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28 episodes
Language
Portuguese (Brazil)Publisher
RFI PortuguêsExplicit
No
Date created
2021/08/20
Latest episode
2026/10/16
Average duration
12 min.
Release period
2 days
Description
De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.
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Os Continuadores da Revolução, filme sobre Moçambique, tem estreia mundial no DocLisboa
2026/10/16
Os Continuadores da Revolução é o documentário sobre Moçambique onde o realizador Pedro Neves funde imagens de arquivo, do período da presidência de Samora Machel, com imagens do presente para nos oferecer um olhar sobre o pais.
Com estreia mundial no festival de cinema DocLisboa, Os Continuadores da Revolução surge a partir da observação que o realizador Pedro Neves fez do trabalho que o fotógrafo Manuel Roberto desenvolveu em Moçambique.
O filme Os Continuadores da Revolução incide, pois, no período do governo de Samora Machel, o primeiro Presidente pós-independência.
Em Os Continuadores da Revolução, a ideia do que poderia ser a melhor República Popular do mundo ou a ideia do continuar, ou terminar, uma revolução são elementos de um trabalho sobre a memória, os fantasmas e a distorção.
A RFI falou com Pedro Neves antes da estreia mundial do filme na capital portuguesa. O realizador começa por revelar como surgiu a ideia de fazer a longa-metragem Os Continuadores da Revolução.
Pedro Neves, realizador :
Surge a partir de uma série de fotografias de um amigo meu, que se chama Manuel Roberto, que é fotógrafo no Público, feitas na altura do período de pós-independência moçambicano, mais ou menos naquela altura do período revolucionário moçambicano, às quais ele chamava os Continuadores da Revolução. Aquilo, primeiro, foi um nome que me soou sempre muito bem, porque me deixava muito a pensar, como é que se continua uma revolução e quem são os Continuadores da Revolução?
Mas, de facto, os Continuadores da Revolução existiam, ainda existem os Continuadores, que é um grupo formado pela primeira mulher do Samora Machel, antes da Graça Machel, que são uma espécie de pioneiros. Digo pioneiros para se ter uma comparação com os pioneiros da União Soviética, não é?
Mas a ideia eram as crianças, que eram as flores que nunca murcham, era a juventude que era a seiva da nação, e eram as crianças que iam construir a melhor República Popular do mundo.
E ele era um deles, porque naquela altura eles eram praticamente todos os Continuadores da Revolução. Curiosamente, ainda existem em Moçambique os Continuadores, mas já caiu a Revolução da frase, ficaram só Continuadores.
Quem for ver este filme, o que é que pode encontrar, o que é que o Pedro, enquanto realizador, procurou trazer para este filme?
Procurei, primeiro, entender não só essa ideia do que eram os Continuadores da Revolução, mas talvez não de uma maneira tão concreta, porque isso era fácil de perceber, os tais miúdos que tinham por missão construir a melhor República Popular do mundo, mas interessava-me talvez mais a ideia de abstracção e de perceber o que é isso, como é que afinal se continua uma revolução, quando é que ela acaba, quando é que ela termina, se é que alguma vez ela pode terminar, qualquer tipo de revolução.
E, obviamente, aplicava um bocado essa ideia também à nossa. Das revoluções em geral, o que é isto das revoluções e como é que elas acabam, como é que elas continuam. E foi tentar pegar nos negativos dele, digitalizar grande parte daquelas imagens, eu acho que digitalizei mil oitocentas e tal fotografias, negativos, com as próprias perfurações da imagem e transportar ao mesmo tempo também aquilo para este presente.
Foram muitas idas a Moçambique. Eu acho que ao todo foram mais ou menos seis meses de rodagem lá, divididos por alguns anos, à procura desses espaços e dessas conversas. Havia muitas coisas que eu lhe perguntava no início, como é que é isto? Como é que é aquilo?
Ele estava-me sempre a dizer, tu tens que ir para entender. E, de facto, eu tinha que ir para entender e tinha que viajar muito por ali, tinha que ir a muitos sítios, tinha que perceber uma série de histórias e de vivências e de sentir o calor e de sentir a ideia ou essa coisa mais etérea daquilo que ainda anda no ar, do que é que já se desvaneceu e do que é que ainda existe e de conhecer, na verdade, os fantasmas que também habitam este filme, que anda à volta não só dessas imagens dele, como também de algumas imagens do próprio Arquivo Cinematográfico Moçambicano, mas com alguma contemporaneidade no modo.
Não é só no modo de abordagem, é no modo como as conversas iam surgindo ao longo do caminho com uma série de protagonistas que me iam fazendo criar uma série de textos e de ideias que também fui maturando ao longo destes quase nove anos e que fui desenvolvendo ao longo destes anos todos e mudando muitas vezes de caminho e falando uma vez mais com muitos fantasmas também que por ali andavam, para tentar perceber qual era este caminho, se calhar para onde é que todos nós caminhamos, para além dos próprios moçambicanos.
Para concluir o filme houve nove anos de idas e vindas de Moçambique. Como é que o Pedro Neves, enquanto realizador, sentiu evoluir, quer as pessoas com quem falava, quer o discurso, quer a percepção daquilo que é uma revolução?
Para além da revolução era o próprio pulsar das coisas. No cinema documental o que mais me interessa eu acho que é mesmo o trabalho sobre a memória. E sobre a memória interessa-me aquilo que ela distorce, porque, na verdade, a memória toda é uma distorção, é uma coisa que é tudo menos um teorema matemático. Aquilo que nós achamos hoje não achamos amanhã ou muito mais.
Amanhã, nós, ainda conseguimos ir lá, mas daqui a trinta anos se calhar já distorcemos isto ainda mais. E isto é muito humano. Ao mesmo tempo, não tem que ser uma distorção deliberada, propagandista ou com alguma má intenção, faz um bocado parte da vida.
Faz-me lembrar muitas vezes, isso é uma coisa muito portuguesa, daquele “dantes é que era bom”. Depois uma pessoa pergunta: "Dantes, mas era bom o quê? Quando iam ao hospital, como é que era? Mas que hospital? Ah, mas não havia. E quando se calçavam? Mas calçávamos o quê se não havia sapatos?"
Mas há uma efabulação da memória que diz que “dantes é que era bom”. O que se entende, porque dantes não havia dores de costas, dantes os pais eram vivos, os primos eram vivos, o contexto familiar, apesar de tudo, estavam todos vivos mesmo que miseráveis.
E de repente cria-se uma ideia de uma memória que corresponde a uma expectativa de memória e de realidade que nem sempre é correspondida com a realidade e com a verdade. Interessa-me esse trabalho da memória, esse trabalho de percebermos o tempo passado para podermos chegar ao presente e inclusivamente até pensarmos no futuro.
E Moçambique, para além de muitas particularidades, teve os tempos da guerra. Uma guerra muito violenta, 16 anos, com mais de um milhão de mortos, portanto esta guerra civil. Fora a guerra de libertação nacional contra os portugueses, que foram mais uma carrada de anos com mais não sei quantos milhares de mortos e massacres e desaparecidos, etc.
Mas fizeram com que houvesse um país a pensar muito pouco no futuro e a pensar muito só no presente, o presente agora, não é o presente amanhã. Há uma coisa muito comum, que é perguntar-se às pessoas como é que elas estão, e é o hoje estou bem.
Hoje é o hoje, não é, porque há ali uma ideia muito de o amanhã não se sabe, o amanhã é uma incógnita. Agora, enquanto realizador, enquanto alguém que trabalha no cinema documental, porque é isso que eu faço, a permanência ajuda-nos depois a ir entendendo cada vez melhor os espaços. O entender, às vezes, é nós depararmos e refutarmos inclusivamente muito daquilo que pensamos, porque a realidade vai mudando também.
É um pouco esta ideia de quando chegamos ou falamos com alguém, aquilo que nos dizem muitas vezes é aquilo que acham que nós queremos ouvir, ou há uma determinada desconfiança porque não há conhecimento.
Depois com a permanência as conversas abrem-se e aparece uma parte muito mais sincera, mais honesta e, essencialmente, uma parte em que, de repente, nós estamos todos a pensar em conjunto e estamos todos a refletir em conjunto.
Isso acontece muitíssimas vezes durante as próprias viagens, durante as viagens de carro, durante o jantar, muito daquilo que acontece numa viagem destas ou numa permanência destas acontece quando as câmaras não estão ligadas e isso era uma coisa que eu ia percebendo sem saber exactamente como é que ia resolver esse problema, porque ninguém filma 24 horas por dia.
Era pegar nessas frases, nesse conhecimento, nessas reflexões, pegar também nos livros todos que fui lendo, foram dezenas de livros, nomeadamente romances, porque me interessam. Claro que me interessa a parte histórica e de contexto histórico, mas depois também me interessa muito esta ideia da ficção sobre a própria realidade moçambicana escrita por moçambicanos.
Eu li muitos dos poetas da mata, da guerrilha, a Paulina Chiziane, o Mia Couto, o João Paulo Borges Coelho, que, inclusivamente, me ajudaram muito a pensar nestas coisas. Era esta ideia de frases e contextos e textos, pegar neles e quase transformá-los nesta ideia destas fantasmagorias que, na realidade, não são muito mais do que evocações de memória, do modo como nós podemos caminhar com visões distintas. É aquela ideia de tu vês um campo verdejante e eu vejo um campo minado. Isso é uma coisa que me ficou sempre muito na cabeça porque isso aconteceu-me lá, uma vez, com o Manuel Roberto, eu estava de facto a ver um campo verdejante e ele estava a ver um sítio que tinha sido povoado de minas.
O que encontro depois, mais tarde, num livro do João Paulo Borges Coelho, exactamente com esta frase, que é uma coisa que acaba por estar no filme. Isto, para mim, são os tais fantasmas, é o modo como duas pessoas conseguem ver exatamente a mesma coisa de uma maneira tão diferente e tão distinta e como conseguem senti-la de uma maneira distinta.
Quando falo um bocado nesta ideia da abstracção e da subjectividade tem m
Conselho Europeu: "Alargamento da União Europeia à Ucrânia é crucial"
2026/10/15
Os chefes de Estado e de Governo dos 27 países da União Europeia reúnem-se hoje e amanhã, 15 e 16 de Outubro, em Bruxelas, para mais um Conselho Europeu. Em cima da mesa estão grandes dossiês geopolíticos, como a Ucrânia, o Médio Oriente, a imigração e a concorrência com a China. A reunião será também muito centrada na economia, nomeadamente no orçamento europeu para os próximos anos. Carlos Gaspar, investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais, reconhece que é prioritário que a União Europeia acelere a integração da Ucrânia no bloco europeu e alerta para as divisões entre alguns países, nomeadamente quanto ao impacto das regras climáticas nas políticas de reindustrialização do Velho Continente.
Os líderes europeus reúnem-se em Bruxelas para debater novas medidas para conter o preço da energia. No entanto, há divergências entre os Estados-Membros sobre o papel das regras climáticas e do mercado europeu do carbono. Os países serão capazes de ultrapassar essas divisões?
Há uma divisão entre aqueles que continuam a entender que as regras tradicionais da política ambiental e a tentativa de responder às alterações climáticas devem ser prioritárias e aqueles que defendem uma posição cada vez mais forte, quer na Alemanha, quer em França. Estes últimos entendem que existe um excesso de zelo nas medidas destinadas a tentar reduzir os efeitos das alterações climáticas, medidas que consideram prejudiciais para as políticas de reindustrialização, essenciais para recuperar a competitividade internacional da economia europeia.
A subida dos preços do gás e dos combustíveis está a pressionar os governos, as famílias e as empresas…
Exactamente. Não apenas as empresas, mas também uma parte importante das famílias e da população. Tudo indica que o aumento dos preços da energia se vai prolongar durante algum tempo. Restaurar a estabilidade nos mercados energéticos só será possível quando se conseguirem recuperar essas reservas energéticas. Esse processo vai demorar alguns meses, independentemente da situação da guerra no Golfo.
A União Europeia quer responder ao aumento das importações chinesas para proteger a indústria europeia. No entanto, não quer fechar a porta ao diálogo com Pequim. Até onde está a Europa disposta a ir nesta negociação, sem colocar também em risco a indústria europeia?
A União Europeia e a China estão à beira de uma guerra comercial. Aliás, julgo que, nos últimos meses, as relações entre a China e a União Europeia se alteraram. Passou a haver uma consciência política clara, entre as elites alemãs, de que não se trata apenas de limitar e condicionar as exportações chinesas para a União Europeia e de controlar o défice colossal, que continua a crescer sem cessar há mais de 30 anos e que atingiu recentemente os mil milhões de euros por dia.
A questão mais importante é reconhecer que existe, por parte da República Popular da China, uma estratégia de desindustrialização da Alemanha e da União Europeia, com consequências não apenas económicas e sociais, mas também políticas.
Há uma viragem na política alemã, que se aproximou da posição francesa. Essa aproximação está na origem de um memorando assinado pelo Presidente francês e pelo chanceler alemão, que será certamente discutido neste Conselho Europeu. O objectivo é dotar a União Europeia de instrumentos que lhe permitam responder rapidamente à penetração chinesa, à concorrência desleal e à pressão coerciva da China, que está a ameaçar sectores avançados da economia.
