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Reportagem

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United States
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24 episodes
Explicit
No
Date created
2021/10/28
Latest episode
2026/02/05
Average duration
13 min.
Release period
8 days

Description

Acompanhe os repórteres da RFI em conteúdos que ilustram o pulsar do mundo na sua diversidade.

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Paris já tem um jardim com o nome de Mário Soares
2026/02/05
Mario Soares viveu exilado em Paris durante quatro anos e foi a partir da capital francesa que orquestrou a fundação do Partido Socialista português. Aqui escreveu, falou e lutou contra a ditadura portuguesa, guardando uma grande admiração e reconhecimento para com a França, terra de acolhimento. 52 anos após a sua partida de Paris para Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril, a cidade de Paris rendeu-lhe uma homenagem sentida dando o seu nome a um jardim da capital. Poucos dias antes do 25 de Abril de 1974, Mário Soares, a viver há quatro anos em França, dizia a um canal de televisão suíço que a ditadura em Portugal estava prestes a cair e que isso aconteceria a partir de uma revolta militar. Tal como noutros momentos-chave da vida política portuguesa, não se enganou e no fim desse mesmo mês voltaria para Portugal, exaltado como uma das maiores esperanças da democracia portuguesa. Na capital francesa, o exilado português português viveu, trabalhou e ajudou a fundar o Partido Socialista português. Mais de 50 anos depois, a cidade de Paris reconheceu a passagem deste político fundador da democracia portuguesa e concedeu o seu nome a um jardim no 20º bairro, onde no passado fim de semana acorreram as mais altas autoridades da cidade, como a autarca Anne Hidalgo, mas também o embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, assim como a família de Mário Soares e ainda figuras de destaque da imigração portuguesa em França. Aos jornalistas, o filho de Mário Soares, João Soares descreveu esta homenagem como "um momento de grande ternura". "Do ponto de vista simbólico, é um momento de grande ternura, porque é a memória do nosso pai que viveu quatro anos exilado em França e é o reconhecimento do papel que ele teve. A Isabel e eu, como jovens adultos, acompanhámos a saída dele de Portugal. Ele tinha estado preso 12 vezes e depois esteve deportado em São Tomé. Voltou e depois foi ameaçado a seguir à morte do nosso avô. Tínhamos ido ter com ele a Itália e ele decidiu imediatamente voltar quando soube da morte do pai. E nós voltámos com ele de Roma para Lisboa e estávamos convencidos que ele ia ser preso à entrada, Mas eles não o prenderam. Deixaram-no ir ao funeral e depois, um dia ou dois depois, chamaram-no à PIDE para dizer que ele saía do país até à noite ou ia preso outra vez e ele decidiu não ser preso pela 13.ª vez", explicou. Foi assim que Mário Soares e a sua mulher e também fundadora do Partido Socialista português, Maria Barroso, rumaram a Paris, tendo chegado de comboio em 1970. Mário Soares veio com dois objectivos na cabeça, numa altura em que a guerra colonial decorria há quase uma década e que Salazar tinha acabado de morrer, tendo sido substituído por Marcelo Caetano. "Ele tinha duas coisas na cabeça. Uma era acabar o Portugal Amordaçado, que foi editado em França, foi editado em França, saiu em francês muito antes de sair em português. Só saiu em português depois do 25 de Abril. A Isabel e eu fomos muitas vezes buscar provas e levar provas do livro e ele queria também fundar o Partido Socialista. Digamos que toda a manobra à volta da criação do Partido Socialista foi feita a partir de Paris, onde ele vivia. O François Mitterrand ainda não estava no poder em França e havia o Willy Brandt na Alemanha, que era um tipo fantástico. Eles decidiram, por razões logísticas e que é justo reconhecer e graças ao Willy Brandt, fazer o partido foi feito na Alemanha", detalhou João Soares. Em Paris, Mário Soares vivia num estúdio no Boulevard Garibaldi, tendo aberto a primeira livraria de livros portugueses na capital francesa e dando aulas em várias universidades. Apesar de prosseguir o trabalho político pelo fim da ditadura, Mário Soares havia de recordar para sempre com entusiasmo os quatro anos que viveu em Paris, como descreveu a filha Isabel Soares. "Foi alguém que lutou sempre pela liberdade antes e depois do 25 de Abril. E esta homenagem de Paris é particularmente importante porque é, no fundo, uma cidade a partir do qual se desenhou a revolução e um outro regime em Portugal. E para nós é particularmente comovente, porque o meu pai era tinha um amor pela França, que achava que era a terra da liberdade e da cultura pela cultura francesa. E passou nos isso desde sempre, a nós, enquanto crianças. Portanto, adorava os escritores franceses. Os pintores franceses adorava a vida em Paris. E ele disse sempre. E disse isso no livro com a Maria João Avillez, que aprendeu muito com a vida dele em Paris. Só o facto de estar passear nas ruas, ir às livrarias, ouvir a televisão, os debates, enfim, tudo o que se passava era o mundo. Tudo era aquilo que nós não tínhamos em Portugal, porque havia a censura, havia a polícia política. Portanto, isso foi, portanto, lembrá lo aqui e, sobretudo, dar o nome a um jardim. Ele, que era um homem que amava a terra, amava jardins, amava as árvores. Acho que é uma homenagem que nos toca muito enquanto filhos. Quando ele decidiu vir para o exílio, ele reuniu se com a família e com os amigos mais próximos para saber se iria para a prisão, porque a PIDE tinha posto um ultimato ou saía para o exílio. E eu acho que a decisão dele foi a certa, porque a partir de ele achou que era muito mais útil ao seu país. No exílio e a partir daí, como o meu irmão disse, teceu uma teia de amizades e de cumplicidades com os líderes socialistas e sociais democratas. Muitos deles estavam no poder na Europa, que foram cruciais para a defesa da democracia e depois para o reconhecimento da Junta e da Revolução dos Cravos", disse a filha Isabel Soares. Nesta passagem por Paris, Mário Soares fez muitos amigos, incluindo um amigo especial, François Miterrand, ou mon ami Miterrand, como o político português o apelidava. Estes amigos ajudaram os portugueses no exílio, ampliando a difusão dos seus argumentos para o fim da ditadura em Portugal, e, como lembra o antigo deputado e companheiro de luta de Mário Soares, Rodolfo Crespo, a despertar e alimentar a sede de liberdade dos jovens. "Eu sinto-me confortável com esta homenagem que se faz aqui assim ao Mário Soares. Porque quando eu cheguei a Paris, vindo de Lisboa. Eu era jovem e o sentia-me abafado e senti uma liberdade em Paris ver as pessoas discutirem, terem opinião, terem diferenças e ninguém ter medo da PIDE. Foi uma coisa extraordinária. E rever isso depois, em Portugal, depois do 25 de Abril, foi a maior alegria da minha vida", disse Rodolfo Crespo. Foi a partir de Paris que Mário Soares voltou a Portugal, chegando a 28 de Abril e sendo o primeiro dos exilados com grande influência polítíca a chegar a Lisboa. Rodolfo Crespo lembrou esses momentos. "No 25 de Abril aqui eu estava a trabalhar, portanto saí do trabalho e ouvi na rádio Abril em Portugal e falou se da revolução. E então, telefonámos imediatamente ao Mário Soares. Ele estava na Alemanha e ele disse: 'Eu vou já para aí'. E então depois, no estúdio dele é que falámos, discutimos, vimos, telefonámos, fizemos os contactos todos. Foi uma luz que nos apareceu ao fundo do túnel", descreveu. Esta era uma homenagem há muito preparada pela Câmara Municipal de Paris, pensada para coincidir em 2024 com os 50 anos do 25 de Abril e o centenário do nascimento de Mário Soares. Veio um pouco mais tarde, mas o agora jardim Mário Soares fica no meio de um bairro vivo, popular e agitado, que o conselheiro municipal de Paris, Hermano Sanches Ruivo, pensa coincidir com o espírito do político português. "Há aqui uma associação portuguesa que é "A memória viva". A coordenação das associações esteve aqui também a sua sede. O vigésimo bairro de Paris é, por definição, um bairro popular de esquerda. Sempre votou à esquerda. E faz sentido porque é um jardim onde as crianças vêm, onde os pais vêm, onde os jovens vêm, dos seniores vêm. E, portanto, onde se vai colocar sempre a pergunta sobre quem é a personagem e porque é que o jardim se chama assim? Portanto, fazia muito, muito sentido. Em vez de fechar Mário Soares num bairro se calhar muito mais requintado para nós fazia mais sentido fazer a associação entre Mário Soares e o povo. E de facto, é uma parte do povo português. E é isso que é importante, porque de facto, há muitos portugueses a viverem aqui. Sempre houve. Há muitos cabo verdianos, agora também brasileiros e portanto, é uma forma também de inscrever essa parte portuguesa e lusófona na história de Paris", concluiu o conselheiro municipal franco-português. O jardim Mário Soares pode ser visitado no número 46 da rua Pixérécourt, no 20o bairro de Paris. Numa data ainda a anunciar será descerrada uma homenagem junto ao número 17 da Boulevard Garibaldi, no 15o bairro, onde Mário Soares viveu.
