (os dados mais recentes disponíveis são até julho de 2025). É uma desaceleração inédita, só comparável ao período de pandemia, quando a Argentina teve a quarentena mais prolongada e estrita do mundo, fazendo com que muitos brasileiros fossem embora e ninguém pudesse entrar. Em 2020, foram apenas 3.173 pedidos de documento e, em 2021, 2.736 registros. Com isso, se em 2022 havia cerca de 89.020 brasileiros, esse número em julho de 2025 era de 69.538 brasileiros, uma queda de quase 20 mil em três anos. Em 2024, o TSE registrava 14.590 eleitores brasileiros na Argentina; agora, 13.138. A queda sugere que, pelo menos, 1.452 eleitores chegaram a transferir o título para a Argentina, mas foram embora antes das eleições dois anos depois. Na cidade de Buenos Aires, moram 24.701, equivalentes a 35,5% do total, bem acima de Rosario, em segundo lugar, com 5.969 brasileiros (8,6%) ou de La Plata, em terceiro, com 3.195 (4,6%). Rosario e La Plata atraem muitos estudantes brasileiros, sobretudo de Medicina. O voto de 2022 e os desafios de 2026 Em 2022, Lula ganhou com 63,5% dos votos. A abstenção de 43% na Argentina, mais do que duplica a média do Brasil. E esse é um grande desafio que requer informação, mobilização e presença territorial, segundo o relatório “Brasileiros no exterior: dados para compreender o eleitorado de 2026”, publicado pelo Núcleo do PT na Argentina. A importância da participação popular é justamente o fortalecimento de direitos e de vínculos com a Democracia. As razões para uma abstenção tão alta são a falta de informação para a transferência do título de eleitor e a distância dos locais de votação. As distâncias entre as províncias e a Embaixada do Brasil em Buenos Aires são significativas. Podem ser 400 Km, 1.700 Km e até 2.500 Km. Se pegarmos apenas as cidades onde há forte presença de estudantes brasileiros, Mar del Plata e Rosario, por exemplo, ficam a 400 quilômetros de Buenos Aires. “A distância até a sede de votação não se mede apenas em quilômetros: envolve tempo, custos e ajustes de rotina. Aos domingos, a redução da oferta de transporte amplia esperas e exige combinações de trajetos, o que pode impedir a realização de ida e volta no mesmo dia e elevar os gastos. Condições climáticas e horas de luz também influenciam o planejamento, reforçando a ideia de que a localização das sedes eleitorais, somada à ausência de alternativas próximas, funciona como desestímulo à transferência de título e como barreira prática ao exercício do voto”, observa o estudo. Segundo o cônsul-geral do Brasil em Buenos Aires, Raymundo Magno, o grande desafio de 2026 é a organização para evitar as cenas de 2022, quando uma fila serpenteante de eleitores dava voltas nos quarteirões e demorava mais de quatro horas até as urnas. Desta vez, serão cinco filas, 60 mesários e um total de 100 pessoas na organização apenas no Centro Cultural do Palácio Pereda, residência do Embaixador, onde será a votação em Buenos Aires. Sondagem Argentina A Argentina vive o pleito brasileiro com muita atenção e expectativa. O resultado terá impacto direto na relação de Buenos Aires com o seu principal sócio estratégico e efeitos políticos, domésticos e internacionais. A consultora argentina CB fez uma sondagem sobre as eleições, entrevistando de forma online 4.275 brasileiros de todo o Brasil. A pesquisa, realizada entre os dias 7 e 11 de setembro, não alcançou os anúncios do presidente Lula sobre aumento do Bolsa Família, implementação das canetas emagrecedoras no SUS e proibição das BETS. A pesquisa foi difundida na segunda-feira (28), de forma restrita a um limitado grupo de jornalistas, entre os quais a RFI. Lula ganharia no primeiro turno com 43,5%, enquanto Flávio Bolsonaro ficaria com 36,1%. Os que dizem que nunca votariam em Lula somam 50,4%, mas os que nunca votariam em Flávio Bolsonaro chegam a 52,9%. A margem de erro é de 1,5% e o nível de confiança, de 95%. “Na contramão do que dizem todos, acredito que, se Lula ganhar o primeiro turno com uma diferença ampla de oito pontos, isso possa provocar um acomodamento da militância do PT e uma reação dos eleitores opositores que projete Bolsonaro à vitória. Vimos isso em recentes eleições na região. Se, no entanto, Lula ganhar com uma diferença de cinco pontos no primeiro turno, então a tendência é que ganhe também no segundo turno”, aponta para a RFI o diretor da CB, Cristian Buttié, autor da pesquisa. Segundo o consultor argentino, se fosse hoje, a projeção indica que Lula ganharia no segundo turno com 52%, enquanto Bolsonaro ficaria com 48%. “Devido à rejeição a Bolsonaro, maior do que a de Lula, vejo mais possibilidades para Lula. Uma eleição disputadíssima, mas com mais possibilidades para Lula”, aposta Buttié.

Podcast reviews

Read Linha Direta podcast reviews


4 out of 5
1 reviews

Podcast sponsorship advertising

Start advertising on Linha Direta relevant audience podcasts


What do you want to promote?