O orçamento europeu para o período de 2028 a 2034, o quadro financeiro plurianual, será igualmente discutido. Está em causa um valor de 1,62 mil milhões de euros. Mais uma vez, existem divergências entre os Estados-Membros quanto ao montante que devem pagar, à distribuição das verbas e aos sectores que devem ser prioritários, nomeadamente a agricultura, a investigação, a defesa, a transição energética e a competitividade. Na sua opinião, os países vão chegar a uma solução?
Não há condições para uma decisão neste Conselho Europeu e, eventualmente, também não haverá condições para isso no Conselho Europeu de Dezembro. As divisões são muito profundas.
É possível que o impasse se prolongue até às eleições presidenciais francesas, por razões que, aliás, ontem se tornaram óbvias com as tomadas de posição da candidata do Rassemblement National ,durante a sua conferência de imprensa em Bruxelas. [Marine Le Pen disse que se ganhar a eleição presidencial a França vai deixar de financiar a Ucrânia].
Isso complica ainda mais a situação neste momento, assim como a posição dos Estados-Membros ditos frugais, que trava a possibilidade de uma decisão. O impasse poderá, por isso, prolongar-se durante os próximos meses.
Os líderes europeus vão abordar o apoio financeiro e militar à Ucrânia, numa altura em que se intensificam os bombardeamentos russos contra as infra-estruturas energéticas ucranianas e tendo também em conta o recente acordo entre os Estados Unidos e Moscovo. Que compromissos de apoio poderão ser assumidos para os próximos meses?
É indispensável que haja uma resposta à viragem dos Estados Unidos. Essa resposta deve traduzir-se não apenas no reforço do apoio financeiro da União Europeia à Ucrânia, mas também no reforço do apoio militar da Alemanha, da França e da Grã-Bretanha.
É necessário disponibilizar à Ucrânia novas capacidades militares que lhe permitam atingir alvos industriais, designadamente no sector da defesa, incluindo instalações de produção de mísseis e drones russos. Essas capacidades existem na Alemanha, em França e na Grã-Bretanha.
A Ucrânia precisa de mísseis europeus de alcance intermédio para compensar a pressão dos Estados Unidos e, sobretudo, o aumento exponencial dos bombardeamentos russos, que se tornaram mais mortíferos desde que surgiram novos condicionamentos na partilha de informações entre a Starlink, a empresa norte-americana, e o Ministério da Defesa ucraniano.
Os líderes europeus terão uma discussão estratégica sobre a gestão das fronteiras externas, a aplicação das regras europeias de asilo e a resposta a eventuais situações de crise. Espera-se um reforço do controlo das fronteiras externas?
Essa é a expectativa. O programa de expansão da Frontex está em cima da mesa há já algum tempo. É possível que a crise em Ceuta seja um sinal suficientemente forte para justificar o aumento do número de guardas da força europeia responsável pela protecção das fronteiras externas.Há a expectativa de que possa haver alguma decisão nesta matéria.
A agenda inclui também a situação no Médio Oriente, a liberdade de navegação e a segurança marítima, com impacto nas cadeias de abastecimento e no sector energético. O que poderão os líderes europeus decidir relativamente à situação no Médio Oriente e ao impacto que esta crise está a ter nos países europeus?
A União Europeia tem ao seu dispor a possibilidade de mobilizar uma missão militar no Mar Vermelho, onde, no passado, teve uma intervenção importante contra a ameaça dos Houthis, em Bab el-Mandeb. Neste momento, essa intervenção poderá voltar a ser necessária.
Não têm surgido informações na imprensa internacional e europeia sobre esta matéria, mas as capacidades estão disponíveis. Além disso, a França parece estar disponível para apoiar a Arábia Saudita, que se revelou vulnerável aos últimos ataques com mísseis dos Hutis. Paris está disposta a apoiar Riade com meios antiaéreos para a defesa de instalações críticas.
Tudo isto representa passos importantes para que a União Europeia e as potências europeias façam a sua parte na defesa da liberdade de navegação e do direito internacional na passagem pelos estreitos de Bab el-Mandeb e de Ormuz.
O alargamento da União Europeia e as reformas necessárias para integrar novos membros, nomeadamente Montenegro e a Ucrânia, também estarão em discussão. Que anúncios se podem esperar relativamente a esta questão?
É uma questão que está na primeira linha da agenda do Conselho Europeu. O alargamento à Ucrânia é crucial, tanto mais quanto a pressão russa e o afastamento dos Estados Unidos se tornam evidentes. É necessário haver flexibilidade para garantir uma aceleração da integração da Ucrânia na União Europeia. Trata-se de uma prioridade absoluta da política europeia, a par do reforço das capacidades convencionais de defesa da própria Ucrânia.
“Humanismo Radical” de Amílcar Cabral homenageado em exposição em Paris
2026/10/13
A MansA (Maison des Mondes Africains), em Paris, acolhe, de 16 de Outubro a 13 de Dezembro, a exposição “Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical”, na qual nove artistas contemporâneos dialogam com o pensamento de uma das mais importantes personalidades africanas do século XX. A mostra ilustra a influência, também nas artes, de “um homem africano que pensou o mundo, interveio nele e cujas acções e ideias ainda interessam muita gente 50 anos depois da sua morte”, resume a historiadora Ângela Benoliel Coutinho, uma das comissárias da exposição.
A partir desta sexta-feira, 16 de Outubro, até 13 de Dezembro, a MansA (Maison des Mondes Africains), em Paris, acolhe a exposição “Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical” que coloca em diálogo o pensamento crítico de uma das figuras mais importantes da luta anticolonial e do pensamento humanista, pan-africanista e revolucionário do século XX com a criação artística contemporânea.
A exposição é comissariada pela curadora Armelle Dakouo e pela historiadora Ângela Benoliel Coutinho, com quem conversámos e que começou por nos contar que a ideia surgiu há alguns anos num desafio que lançou à curadora angolana Paula Nascimento.
“Tratava-se de pensar uma exposição dedicada a Amílcar Cabral. Eu achei que seria interessante tentar conjugar ou tentar iniciar um diálogo mais directo, mais intenso, entre o que se faz na academia relativamente a esta figura histórica e o que se faz nas artes visuais. Há vários artistas que se têm inspirado no trabalho de Cabral, no legado de Cabral”, recorda a historiadora, lembrando que foram “envolvendo várias pessoas e artistas” e acabaram por falar do projecto também a Elisabeth [Liz] Gomis, directora da MansA, jornalista, realizadora e produtora francesa e com origens bissau-guineenses.
O resultado junta, em Paris, obras dos artistas Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Sónia Vaz Borges, Yuran Henrique, Hamedine Kane, Sarah Maldoror, Mónica de Miranda e Bento Oliveira, cruzando, assim, o pensamento de Cabral com pintura, cinema documental, fotografia, instalação e desenho. Estes são também artistas associados aos países que constituíram o ADN da luta de Cabral, ou seja, “artistas dos territórios ou das terras que dizem directamente respeito a Cabral, portanto da Guiné, de Cabo Verde, da África dita lusófona”, mas também “artistas portugueses muito engajados desde há anos com a obra de Cabral” e, ainda, “outras artistas pelo mundo fora” igualmente inspirados pelo pensamento cabralista, acrescenta Ângela Benoliel Coutinho.
“Lidamos, na verdade, com um intelectual, um grande intelectual africano que, em conjunto com o povo da Guiné-Bissau, no contexto do movimento político que ele liderou com cabo-verdianos, na verdade, concretizou muitas das suas ideias e deixou outras que parece que interessam ainda a muita gente. Eu diria que, para mim - cada vez mais tenho essa sensação - há vários Cabrais. Nesta exposição, trata-se deste Cabral, um homem africano que pensou o mundo, que interveio nele e cujas acções e ideias ainda interessam muita gente 50 anos depois da sua morte”, resume a também autora do livro “Os dirigentes do PAIGC: Da Fundação à Ruptura 1956-1980”.
Por outro lado, a exposição abre novas perspectivas para abordar a sua obra a partir do olhar dos filhos e dos netos das independências. Líder das lutas de libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, pensador da descolonização e da “reafricanização dos espíritos”, estratega militar e político, pensador da cultura como instrumento de libertação, defensor da participação política e cívica das mulheres, são muitas as facetas conhecidas de Amílcar Cabral (1924-1973), mas ainda há muitas por conhecer. “Há um Cabral por descobrir”, acrescenta Ângela Benoliel Coutinho, apontando, por exemplo, para a publicação, este ano, de um livro na África do Sul “que se debruça sobre as reflexões de Cabral em torno da questão ambiental”, com alguns especialistas a considerarem o engenheiro agrónomo como “um pai da agricultura regenerativa”.
A exposição é, assim, mais uma etapa na reflexão sobre o vasto legado de Amílcar Cabral, através das obras expostas, mas também da programação paralela com mesas-redondas, filmes e concertos. “Talvez esta exposição seja uma espécie de convite à criação de um fórum internacional daqueles que se interessam pelo legado de Cabral e que estamos a tentar descobrir o que ele pensava e o que ele conseguiu de facto fazer”, espera a historiadora.
“Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical” é também um convite para ver, ouvir e participar na experiência cultural da MansA, em Paris, uma instituição que se apresenta como uma “casa de artistas, um ponto de encontro, um centro de recursos e uma incubadora de talentos aberta ao mundo”, ou seja, “um laboratório vivo em que se cruzam artistas, pensadores, investigadores e activistas, para fomentar novas formas de criação e de análise crítica”.
Oiça a entrevista no programa Convidada desta quarta-feira, 14 de Outubro de 2026.
Acordo entre os EUA e a Rússia "representa uma traição completa à Ucrânia"
2026/10/13
A Rússia e a Ucrânia voltaram a trocar ataques durante a madrugada desta terça-feira, 13 de Outubro, numa ofensiva que provocou pelo menos três mortos e vários feridos em território ucraniano. A intensificação dos bombardeamentos ocorre dias depois de Washington e Moscovo terem anunciado um acordo que prevê o fornecimento de gasóleo russo aos mercados norte-americano e internacional, com o objectivo de contribuir para a descida dos preços dos combustíveis, a menos de um mês das eleições intercalares midterms nos Estados Unidos. O analista político Germano Almeida considera que este acordo "representa uma traição completa à Ucrânia", sublinhando que o entendimento não deverá ter qualquer impacto significativo nos preços dos combustíveis.
Washington e Moscovo anunciaram, na semana passada, um acordo que prevê o fornecimento de gasóleo russo aos mercados norte-americano e internacional, com o objectivo de reduzir os preços dos combustíveis, a menos de um mês das eleições intercalares nos Estados Unidos. Com este anúncio, Donald Trump quis fazer um cálculo eleitoral?
Enfim, trata-se de uma fantasia de cálculo eleitoral. O objectivo era, de facto, esse, mas nem sequer esse resultado deverá ser alcançado. O impacto será “pífio”, desde logo porque, neste momento, a Rússia não tem grande disponibilidade para colocar petróleo e derivados no mercado, tendo em conta os ataques ucranianos bem-sucedidos, que reduziram em 45% a capacidade de refinação russa.
Por outro lado, basta olhar para os primeiros números associados ao que foi anunciado. O primeiro fornecimento deverá ser de 300 mil litros de gasolina. Estamos a falar de uma quantidade que corresponde, sensivelmente, ao consumo norte-americano de um dia. Não terá um impacto significativo, se é que terá algum.Até agora, não houve qualquer efeito nos preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Antes do acordo, o preço por litro era de 6,28 dólares e agora é de 6,29 dólares. Não há, portanto, qualquer efeito relevante.
A subida dos preços resulta da guerra disparatada, errada e imprudente desencadeada por Trump. Antes da guerra, a média era de 3,47 dólares, a 28 de Fevereiro; agora, é de 6,29 dólares. Por conseguinte, a responsabilidade pelos preços elevados dos combustíveis nos Estados Unidos não é dos ataques ucranianos à Rússia: é de Trump.
Donald Trump estará a tentar demonstrar que ainda tem capacidade negocial, depois do que aconteceu no Irão?
Nem sequer isso. Está a tentar projectar essa percepção junto dos mais incautos, daqueles que, apesar de tudo o que aconteceu, ainda acreditam nele. São cada vez menos. A presidência de Trump está no ponto mais baixo de aprovação. Os últimos dias têm sido marcados por algum desespero e pela degradação do próprio comportamento desta administração.
Este acordo, para além de não produzir efeitos, como acabámos de explicar, representa uma traição completa à Ucrânia. Expõe a ausência de uma resposta firme ao agressor, constitui uma traição à Europa e representa também uma traição aos próprios compromissos dos Estados Unidos.
A política da administração Trump era exercer pressão sobre a Rússia para pôr fim à guerra, nomeadamente através de sanções ao petróleo e aos combustíveis fósseis russos. Com este acordo, em troca de basicamente nada, está a promover o regresso do petróleo russo aos mercados internacionais.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitiu uma isenção temporária das sanções contra a Rússia, permitindo determinadas vendas. Moscovo não conseguiu, até agora, alcançar todos os seus objectivos militares, nomeadamente em Donetsk. Este acordo representa um balão de oxigénio para a Rússia? Poderá a compra de gasóleo russo pelos norte-americanos contribuir para financiar a guerra?