A descoberta de novos territórios na exposição de Emerson Quinda em Lisboa
2026/01/23
“Desenhar o Lugar: Percursos de Permanência e Trânsito” é a exposição que Emerson Quinda, emergente artista são-tomense, apresenta em Lisboa. O trabalho resulta de uma residência artística em Loulé onde, com a curadoria de João Serrão e Ricardo Vicente, Emerson Quinda se lançou em novas explorações sobre questões de identidade, deslocamento e memória. É do cruzamento entre as práticas tradicionais e a arte contemporânea que avança na direcção de processos de criação partilhada. A RFI falou com o artista são-tomense na capital portuguesa, Emerson Quinda começa por contar como nasceu a exposição que tem patente no Instituto Camões, em Lisboa “Desenhar o Lugar: Percursos de Permanência e Trânsito”. Emerson Quinda, artista plástico são-tomense: Essa exposição nasceu de um projecto de uma residência que foi proposto por Ricardo Vicente e João Serão em Loulé. Até agora, o Emerson tinha desenvolvido um trabalho essencialmente de pintura. Durante esta residência houve a hipótese de trabalhar em outros suportes, inclusive utilizando o barro e a madeira. Como é que foi esse processo? Foi um processo de desafio muito bom, tive a oportunidade de experimentar outras técnicas. Foi a primeira vez que experimentei técnicas sobre argila, mas já tinha tido a oportunidade de experimentar técnicas em superfície de madeira na residência de Paris. O que é que o trabalhar com argila permitiu ao Emerson que até agora ainda não tinha realizado? A argila permitiu ter uma oportunidade de ter contato com barro, que é uma coisa fantástica. Tive a oportunidade de construir e desconstruir sobre argila. Foi uma oportunidade única e também tive a oportunidade de pegar essa argila e transformar em faces caras de máscara africana, umas pintadas, outras não pintadas. Foi uma coisa fantástica. Foi uma argila que ficou cingida ao processo da criação da máscara? Não só fiz máscara com argila, mas também trabalhei com essa argila no processo da pintura na tela. Quando construí o castelo de Loulé, que é um castelo simbólico, tive a oportunidade de envelhecer a parede do castelo no desenho na tela, e usei a técnica da argila, foi uma coisa fantástica. Também utilizei a técnica da argila na madeira, na escultura da madeira, como um processo fantástico, porque colei a argila na madeira, que me deu a oportunidade fantástica de ter esse contato argila-madeira e desenho. O trabalho do Emerson apresenta uma forte componente pictórica, com cores intensas, fortes. O meu trabalho, em toda exposição, é carregado de cor. A cor traz muita emoção e muita liberdade. Eu acho que a cor simboliza já a minha identidade ao nível de pintura. Quando se olha o meu trabalho, é carregado de muita cor. Vai-se identificar com a pintura de Emerson Quinda. Então, a cor simboliza muito essa coisa de paz, tranquilidade e alegria. É um pouco de África, um pouco de São Tomé e Príncipe, que o Emerson Quinda traz com essa cor? Sim, porque quando subo no avião, para fazer a viagem até Loulé, no Algarve. Quando eu olho para baixo do avião, em São Tomé ainda, eu vejo aquela paisagem de São Tomé toda verde. Não vejo nenhuma casa, eu vejo tudo verde no país. Então, trago também esse percurso desse verde para a tela. Esse verde carrega muita cor forte na tela e também traz um pouco dessa identidade da cultura de São Tomé. São Tomé foi considerado biosfera mundial da UNESCO, todo o país. Trago essa cor como património cultural, não só de São Tomé e Príncipe, porque África também é carregada muito de cor. Traz também para a escultura, algumas esculturas pintadas com a cor quente e chamativa. O Emerson Quinda teve uma residência de três semanas em Loulé. O que é que agarrou de Loulé? - já falou do castelo - O que mais é que agarrou de Lolé que tem reflexo agora nesta exposição? É o banho islâmico. Foi o que me tocou quando tive uma visita guiada em Loulé. O banho islâmico é uma coisa histórica para Loulé. E tive a oportunidade de transmitir esse banho islâmico para a tela e vai estar representado na exposição. O traço, a maneira do Emerson Quinda manifestar o seu sentido artístico, está muito próximo da pintura naive? Sim, a minha forma de pintar nunca foge. Eu tenho a minha forma já bem definida, eu já tenho a minha própria linha, o meu próprio estilo. Basicamente tento transmitir isso para a minha exposição. Também tento inovar de uma forma muito prática, como inovo com uma escultura e argila para essa exposição. Um dos elementos que representa essa inovação é um painel formado por seis placas, com as quais o Emerson Quinda desenvolveu uma espécie de jogo, um puzzle. Sim, são peças de quebra-cabeça. Foi uma experiência também fantástica. Eu já tinha desenvolvido a madeira na residência em Paris. Em Loulé, tive uma conversa curatorial com o João Serão sobre a minha forma de trabalho. E o João Serão me propôs:  há aqui alguns platex, vou trazer para ti, vamos ver se podes trabalhar neles. E foi uma coisa fantástica, porque com o platex não só se desenvolve a pintura, como se desenvolve o desenho e também a técnica de argila, tudo nesse painel. É uma experiência fantástica, porque o painel carrega todo esse tipo de técnica apresentada na exposição.  A exposição, para já, está em Lisboa. E depois, qual é o futuro desta exposição? Por onde é que vai andar? Sim, para já em Lisboa, no (Instituto) Camões. Depois, vai para Loulé. Depois, vai para São Tomé e Príncipe em 2027 para a Bienal de São Tomé. O João Serrão foi co-curador da exposição e é director das galerias municipais de Loulé. João Serrão, como surge esta residência artística que o Emerson Quinda realizou em Loulé? Como entende o resultado deste projecto? A residência do artista Emerson Quinda, que decorreu em Loulé durante as três semanas de dezembro, nasce de uma afinidade muito clara com o modo como eu entendo o trabalho das galerias municipais de Loulé, ou seja, com espaços de tempo, de escuta e de criação para a arte contemporânea. Desde o início que esta residência teve como ponto de partida o desejo de reforçar as redes culturais no espaço lusófono e ao mesmo tempo de criar um diálogo real entre práticas artísticas contemporâneas e os saberes tradicionais do território louletano, em particular ligados a questões de cerâmica e do desenho. Mais do que uma ideia fechada no início desta residência, interessava-me criar as condições para que o trabalho pudesse surgir do contacto directo do artista com o lugar. Durante as três semanas que o Emerson desenvolveu (o trabalho em residência), desenvolveu um processo muito intenso de investigação sobre o território louletano, cruzou a sua prática no estúdio, no atelier, com o património histórico e etnográfico de Loulé. Essa relação e esse exercício de escuta foi muito importante para que o território deixasse de ser apenas um contexto onde a residência estava a decorrer e a passasse a integrar, de forma muito concreta, o resultado que daí saía. Então, esse resultado acabou por superar as expectativas iniciais. O território foi apropriado, não apenas como tema, mas como matéria. A incorporação do barro e da pintura introduziu uma nova camada no trabalho do artista, onde a terra e o pigmento se fundem, criando texturas quase imateriais e narrativas que convocam memória, identidade, deslocamento. No fundo, este projecto de residência-exposição afirma a arte contemporânea como um espaço de escuta, um espaço de relação e de criação partilhada, e também demonstra que existe uma vontade e uma disponibilidade concreta, seja institucional ou curatorial, de trabalhar, através da arte, as relações e as memórias comuns entre os diversos países de língua portuguesa.
UNITA preocupada "com garantias de sistema democrático e transparente" para eleições de 2027
2026/01/16
A cerca de um ano e meio das eleições presidenciais em Angola, a UNITA denuncia "problemas sociais gravíssimos" no país, aliados à "criminalização" dos direitos constitucionais dos angolanos como a possibilidade de se manifestarem. O partido do Galo Negro está preocupado com o processo eleitoral de 2027, com Adalberto Costa Júnior a defender mais democracia e transparência. Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA, está em Paris para participar numa conferência sobre África da organização Internacional Democrata Centro, ou IDC, da qual faz parte o seu partido e para apresentar o seu livro “Juntos por Angola – Outro passo para a liberdade”. Adalberto Costa Júnior criticou as celebrações organizadas pelo MPLA para os 50 anos da independência de Angola e a falta de sensibilidade face à situação social que se vive no país, nomeadamente com a organização de um jogo de futebol entre a selecção de Angola e a selecção da Argentina que terá custado vários milhões de dólares. "Quando quisemos dar algum tipo de sugestões, não havia espaço. E, portanto, as cerimónias de condecoração que foram feitas, foram feitas perante uma realidade que nega as conquistas de anos. Angola hoje não é um país de liberdades. Angola não é um país, infelizmente, da assunção ao desenvolvimento. Nós temos problemas sociais gravíssimos, nós temos uma pobreza extrema que está galopante, nós temos uma quantidade de crianças fora do sistema de ensino, portanto, nós temos um manancial de razões prioritárias que não justificam este tipo de jogos da selecção da Argentina com milhões de dólares envolvidos que resolveriam um pouco dos problemas. Então, há um problema da sensibilidade perante os desafios da dignidade, os desafios sociais", explicou o líder da UNITA. Recentemente reeleito como presidente da UNITA com 91% dos votos, Adalberto Costa Júnior está preocupado com o estado do sistema democrático em Angola e com a transparência nas eleições presidenciais de 2027. João Lourenço não será novamente candidato e o líder do UNITA diz esperar que o MPLA leve a cabo um processo inclusivo para a escolha do próximo candidato à presidência, já que até agora só se viu "uma criminalização da alternativa e da alternância" no país. "Não é o candidato que nos preocupa. O que nos preocupa são as garantias de termos um sistema democrático e transparente, de termos um tratamento igual para todos. Nós temos um distanciamento enorme entre aquilo que é uma convicta prática democrática na UNITA e de uma fuga às reformas democráticas no nosso principal adversário, com a responsabilidade de estar a governar o país. Nós, de facto, não podemos ter uma democracia partilhada no país se os partidos que têm a responsabilidade de governar não forem democráticos e o nosso adversário nunca, nunca teve uma eleição plural para a sua liderança. A UNITA nisto tem sido um exemplo. E nós estamos a acompanhar as dificuldades que vêm dali. Os maus exemplos, a exclusão de candidatos. Cada um que se anuncie candidato fica sob a criminalização da sua vida pessoal. Nós hoje estamos a acompanhar todo um processo de criminalização da alternativa à alternância no país", denunciou. Nos últimos meses várias marchas e manifestações têm sido proibidas e reprimidas em Angola. Recentemente, duas marchas que visavam alertar para a luta contra as violências feitas contra as mulheres e meninas no país a partir do caso de um adolescente abusada e cujos vídeos foram difundidos na internet, foram impedidas pela polícia em Luanda. O líder da UNITA diz que se está a operar a criminalização dos direitos dos cidadãos em Angola "Hoje o regime mostrou que fazer o recurso ao direito de manifestação que é protegido constitucionalmente está considerado praticamente como um crime contra o Estado. Permite, inclusive, a acusação de terrorismo. Há uma série de mexidas nas leis que, de forma escandalosa, estão a levar à limitação das liberdades, à perda das liberdades várias dos cidadãos. Este caso, por exemplo, é um caso gravíssimo. Nós acompanhámos com uma grande preocupação o caso que é público, de uma violação de uma menina, violação que levou a actos de denúncia da sociedade de solidariedade e do apelo às autoridades. As manifestações não têm que ser autorizadas no âmbito da lei. Têm que ser apenas informadas. Feita a informação, nós acompanhámos duas circunstâncias: na primeira semana um impedimento absoluto, houve um cuidado acrescido na informação a seguir e, mais uma vez, uma proibição, apesar do cumprimento da lei e do Direito", detalhou. Para juntar a isto, Adalberto Costa Júnior denuncia que as cadeias "estão cheias de presos de consciência, de presos políticos". Mesmo no seu caso, líder do maior partido da oposição e deputado, o líder da UNITA disse também sofrer com este clima de perseguição, tendo visto nesta viagem não só os seus documentos pessoais difundidos a larga escala, mas também os seus cartões de embarque, colocando a sua segurança em questão.  Em Paris para falar numa conferência da Internacional Democrata Centrista sobre a democracia em África, o líder da UNITA diz que esperava mais da presidência rotativa da União Africana levada a cabo por Angola e que se termina já em Fevereiro. "Angola tem tido a dignidade de estar a presidir à União Africana. Eu esperava mais do meu país. Eu tenho muito orgulho de ser angolano. De ser africano. Eu vi o silenciamento às violações vindas inclusive de uma presidência que tem o Presidente de Angola sentado neste espaço de responsabilidade. Quantos golpes de Estado vimos ocorrer este ano e quantos foram alvo de crítica? Apenas aqueles que foram militares. Os golpes institucionais foram silenciados e provocaram mais mortes do que os militares", indignou-se. Quanto ao actual estado do Mundo, com muitos focos de tensão, conflitos e assimetrias, Adalberto Costa Júnior mostra-se preocupado com a falta de poder de intervenção das Nações Unidas, com o fim dos líderes que construíram a paz no século XX e ainda substituição de líderes não-democráticos, deixando no poder os sistemas que permitiram a sua ascensão. "Eu acho que hoje todo o cidadão neste mundo que temos não está tranquilo. E o primeiro elemento que lhe posso partilhar é a absoluta degradação do que representam hoje as Nações Unidas. As Nações Unidas hoje não são mais uma organização respeitada. Não é o espaço comum onde os interesses e os direitos são garantidos. É um espaço em que quase virou uma privatização do meu interesse em detrimento dos mais fracos. E, portanto, isto preocupa muito. E depois nós estamos a acompanhar efectivamente a quase o desaparecimento daqueles grandes líderes mundiais que são garante de uma postura, diria ética ou moral, de uma grande partilha solidária dos direitos universais, onde não importa se eu sou Presidente de um país poderoso. Eu olho para os outros países e partilho elementos de estabilidade. Os grandes construtores dos acordos mundiais, que trouxeram alguma estabilidade e o fim dos conflitos, hoje quase estão a desaparecer e, por isso, preocupa-me o que ocorreu na Venezuela. Nós acompanhámos a intervenção americana, acompanhámos a captura do Maduro e eu esperei que este espaço trouxesse a oportunidade ao retorno da legitimidade. Todos sabem que as eleições da Venezuela têm um vencedor, mas esta intervenção não deu espaço à estabilidade democrática genuína, não deu espaço a uma oportunidade daqueles que foram efectivamente escolhidos e são legítimos representantes do povo soberano de retornarem e reassumir a legitimidade no âmbito da governação. Isto a mim preocupa-me muito", concluiu.
40 personalidades dos PALOP reunidas em livro que analisa 50 anos de independências africanas
2026/01/09
O livro “50 anos de independências africanas vistos pelos seus cidadãos” apresentado esta sexta-feira, 9 de Janeiro, analisa o percurso das independências, o legado político e cultural, as transições democráticas e os actuais desafios económicos e sociais. Coordenada por Rui Verde e Eugénio da Costa Almeida, a obra reúne visões diversas sobre os caminhos seguidos até hoje. A RFI entrevistou Eugénio da Costa Almeida, em Lisboa. RFI: Olhando para esta publicação, qual é o grande contributo para a análise destes 50 anos de independências? Eugénio da Costa Almeida: Falando do livro, falando desta obra, há muitos bons contributos. Há aqueles que sinteticamente escreveram muito e uma pessoa faz uma análise, digamos quase que é uma escrita biográfica curta; e há aqueles que fizeram autênticos ensaios que são espetaculares. Há os que dão a sua visão, e é a visão de cada um que acho que faz esta obra, que são 440 páginas, que tornam isto, na minha opinião, apelativo. Há os contributos de políticos, há contributos de chefes de Estado, dois chefes de governo. Há contributos de várias áreas culturais, contributos do jornalismo, áreas técnicas, tudo isso ajuda a compreender aquilo que foi os 50 anos das independências dos países. Uma ressalva que eu devo fazer é que Guiné-Bissau não fez 50, faz 52 anos, mas está dentro disto, até porque Portugal só reconheceu a independência quase um ano depois e, portanto, era da nossa intenção que a Guiné-Bissau também fizesse parte desta obra. Uma parte considerável dos textos faz uma leitura crítica daquilo que foram os 50 anos de independência. Ainda bem, ainda bem. Assim vê-se que as pessoas não estão paradas, têm expectativas muito maiores. Portanto, algumas fazem críticas, talvez políticas, por razões políticas, passe a redundância, outras, por razões sociais, outras por expectativas que ficaram aquém do que desejavam, mas outras fazem no sentido, para mim, de que esperam que os 50 anos que vêm agora sejam sempre melhores. Como nós todos esperamos, na própria vida, que os 50 anos que vêm agora