Os Estados Unidos estão a financiar a guerra russa contra a Ucrânia. É uma aberração. Aliás, a Rússia está a ajudar o Irão e, com este acordo, os norte-americanos estão a dar à Rússia meios financeiros que lhe permitem continuar a apoiar o Irão. Se levarmos este raciocínio até às últimas consequências, podemos dizer que Trump é tão incompetente que acaba por celebrar um acordo que contribui para financiar uma guerra contra os próprios interesses dos Estados Unidos. Este é o grau de incompetência do Presidente norte-americano.
Donald Trump afirmou também que Volodymyr Zelensky já não tem legitimidade para permanecer no poder e que terá de convocar eleições. Entretanto, sabe-se que os deputados ucranianos estão a trabalhar numa lei eleitoral adaptada a um eventual cessar-fogo, de modo a permitir a realização de eleições nestas condições. Volodymyr Zelensky será obrigado a realizar eleições?
É saudável e exigível respeitar os mandatos numa democracia. O mandato de Zelensky, que teria terminado em Maio de 2024, uma vez que foi eleito em Maio de 2019, está ultrapassado. Mas, tanto quanto sei, ele não pediu para ser invadido pelo maior país do mundo.
E faço uma pergunta: como pode haver eleições na Ucrânia? As pessoas têm de parar para pensar antes de lançarem estes temas.
Quando Trump levanta esta questão, revela uma irresponsabilidade tremenda. Como pode haver eleições na Ucrânia quando as cidades ucranianas são atacadas diariamente pela Rússia? Como pode haver eleições quando uma parte significativa da população masculina, entre os 18 e os 40 e muitos anos, está na linha da frente? Como pode haver eleições quando cerca de 20% do território ucraniano está ocupado? É preciso pensar nestas questões antes de exigir eleições nestas circunstâncias.
Sempre que Trump lança esta provocação, reforça a ideia de que é, efectivamente, um activo russo. O antigo Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa foi criticado por ter afirmado que Donald Trump “era um activo russo” que o seu comportamento favorecia os interesses russos. E é precisamente isso que estamos a observar nos últimos dias.
Zelensky já afirmou que não se opõe à realização de eleições e que estas poderiam ter lugar após um cessar-fogo de 60 dias. Qual foi a reacção do Kremlin? Os russos só garantem um cessar-fogo de um dia. O Kremlin continua, portanto, a responder de forma perversamente provocatória.
As dificuldades na luta contra a corrupção poderão manchar a imagem de Volodymyr Zelensky?
Penso que não. A Ucrânia tem respondido de forma imediata a estas questões. Quando houve manifestações contra as alterações propostas à lei, ficou demonstrado que a Ucrânia é um país democrático, ao contrário da Rússia.
As críticas incidiam sobre a alteração legislativa relativa a duas agências anticorrupção, que passariam a estar sob a alçada de uma Procuradoria dependente do Presidente. Era uma proposta muito discutível do ponto de vista do Estado de direito. Sabemos que a Ucrânia, mesmo antes da guerra, já tinha problemas nesta matéria e continua a enfrentar desafios ao nível da separação de poderes, do Estado de direito e do reforço das instituições.
Ainda assim, na minha opinião, está a fazer um trabalho extraordinário: enquanto é invadida pelo maior país do mundo, procura implementar reformas que lhe permitam, um dia, integrar a União Europeia. Os progressos nesse sentido são evidentes.
Este acordo poderá, de alguma forma, reforçar o apoio da população ucraniana a Volodymyr Zelensky?
Estamos numa fase um pouco contraditória nesse aspecto. Acima de tudo, o povo ucraniano tem demonstrado uma resistência impressionante, muito para além de qualquer antecipação ou previsão feita há quatro anos e meio. E isso é o mais importante. Porquê esta resistência? Não é pelo facto de os ucranianos serem super-homens. São pessoas como nós, mas já conhecem suficientemente bem os russos para perceberem que o pior cenário seria uma submissão à Rússia.
Do ponto de vista político, a Ucrânia, enquanto país democrático, tem de fazer as suas escolhas democraticamente. É natural que, quando a guerra terminar, os ucranianos decidam se querem ou não voltar a eleger Zelensky. É possível que ele próprio considere que não faz sentido recandidatar-se.
Seja qual for o desfecho, ficará para a História como o Presidente que liderou o país durante a guerra e resistiu ao invasor russo. Olhando para outros momentos da História, percebe-se que esta marca poderá ser determinante para o seu legado. Depois de uma guerra, pode não fazer sentido continuar a governar numa lógica de conflito. Compreendo essa perspectiva, mas cabe aos ucranianos decidir.
As sondagens realizadas na Ucrânia apresentam resultados algo contraditórios. Algumas indicam que Volodymyr Zelensky continua a gozar de uma popularidade significativa, mas outras sugerem que uma pequena maioria dos ucranianos considera que não se deveria recandidatar.
O que representa este acordo para as negociações que pretendem colocar um ponto final neste conflito e que papel poderá a Europa desempenhar?
Mais uma vez, temos de tentar abstrair-nos da espuma dos dias e olhar para a situação com clareza, incluindo para a sua dimensão absurda. Tenho ficado muito impressionado, nas últimas 48 horas, com algumas análises que tenho acompanhado nos Estados Unidos. Há sectores republicanos que começam a concluir, com espanto, que nunca houve na História norte-americana um Presidente que assumisse tão claramente o lado russo contra o lado europeu.
Neste momento, isso é muito evidente. Sabemos que há sempre quem esteja disposto a relativizar ou a desculpar Trump, mas torna-se cada vez mais difícil fazê-lo. A política desta administração era a aplicação de sanções à Rússia, mas agora assistimos a um acordo que contraria essa orientação.
A política europeia também tem sido marcada pelas sanções contra Moscovo e houve, natural
Arábia Saudita entre a retaliação e o risco de uma escalada regional
2026/10/12
A Arábia Saudita reconheceu, esta segunda-feira, 12 de Outubro, que as infra-estruturas do reino estão a ser “postas à prova” na sequência da série de ataques mortíferos dos hutis do Iémen, nomeadamente contra o aeroporto de Riade, prometendo uma “resposta firme”. Em entrevista à RFI, António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais, considera que a situação poderá agravar-se nos próximos tempos e alerta para os riscos de uma retaliação saudita.
As hostilidades foram retomadas em Julho entre os hutis e as forças governamentais iemenitas, apoiadas militarmente pela Arábia Saudita, e intensificaram-se em Setembro.
No entanto, a dimensão dos ataques contra a Arábia Saudita atingiu, nos últimos dias, níveis sem precedentes, expondo as fragilidades defensivas do país, apesar dos avultados investimentos em equipamento militar de ponta.
Os hutis do Iémen reivindicaram este domingo a realização de “operações de grande envergadura”, nomeadamente um ataque ao aeroporto de Riade “em três fases”. O ataque de sábado, o mais mortífero em território saudita em dez anos, provocou 309 feridos, além dos 13 mortos.
O Irão, que apoia os hutis, manifestou-se, esta segunda-feira, “profundamente preocupado com a evolução da situação”, e diz-se disponível para “facilitar o diálogo entre as partes”, embora sem condenar os ataques.
Perante a escalada dos ataques dos hutis, a Arábia Saudita enfrenta uma escolha que poderá determinar a evolução do conflito no Médio Oriente: responder militarmente e arriscar uma nova espiral de violência ou conter-se para evitar que as hostilidades se alarguem a outros países.
Em entrevista à RFI, António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa, considera que a situação poderá agravar-se nos próximos tempos e alerta para os riscos de uma retaliação saudita, num contexto em que a capacidade militar dos hutis ameaça a segurança do reino e o controlo de rotas marítimas estratégicas.
RFI: Estamos perante uma escalada pontual ou no início de uma nova fase do conflito entre Arábia Saudita e os hutis?
António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais: Eu creio que temos que analisar isto com alguma distância temporal. De facto, estes ataques são recentes, mas tudo começou - como disse - em 2014, quando o movimento dos hutis se revoltaram com o poder central no Iémen. Capturaram logo depois a capital Sana e aproximaram-se geograficamente dos limites da fronteira com a Arábia Saudita. Isso levou a que a Arábia Saudita no ano seguinte, 2015, desse início a uma campanha de apoio ao governo reconhecido internacionalmente do Iémen, com o intuito de conter o avanço dos hutis. Porquê? Porque se sentiram ameaçados. Portanto, a Arábia sentiu-se ameaçada.
Isto estendeu-se até 2022 e em 2022 o conflito com a Arábia entrou naquela fase de congelamento. É usual nos tempos que correm, vários conflitos não são resolvidos, são congelados. E qual é o problema destes conflitos? É que podem descongelar a qualquer momento. E qual foi o 'trigger' neste caso, neste conflito que estava, digamos, pacificado desde 2022? Foram precisamente os ataques de Israel, primeiro, sofridos pelo Hamas no sul do seu território e depois a resposta musculada que tiveram. Isso levou, de facto, os hutis a reagirem.
Nós sabemos que há uma proximidade dos hutis ao Irão e portanto houve uma reacção dos hutis, tentaram atacar primeiro Israel directamente, apoiando não apenas o Hamas, mas os palestinianos. Não correu bem porque todos os seus mísseis e drones foram interceptados e a opção depois foi começar a atacar a navegação mercante no sul do Mar Vermelho. Isso fez com que recentemente e já estamos agora a falar, obviamente, do conflito que opõe Israel e os Estados Unidos ao Irão, fez com que recentemente a Arábia Saudita, perante esses ataques, voltasse a sentir-se insegura. E quando isso acontece, a reacção foi aquela que Arábia Saudita teve: atacou um avião de transporte estacionado, que teria vindo do Irão para o Iémen, no aeroporto Sana, supostamente com o material de guerra para os hutis, e isso despoletou depois a contra-reacção. E o que temos vindo a viver, desde então, é a acção e a contra-reacção, que está a crescer.
Mas há uma escalda nos últimos dias?
Exactamente. Vamos ver o que é que vai acontecer, porque também à Arábia Saudita chegou a pedir, há muito pouco tempo, o apoio dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não lhes deram esse apoio. A Arábia Saudita tem agora esta coligação com a Turquia e o Paquistão. Uma coligação de defesa. Mas, de facto, está a sentir esses ataques dos hutis que estão a tentar de alguma forma - ao fazer o que estão a fazer -com este 'modus operandi' favorecer o seu grande aliado regional que é o Irão e portanto, não há elementos de informação suficientes para perceber como é que isto pode evoluir. Mas as tendências, na minha perspectiva, é que isto possa vir a agravar-se mais ainda no futuro próximo.
A Arábia Saudita denunciou um "crime de guerra" ao qual promete responder com "firmeza". Ao mesmo tempo, Riade está num dilema: vai responder militarmente para preservar a sua credibilidade ou vai evitar a escalada que pode significar uma nova guerra?
No auge do conflito, que aqui ainda se mantém embora a intensidade tenha diminuído, entre Estados Unidos e Israel e o Irão, a resposta do Irão foi atacar tudo o que eram interesses norte-americanos na região e, também, na Arábia Saudita. A Arábia Saudita, perante estes ataques e alguns foram ataques fortes, não reagiu. Optou por não o fazer, não reagir precisamente para evitar uma escalada do conflito. Agora é diferente, porque não é um estado, é o movimento que controla uma parte do Iémen.
A análise que eu faço é que, de facto, que a Arábia Saudita possa vir a intensificar a resposta. Não o fez, ainda estará a pensar qual será a melhor resposta. Repare que o Presidente [norte-americano, Donald] Trump disse que estava a pensar se os Estados Unidos desta vez poderiam ou não auxiliar Arábia Saudita nessa resposta.
Até agora, Washington não deu seguimento à nenhum pedido de apoio saudita.
Não deu e, creio, que não deixa de ser retórica por parte do Presidente Trump, que nos tem habituado a isto, pelo menos nos últimos meses. E não é bom para os Estados Unidos, que tem esta frente aberta com o Irão, abrir novas frentes, com os úteis hutis e, enfim, com outros movimentos, porque isso pode agravar muito mais a situação na região. E numa altura em que os Estados Unidos querem a todo o custo controlar os preços da energia. Repare neste acordo que fez agora com o 'senhor' Putin [Vladimir Putin, Presidente da Rússia].
Qualquer iniciativa que leve a que os preços possam de alguma forma aumentar é má para ele [Donald Trump] e para o Partido Republicano, que vai ter eleições intercalares. Portanto, eu julgo que dificilmente os Estados Unidos se envolverão, a não ser que seja uma questão absolutamente existencial para a Arábia Saudita, o que não creio que tenhamos chegado a essa situação.
E em relação aos hutis, têm efectivamente a capacidade militar para concretizar estas ameaças? Os hutis ameaçam todos os aeroportos da Arábia Saudita.
Sim, repare que eles têm drones, têm drones com alcance mais curto, na ordem de 250 quilómetros, mas depois têm mísseis de cruzeiro que irão até cerca de mil quilómetros e depois mísseis balísticos que são os mais complicados para as defesas anti-aéreas que podem ir numa versão até aos 1.200 quilómetros e na outra quase até aos 1.400, 1.500. E, portanto, de alguma forma, foi isso que lhes permitiu tentar visar, no início da sua resposta, Israel, quando Israel desencadeou aquela acção na Faixa de Gaza, foi isso que permitiu tentarem atingir solo israelita. E, portanto, é óbvio que a Arábia está dentro do envelope de todas as armas que os hutis possuem e, obviamente, que existem vários alvos passíveis de serem atacados pelas armas que os hutis dispõem de momento.