sejam sempre muito melhores. Pelo menos, que o pior dessa parte seja o melhor dos anos anteriores. E, portanto, acho que sim, é bom que tenha havido essas críticas. Porque também era a nossa intenção, era essa, não era termos, digamos, textos, se me é permitido, bajuladores ou textos de “isto é um paraíso” em que ninguém conhece o paraíso. Portanto, cada vez menos a Terra é um paraíso e é bom que todos eles tenham tido a sua análise crítica. Há crítica negativa e há crítica positiva. Esta publicação pode ser encarada como um elemento inspirador para uma auto-crítica a realizar futuramente pelos governos dos PALOP? Não acredito. Não acredito que façam isso, até porque, como sabe, os nossos governantes não são muito dados à auto-crítica e, por isso, é um bocadinho difícil que isso aconteça. Haverá talvez, quer dizer, não diria que são todos nesse sentido, mas haverá alguns que são mais auto-críticos, até porque os seus sistemas políticos a isso o exigem. Há outros que serão menos auto-críticos porque a crítica interna não é suficientemente forte para levá-los a ter essa própria autocrítica. Ainda que cada um, para si, faça a respectiva auto-crítica. Provavelmente, essa auto-crítica é sempre abaixo das nossas expectativas. Mas eu espero que o livro possa ajudá-los, aqueles que não puderam participar ou que não quiseram participar, possa ajudar a rever algumas situações que aqui são colocadas, porque há aqui, dos próprios partidos cujos líderes não participaram, mas que estão cá, possam ver que, e alguns até, com alguma força política ou intelectual dentro dos partidos, que possam ter algum aproveitamento, é a nossa esperança. Na análise que é feita nos diferentes textos sobre os 50 anos de independências, há aqueles que lançam uma ponte para o futuro. Que ponte, enquanto coordenador, encontrou aqui? Muito difícil dizer, com toda sinceridade. A ponte vem na sequência da resposta anterior. É a chamada “crítica positiva” que nos possa levar a que aquilo que possa ter sido bem seja melhorado. E agora vou utilizar uma frase de 2017 da tomada de posse de João Lourenço: "fazer bem o que estava a ser bem e fazer melhor o que estava a fazer mal". - É isto que aqui, mais ou menos foram estas palavras. A nossa vontade é sempre que o melhor dos 50 anos que houve seja o pior dos próximos 50 anos. E a ponte é essa mesmo. É servir de passagem, que eu considero que deve ser mesmo feita, levemente. Por vezes as passagens abruptas, depois provocam quedas abruptas. No sentido de melhorar o que não está bem e, se possível, mais do que melhorar, fazer bem. E continuar a fazer bem ou fazer ainda mais bem, passe a imagem, não direi melhor, mas mais bem, aquilo que foi feito bem. Mas que fica sempre aquém das nossas expectativas ou daquilo que nós próprios gostávamos. Evidentemente, estou satisfeito com isto, mas gostaria de ter mais do que foi isto. Gostaria que, em vez de 400 páginas, tivesse 500. Não sei se o nosso editor iria gostar muito disso, mas enfim. E também os defensores de que não se deve utilizar o papel eram capazes de não gostarem, mas era a nossa expectativa. É esse o sentido. Eu acho que sim, deve haver essa ponte, no sentido de melhorar sempre. Irmos atravessar a ponte à procura de algo sempre mais e melhor. Qual é que acha que pode ser o contributo, ou como é que este livro pode ser agarrado pelas gerações futuras para dar mais força aos alicerces dos PALOP? Por um lado, pode servir para verem o que é que estava nos 50 anos anteriores, o que é que estava menos bem e o que estava mal. As duas situações são bem descritas nos referidos contributos de cada um dos autores. Por um lado, serve em termos históricos. Por outro, serve também para não se por aquilo que um certo autor, um certo autor que diz que a história não se repete. Para mim é mentira. A História repete-se, pode-se é melhorá-la, no sentido de evitar cair nos mesmos lapsos, nos mesmos erros, nos mesmos absurdos que houveram anteriormente. Esta é a nossa expectativa. Dos 40 autores que estão aqui, há alguns textos que possam vir a ser desenvolvidos e dar azo a um trabalho ainda mais aprofundado? Isso caberá a cada autor. Honestamente, nem vou dar palpites. No caso dos ensaios, há dois ou três autores, não vou nomeá-los, as pessoas que leiam o livro, que de certa forma dão pistas excelentes para futuras gerações. Apresentam críticas, dão as suas críticas e apresentam conclusões e soluções. Nos casos dos textos em geral, alguns são mini-ensaios onde essa situação também está prevista. Acho que devem ser os leitores a lerem o livro, tirarem as suas conclusões, e dos próprios autores, aqueles que tiverem a ouvir esta entrevista, ou que possam vir a ouvir, que terem essas relações, que devem ou não avançar para projectos, para trabalhos, ou para textos mais desenvolvidos, em termos científicos, ou em termos de jornais, e em termos de revistas, porque há revistas que também têm conteúdos que, de certa forma, são alguns ensaios. Houve surpresas? Sim, não em termos de qualidade, que essa estava à espera, mas em termos de conteúdo. Alguns foram além do que eu estava à espera, e por isso mesmo é que eu acho que é uma das razões para lerem o livro, a obra. Porque há análises críticas, nomeadamente, que pessoalmente esperava que elas ocorressem, mas que fossem discretas ou subtis. Alguns não usaram subtileza. Foram diretos, foram crús, e foram objetivos. Por isso é que eu acho que as pessoas devem ler, e a comunidade política dos cinco países deveriam ler. Há pouco eu falei que eram, erradamente, dois antigos chefes de governo, mas não, foram três, um dos quais infelizmente está detido, que é o Domingos Simões Pereira, que além de ter sido chefe de governo da Guiné-Bissau, também foi secretário-geral da CPLP. Portanto, foi Carlos Veiga,  antigo chefe de governo e o primeiro chefe de governo de Cabo Verde democrático. Foi o Joaquim Rafael Branco, que foi chefe de governo em São Tomé e Príncipe, e Domingos Simões Pereira, que foi chefe de governo da Guiné-Bissau. Foi um dos que, logo à partida disse que iria escrever e escreveu. Infelizmente não sei quando é que o livro poderá chegar às mãos dele, um exemplar, porque continua detido em situações que a própria comunidade internacional parece não estar a se preocupar muito em querer saber como é que ele está a sua detenção.
Fidju di Tuga: os filhos esquecidos da história colonial portuguesa
2026/01/05
Em Bissau, os autodenominados "Filhos de Tuga" nasceram há mais de cinquenta anos, fruto de relações entre combatentes portugueses e mulheres guineenses durante a época colonial. Hoje, a maior parte desconhece o pai, apesar de terem tentado procurá-los. Na independência (1973-1974), muitos dos militares portugueses que regressaram a Portugal deixaram na Guiné-Bissau mulher e filhos e nunca mais olharam para trás. Reunidos numa associação, Ivete, Anabela, Victor e os outros "filhos de portugueses" têm hoje apenas uma exigência: que o Estado português lhes atribua a nacionalidade.  A colonização portuguesa em terras africanas não pertence apenas ao passado, as suas consequências são por vezes concretas ainda hoje no dia à dia de certas pessoas. Durante décadas, forças coloniais e populações autóctones conviveram no mesmo espaço geográfico, ora coabitando ora lutando em guerras mais ou menos longas. A complexidade da história juntou pessoas de campos opostos, com origem e destinos diferentes, que num certo momento das suas vidas teceram uma conexão (voluntária, ou forçada). O fruto destas conexões perdurou, e por vezes ganhou vida. Na Guiné-Bissau, Victor, Fatima, Ivete e dezenas de outras pessoas nasceram destas relações. O pai: militar português, presente na Guiné-Bissau sob bandeira colonial. A mãe: guineense, geralmente trabalhadora doméstica ou vendedora, em contacto com as tropas coloniais. Mas com a independência e a saída das tropas portuguesas, que libertou a população do jugo colonial, começou para eles, os Filhos de Tuga, um longo caminho de desenraizamento.  Em muitos casos, os militares regressaram a Portugal sem que nunca mais houvesse qualquer contacto com a vida de antes. Fidju di Tuga: é o nome que se dá às crianças nascidas destas uniões entre combatentes portugueses e mulheres guineenses. Apelação quase pejorativa, atribuída pelos outros, os que não carregam um passado colonial na sua pele. Decidiram reapropriar-se do nome para vincar a sua luta, que hoje passa pelo reconhecimento das suas raízes portuguesas.    Reportagem: 
Rosas, o disco testemunho da liberdade criativa da SAS Orquestra de Rádios
2025/12/30
Identificam-se como SAS Orquestra de Rádios e há 13 anos que usam a liberdade criativa para dar corpo sonoro a antenas analógicas e pequenos rádios de bolso modificados. O colectivo, formado por Simão Costa, Ana Trincão e Sónia Moreira, usa os instrumentos inusitados que cria e toca para promover uma busca por novas linguagens que se traduzem em experiências sonoras. Como projecto precursor essencialmente experimental, cada apresentação da SAS Orquestra de Rádios é única e irrepetível. É neste momento da vida, que jamais voltará a acontecer, que artistas e público se podem encontrar e se convocam para desenhar uma estética sonora de música e ruído. O desafio proposto pela SAS Orquestra de Rádios pode, inicialmente, não ser dos mais apelativos, mas há quem reconheça como efeitos positivos o facto de poder ter qualidades de renovação do sistema auditivo e inspirar viagens imagéticas. Para comemorar mais de uma década de actividade, a SAS Orquestra de Rádios lançou recentemente o primeiro disco, o vinil Rosas. A RFI quis saber mais sobre a SAS Orquestra de Rádios e foi falar com o colectivo. Infelizmente Simão Costa não pode estar presente, a nossa conversa aconteceu com Sónia Moreira e Ana Trincão, que começa por contar como nasceu um dos colectivos artísticos mais ludicamente vanguardista em acção em Portugal. Ana Trincão, SAS Orquestra de Rádios: Juntámo-nos em 2013, fizemos uma residência artística no norte de Portugal, num lugar chamado São Pedro do Rio Seco. Nessa residência, era uma residência em que tinhas que interagir com a comunidade, nós pedimos à comunidade que nos entregasse antenas de televisão, que naquela altura deixavam de ser utilizadas, porque havia uma mudança no canal da televisão em Portugal, e que nos entregassem também rádios antigos. O nosso intuito era, com isso, começar a construir uns instrumentos que juntavam rádios ligados a antenas e fazíamos uns instrumentos de DIY (Do It Yoursef) que tinham uma espécie de lógica, a lógica mais ou menos do Theremin. E foi nessa residência que tudo começou. Nós não sabíamos muito bem o que é que ia acontecer, mas o SAS Orquestra de Rádios nasce precisamente da construção desses objectos e depois de concluirmos que estes objectos tinham sonoridades particulares. Ao descobrirmos estas sonoridades, começámos a ter uma vontade de os fazer tocar juntos. A ideia da orquestra nasce daí, de fazer tocar estes instrumentos que nós construímos nesta residência. Como é que fazem funcionar? Como é que retiram o som dessas antenas, desses rádios? Como é que interagem com os objectos para que produzam som? Sónia Moreira, SAS Orquestra de Rádios: Os rádios que nós requisitámos são aqueles rádios de bolso básicos, que têm duas pilhas, que têm três volts, e é imaginar um género de um círculo em que esse rádio, quando aberto o seu sistema, com fiozinhos e solda, ele depois é ligado à antena, que neste caso, algumas eram antenas de telhado. E então, na própria parte experimental e de criação dessa residência artística, eu, o Simão e a Ana, fomos tentando criar circuitos, até que com o toque, entre uma ponta e outra da antena, com o rádio ligado, com o volume ligado, produz som. Mas também produz som porque o corpo é condutor de energia, e é assim que eles funcionam. É um género daquilo que se chama um Circuito Bending, que é pensar num círculo que só funciona quando ele está fechado e deixa de funcionar quando está aberto. A nível do som que emite, não só emite um som mais agudo ou mais grave conforme vamos pressionando no objecto, conforme o toque, mas também emite rádio. Por isso, nós conseguimos sintonizar ao mesmo tempo que deixamos emergir essa rádio, esse eter, dependendo se é Am ou FM, mas também vamos interagindo com aquilo que vai acontecendo com o toque na antena. Esta vossa acção, esta vossa actividade, como é que podemos identificar? Música? Trabalho com som? Como é que pode ser identificado? Ana Trincão: Olha, acho que a gente pensa em música, pensa em som, pensa em todas essas nomenclaturas. E a ideia também é poder brincar com o que é que é a música, o que é que é tocar um instrumento, o que é que é composição, o que é que é experimentação. Eu acho que nós, na verdade, mesmo quando falamos do projecto, variamos. Dependendo daquilo que estamos a falar, vamos variando no nome que utilizamos para definir aquilo que estamos a fazer. Por isso, às vezes é música, às vezes é noise, às vezes é espaços sonoros. Então, eu acho que, na verdade, a SAS trabalha um pouco o universo do som, talvez, como um todo, sem querer ou ter pretensão nenhuma de se inserir em nenhuma dessas categorias ou particularidades. E eu acho que isso também nos permite ser livres criativamente e despreocupados em relação àquilo que estamos a fazer e a produzir. Eu acho que é muitíssimo lúdico e experimental para nós. É permitir que os adultos brinquem, de certa maneira. E isso dá-nos, acho que, uma enorme liberdade criativa. Portanto, respondendo à tua pergunta, acho que é tudo isso e qualquer coisa em específico cada vez que estamos a criar com os rádios. Olhando para a história da música, dos compositores, há alguma referência que possam indicar que tenha trabalhado algo idêntico? Sónia Moreira:  O Xenakis (Iannis Xenakis), não é que ele nos tivesse servido de referência, mas, para mim, a posteriori, é de todo uma referência. Porque, como a Ana disse, e bem, não é que a gente se insira em algo específico, mas há coisas específicas que nos vão acontecendo. O Simão trazia-nos o Ligeti (Gyorgy Sándor Ligeti) sempre, que é uma pauta, que é escrita, para mim é mais desenhada do que escrita, mas, lá está, talvez seja mesmo defeito de profissão, com, imagina, círculos que são puxados ou com linhas repetidas. Não estás a falar de uma escala normal, do Ré Mi Fá Sol Lá Si, com cinco linhas e com o Dó Cá Embaixo, com uma clave de Sol, uma clave de Fá, não estamos a falar disso. Estamos a falar de uma coisa que é escrita no abstracto, são formas abstractas. E o Simão trazia-nos muito esse Ligeti, que nós usávamos também depois para trabalhar os workshops que fazemos com todo o tipo de público, que é onde o público toca as antenas, mas também desenha um género de umas partituras imaginárias baseadas nesse compositor, no Ligeti, com formas, linhas, com cores, sem cores, e depois tinham que as interpretar sonoramente com as antenas. Por isso, também é uma das referências que nós usávamos. Agora, há uma coisa que a gente diz sempre, que não tem nada a ver, falamos sempre, sempre no Mike Patton, dos Faith No More. Há qualquer coisa que nos une aos três, e temos um desejo escondido que era enviar um vinil ao Mike Patton. Se alguém tiver o contacto, por favor. Ana Trincão: Acho que o Cage, a gente sempre falou muitas vezes do John Cage. A forma como se compõe, como se pensa a música, e como se pensa a ausência da música também, ou do som. E acho que ultimamente Einsturzende Neubaten, por exemplo, principalmente no início da carreira deles, quando eles tocavam debaixo das Pontes de Berlim, onde eles se rebentavam com metais. Acho que também são referências que nós sempre conversámos e até hoje nos inspiram. Sónia Moreira: E é um universo visual, linguístico e conceptual que nos diz muito. Quando acontece de fazerem uma apresentação ao vivo, qual a percentagem de aleatório que há ou não nessa apresentação ao vivo?  Ana Trincão: O que é que acontece? De facto, nós temos, diria, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete instrumentos, que nós construímos. Para além desses instrumentos, em concerto nós usamos às vezes uma beatbox, e algumas vezes field recordings, sons gravados, ou um bocadinho de voz, ou uma música qualquer, outros apontamentos que usámos no disco, mas também já usámos em concerto. Nós sabemos, porque tocámos estas antenas há 13 anos, que elas têm particularidades a nível do som. Algumas são mais agudas, outras mais graves, umas apanham melhor o rádio, outras têm mais capacidade de criar ritmos, outros instrumentos têm uma qualidade mais solista, menos ritmado, é mais orgânico o som que produzem. Então, nós trabalhamos com este potencial. Mas, exatamente que som é que vai sair naquele momento daquelas antenas, nós não conseguimos controlar tão bem. Depende de quanto rádio se apanha, qual é a frequência que se apanha, a localização da sala, depende realmente de muita coisa. Portanto, a nossa prática faz com que a gente possa tentar organizar a dinâmica do concerto, o som, efetivamente, e as surpresas inúmeras que sempre nos acontecem, como feedbacks, retroalimentações. Coisas que nós não conseguimos controlar, também acontecem muitas vezes. Acho que aquilo que nós sabemos é como lidar com essas situações, ter sensibilidade para ouvir aquilo que estamos a produzir e trabalhar muito em tempo real. Há um universo, há um espectro, mas é irreprodutível, nós nunca fazemos concertos iguais. E nem é só a prática de que a cada vez que se toca, toca-se uma coisa diferente, é o facto de que o som que vai sair daqueles objetos, destes instrumentos, vai ser efetivamente diferente pela sua natureza. Esta conversa acontece inspirada pelo lançamento do primeiro disco, o vosso primeiro vinil, Rosas. Como é que foi a experiência de gravar? Sónia Moreira: Isto começa por um desejo de termos um disco, especialmente um disco vinil. Enquanto objecto, objecto artístico, é mesmo uma escolha definida. Que fosse um género de um objecto que, na verdade, é uma acumulação dos 10 anos do projecto. Nunca tínhamos ido os três para o estúdio, e decidimos que, com os dias do estúdio, que tínhamos que criar algumas metodologias para não ter demasiadas horas de grav
Cabo Verde e a aposta na economia azul na ilha de São Vicente
2025/12/27
A economia azul é uma forte aposta de Cabo Verde. Um sector estratégico nomeadamente na ilha de São Vicente onde estêve a reportagem de Charlotte Cosset. Numa altura em que esta parcela do barlavento cabo-verdiano tenta ainda recompôr-se dos efeitos da tempestade Erin que assolou a área no mês de Agosto. As dificuldades do sector pesqueiro são inúmeras no arquipélago. Quem o diz é Suzano Vicente, Presidente da Associação dos armadores de pesca, entre dificuldades materiais e a emigração da mão-de-obra. Os stocks de peixe escasseiam, apesar da enorme zona económica exclusiva do país, composto de ilhas. A economia azul é, por isso, estratégica para o arquipélago. A Frescomar é uma das empresas que emprega mais mão-de-obra de Cabo Verde, na ilha de São Vicente, na área das conservas de peixe, e é detida por um grupo espanhol. Manuel Monteiro é gerente geral e apresenta a actividade da empresa. Uma empresa de conserva de peixe, a trabalhar, pois com pescado cabo-verdiano, mas sobretudo à escala global. Também na ilha de São Vicente, no Calhau, está sedeado o projecto de aquacultura "Fazenda de camarão". Nélson Atanásio é um dos responsáveis do empreendimento, ele apresenta os respectivos viveiros, duramente afectados pelos efeitos da tempestade Erin.  Instantâneos da reportagem de Charlotte Cosset a partir da ilha de São Vicente sobre quem dá corpo à economia do mar, um sector estratégico para Cabo Verde.