Portanto, os hutis ao conseguirem esta ameaça efectiva sobre o espaço aéreo saudita e ao também conseguirem influência no Estreito Bab el Mandeb, estão a afectar o equilíbrio estratégico do Médio Oriente.
Completamente. Neste momento, o Estreito de Ormuz está, como eu costumo dizer, duplamente fechado. Portanto, está fechado pelo Irão e depois também pelas forças navais americanas que estão no Golfo de Omã, fora do Estreito. E depois há uma predominância muito grande, um controlo quase efectivo dos hutis que controlam praticamente toda a faixa do Iémen no Mar Vermelho. E, sobretudo, controlam o acesso ao Mar Vermelho, vindo do Índico, vindo do Golfo de Aden. E isso dá-lhes um poder tremendo. Isso significa, no limite, que se houver esse controlo total dos dois estreitos da navegação em trânsito por aqueles dois pontos de estrangulamento, isso dá-lhes um poder enorme em toda a região. É muito significativo. E sobretudo ao Irão, obviamente, porque os hutis são um 'proxy' do Irão na região.
E como é que se sai deste impasse?
Eu diria que essa é a pergunta que toda a gente gostava de responder. Como em qualquer conflito, a negociação e a diplomacia devem prevalecer quando não há uma solução militar para as questões. E, na minha perspectiva, não há uma solução militar, tanto no Golfo de Ormuz quanto na região ocupada pelos hutis e o controlo do estreito de Bab el Mandeb. Não havendo, terá que a diplomacia entrar e terão que haver cedências. As partes terão que ceder, mas para isso é preciso que haja primeiro uma pacificação. Isto vem de encontro à sua pergunta inicial que tem a ver com a reacção da Arábia Saudita. Se a resposta da Arábia Saudita for musculada, isso vai p
FESTin mostra uma lusofonia que a língua comum não torna igual
2026/10/10
O Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, FESTin, decorre em Lisboa até este domingo, 11 de Outubro, com cerca de 60 filmes e uma programação que procura afirmar a diversidade dentro do espaço lusófono. Na 17.ª edição, que coincide com os 30 anos da CPLP, sete realizadores de países africanos de língua portuguesa levam ao festival histórias sobre memória, migração, identidade, tradição e condição feminina.
Para a directora artística do FESTin, Adriana Niemeyer, a presença dos PALOP não serve para construir uma imagem única do cinema africano de língua portuguesa. O objectivo é mostrar cinematografias que partilham uma língua, mas nascem de sociedades, histórias e referências distintas. “A língua portuguesa tem vários sotaques, representa várias culturas. Somos muitos, somos irmãos, mas também temos as nossas singularidades”, afirma.
O festival reúne este ano sete filmes de sete realizadores de diferentes países africanos, embora a presença das curtas-metragens continue a ser superior à das longas. Adriana Niemeyer associa essa diferença às próprias condições de produção. “Existe uma grande dificuldade de meios para produzir longas-metragens”, explica. A escassez de financiamento, estruturas técnicas e incentivos continua, segundo a directora artística, a limitar a capacidade de muitos cineastas de transformar projectos mais ambiciosos em filmes.
Um filme produzido em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe não é escolhido para representar uma suposta experiência africana comum, da mesma forma que Portugal, Brasil ou Timor-Leste não são tratados como variações de uma única cultura. “Respeitamos a singularidade, as características, a cultura e o modo de pensar de cada país”, sublinha Adriana Niemeyer. “Um filme que pode ter sucesso em Timor-Leste não é necessariamente o mesmo que pode ter sucesso no Brasil.”
Memória, migração, condição feminina, tradição ou precariedade surgem repetidamente na programação, mas assumem significados diferentes consoante o lugar de onde as histórias são contadas. “Tentamos procurar em cada país uma questão que apresente a sua realidade”, explica a directora artística. O cinema funciona, assim, menos como ilustração da CPLP do que como instrumento para perceber aquilo que uma língua comum, por si só, não consegue revelar.
Adriana Niemeyer defende também que essa diversidade só pode existir plenamente se os próprios países tiverem condições para produzir as suas imagens. “Quando realizam, são criativos e mostram realmente o que é a realidade”, afirma. A directora do FESTin lamenta que muitos realizadores continuem sem apoio financeiro, material ou institucional e considera que os governos deveriam incentivar mais a produção audiovisual local. Não se trata apenas de produzir filmes, mas de garantir que cada sociedade dispõe de meios para contar as suas próprias histórias e construir as suas referências.
A questão torna-se mais importante num mercado audiovisual dominado por grandes produções internacionais e plataformas. “Estamos a ver séries americanas, Netflix, e acabamos por não ver as nossas realidades”, observa. O risco, acrescenta, é que os espectadores passem a tomar como modelo experiências que pouco têm que ver com as sociedades em que vivem. “O cinema regional tem um papel muito importante”, defende, justamente porque permite que um país se veja a si próprio antes de ser visto através de imagens produzidas por outros.
Para os realizadores africanos, Lisboa pode também funcionar como ponto de passagem para outros circuitos. Segundo Adriana Niemeyer, o FESTin recebe hoje um número significativo de candidaturas provenientes dos PALOP e conquistou reconhecimento entre cineastas desses países. “O FESTin é uma montra internacional para os filmes africanos”, afirma. A presença no festival pode abrir contactos na Europa, criar possibilidades de co-produção e levar as obras a outros públicos. “Um dos nossos grandes objectivos era ser uma montra para novos talentos.”
Parte dos filmes segue depois para exibições noutros países, permitindo que obras com circuitos comerciais reduzidos encontrem novos espectadores. Para Adriana Niemeyer, essa circulação dá conteúdo concreto à ideia de intercâmbio dentro da lusofonia, não basta afirmar que existe uma língua comum é necessário criar espaços onde os diferentes países possam conhecer aquilo que os outros produzem e a forma como se representam.
No ano em que a CPLP completa 30 anos, Adriana Niemeyer coloca o conhecimento mútuo no centro do papel do cinema. “Quando se cria conhecimento, criam-se relações”, afirma. E resume essa função através de uma imagem “se não se viaja, o cinema é uma viagem sem estar lá.” Durante estes dias em Lisboa, o FESTin propõe essa viagem por uma comunidade que partilha uma língua, mas cuja riqueza está também nas diferenças que essa língua transporta.
"É urgente estabelecer um diálogo inclusivo na Guiné-Bissau"
2026/10/09
O Governo de Transição e a Comissão Nacional de Eleições anunciaram, esta quinta-feira, 8 de Outubro, que não estão reunidas as condições legais nem operacionais para a realização das eleições gerais, previstas para 6 de Dezembro, na Guiné-Bissau. A decisão não surpreendeu os partidos políticos nem a sociedade civil, que se mostram favoráveis a esta posição. O analista político Rui Jorge Semedo responsabiliza as actuais autoridades por não terem feito o necessário para garantir a realização do escrutínio. O analista insta ainda as autoridades militares a promoverem um diálogo com a comunidade internacional e todas as forças políticas, incluindo o ex-Presidente Umaro Sissoco Embaló. Defende igualmente a reabertura das sedes dos partidos políticos e do Parlamento, com o regresso do presidente da Assembleia Nacional, Domingos Simões Pereira, e dos deputados eleitos.
O Governo de Transição e a Comissão Nacional de Eleições anunciaram, esta quinta-feira, 8 de Outubro, que não estão reunidas as condições legais nem operacionais para a realização das eleições gerais, previstas para 6 de Dezembro. A que se deve esse adiamento?
Governo é o responsável por criar as condições que permitam à Comissão [Nacional de Eleições] trabalhar. A própria configuração da CNE é ilegal, porque não cumpriu os preceitos que constam das leis do país para, por exemplo, nomear o seu presidente. Assim, o presidente que ali se encontra foi imposto devido às circunstâncias que todos nós conhecemos, quer do ponto de vista técnico, em termos do cumprimento de determinados trabalhos por parte da Comissão, quer do ponto de vista legal, não estão reunidas as condições para que as eleições se realizem no dia 6 de Dezembro.
E, a não se realizarem as eleições, que cenários se desenham para o país?
Tudo depende da vontade do comando militar, uma vez que os próprios militares anunciaram a ruptura com a arquitectura idealizada a partir do golpe de Estado e o anúncio do desmantelamento, entre aspas, da milícia que controlava o Palácio da República. Isso já é um bom sinal. Todos nós sabíamos que não havia condições para a realização de eleições no dia 6 de Dezembro.
As actuais autoridades têm legitimidade para se manter no poder?
Infelizmente, estamos a falar de um contexto de golpe de Estado. Não é isso que a Constituição da República prevê, mas houve uma usurpação do poder. É necessário regressar à normalidade constitucional, construir um espaço para o diálogo político. É necessário que os militares se retirem do cenário político e permitam que os legítimos representantes possam fazer o seu trabalho.
Havendo essa compreensão e essa disponibilidade, acho que poderíamos, certamente, optar por fazer o país regressar à normalidade constitucional e continuar também a ter espaço nos fóruns internacionais.
O antigo primeiro-ministro guineense, Nuno Gomes Nabiam, defendeu que as eleições fossem adiadas. Apelou à criação de um Governo de “ampla base” e a um período de transição alargado por um ou dois anos. Esta proposta parece-lhe possível? Quem poderia integrar esse Governo de ampla base?
Não sei se Nuno [Gomes Nabiam] é a pessoa mais indicada para falar sobre isso, mas, já que o fez, temos também de respeitar a sua posição.
É necessário estabelecer um diálogo com os actores relevantes. Nuno pertence ao APU- PDGB que, salvo erro, tem um ou dois deputados no Parlamento. Existem outros actores com relevância, tendo em conta o seu peso político no Parlamento -PAIGC, MADEM G-15.
Depois, há que incluir nesse diálogo todos os actores. Desse processo resultarão, certamente, consensos que permitirão definir a duração do período de transição e quem deverá também participar no Governo.
O Presidente deposto Umaro Sissoco Embaló, que já manifestou vontade de regressar ao país e de se apresentar às eleições, pode participar nesse diálogo?
Na minha perspectiva, esse diálogo não deve ser abordado do ponto de vista pessoal, centrado nas diferentes personalidades. Estamos a falar de um país. O princípio deve ser o da institucionalização.
Assim, o diálogo deve realizar-se sobretudo a partir dos partidos políticos, em particular daqueles com assento parlamentar, que têm um mandato da população para se pronunciarem e tomarem decisões. Umaro Sissoco Embaló pertencia, e ainda pertence, a um partido -MADEM G-15- é a partir desse partido que também poderá participar no diálogo.
Recentemente, o Presidente deposto manifestou interesse em regressar ao país e em apresentar-se às eleições de 6 de Dezembro. Entretanto, um comunicado do Conselho Nacional de Transição referiu que não estavam reunidas as condições para o seu regresso. O adiamento das eleições poderá estar, de alguma forma, relacionado com esta questão e com a dissolução da Guarda Presidencial?
Ainda não está nada claro sobre o momento que estamos a atravessar. Tudo está confuso, até mesmo no que diz respeito aos comunicados.
Num primeiro momento, o porta-voz do Conselho Nacional de Transição disse que Umaro Sissoco Embaló poderia regressar ao país logo no dia seguinte. Depois, surgiu um comunicado a indicar que não poderia regressar, porque as condições de segurança ainda não estavam reunidas.
Posteriormente, foi anunciado o afastamento de alguns elementos pertencentes à Guarda Presidencial. Mas acho que, para romper com o regime de Sissoco Embaló, não podemos olhar apenas para as forças de defesa e segurança que o acompanhavam. Há ainda, nas estruturas do poder, actores políticos com alguma influência que não foram afastados.
Mesmo depois da remodelação ministerial?
Na verdade, não houve uma remodelação efectiva, até porque já tinha ocorrido uma alteração há alguns meses. Por exemplo, João Bernardo Vieira saiu dos Negócios Estrangeiros e passou para a Justiça, enquanto Carlos Pinto Pereira saiu da Justiça e passou para o Ambiente.
Acho que o que aconteceu foi, na verdade, uma engenharia destinada apenas a adaptar o que, neste momento, constitui a estratégia do Comando Militar. Na minha leitura, essa engenharia ainda não teve qualquer impacto que indique uma vontade expressa de contribuir, efectivamente, para uma ruptura com o regime de Embaló.
Por outro lado, também não permite que as pessoas acreditem que estamos realmente numa nova fase deste processo. Enquanto isso não acontecer, acho que continuamos no mesmo lugar: um lugar dominado pelo poder militar, onde não há espaço para a participação de outros actores, sobretudo políticos e da sociedade civil.
É isso que é urgente fazer agora. Se os militares querem realmente criar uma linha de entendimento com a sociedade guineense, precisam de começar a dar sinais concretos. O diálogo é urgente.
Acho que, por exemplo, o referendo que foi agora realizado conseguiu transmitir uma mensagem forte sobre a vontade e a expressão dos guineenses, porque não houve participação efectiva. Na minha leitura, isso também contribuiu para esta tentativa de mudança, embora ainda não corresponda àquilo que a população guineense realmente ambiciona.
Não se estará, mais uma vez, a adiar a democracia na Guiné-Bissau? Ou há consciência de que o país não está, de facto, preparado e não reúne as condições necessárias para realizar estas eleições?
Estamos a falar de uma situação em que as sedes dos partidos foram encerradas. Como é que se pode pensar em realizar eleições num contexto em que a actividade política foi proibida?
Acho que há um conjunto de aspectos que todos reconhecemos. Por isso, penso que o adiamento será consensual.
Agora, o importante é que o poder consiga realmente abrir-se, permitir o exercício da actividade política e criar condições para que a Comissão Nacional de Eleições possa trabalhar. É urgente retomar os trabalhos na Assembleia Nacional Popular.
Mas isso exigiria, por exemplo, o regresso do presidente desposto da Assembleia Nacional Popular.
A bola está do lado do Comité Militar. Se os militares querem realmente fazer o país regressar à democracia, têm de respeitar as instituições, a começar precisamente pelo Parlamento.
A estrutura eleita pelo povo da Guiné-Bissau tem de retomar o seu trabalho. É indispensável que o presidente deposto da assembleia Nacional, Domingos Simões Pereira regresse, porque não cometeu nenhum crime, pelo menos até ao momento. Não foi provado que tenha cometido qualquer crime, nem que venha a ser responsabilizado por isso. Acho que, se tal vier a ser comprovado, deverá também ser responsabilizado. Mas, até ao momento, não há nada que o demonstre.
Portanto, a Assembleia tem de funcionar com o seu presidente e com todos os deputados eleitos para esta legislatura, que foi interrompida.
Quando é que considera que o país estará preparado para realizar eleições?
É urgente abrir um diálogo inclusivo entre os actores políticos e a sociedade civil. Acho que será a partir desse diálogo que se definirá o calendário deste processo.
“Por Jade” no FESTin: um casamento entre Angola, Mali e duas tradições
2026/10/08
“Por Jade”, do realizador angolano Baruch Tadisi, cruza Angola e Mali para falar de poligamia, consentimento, família e poder dentro de uma relação marcada por códigos culturais diferentes. O filme vai ser exibido esta quinta-feira 8 de Outubro, pelas 21h00, no FESTin, em Lisboa.
A história começa com uma revelação que altera tudo o que Suzana julgava saber sobre o casamento. Até então, a protagonista acredita estar a construir uma vida a dois com Bakary. No Mali, percebe que essa relação assentava numa informação decisiva escondida. Para Baruch Tadisi, é nessa ocultação, e não apenas na existência da poligamia, que nasce o verdadeiro conflito. “A poligamia é ocultada dentro da história e isso faz com que se crie o choque de culturas”, explica o realizador.
“Por Jade” usa a poligamia como porta de entrada para uma discussão ampla sobre confiança, consentimento e diferença cultural. Baruch Tadisi insiste que o filme não pretende condenar relações entre pessoas de países ou tradições diferentes. O que procura questionar é a ideia de que partilhar o mesmo continente significa partilhar os mesmos códigos familiares, sociais ou religiosos. “Pode-se ter uma relação com pessoas de culturas diferentes, mas primeiro é preciso tentar entender a cultura do parceiro”, afirma.
Essa reflexão nasceu de uma história que chegou ao realizador ainda durante os anos de universidade. Baruch Tadisi ouviu falar de uma jovem que teria desaparecido depois de se envolver com um homem maliano e começou, a partir daí, a prestar atenção a situações semelhantes. “Há muitas mulheres, muitas meninas, muitas jovens que passaram pela situação que a Suzana passou e ninguém conta, ninguém fala”, conta. Para o cineasta, o silêncio em torno destas experiências acabou por transformar o tema numa espécie de tabu.
A fronteira entre Angola e o Mali torna-se, por isso, mais do que uma deslocação geográfica. É também a passagem entre duas formas de entender o casamento, a família e o lugar de cada pessoa dentro dessas estruturas. Baruch Tadisi vê aí um dos pontos essenciais do filme. A diferença existe, mas pode permanecer invisível até ao momento em que duas pessoas são obrigadas a viver segundo as mesmas regras. É precisamente quando Suzana chega ao Mali que aquilo que parecia apenas uma relação afectiva passa a ser também um confronto com uma tradição que desconhecia.
Ao levar este tema para o ecrã, o realizador entrou num terreno sensível. Baruch Tadisi conta que recebeu críticas de membros da comunidade maliana e chegou a ser atacado nas redes sociais pela forma como abordou a questão. Ainda assim, rejeita a ideia de que o filme seja uma acusação contra um povo ou uma cultura. O seu alvo, explica, é a falta de transparência dentro da relação. “A única arma que nós temos, como cineastas, para denunciar certas coisas é o cinema”, afirma.
O título do filme desloca o centro moral da história. Não se chama “Por Suzana” nem “Por Bakary”. Chama-se “Por Jade”. A filha do casal é a personagem sobre a qual acabam por pesar decisões tomadas pelos adultos, num conflito em que amor, tradição e pertença familiar deixam de ser questões abstractas. “Às vezes, as escolhas que nós, mais velhos, fazemos, ou as escolhas que os casais fazem, quem sofre é a criança”, explica Baruch Tadisi.
É através de Jade que o filme expõe uma relação de poder, quem decide sobre a criança, quem tem legitimidade para impor uma escolha e quem é obrigado a adaptar-se. Baruch Tadisi descreve a relação entre Suzana e Bakary como tendo apenas “um equilíbrio de fachada”. A diferença cultural deixa então de ser apenas uma questão de costumes e passa a envolver autoridade, género e capacidade de decisão dentro da família.
O próprio processo de produção acabou por reproduzir, de outra forma, essa travessia entre os dois países. As sequências previstas para o Mali deveriam inicialmente ser filmadas em território maliano, onde a produção já tinha estabelecido contactos com actores e técnicos. O agravamento dos conflitos armados obrigou a equipa a abandonar o plano. “Não poderia colocar a vida dos actores e dos técnicos em risco”, recorda Tadisi. O deserto do Tômbwa, na província angolana do Namibe, acabou por servir de cenário às sequências passadas no Mali.
Depois de circular por festivais internacionais, “Por Jade” é exibido esta quinta-feira, 8 de Outubro, às 21h00, no FESTin, no Auditório Camões, em Lisboa. O filme segue depois para Angola, onde foi seleccionado para o Festival Internacional de Cinema de Luanda e deve competir na categoria de longa-metragem. Baruch Tadisi vê nesse regresso um momento importante para mostrar em casa o trabalho que já circulou fora. “O FIC é o espelho do cinema angolano”, afirma. A pergunta que se levanta é a do lugar que o Festival Internacional de Cinema de Luanda pode ocupar na afirmação de uma nova geração do cinema angolano?
Eleições em Angola: "Maioria da população não gosta da forma como o MPLA governa"
2026/10/08
O Presidente da República de Angola João Lourenço fará no próximo dia 15 de Outubro, o último discurso sobre o Estado da Nação. João Lourenço está prestes a deixar o poder depois dos dois mandatos autorizados pela Constituição. Acerca do MPLA, partido que governa o país desde a independência, foi publicada uma tese, em Lisboa, sobre a evolução da sua legitimidade. O seu autor, o sociólogo e investigador David Boio obteve a classificação máxima de 20 valores.
Este trabalho elaborado pelo sociólogo David Boio, intitulado "O processo do declínio da legitimidade política do poder autoritário do MPLA em Angola", foi distinguido com 20 valores pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.
Neste documento, o investigador analisa, através de dados oficiais e entrevistas, a forma como o poder do MPLA tem vindo a ser percecionado pelas diferentes gerações angolanas. Os eleitores que viveram a luta pela independência, os que conheceram a guerra e o que nasceram em período de paz têm comportamentos políticos e expectativas diferentes.
RFI: Quando fala em declínio da legitimidade do MPLA, o que está exactamente a declinar?
David Boio: No caso de Angola, estamos a falar de um regime que tem 50 anos desde a proclamação da independência. Durante um tempo, a questão da independência foi apresentada pelo regime como justificação da sua existência e legitimidade. No fundo, o regime dizia que eles deviam governar porque são eles os responsáveis pela independência.
Após a independência, veio a questão do conflito e da guerra civil. Houve uma mutação dessa legitimidade para o argumento sgeundo o qual o regime é garante da paz e da prosperidade. "Paz e desenvolvimento", era o slogan. A partir de 2013 e 2014, o país entrou em graves dificuldades económicas e o regime passou a ter dificuldade de se justificar.
RFI: A legitimidade política do MPLA passou por várias fases. Durante a guerra civil, por exemplo, não era a mesma que agora.
David Boio: Houve alterações profundas na sociedade angolana e por isso é que a tese introduz a variável de gerações. A tese tenta ver se existem encontros ou desencontros entre os argumentos de legitimidade do regime. Analisamos a maneira como as diferentes gerações encaram essas fontes de legitimidade.
Criámos três categorias de gerações. A primeira, é a geração da independência. Depois vem a geração da guerra, socializada em contexto de conflito. A terceira geração, aquela que a tese analisa com maior profundidade, é a geração da paz. Essa geração tem pouca memória deste passado, da luta pela independência e da guerra. Cada uma dessas gerações adere a diferentes fontes de legitimidade. E o comportamento político de cada uma dessas gerações é influenciado por isso.
RFI: Então, por exemplo, qual é a legitimidade do MPLA para um jovem que hoje tem 20, 25 anos?
David Boio: Para um jovem que tenha 20 anos, neste momento, o MPLA não tem legitimidade. Primeiro, porque tem sido incapaz de ir ao encontro das expectativas mais materiais, da empregabilidade, etc. Em segundo lugar, e este é o ponto mais importante, para essa geração o Estado, curiosamente, não existe.
Há uma rejeição que se cria. Essa geração ambiciona ser mais cidadã, quer que haja democracia, etc. De certa forma, a geração da guerra lida melhor com o facto de o país não ser uma democracia. Porquê? Porque tem a memória. Pensa: "Não somos uma democracia, mas somos independentes", ou "Não somos uma democracia, mas não temos guerra, estamos em paz".
RFI: O declínio da hegemonia do MPLA deve ser interpretado como o crescimento da UNITA e dos outros partidos da oposição ou nem por isso?
David Boio: Os dados oficiais da CNE mostram o MPLA a decrescer e a UNITA a crescer. Mas ao mesmo tempo, parece que não existe uma adesão dessa geração com a UNITA. A inclinação para UNITA é uma questão meramente instrumental. No fundo, esta geração sanciona o MPLA votando UNITA.
RFI: Com base nos dados recolhidos na sua tese, considera ser possível que haja uma alternância política com as eleições em 2027?
David Boio: Penso que será muito difícil. Tal como disse, acho que não há grande expectativa relativamente à oposição. A Frente Patriótica Unida, em 2022, teve um grande impacto. Mas desta vez, parece que os partidos na oposição não vão formar aliança. Penso que, para chegar ao poder, é necessário funcionar em bloco. Se estivéssemos num contexto de democracia, acho que nem em 2022 o MPLA teria ganho as eleições. Porquê? Porque os níveis de reprovação das pessoas são enormes. Mais de 80% da população angolana considera que o MPLA governa mal. Os níveis de desconfiança são muito elevados. Em contexto autoritário, que é o nosso caso, o MPLA ganha as eleições porque basta dizer que ganhou. Julgo eu que em 2027 o MPLA voltará a dizer que ganhou. A possibilidade de não ganhar é a oposição demonstrar que o MPLA não ganhou as eleições.
Três anos do 7 de Outubro: "A desproporção é flagrante"
2026/10/07
Três anos depois do ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023, Gaza continua devastada, a violência agrava-se na Cisjordânia e uma solução política continua distante. O jornalista e analista de política internacional Miguel Szymanski analisa as responsabilidades de Israel e do Hamas, o papel dos Estados Unidos e da Europa, a erosão do direito internacional e a forma como os media europeus têm coberto o conflito.
RFI: Três anos depois do 7 de Outubro, como devemos falar simultaneamente do crime cometido pelo Hamas e da devastação infligida depois à população de Gaza?
Miguel Szymanski: Em primeiro lugar, nesta data em que passam três anos sobre os atentados do Hamas, devemos pensar nas vítimas. Devemos pensar nas 1139 vítimas que o Hamas fez no seu ataque contra Israel. Devemos pensar nos mais de 200 jornalistas assassinados pelo exército israelita desde então, nas 20 mil crianças mortas pelo exército israelita e no total de mais de 70 mil palestinianos assassinados.
Ou seja, as vítimas não podem ser somadas umas contra as outras, nem subtraídas. Mas a desproporção é flagrante. É a desproporção que distingue um atentado terrorista, o massacre de civis que foram os atentados do Hamas, de um genocídio e de uma subsequente limpeza étnica que se está a verificar na Cisjordânia, na Palestina.
As esperanças foram por água abaixo, temos ainda uma guerra no Médio Oriente em curso. Depois dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, que são uma consequência directa desse fatídico 7 de Outubro de 2023. Isso é uma consequência directa porque, imediatamente após estes atentados, os Estados Unidos começaram a colocar o seu porta-aviões no local em que se tornava previsível um ataque contra o Irão, que era algo que Israel, sobretudo Netanyahu, já desejava há muito tempo.
E, por falar em Netanyahu, é talvez bom lembrar que Israel vai ter eleições brevemente, agora em Outubro, e que o partido de Netanyahu, o Likud, tem a sua origem no Irgun, que era um movimento terrorista nos anos 40, que matou centenas de civis árabes, britânicos, crianças, mulheres, civis.