Yetuedu, a rede social angolana que quer ser a maior de África
2025/12/12
Yetuedu, junta “yetu”, que em suaili quer dizer “nossa”, com “edu”, de “educação”. Assim, Yetuedu é o nome da plataforma angolana que quer oferecer uma nova experiência de redes sociais. Direccionada para a educação contínua e para o desenvolvimento académico, pessoal e profissional de jovens e adultos africanos, a Yetuedu apresenta-se como uma plataforma de aprendizagem social.   Joel Armando Manuel, fundador e CEO da plataforma Yetuedu, esteve em Lisboa, falou com a RFI e, entre outras coisas, revelou como as grandes multinacionais estão atentas à plataforma angolana e como as dificuldades que enfrentou, enquanto estudante de medicina, o impulsionaram a criar a Yetuedu. Conectando usuários a conteúdos práticos, mentores e oportunidades de capacitação para promover crescimento sustentável e inclusão no mercado de trabalho, o fundador da Yetuedu ambiciona que esta se transforme na maior plataforma digital de África. Joel Armando Manuel: A Yetuedu é uma rede social para o desenvolvimento académico, pessoal e profissional. Surgiu na sequência das dificuldades pessoais que eu tive durante a universidade, e depois, à medida que eu ia superando isso, notei que muitos passavam por essa dificuldade. Então, foi como uma forma de conectar as pessoas, dar suporte a tudo o que eles precisavam. Porque, na altura, eu precisava de bolsa de estudo, mentoria e principalmente conteúdos académicos. Era difícil ter materiais de estudo, bolsa de estudo e mentoria. Então, sabendo que é um problema que afecta muitos jovens, foi ali que surgiu a ideia de construir uma plataforma onde as pessoas conseguem encontrar bolsa de estudo, mentoria, curso, formações, enfim, tudo o que eles precisam para o crescimento pessoal e profissional. Porque muita gente perde muitas oportunidades por falta de alguém que possa lhes auxiliar. Então é daí que vem a Yetuedu. A Yetuedu surgiu há pouco tempo, mas já está na Web Summit. Como é que foi esse crescimento, no fundo, rapidíssimo? Na realidade, a Yetuedu surgiu há muito pouco tempo. Já iniciámos desde 2020, desde o processo de ideação, prototipagem, pesquisa, mapeamento do mercado. Já há bastante tempo, mas só disponibilizamos a versão final, MVP (Minimum Viable Product) final, em Maio. E por que está aqui? Tendo em conta o longo período de preparo que nós tivemos para, justamente, o lançamento. Para criar um produto à medida que estivesse em condições de competir com os que já existem e responder às demandas. Conseguimos fazer isso, conseguimos responder as necessidades. Isso foi o resultado. Yetuedu nasceu em Angola. O público-alvo é Angola? É para ficar só em Angola? Como é que é a perspectiva de evolução? Yetuedu nasceu em Angola mas não é só para Angola, é para o mundo. A partir do momento em que está no ar, está acessível para todos. Dos 6 mil usuários que nós tínhamos, uma boa parte estão alocados em Portugal, Brasil, Estados Unidos e tantos outros países. O nosso objectivo é que se torne uma plataforma, não apenas da CPLP, mas do mundo todo. Quais é que têm sido os grandes obstáculos ao desenvolvimento da Yetuedu? Quais foram as grandes ajudas para, no fundo, conseguir avançar neste arranque? Bem, o grande desafio é justamente para o financiamento. Até ao momento, nós não tivemos nenhum financiamento. Foi mesmo de custos pessoais, e isso tem sido um grande desafio para nós, inclusive, a pôr-nos em risco de querer desistir com o produto. Mas, no entanto, principalmente os recursos humanos e a infra-estrutura para manter a plataforma no ar. Porque os usuários produzem dados e esses dados devem ser alojados. Onde nós estamos baseados, em Angola, custam muito caro esses serviços. Isso tem sido um grande obstáculo para nós. Conseguir financiamento onde nós nos encontramos. Mas, temos é de agradecer ao Inapem (Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas - Angola) e à IFC (International Finance Corporation – “braço” do Banco Mundial) pelo grande apoio que nós tivemos, e por estarmos aqui na WebSummit. Ao nível de multinacionais do mundo tecnológico, houve algum apoio? Felizmente, tivemos suporte de grandes empresas como a Microsoft, a Amazon e tantas outras. No suporte tecnológico em créditos para nós utilizarmos, para nós conseguirmos manter a plataforma no ar. Se não fosse por essas empresas, nós não teríamos construído. Tivemos a possibilidade de mais apoio mas teríamos de nos deslocar de Angola para um dos países em que estão baseados. Ou seja, houve um reconhecimento, neste caso da Microsoft e da Amazon, do vosso valor. Exactamente. Houve um reconhecimento dessas empresas. Mas, elas não podem dar muito enquanto a pessoa não está ainda lá. Então, tivemos os créditos de startups. Mas, para termos muito mais, nós temos de nos deslocar. E eu agradeço a essas empresas pela iniciativa que têm tido. Estar na Web Summit foi um passo importante? Digamos que foi um dos passos mais importantes para nós como startup. Houve muitos contactos muito valiosos. Muitas propostas que, para nós, serviram bastante para parcerias estratégicas e oportunidades para investimentos. Então, a WebSummit foi uma das maiores oportunidades que nós tivemos na vida. Quais é que foram os contactos mais sedutores? Estamos a falar de contactos com o pessoal de Dubai, com o pessoal da Câmara de Negócios de Portugal e alguns singulares. Falando agora dos utilizadores, o que é que se encontra na plataforma Yetuedu? Quando se entra no Yetuedu, encontra-se uma rede social com espaço para mentoria, bolsa de estudo, conteúdo focado para desenvolvimento académico, pessoal e profissional, uma loja onde a pessoa consegue comprar tudo o que ajuda para o desenvolvimento pessoal e profissional. Por exemplo, computador, laptop, pode encontrar cursos para desenvolvimento, cursos, por exemplo, da inteligência artificial e não só. Encontra série de recursos para desenvolvimento. Pode fazer amizades, conversar, interagir com a inteligência artificial, machine learning. São "N" recursos para o desenvolvimento das pessoas. Como rede social, qualquer um pode publicar o que entender? Ou há um olhar vosso sobre os conteúdos e aquilo que não tem lugar na Yetuedu? Há sim um olhar nosso. Os conteúdos que devem ser publicados são conteúdos que ajudam para o desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes. Isso é justamente para diferenciar das outras plataformas que existem. Além disso, a nossa plataforma consegue filtrar, por meio da machine learning e inteligência artificial, conteúdos que não são apropriados e bloquear. Mas nós não estamos apenas online. A nível on-site, também realizamos mentorias para estudantes finalistas das universidades e do ensino médio ou profissionais também, nas quais essas mentorias têm um acompanhamento completo e integral. No final de tudo, eles têm oportunidade para estágios e até oportunidade para emprego. E dentro de breve, iremos lançar o maior programa de mentoria de finanças, contabilidade e seguro do nosso país. Como é que vai funcionar esse programa? Neste programa, nós teremos mentores formados em finanças, contabilidade e seguro de diversos países, não apenas de Angola. No entanto, a pessoa, ao se inscrever, tem acesso à mentoria especializada. Além de mentoria especializada, ela vai ter consulta de psicologia, um mentor em psicologia, um treinamento com um mentor sobre tratamento de imagem e, depois, um acompanhamento de carreira. Como ele pode penetrar no mercado de trabalho, currículo. E nós também iremos levar o perfil desse pessoal, levar para as empresas, para que consigamos facilitar o mercado de sua integração. E para quem tem na veia empreender, iremos também ajudar no desenvolvimento das startups dos nossos mentores. Em relação aos mais jovens, adolescentes ou pré-adolescentes, há espaço na Yetuedu para pessoas dessa faixa etária? Sim, há espaço. Sabemos que se nós queremos transformação e mudança, devemos começar desde mais cedo. Daí que nós temos o programa Líderes do Futuro, também, dentro da Yetuedu, cujo objectivo é ensinar aos mais novos, adolescentes e mesmo crianças, com praticamente mentorias de áreas específicas e não só, de, mais ou menos, o que lhes espera no futuro. Qual é o produto que é "mais procurado" ? O que são mais procurados são mentorias. Dentro da plataforma estamos a falar de vídeos curtos, e fora da plataforma estamos a falar em mentorias. As pessoas têm vontade por mentorias porque muitos desses estão à procura de um emprego, muitos jovens estão perdidos. Os vídeos, os produtos que aparecem na Yetuedu, são produzidos por quem? São produzidos pelos usuários. Alguns, por exemplo, são usuários especialistas em áreas específicas. Eles aqui produzem os conteúdos e colocam lá. No caso, a nossa equipa está lá simplesmente para regulamentar. No entanto, tem também produtos específicos nossos. Agora, para o desenvolvimento da Yetuedu, qual é o grande desafio? O grande desafio é o ecossistema tecnológico. No caso, servidores, cloud, computadores, essencialmente, e um espaço para poder trabalhar. E também os recursos humanos, nós precisamos de programadores. Então, são os principais desafios que nós temos. Depois de tudo isso seria o marketing. Estamos a falar de equipamentos, capital humano e o marketing. São os grandes desafios que nós temos. Há uma perspectiva de crescimento? Há, sim. O nosso objectivo é nos tornarmos a principal plataforma. A nível de África, queremo-nos tornar a principal plataforma digital. A nível mundial, queremos competir com as grandes. Mas quando se sai do espaço lusófono, há o problema da língua? A plataforma é em português, mas ela é traduzível para todas as línguas. Como os conteúdos são produzidos pelo pessoal l
Timor Leste 50 anos após declaração de independência e invasão indonésia
2025/12/11
Timor Leste acaba de assinalar 50 anos da invasão indonésia, a 7 de Dezembro, um acontecimento ocorrido logo a seguir à proclamação da independência a 28 de Novembro de 1975, após séculos de presença portuguesa. Juliette Chaignon deslocou-se a Timor Leste e falou com dirigentes que protagonizaram a luta de um povo independente apenas desde 2002. A reportagem de Juliette Chaignon leva-nos ao contacto de Carlos da Silva Lopes, resistente e fundador da Renetil, Resistência nacional dos estudantes de Timor Leste. Este foi formado na Indonésia e tentou alertar o mundo para a repressão do seu povo às mãos do exército de Jacarta. Ao microfone da enviada da RFI ele admite que também Portugal, antes da Indonésia, deixou um pesado legado em termos de repressão contra os timorenses sem nunca ter pedido desculpas a Timor Leste.   Eu, pessoalmente, tenho uma memória muito negativa de colonização portuguesa em Timor. Muitos dos meus familiares foram mortos na revolta de 1959. E muitos foram deportados para Angola e Moçambique. Alguns foram deportados para a ilha de Ataúro. Até agora, Portugal também não pediu desculpa ao povo de Timor. Também o deveria fazer porque cometeram também alguns crimes aqui em Timor durante 450 anos. Muitos foram mortos, muitos foram presos, deportados, fuzilados, massacrados. Também houve isso, mas muitas pessoas se calhar não sofreram isso. Por isso é que não sentiram. Claro que agora nós temos muita boa relação com Portugal e durante os 24 anos da ocupação indonésia também Portugal também fez muita coisa para libertar Timor. Se compararmos Portugal com a Espanha em relação ao caso de Sahara Ocidental, Portugal faz bem. Faz melhor do que a Espanha ao povo sarauí, o povo do Sahara Ocidental. Portanto, eu tenho as minhas críticas ao passado de Portugal, mas também aprecio, tenho uma grande apreciação ao povo português, ao Governo português que também apoiou muito a luta de libertação de Timor-Leste.   