Portanto, isto de olhar para os agrupamentos terroristas tem sempre uma perspectiva histórica. No momento, são movimentos terroristas. Assim era classificado aquilo que deu origem ao actual partido de Netanyahu. Era considerado terrorista pelos britânicos e por muitas organizações internacionais. E, na retrospectiva histórica, para os israelitas é um movimento de libertação, tal como na Palestina não se olha para o Hamas como um movimento terrorista.
Os mortos são, no entanto, aquilo que mais nos tem de chocar, bem como os deslocados e a tentativa actual de Israel de fazer, assumidamente, uma limpeza étnica e de ter varrido da mesa sequer a ideia de reconhecer o Estado da Palestina. Nem o actual primeiro-ministro, nem o seu principal opositor em Israel têm sequer a ideia de aplicar o direito internacional que reconhece o Estado.
Enquanto a tensão internacional permanece centrada em Gaza, continuam, na Cisjordânia, a expansão dos colonatos, as demolições, a violência dos colonos e a fragmentação territorial. Ainda existem condições materiais para um Estado palestiniano viável ou a solução de dois Estados tornou-se sobretudo uma fórmula diplomática para evitar discutir a realidade política que já existe entre o Mediterrâneo e o Jordão?
Ambos os cenários são possíveis e dependem sobretudo da comunidade internacional, porque a comunidade internacional, a começar pela Europa e pelos Estados Unidos, teria, se quisesse, os meios necessários para forçar Israel a cumprir a solução de dois Estados.
Israel não quer essa solução, claramente. Nem o principal partido no Governo, nem o principal partido da oposição querem esta solução. Mas Israel poderia ser obrigado a cumprir o direito internacional, como, por exemplo, se tenta fazer com a Rússia. Tenta-se que a Rússia cumpra o direito internacional e se retraia do território que invadiu na Ucrânia e, para isso, a União Europeia recorreu a mais de 20 pacotes de sanções. Outros tantos os Estados Unidos.
Portanto, há meios de pressionar os países, com maior ou menor eficácia. Menor eficácia no caso da Rússia, porque é uma potência grande de mais e demasiado apoiada pela China, pela Índia, por vários outros países, pelo Brasil, pelos BRICS, pelo Sul Global.
No caso de Israel, não. Israel está isolado e bastava que os Estados Unidos e a União Europeia quisessem obrigar Israel a cumprir o direito internacional para isso acontecer de imediato.
De maneira que, se não acontece, ficamos pelo credo de boca de países como a França, o Reino Unido, a Irlanda, países que entretanto reconhecem a Palestina, incluindo Portugal. Ficamos com o credo na boca porque não se seguem as acções necessárias para impor esta solução. Israel, voluntariamente, não o fará.
O direito internacional foi constantemente evocado pelas Nações Unidas, tribunais, governos, como dizia, e organizações humanitárias, mas revelou uma capacidade muito limitada para proteger civis. O que nos dizem estes três anos sobre a chamada ordem internacional baseada em regras?
Poder-se-ia pensar que foi suspensa. Eu sou menos optimista e acho que está a ser activamente desmantelada, sobretudo por Israel. Mas, numa meta-análise, obviamente graças ao peso dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos estão a perseguir os juízes do Tribunal Penal Internacional, que é um tribunal penal que resultou de um acordo assinado pela totalidade dos países da União Europeia, mas que os Estados Unidos não reconhecem. Não só não reconhecem, como não assinaram o Tratado de Roma que o instituiu, como estão activamente a perseguir os juízes, a aplicar-lhes sanções e a dizer que não querem que aquele tribunal funcione.
Foi esse tribunal que declarou que tanto Netanyahu como o seu ministro da Defesa na altura, Gallant, têm de responder por crimes de guerra perante o Tribunal Penal Internacional.
Os Estados Unidos não o querem, como os Estados Unidos não querem que funcionem as outras organizações, como as próprias Nações Unidas. E, por isso, o Presidente dos Estados Unidos criou aquele Board of Peace, um conselho de paz que foi uma tentativa caricata de Donald Trump para criar uma estrutura paralela às Nações Unidas. Não funcionou, não irá funcionar.
Mas o que funcionou foi o desmantelamento, e está a ser o desmantelamento, dessa ordem internacional baseada em regras, que os Estados Unidos querem absolutamente impedir.
Talvez só voltarmos ao início da conversa, quando falámos no atentado do Hamas. Neste momento, temos familiares das vítimas deste atentado, israelitas, cidadãos israelitas, a acusar Netanyahu de não ter protegido os reféns, de ter sabido de antemão dos ataques do Hamas e de nada ter feito.
Temos a imprensa israelita a dizer que Netanyahu não só foi informado de antemão, como foi, durante muitos anos, cúmplice do Hamas, que era indirectamente financiado para evitar sequer que tivessem de negociar uma solução para a Palestina. Porque, enquanto existia o Hamas, Netanyahu tinha um pretexto para dizer: eles são terroristas, portanto, nós não negociamos com terroristas. É por isso que não avançámos com a solução de um Estado palestiniano.
Têm sido truques. E os truques vão mais longe. Como soubemos agora recentemente, por uma entrevista dada até pelo próprio ministro da Defesa, procurado por crimes de guerra, que disse que, no 7 de Outubro, foi aplicado o protocolo Hannibal.
O protocolo Hannibal é um protocolo do exército israelita que diz que, para evitar que se façam reféns ou que sejam retidos militares israelitas, se dispara a matar contra palestinianos, aceitando que também serão mortos israelitas.
Por isso, não se sabe quantos dos 1139 mortos na sequência do ataque do Hamas foram assassinados pelo Hamas. E quantos é que não foram assassinados por Israel? Que percentagem, ao abrigo deste protocolo assumido pelo próprio ex-ministro?
Quem tem hoje legitimidade para decidir o futuro político dos palestinianos? Pode existir uma solução legítima, concebida principalmente por Israel, pelos Estados Unidos, pelos países árabes e pelas potências europeias, sem soberania palestiniana e sem uma representação política palestiniana democraticamente renovada?
Nós sabemos, e ouvimos a explicação por parte da Ucrânia, que não é possível organizar eleições num clima de guerra. Com o clima de guerra na Ucrânia e, no caso da Palestina, com o grau de destruição na Faixa de Gaza e a situação em que vivem as pessoas na Cisjordânia, é praticamente impossível.
Face às agressões permanentes, à terraplanagem, com milhares de pessoas ainda soterradas sob o entulho e os escombros em Gaza, e praticamente sem condições de vida minimamente dignas, é impossível organizar-se qualquer tipo de eleições neste momento na Palestina.
E a comunidade internacional não está a cumprir o seu papel, que seria forçar, mais uma vez, repito, forçar Israel a cumprir as regras elementares do direito humanitário.
Israel não o está a fazer. Assume que quer correr com os palestinianos do seu território. E eu não vejo, enquanto não houver pressão substancial, pelo menos da União Europeia, essa poderia mudar alguma coisa , uma solução.
Tivemos, sim, este Verão passado, a China a cortar praticamente relações com Israel por outras razões. Relações comerciais na área tecnológica, porque Israel estava a exportar equipamentos para a China, que eram equipamentos de espionagem, que estavam camuflados, como os pagers, como os equipamentos electrónicos que distribuíram por centenas de famílias e que mataram centenas de civis porque explodiam nas mãos de quem os usava.
Essas atitudes de Israel, de facto, têm isolado muito Israel na comunidade internacional
África e o desafio da auto-suficiência em combustíveis até 2030
2026/10/06
África poderá alcançar a auto-suficiência em combustíveis até 2030, segundo o empresário nigeriano Aliko Dangote. O empresário, que inaugurou, no final de Setembro, uma nova unidade de processamento de petróleo no Quénia, defende que o continente tem condições para reduzir significativamente a dependência das importações de combustíveis. Para o economista angolano Carlos Rosado, a meta é ambiciosa, mas pode ser alcançada. O especialista considera que, com investimentos em infra-estruturas e logística, o continente africano poderá tornar-se praticamente autónomo na produção de combustíveis.
África conseguirá tornar-se auto-suficiente em combustíveis até 2030 ou a falta de capacidade de refinação continuará a obrigar o continente a depender das importações?
Com estas refinarias da Nigéria, já temos 700.000 barris e, para expandir a do Quénia, também são mais 700.000 barris. Em Angola temos em perspectiva mais três refinarias. Angola será auto-suficiente e a Nigéria também já será auto-suficiente. Agora vamos ver, relativamente aos outros países, como é que vai acontecer. Mas eu diria que, de facto, 2030 é uma meta bastante ambiciosa.
Mas ainda há vários desafios, e refiro-me às questões logísticas e à falta de infra-estruturas?
Pois, justamente. A própria construção da refinaria é um desafio, embora tenha corrido relativamente bem Aliko Dangote. Angola, por exemplo, tem a refinaria do Lobito, a maior delas, com 200.000 barris de petróleo, que há muitos anos está em construção. Em Angola, pelo menos em projecto, tem havido avanços e recuos. Portanto, construir uma refinaria leva sempre algum tempo.
Temos uma refinaria que está a ser construída em duas fases, de 100.000 barris, e temos 30.000 em Cabinda, que estamos a construir. Também temos enfrentado vários problemas com as infra-estruturas e a falta de financiamento.
Mas, repito, temos que ser ambiciosos quanto ao petróleo, seja em produção, sejam descobertas para satisfazer as necessidades. A África também está empenhada em transformar as matérias-primas no continente e, portanto, [isso aplica-se também ao petróleo].
Vários especialistas defendem a necessidade de produzir combustíveis mais competitivos face aos produtos importados. O grande problema é que o continente vende o petróleo bruto a um baixo preço e depois vai comprá-lo a um preço superior, quando é transformado…
O baixo preço também não existe, porque o preço do petróleo é internacional. Agora, o que está aqui em causa, efectivamente, é que nós exportamos o petróleo sem qualquer valor acrescentado. E, portanto, se nós, se África, refinar o petróleo, o valor acrescentado que fica no país, em África, fará com que o balanço das divisas também seja positivo, porque, se se refina aqui, a margem que ia para o estrangeiro, para as refinarias estrangeiras, fica em África.
É o caso concreto de Angola. Angola precisa de mais ou menos 150.000 barris por dia, com o nível de desenvolvimento actual. Nós só refinamos 50.000, um bocadinho menos, mas à volta de um terço do que Angola precisa.
E, portanto, isto já acontece há anos. Temos essa capacidade de refinar para satisfazer a procura interna, mas também para exportar para outros países vizinhos. Naturalmente que as infra-estruturas são um desafio, mas essa, creio eu, que deve ser a ambição e que, finalmente, as lideranças africanas estão a perceber: efectivamente, precisamos de transformar as matérias-primas em África. E o petróleo será, naturalmente, a primeira delas.
A crise no Médio Oriente veio mostrar esta urgência?
Claro que sim. Veio criar essa urgência e veio criar a oportunidade. Nós estávamos, enfim, ainda antes, talvez, da crise do Médio Oriente, com a subida de Trump ao poder, perante uma questão da transição energética que foi, de alguma maneira, repensada.
A guerra na Ucrânia e as sanções à Rússia, digamos, puseram um bocadinho em causa a transição energética, quando já se falava de acabar com os carros a gasolina e a diesel. E, portanto, a transição energética sofreu um forte revés.
África vai precisar de combustíveis durante muito, muito tempo. E, portanto, além da urgência para África por causa da guerra no Irão, há também uma oportunidade para África no negócio da refinação.
Agora, é preciso dizer também que a refinação é um negócio complicado. Portanto, construir refinarias por construir refinarias não me parece que deva ser esse o objectivo, porque elas têm, naturalmente, que ser eficientes, têm que respeitar o ambiente. A qualidade dos produtos refinados também tem que ser boa e cumprir as melhores práticas internacionais.
Mas, sem dúvida nenhuma, a guerra no Médio Oriente abriu uma oportunidade para África, não apenas para a auto-suficiência, mas também para a exportação. O que é, naturalmente, por exemplo, o caso de Angola.
Como disse, nós produzimos 1 milhão de barris por dia. E as refinarias, todas as existentes e em projecto, são 450.000 barris. Portanto, nós só precisamos de um terço da capacidade de refinação e vamos seguramente exportar para os países vizinhos.
Há projectos de pipeline, inclusivamente a possibilidade de os países vizinhos serem eles próprios accionistas de, pelo menos, uma refinaria em Angola. E, portanto, há essa possibilidade. A meta é ambiciosa, mas o mundo é feito de ambição.
Mas isso também mostra que os combustíveis fósseis, como o petróleo, ainda têm um papel importante no sistema energético de muitos países africanos. Isto mostra que África ainda não está preparada para abrir mão dos combustíveis fósseis?
Eu acho que nem África, nem o mundo inteiro. O anúncio da morte do petróleo creio que foi um bocado precipitado. A divisa de Trump é “drill, baby, drill”, não é? Portanto, a transição energética foi posta em “espera”.
Mas África claramente não está [preparada]. África está mais atrasada, embora nós vamos adoptar as melhores práticas. Toda a gente concorda com isso, mas também África está muito longe de preencher a sua quota de poluição.
A poluição não é o problema dos combustíveis fósseis em África. São outros países: os Estados Unidos, a Europa e a China. Nós ainda não preenchemos a nossa quota de poluição e, portanto, eu acredito mesmo que, mesmo que corra bem, a transição energética vai durar ainda algum tempo. Portanto, temos, enfim, muito tempo ainda pela frente para rentabilizar as refinarias que vêm aí.
Tudo em aberto para a segunda volta das presidenciais no Brasil
2026/10/05
Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais deste domingo no Brasil deixam tudo em aberto para a segunda volta a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva, que obteve 45%. Este é “um cenário de alta polarização” e de duas visões do Brasil, explica Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política” no país e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil. “O futuro do Brasil está em jogo” e decide-se daqui a três semanas. Oiça a análise neste programa.
O Brasil avança para a segunda volta das presidenciais a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu a primeira volta este domingo com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva que obteve 45%. Em reacção aos resultados da primeira volta, Flávio Bolsonaro anunciou “o fim da era do PT”. Lula da Silva admitiu ter estado convencido que ia ganhar as eleições na primeira volta, mas mostrou-se optimista para a segunda volta, que definiu como um "prolongamento".
Para falarmos sobre estas eleições, convidámos Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense e na Universidade do Minho, em Portugal. Para o cientista político, confirmou-se “um cenário de alta polarização” e há duas visões do Brasil em jogo. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política no Brasil” e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil, mas que ainda não tem uma figura para a “sucessão”.
Olhando para os candidatos que foram eliminados nesta primeira volta, politicamente no espectro da direita, à partida poderiam dar vantagem para Flávio Bolsonaro, ainda que Lula da Silva possa tentar atrair eleitores que prefeririam “uma terceira via”. Há, ainda, um factor que pode ser decisivo: a abstenção. “A abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta”, resume Giuliano Braga. “O futuro do Brasil está em jogo” e é impossível fazer apostas sobre quem ganha a segunda volta.
RFI: O que é que explica esta vitória de Flávio Bolsonaro na primeira volta, ao contrário do que previam as sondagens?
Giuliano Braga, Professor de Relações Internacionais: “Olhando os números tanto do Flávio Bolsonaro quanto do Lula [da Silva] e dos outros, a gente consegue ver um cenário de alta polarização, com a maioria de um lado, a maioria do outro, e os outros com uma margem muito distante nos 2%. O que explicaria Flávio Bolsonaro? Uma certa avaliação do governo Lula por parte da população brasileira tem um certo peso nessa votação maior. É interessante porque nós vemos uma expressão muito grande do Flávio Bolsonaro no Sul, isso já era mais esperado, mas no Norte foi um dos pontos de grande diferença - era uma zona historicamente mais voltada para o PT, para o Lula.”
As sondagens não apontavam para estes resultados. Foram as sondagens que falharam ou a mobilização eleitoral da direita foi superior ao esperado?
“Uma situação que aconteceu nestas eleições de 2026, ontem, foi uma abstenção acima do normal também. Então teve, além da questão política - claro, da mobilização tanto de um lado quanto do outro, mas aparentemente a mobilização do lado do Flávio Bolsonaro foi mais eficaz do que a mobilização do lado do Lula - nós tivemos uma abstenção de mais de 20%. Mais de 20% para o Brasil é muita coisa, dado que a gente está numa eleição que é obrigatória e o não voto confere multa. Foi uma característica muito própria, mais uma mobilização muito concentrada e coordenada da direita, principalmente ao nível dos estados.”
Essa abstenção pode definir alguma coisa em termos da segunda volta?
“A abstenção, na verdade, a tendência que a gente observa – embora a eleição de 2022 tenha sido uma excepção - mas a tendência que a gente observa é que geralmente a abstenção aumenta da primeira volta para segunda volta. A abstenção poderia vir a calhar a algum dos lados, mas a abstenção é um factor incontrolável, é uma surpresa tanto para um lado quanto para o outro. A abstenção é um factor que poderia vir a calhar, mas é um factor que ninguém consegue controlar, até porque ninguém deveria controlar a abstenção dado o princípio da democracia. Por isso, a abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar aí um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta.”
E a reserva de votos dos candidatos agora eliminados? Como são mais à direita, mais do campo conservador, vão automaticamente para Bolsonaro? Ou é possível Lula recuperar terreno, inclusivamente tendo em conta esta abstenção?
“A segunda volta traz um aspecto muito interessante a nível de análise política porque o período entre a primeira e a segunda volta é um período de intensas negociações. Na verdade, é o período em que os candidatos que vão disputar a segunda volta tentam trazer para os seus lados os outros candidatos. Neste caso, nesta eleição específica, do jeito que aconteceu, nós temos um período de negociação muito interessante, porque nós estamos negociando 2%, então são de dois em dois por cento. Os candidatos que ficaram abaixo são ali mais do espectro da direita. Agora, o convencimento de Lula deveria também ser para atrair eleitores desse eleitorado que quis ficar fora dos pólos da polarização, apostar em uma possível terceira via para reconhecerem na continuidade do governo o projecto de país.
No caso, Bolsonaro tem uma vantagem, dado que dois dos menos votados, o Renan Santos e o candidato próximo dele, já têm uma aliança declarada. Lula deveria negociar com o Augusto Cury nesse cenário, que é um candidato que não se colocou muito em lados, ele quis-se mostrar mesmo como uma terceira via. Por isso, o desafio de negociação de Lula vai ser muito intenso, porque Bolsonaro, de certa forma, com esses candidatos de baixo, tem uma vantagem já.”
Os dois candidatos representam visões totalmente opostas para o Brasil. Desde 2018 que os brasileiros se dividem entre o "bolsonarismo" e o "lulismo". Que duas visões são estas para o Brasil?
“Do lado do Flávio Bolsonaro, nós teríamos uma continuidade da sua visão de Brasil vinda ou demonstrada através do governo do seu pai, como uma priorização, por exemplo, do mercado financeiro, do agro-negócio, que é uma base política deles, políticas mais conservadoras, dado que também é uma outra base política muito importante para o Flávio Bolsonaro. A nível internacional, uma aproximação muito directa e muito declarada com os Estados Unidos de Donald Trump, por isso, uma aproximação mais clara, fazendo uma ode à chamada “onda laranja” na América Latina, com o Milei na Argentina, com o novo presidente do Equador, entre outros que se vêm unindo cada vez mais nesse espectro. O Flávio Bolsonaro já declarou abertamente unir-se a esse espectro também.
Olhando para o outro lado, o lado do Lula da Silva, nós temos as políticas sociais mais fortes como sendo um dos principais pilares de campanha dele. A questão do mercado financeiro e da exteriorização do comércio do Brasil, ou seja, a abertura de parceiros comerciais. No plano internacional, uma continuidade do pragmatismo: o Brasil, sob Lula, buscou ter um pragmatismo para surfar as relações Estados Unidos e China principalmente, que são dois parceiros muito importantes para o Brasil. Por causa disso, nós temos aí um outro espectro, principalmente a nível internacional, mas a nível doméstico, com políticas mais progressistas e outras medidas que fazem uma certa ode à sua base política e ideológica também.”
Lula da Silva falou da questão também da soberania do Brasil em relação aos Estados Unidos.
“Pois é. Isso foi um ponto-chave, principalmente na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi um dos pontos-chave do seu discurso, o discurso de abertura, que foi aquela questão de o Brasil não ser quintal de ninguém. Por isso, faz uma ode a esse reforço da soberania nacional. E também, de certa forma, fez uma referência à corrida política com Bolsonaro, fazendo uma crítica directa a Flávio Bolsonaro, dada a sua fala de aproximação automática com os Estados Unidos.”
O que é que este resultado da primeira volta diz sobre o mérito de Flávio Bolsonaro, ele que foi empurrado pelo pai para esta candidatura? O que é que também nos diz sobre o pai dele? Em caso de hipotética vitória, será que podemos antever um Presidente por procuração, visto que o pai está condenado e a cumprir 27 anos de prisão? Flávio Bolsonaro também disse que uma das primeiras medidas seria libertar o pai da prisão domiciliária. Que é que isto antevê para a própria família Bolsonaro?
“Isso acaba sendo uma criação, uma consolidação de uma próxima dinastia política no Brasil. O sobrenome Bolsonaro foi o principal chamariz do candidato Flávio Bolsonaro, além de ter tido uma história como senador e tal, mas o nome da família Bolsonaro falou mais alto nessas eleições, principalmente nas sondagens. Essa questão do nome, da dinastia, acabou sendo importante. Presidente por procuração é uma questão um pouco mais difícil até porque o Bolsonaro pai, além de preso, ele também tem um certo estado mais debilitado de saúde, então, não o vejo muito como um Presidente por procuração.
Flávio tem uma base sólida de apoio, uma negociação ali muito consolidada para este pleito eleitoral, mas existem os processos correntes e agora nós temos mais uma polémica que
Impacto do aumento do preço dos combustíveis na pesca em Cabo Verde
2026/10/02
Em Cabo Verde, os preços dos combustíveis subiram mais de 56 por cento no espaço de apenas 12 meses. Com o litro da gasolina e do gasóleo cada vez mais próximo da fasquia dos duzentos escudos cabo-verdianos -cerca de dois euros- a pressão sobre a economia nacional continua a aumentar.
As novas tabelas entraram em vigor no início deste mês de Outubro. A escalada dos preços nos mercados internacionais explica grande parte deste agravamento, mas há também um factor interno determinante: a protecção governamental que cobria o sistema de preços deixou de ser generalizada. Este mês, a medida de mitigação do executivo abrange exclusivamente o gás butano, que registou um encargo adicional de cinco por cento.
Um aumento que não apanhou de surpresa o sector das pescas. Suzano Vicente, Presidente da Associação dos Armadores de Pesca de Cabo Verde, sublinha que o cenário já era previsível diante da conjuntura actual.
"Já era esperado na actual conjuntura. É expectável que, no fim de cada mês, haja este aumento do preço do combustível, uma vez que existe um mecanismo automático de fixação de preços. Enquanto este mecanismo não for alterado ou suspenso, a situação vai continuar exactamente da mesma forma”, afirmou Suzano Vicente.
Perante este cenário, os armadores não exigem a eliminação das competências do Governo na gestão dos preços, mas reclamam medidas urgentes para proteger o sector, tanto na pesca artesanal como na industrial.
A Associação dos Armadores já tinha proposto formalmente a reactivação de um fundo autónomo ou de um mecanismo de compensação semelhante ao regime social aplicado à electricidade. No entanto, a complexidade burocrática inviabilizou a resposta no imediato.
"Enviámos uma proposta baseada no modelo de tarifa social de electricidade para famílias de baixo rendimento. Mas, pelo diálogo com a administração, percebemos que esse caminho seria mais moroso. Exigiria uma deliberação em Conselho de Ministros e uma série de pareceres técnicos prévios. Tempo é algo que os armadores não têm, e o próprio Governo reconhece essa urgência.
Por isso, estamos a trabalhar numa alternativa mais rápida. Vamos apresentar uma proposta directamente à ministra da tutela para que a medida seja implementada através de uma portaria ministerial, accionando directamente o Fundo Autónomo de Pesca. É uma via juridicamente mais simples e muito mais célere”, disse.
Sem uma intervenção directa do Estado, o sector alerta para o risco iminente de paragem das embarcações. Os combustíveis representam um dos maiores custos operacionais na actividade extractiva e a escalada contínua torna a navegação insustentável.
Para além do gasóleo dos barcos, há um efeito em cadeia que fragiliza ainda mais a cadeia de frio: a produção de gelo, indispensável para a conservação do pescado a bordo.
"Se este aumento continuar de forma exponencial mês após mês, vai chegar um momento em que a actividade se torna inviável. Se a situação já é crítica agora, nos próximos meses será praticamente impossível continuar a ir ao mar.
O combustível afecta também a produção de gelo. Em São Vicente, por exemplo, um 'grau' de gelo já custa cerca de vinte mil escudos. A exploração já é extremamente onerosa e o aumento dos combustíveis encarece a electricidade e, por arrastamento, a aquisição do gelo. Não temos como fugir a estes custos encadeados, a menos que o Governo decida subsidiar directamente às fábricas de gelo para conter o impacto”, avança.
Ao contrário de outros sectores económicos, os armadores e pescadores afirmam estar impossibilitados de reflectir a subida dos custos operacionais no preço final do peixe vendido ao consumidor.
"Não existe um preço fixo para o pescado. O mercado funciona exclusivamente com base na lei da oferta e da procura. Se houver muito peixe no mercado, o preço baixa; se houver pouca captura, o preço sobe. Sem um preço de referência, os armadores não conseguem repassar o aumento dos custos do combustível e do gelo para o consumidor final”, afirmou.
Como solução estrutural para este problema de comercialização, a Associação dos Armadores voltou a insistir na urgência de colocar em funcionamento o sistema nacional de lotas. Embora o regime jurídico e o regulamento já estejam aprovados em decreto-lei, a infra-estrutura e a operação prática continuam por concretizar.
"A implementação da lota é uma reivindicação antiga. É o sistema que vai regular e disciplinar a primeira venda do pescado, permitindo ter um preço de referência na lota. O enquadramento legal já existe, mas falta pôr o sistema a funcionar no terreno. É uma das prioridades que vamos levar à reunião com a tutela”, afirmou.