Qual a dependência económica de Timor Leste, precisamente, em relação à antiga potência colonial e ao ex ocupante, respectivamente Portugal e Indonésia ? Carlos da Silva alega que muitos dos produtos que abastecem o mercado local vêm da vizinha Indonésia. Eu não sei até que ponto é Timor economicamente dependente de Portugal e da Indonésia. O que sei é que nós estamos dependentes das nossas receitas do petróleo, que nós estamos a sustentar o nosso desenvolvimento. Mas Indonésia, como é o nosso país vizinho, com certeza que em termos económicos há muitos produtos que vieram da Indonésia e aí nós temos que reconhecer que, economicamente, principalmente em relação às produções das necessidades básicas, muitos vieram da Indonésia. Este fundador da Renetil afirma que Timor Leste mantém hoje relações estreitas com os demais países lusófonos à luz do apoio dado à resistência timorense durante a ocupação indonésia. Timor tem uma relação muito boa com os membros dos países de língua oficial portuguesa, principalmente os membros da CPLP [Comunidade dos países de língua portuguesa], como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Brasil. E nós temos essa boa relação com os membros dos PALOPs, Países africanos de língua oficial portuguesa. Isso já construímos esta boa relação desde o tempo da resistência até agora. Porque esses países, enquanto outros países estavam ao lado dos indonésios, esses povos irmãos dos PALOPs estavam ao lado dos timorenses e a defender Timor-Leste nas Nações Unidas e nos fóruns internacionais. Portanto, com esses povos irmãos, nós temos uma relação muito boa. Alguns timorenses foram enviados a estudar em Cabo Verde. Isso é muito bom, porque Cabo Verde... Digamos que é um governo democrático tem uma gestão de administração que é muito transparente. Então também é bom para os timorenses estudar lá, aprender lá para trazer algumas coisas boas de lá, para implementar cá em Timor. Neste xadrez geopolítico qual seria o domínio da língua portuguesa, nomeadamente após todos os anos do regime indonésio ? Carlos da Silva admite haver fragilidades quanto ao respectivo domínio e também algumas resistências. Não é uma língua fácil, é uma língua muito complexa. Os timorenses têm a capacidade de aprender muitas línguas, porque em Timor Leste também existia mais de 30 dialetos. Mas cada pessoa tem a capacidade de falar ou de entender, mas três, quatro, cinco dialetos daqui. Além disso, eles também podem falar... Alguns falam português, inglês, espanhol, francês, português. Portanto, há muitos que falam uma língua estrangeira. Mas se falam bem, se calhar não são muitas pessoas, mas há muitos que entendem entendem bem a língua portuguesa. Houve alguma resistência aqui em Timor, principalmente os mais jovens que nunca passaram pelas escolas portuguesas ou aprenderam mais a língua indonésia do que o português. Então esses praticamente não falavam português. Esses têm grande dificuldade e esse sector é que às vezes resiste à língua portuguesa. Porque a língua é para facilitar a interacção entre as pessoas é mesmo para facilitar. Como é que uma pessoa pode obter um emprego? Portanto, a língua não pode dificultar as pessoas. Mas quem a tem? Alguns pensam que a adopção do português dificulta a vida deles porque eles não falam português. Por isso é que nós sempre apelamos ao governo português para investir mais aqui em Timor. Em relação à educação na aprendizagem da língua. Investimentos para formação dos professores, mesmo para os mais jovens, a partir do jardim infantil. Ensinos básicos ou secundários ou pré secundários. Isso é muito importante. Se investimos pouco depois a exigir muito para os timorenses para dominar essa língua, também não é justo, porque para exigir também precisamos de criar condições para eles poderem aprender. Se não há condições para eles poderem aprender como é que nós esperamos de um bom resultado ?   Por seu lado Mari Alkatiri, secretário geral da FRETILIN, Frente revolucionária para a independência de Timor Leste, emblemático movimento de emancipação, actualmente na oposição, admite as dificuldades com que se debate a língua portuguesa no seu país e denuncia o que considera de erros nesta trajectória. A língua portuguesa em Timor-Leste está a passar por fases difíceis. Mas para quem vê como eu que estive que teve 24 anos fora do país como eu, quando cheguei cá, a língua portuguesa praticamente só os mais idosos e pessoas da minha geração é que falavam e entendiam. E eram poucas. Eram poucas pessoas. E o tétum, mesmo tétum praça, era uma mistura com a língua indonésia. Agora já não. Agora já se vê que o tétum praça tem mais língua portuguesa, tem mais mistura. E os jovens se se falar português pausadamente. já entendem mais agora do que antes. Já entendem mais. Tem que se saber que não é a primeira língua deles. Tem que saber como se fala para eles em português. Mas já entendem. Infelizmente, não houve muito investimento no português. Houve um erro estratégico muito grande quando se optou por literacia e numeração em língua materna. Quando qualquer educação de carácter nacional tem que se preocupar com a continuidade deste problema, não é só literacia, enumeração. Problema é a capacidade de raciocinar numa língua, numa língua já desenvolvida, para poder algum dia dominar a ciência e a técnica. Isso não aconteceu por erro de políticas sucessivas de privilegiar literacia e não merecia e não privilegiar capacidade de raciocínio mais global. Figura emblemática da resistência, a nível diplomático, que viria a ser galardoada com o Prémio Nobel da paz e, depois, a ascender aos mais altos cargos políticos do novo país Ramos Horta continua, neste momento, na presidência da república. Acerca do sofrimento ao longo da luta pela independência de Timor Leste José Ramos Horta estima não ser necessário um tribunal internacional para garantir a reconciliação com a Indonésia, antigo ocupante do território, durante praticamente um quarto de século. A reconciliação vem do coração, não vem de discursos políticos, não vem de processos de tribunal internacional. Como? Porque os tribunais internacionais só são impostos pelos países vencedores. A Alemanha derrotada... criou-se um tribunal, o Tribunal de Nuremberga. O Japão derrotado, criou-se o Tribunal de Tóquio. O mesmo aconteceu nos Balcãs. O tribunal da ex-Jugoslávia. Para o Ruanda o Tribunal de Arusha para o Ruanda. Nós decidimos: Não. Não haverá tribunais internacionais especiais. Vamos... Não esquecemos. Porque uma coisa é perdoar internamente, intimamente, outra é esquecer. Não, não vamos esquecer as nossas mães, os nossos pais, irmãos mortos. Vamos sempre amá-los, guardar nos corações, honrá-los porque o que eles mais querem é, lá onde eles estão no céu, é ver Timor em paz, sem ódio. Instantâneos das reportagens em Timor Leste de Juliette Chaignon, um país que acaba de assinalar 50 anos da proclamação da sua independência e subsequente meio século também da invasão indonésia. Este país nos confins da Asia e da Oceania é um dos mais jovens do mundo, tendo-se tornado independente apenas em 2002.
Guiné-Bissau: do promissor ao precário, turismo afectado pelo alegado golpe de estado
2025/12/07
Na Guiné-Bissau, a instabilidade política instalada desde a tomada de poder pelos militares poderá comprometer o sector do turismo, até aqui considerado promissor. Restauradores, gestores e vendedores manifestam preocupação quanto ao futuro. Apreensão essa partilhada por economistas, que veem neste regime militar a ausência de condições para garantir a estabilidade e a segurança indispensáveis ao bom funcionamento das actividades turísticas. No centro de Bissau, o Hotel Coimbra é uma das casas mais antigas da cidade. Acolhe turtistas, viajantes, empresários e jornalistas de passagem. A sua localização privilegiada no coração da capital - entre a praça dos Heróis, onde se situa o Palácio Presidencial, e o porto de Bissau - numa das esquinas da Avenida Amilcar Cabral, confere ainda mais visibilidade a este local já muito conhecido de Bissau. Abriu as portas no início dos anos 2000, depois da guerra civil. A 26 de Novembro deste ano, no dia do alegado golpe de estado, ouviram-se os tiros junto ao palácio presidencial, a poucos metros, no final da rua. Como tantos outros guineenses, César, gerente do Hotel Coimbra, viveu estes acontecimentos com muita suspição. O que eu penso sobre isto tudo? Para mim, isto foi uma coisa bem organizada e não se trata de um golpe de Estado. Foi organizado para beneficiar alguns grupos de pessoas, principalmente quem estava no governo ou quem estava na presidência. Isto não é bem um golpe de Estado, não. Eu sempre nego isto. Parece mais uma forma de demonstrar que eles querem ficar no poder.   A situação é incerta, e os clientes fazem-se raros. A instabilidade política e a incerteza dos próximos dias afectam os negócios. Desde 26 de Novembro, regista-se uma baixa de 85% nas reservas do Hotel Coimbra, 25 pessoas anularam a sua estadia. Houve muitos cancelamentos... Em termos de economia, isto vai ter muitas consequências. Quase não temos ninguém no hotel. Todo o mundo foi embora. A economia do país pode ir abaixo porque não há nenhum financiamento. Os organismos internacionais vão embora. Isto é certo. E num pais que não tem recursos.... que vive da ajuda da comunidade internacional... Sem esta ajuda externa, como é que o país pode andar? Não pode. O famoso mercado artesanal de Bissau é um dos outros núcleos turísticos da capital. Com as suas ruas em terra batida, cobertas por árvores, deambula-se entre ateliers de artesanato local, compra-se ou admira-se as estátuas de madeira, os tecidos coloridos, os balafoms e outros instrumentos de música. Tidjane, vendedor, está sentado e olha para as ruelas meio-vazias do mercado. Está muito calmo neste momento. Naquele dia do conflito houve muito barulho, as pessoas foram se refugiar. Muitos foram para as suas aldeias. Não há muitos turistas neste momento, porque alguns se refugiaram, outros voltaram para a Europa. Mas penso que a situação vai normalizar. Já está mais calmo, mais controlado. No mercado há quem sirva comida. Augusta Gomes, cozinheira, é dona de um estabelecimento com cinco mesas onde os turistas costumavam almoçar, beber um sumo de cabaceira ou de veludo, especialidades de cá. Mas aqui também o espaço está meio-deserto. A cozinha também faz parte da arte local. Mas neste momento estamos a trabalhar a meio gás... Desde que começaram essas complicações quase tudo está parado. Não estamos a fazer nada. Estamos a vir aqui só porque temos que vir. Mas não estamos a ganhar nada. Desde o alegado golpe de Estado, e após dois dias de paralisação total — durante os quais comércios, restaurantes, instituições e tudo o resto receberam ordens para permanecer fechados —, a vida ainda não voltou à normalidade. Augusta Gomes admite sentir-se apreensiva quanto ao futuro.   Estou muito preocupada. Aqui na Guiné, vivemos daquilo que ganhamos diáriamente. Se tudo está parado, o que é que vamos fazer? Vivemos com menos de 1 dólar por dia. Temos crianças que já não vão à escola. O nosso negócio está estragado. Naquele dia em que se ouviram os tiros [no palácio presidencial], tivemos que sair depressa, deixámos tudo aqui e a comida estragou. Todos saíram fugindo. E nós, mulheres, estamos a batalhar no dia-a-dia para a nossa sobrevivência. Só posso pedir a Deus para que tranquilize o coração dos homens. E que olhe para nós, mulheres. Que os homens nos deixem um pouco tranquilas, que nos deixam trabalhar. Se não trabalharmos, não comemos, não sustentamos os nossos filhos. Está tudo perturbado, desde aquele dia que eles dispararam tiros no palácio presidencial? Começaram a assustar as pessoas. Ninguém sabe porquê. Até hoje ninguém tem explicação para o que aconteceu. Na universidade Colinas de Boé, no norte de Bissau, o economista José Nico Dju lecciona aulas em três turmas diferentes. As aulas retomaram, quatro dias depois do golpe de estado, e a situação do país é obviamente tema que se debate aqui na sala de aulas. Mas tanto os alunos como o professor se questionam sobre o futuro que a Guiné-Bissau tem pela frente. Isto é muito preocupante. O turismo representa uma grande vantagem para a Guiné-Bissau. Mas devido à situação, as expectativas certamente irão diminuir. O turismo representava, até agora cerca de 1% do Produto Interno Bruto da Guiné-Bissau, o que não representa uma grande fatia, mas era um sector promissor. E para o economista José Nico Dju, o turismo não resistirá a uma estadia prolongada dos militares no poder. Com os militares no poder, significa que estamos numa situação de emergência, num estado de sítio, numa situação da anormalidade. Não se pode falar em actividades turísticas num contexto em que o país está a ser governado por militares. As actividades turísticas precisam de estabilidade, e sobretudo de segurança, para atrair turistas. Enquanto o poder não for devolvido a actores políticos civis, o país continua em situação de desconforto. As relações com os parceiros económicos internacionais poderão deteriorar-se, afectando o volume de negócios, e consequentemente, a taxa de desemprego.