Existe também uma diferenciação histórica que o sector das pescas pretende ver corrigida: a equiparação da pesca à marinha comercial no consumo de combustíveis. Os armadores argumentam que a marinha de comércio tem receitas previsíveis e rotas fixas, ao passo que a pesca é uma actividade sazonal e dependente das condições meteorológicas.
A longo prazo, a transição para energias alternativas ou motores eléctricos é vista com prudência, dada a insularidade e a dependência de tecnologia importada. A resposta mais imediata para a eficiência energética passa pela modernização da frota nacional.
"As soluções tecnológicas alternativas, como os motores eléctricos, ainda não oferecem garantias de autonomia e eficiência para as deslocações das nossas embarcações. Dependemos do mercado internacional e do custo dos equipamentos.
O caminho mais viável passa pela renovação da frota. Por exemplo, a aquisição de navios atuneiros de maior capacidade — uma embarcação de trezentas toneladas com um motor de mil cavalos de potência consegue capturar muito mais pescado do que dez barcos pequenos de duzentos e cinquenta cavalos. Aumenta-se a eficiência no consumo de combustível, reduz-se o número de embarcações em operação e optimiza-se a rentabilidade e a segurança dos marinheiros”, afirmou.
A urgência das medidas pedidas pelos armadores ganha dimensão quando se olha para o peso do sector no país. De acordo com os dados oficiais mais recentes, a pesca representa cerca de 20,1 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de Cabo Verde e é responsável por 19,5 por cento do emprego nacional.
Sem um acordo rápido entre o executivo e os operadores económicos sobre a compensação dos combustíveis e o apoio à produção de gelo, o sector alerta para o risco de paralisia numa das principais alavancas económicas e sociais do arquipélago.
Guiné-Bissau: "Decisão de impedir regresso de Embaló pode fazer parte de estratégia de vitimização"
2026/10/02
Na Guiné-Bissau, o Alto Comando Militar, que levou a cabo o golpe de Estado de Novembro do ano passado, em comunicado, anunciou esta quinta-feira que não estão reunidas as condições de segurança para garantir o regresso ao país do ex-presidente Umaro Sissoco Embaló. Um regresso que estava anunciado para o dia 04 de Outubro e depois do porta-voz do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, ter garantido que qualquer cidadão nacional poderia regressar ao país. Em entrevista à RFI, o analista político guineense Fodé Mané admite que a decisão de impedir o regresso do ex-presidente pode fazer parte de uma estratégia de vitimização de forma a reforçar a solidariedade em torno de Sissoco Embaló.
RFI : Como analisa esta reviravolta?
Fodé Mané, analista político guineense: Primeiro, esta situação não é clara para qualquer pessoa atenta. Sobre os órgãos que estão a gerir a transição, ora aparece o Governo, ora aparece o Estado-Maior General das Forças Armadas, ora aparece o Conselho Nacional de Transição, ora o Alto Comando, que tinha surgido em Novembro a anunciar golpe de Estado, e desapareceu até há duas semanas, a tomar alguma decisão.
Isso cria alguma confusão em termos de quem é que manda realmente, qual é a personalidade. E tudo indicava que todos eram submetidos às orientações do comando, mas depois vimos situações que nos criam outras dúvidas.
Por exemplo, na terça-feira, dia 29 de Setembro, houve movimentações um pouco anormais, que levaram com que as pessoas ficassem com um certo susto.
As movimentações de que está a falar têm a ver com o desmantelamento da unidade anti-golpe, que é uma força especial que foi criada durante o mandato do Sissoco Embaló?
Aquilo não está claro se é a unidade anti-golpe, porque depois viram-se movimentações que não eram normais, pessoas a saírem de um sítio para outros em viaturas, outros a pé...
Não se sabe o que é que se está a passar. Depois de criar aquele pânico, veio o Ministério do Interior dar uma conferência de imprensa a dizer que se tratavam de movimentações normais nos quartéis.
Então, não se falou de desmantelamento, mas circularam notícias de que algumas pessoas estariam retidas junto ao Estado Maior das Forças Armadas. Tudo isto torna a situação um pouco confusa.
No meio de tudo isso surgiu o porta-voz, não é só do Conselho Nacional de Transição, mas de todo este regime que é o "Nando Vaz".
O Fernando Vaz?
Sim, a garantir que Umaro Sissoco vem e tem condições. E, surpreendentemente, vimos o comunicado à imprensa com aqueles pontos onde podemos destacar a situação a dizer que não foram reunidas as condições, a retomada da proibição de concentrações e manifestações.
Isso nos levou a pensar nas movimentações que houve nas duas últimas semanas: recolha de nomes, organizações de eventos para irem receber Sissoco. Com a sua declaração, alguns órgãos de comunicação social a dizer que vem no dia 04 [de Outubro]. Então, houve este comunicado que até no início, no meu caso, pensei que era fake news. Só depois de ouvir o porta-voz do Alto Comando confirmar aqueles pontos essenciais do comunicado, e ainda alargando, mas com alguns pormenores.
A situação não é clara, mas pode Umaro Sissoco Embaló estar a perder aliados na Guiné-Bissau?
Eu não consigo afirmar que se trata de perda de aliados. Eu estou a ver isso noutra perspectiva: de que pode ser uma estratégia de tentar controlar a situação e também ter o apoio de alguns parceiros.
Não consigo ver isso na perspectiva de que Umaro está a perder aliados, porque são pessoas colocadas, indicadas, que até hoje - há sinais - de que recebem orientações de Umaro Sissoco Embaló. As pessoas muito próximas do Umaro continuaram a ser nomeadas, os que eram adversários continuam a ser restringidos no sistema e continuamos a ver maior liberdade de actuação por parte dos apoiantes.
Mas quando o Sissoco Embaló anunciou o regresso dele à Guiné-Bissau, tinha que ter a certeza absoluta de que esse regresso era viável ou não?
Será que realmente tinha a intenção de regressar? Nós sabemos que, por vezes, na política, uma das formas de obter a solidariedade é vitimizar-se. Vimos isso no passado, com Nino Vieira, com Carlos Domingos Gomes... Aí, esta vitimização provoca solidariedade, porque nesta situação do Umaro, o que é que vai no pensamento dos seus apoiantes? Que o actual poder é ingrato para com o Umaro. Foram instalados, apoiados, promovidos pelo Umaro, mas agora não estão dispostos a protegê-lo. Vai provocar uma solidariedade para com ele. Pode ser essa estratégia.
Eu duvido que haja realmente uma intenção de voltar naquela circunstância, pode haver intenção de voltar, porque onde qualquer pessoa se sente melhor é no seu país, mas naquela circunstância, daquela forma, organizando uma recepção apoteótica, eu duvido se é a intenção dele.
Ou seja, essa estratégia da vitimização pode corroborar a encenação deste regresso abortado de Sissoco Embaló à Guiné-Bissau, simplesmente para que ganhe mais solidariedade e possa voltar posteriormente?
Pode ter esta dimensão de tentar granjear a solidariedade e criar um certo desgosto para com o regime instalado, que sabe que é um regime de pessoas muito fiéis. Mas também pode ser uma forma de distrair, das pessoas se concentrarem noutros assuntos que não da própria situação que está a ser vivida neste momento.
Mas esse regresso de Umaro Sissoco Embaló também não podia confirmar a seguir o regresso do Domingos Simões Pereira?
Não abre portas. Porquê? Porque o Domingos Simões Pereira foi na base de um despacho judicial e inclusive esse despacho pode-se inventar. Pode-se continuar a dizer que deve voltar, como se fez no passado, com a ameaça de detenção. Logo, está condicionado. Esta é a forma de impedir o seu regresso.
É diferente da forma de impedir Umaro, que é dizer que não temos segurança. Mas para o regime, o regresso de Domingos é mais incómodo que o regresso de Embaló.
Este desmantelamento da unidade anti-golpe foi, segundo uma fonte do Estado Maior General das Forças Armadas, uma intervenção que procurou reforçar o controlo sobre a segurança presidencial. Estamos a falar aqui da segurança de Horta Inta-a. Também houve uma reunião dos régulos de Biombo, portanto cidade natal de Ilídio Vieira Té, primeiro-ministro de Transição, onde os líderes tradicionais manifestaram a sua preocupação para com a segurança e a integridade física de Ilídio Vieira Té. O que é que isto quer dizer?
O Ilídio já está a ter alguma pretensão de se enraizar e a única base étnica que ele podia invocar é na região de Biombo. Mas onde os resultados das eleições de 2025 e do referendo mostram que não tem o grosso dos apoiantes e o único meio que ele tem utilizado é injectar meios económicos, aliciar algumas pessoas. Há uma pretensão dele emergir como um líder diferente daquela que podia ser a indicação do Sissoco.
Eu acho que também pode ser uma estratégia de, mais tarde, em nome de uma conciliação, dizer que a situação já está controlada.
E depois há pessoas também que estão a sentir-se no processo de partilha de acesso aos recursos, não é por acaso que o Alto Comando apareceu em Novembro de 2025 e voltou em Setembro de 2026. Quantos meses? Porquê do seu surgimento? Isso dá algum sinal de que há pessoas que entendem que estão a perder o protagonismo dentro dessa estrutura, principalmente alguns militares. Porque desmantelamento e desarmamento não são confirmados. Não há atitudes que mostram que essas pessoas foram hostilizadas, é uma forma de trabalhar com contra-informação.
Pode Ilídio Videira Té estar, neste caminho, a preparar terreno para apresentar a candidatura à Presidência da República?
Isso, sem dúvida, é a sua pretensão. Foi anunciado, criou o seu partido e está a tentar aliciar as pessoas dos outros partidos para irem juntar-se com ele, utilizando os postos na administração pública. Então, é uma forma de aproveitar esta sua posição de primeiro-ministro e ministro das Finanças - quem gere os recursos - para poder enraizar-se melhor.
A concretizar-se esta candidatura de Ilídio Vieira Té, é fazer face a Umaro Sissoco Embaló?
É fazer face a Umaro Sissoco Embaló se ele realmente não estiver atrás da sua candidatura. Eu coloco sempre esta dúvida: se não é uma candidatura alternativa, se ele [Umaro Sissoco Embaló] não conseguir.
Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tentam seduzir eleitorado para evitar empate técnico
2026/10/01
A primeira volta das eleições no Brasil acontece no dia 4 de Outubro e tanto Lula da Silva como Flávio Bolsonaro podem ter um resultado entre 35 a 40% dos votos, colocando-os numa situação de empate técnico que se pode arrastar até à segunda volta a 25 de Outubro. Lula da Silva, com a promessa da proibição das apostas desportivas tenta atrair o votos das mulheres e dos evangélicos indecisos.
O Brasil vai a votos para a primeira volta das eleições presidenciais já no domingo. Como principais candidatos apresentam-se Luiz Inácio Lula da Silva, que se candidata ao seu quarto mandato à frente do país, e Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro e escolhido pelo ex-Presidente que está a cumprir uma pena de 27 anos em prisão domiciliária por ter tentado impedir a tomada de posse de Lula da Silva em 2022.
Os dois estão tecnicamente empatados nas sondagens e prevê-se uma segunda volta no dia 25 de outubro. Nesta última semana, os candidatos estão a tentar seduzir eleitores ainda indecisos, como explica Filipe Mauro, professor de Civilização Brasileira na Universidade de La Rochelle, em França.
"Há mais ou menos 7% a 6% de indecisos, que é o volume historicamente de indecisos numa eleição presidencial brasileira. A componente sociológica é que é interessante. São, a maior parte das vezes, mulheres e são também jovens. Esse eleitorado é particularmente difícil de migrar para um voto bolsonarista. É lá que a campanha de Lula tenta ainda extrair alguns votos que vão ser decisivos. Por isso é que nessa última semana foi anunciada, por exemplo, a proibição dos sites de apostas desportivas. Eles são um público particularmente sensível a esse tipo de medida, já que nós temos um volume inédito de homens e, sobretudo, homens de uma classe social inferior, que vivem uma situação muito grande de endividamento devido às apostas", explicou o académico.
Nas sondagens, apesar de haver mais de 10 candidatos a esta eleição, são Lula da Silva e Flávio Bolsonaro que parecem prontos a disputar uma segunda volta, situando-se os dois entre 35% a 40% dos votos. Para Filipe Mauro, Lula da Silva pôs em marcha nos últimos quatro anos uma "reforma tributária absolutamente inédita", mas o seu Governo mostrou-se "analógico" face a uma extrema-direita bolsonarista que chega ao eleitor directamente via o WhatsApp e outras redes sociais. Quanto às promessas de Flávio Bolsonaro, em caso de vitória, podem abalar as bases do sistema político e da justiça no Brasil.
"Como programa de governo [Flávio Bolsonaro], apresenta uma ameaça às instituições brasileiras, na medida em que prometeu subir a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de seu pai, que hoje está preso e condenado por tentativa de golpe de Estado. Tem uma visão económica ultraliberal. É o que manifesta, em todo o caso, a sua equipa económica, muito simpatizante do que se vê na Argentina de Milei e também com uma relação muito próxima ao actual governo americano a Donald Trump. Uma posição de alinhamento automático, inclusive no que diz respeito à gestão do subsolo brasileiro, muito rico em terras raras e que vem sendo cobiçado por mineradoras americanas e, enfim, em todo o caso, por sectores importantes da economia americana", concluiu o professor e investigador.
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