Carolina Bianchi obriga o teatro a repensar o poder masculino na história da arte e das violências sexuais
2025/12/01
A peça “The Brotherhood”, da encenadora brasileira Carolina Bianchi, foi apresentada em Paris, no final de Novembro, no âmbito do Festival de Outono. Este é o segundo capítulo de uma trilogia teatral em torno dos feminicídios e violências sexuais e mostra como uma inquebrantável força masculina tem dominado a história da arte e do teatro, engendrando simultaneamente violência e amor quase incondicional pelos “grandes génios”. “The Brotherhood” é o segundo capítulo de uma obra sísmica, uma trilogia teatral em torno da violência contra as mulheres em que Carolina Bianchi e a sua companhia Cara de Cavalo mostram como o misterioso poder das alianças masculinas tem dominado a história da arte, do teatro e das próprias mulheres. Em 2023, no Festival de Avignon, a encenadora, actriz e escritora brasileira quebrou fronteiras e despertou o teatro europeu para a sua obra com o primeiro capítulo da trilogia “Cadela Força”, intitulado “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”. Nessa peça, arrastava o público para o inferno dos feminicídios e violações, a partir da sua própria história, e ingeria a droga da violação, ficando inconsciente durante grande parte do espectáculo. Agora, em “The Brotherhood”, Carolina Bianchi volta a trazer consigo as 500 páginas da sua tese e expõe incontáveis histórias de violência contra as mulheres, glorificadas por Shakespeare, Tchekhov e também tantos dramaturgos e encenadores contemporâneos. Ao mesmo tempo que questiona toda a complexidade que gera a deificação dos “génios” masculinos na história da arte e no teatro, Carolina Bianchi demonstra, com brilhantes laivos de ironia, que os deuses têm pés de barro e que as musas têm uma espada numa mão, mas também uma mão atrás das costas porque - como ela - têm um amor incondicional pelos “mestres”. Este segundo capítulo volta a abrir com uma citação de “A Divina Comédia” de Dante, situando-nos no purgatório e antecipando o inferno. Talvez por isso, uma das primeiras questões colocadas pela actriz-escritora-encenadora é “o que fazemos com esse corpo que sobrevive a um estupro?”, a essa “morte em vida que é um estupro”? O teatro de Carolina Bianchi ajuda a pensar o impensável ao nomear a violência e ao apontar todos os paradoxos intrínsecos ao teatro e à arte: afinal, não é o próprio teatro quem perpetua a “brotherhood”, esse tal sistema que se autoalimenta de impunidade e violência, mas que também se mantém porque “somos todos brotherhood”? Em “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, a principal inspiração de Carolina Bianchi era a artista italiana Pippa Bacca, violada e assassinada. Em “The Brotherhood”, é a poetisa Sarah Kane quem mais a inspira pelo seu amor à poesia e à própria violência. Quase como uma fatalidade, Carolina recorda que Sarah Kane dizia que “não há amor sem violência”. Uma violência que atravessa toda a peça, como um tornado, porque “a violência é uma questão infinita para mim” - explica a encenadora à RFI. Resta saber quanto tempo as placas tectónicas da “brotherhood” no teatro vão conseguir resistir ao tornado Carolina Bianchi.   “The Brotherhood” foi apresentado no Festival de Outono de Paris, de 19 a 28 de Novembro, na Grande Halle de La Villette, onde conversámos com a artista.                                        “O que significa situar-se no teatro depois de voltar do inferno?” RFI: O que é “The Brotherhood” e porque é que lhe consagrou a segunda parte da trilogia “Cadela Força”? Carolina Bianchi, Autora de “The Brotherhood”: “‘Brotherhood’ vem de uma expressão da Rita Segato, que é uma antropóloga argentina, que quando eu estava estudando para o primeiro capítulo ‘A Noiva e o Boa Noite Cinderela’, eu cheguei a essa nomenclatura. Ela diz ‘brotherhood’ para essa essa fraternidade entre homens, em que o estupro é parte de uma linguagem, de uma língua falada entre esses pares. Então, ela coloca o estupro como algo que é uma questão da linguagem com que essa fraternidade conversa, é uma consequência dessa conversa e isso para mim foi muito interessante de pensar porque tem esses aspectos dessa protecção. Fazer parte dessa fraternidade tem coisas maravilhosas e tem coisas terríveis e também acho que o espectáculo revela isso. Essa fraternidade é extremamente nociva, extremamente daninha para os membros dessa fraternidade também, para aqueles que são excluídos da fraternidade, e para aqueles que também fazem parte ela pode ser muito cruel. Acho que a peça busca trazer essa complexidade, é uma situação complexa de como olhar para esse amor que nós temos por essas grandes figuras da arte que se manifestam nesses homens que foram importantes, que são influenciadores, por exemplo, do teatro e em toda parte. O que é que atribui essa fascinação, esse poder e a complexidade que isso tem, as coisas terríveis que isso traz. Acho que é um grande embate com todas as coisas e eu não estou excluída desse embate, dessa contradição. O amor que eu sinto por esses grandes génios também é colocado ali numa posição bastante complexa e vulnerável.” O que faz desse amor que tem pelos “grandes génios”? Como é que, enquanto artista mulher, o mostra e, ao mesmo tempo, o denuncia? Diz que a peça “não é uma denúncia”, mas o que é que se faz com todo esse amor? “Eu acho que essa é uma das grandes perguntas da peça. O que é que a gente faz com todo esse amor? Eu não sei porque continuo habitando esse ponto de sombra, de contradição que é um ponto que me interessa habitar dentro da arte, dentro do teatro. Para mim, é mais sobre essa grande pergunta. Eu não tenho essa resposta. Eu não sei o que a gente faz com esse amor, mas eu acho que poder nomear que esse amor existe e que ele é complexo e que é difícil e que tem consequências e coisas que são dolorosas a partir desse amor foi uma coisa importante para mim. Como eu digo em cena, não é uma peça de denúncia, não é esse o lugar da peça, mas levantar essas questões e olhar do que é feita também essa história da arte. A trilogia toda traz muito essa pergunta: como a arte tem representado ou tem sido um espelho de coisas que, de facto, acontecem na sociedade e mesmo a arte, com toda a sua história de vanguarda e com toda a sua liberdade de certos paradigmas, ela consegue também ainda se manter num lugar de prosseguir com certos tipos de violência.” Em 2023, quando falámos do primeiro capítulo, “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, disse que era “uma antecâmara do inferno, já com um pé no inferno”. Agora abre novamente com uma citação da Divina Comédia. Continuamos no inferno ou estamos antes no purgatório? “Sim. Nesta peça já estamos num purgatório, é acordar no purgatório. Tem uma frase da peça que é: “O que significa situar-se no teatro depois de voltar do inferno?”. Acho que essa frase resume um pouco essa busca de um posicionamento. Eu descreveria a peça como uma grande crise de identidade. Ela parte de uma crise de identidade, como uma jornada nesse purgatório, seguindo um mestre – como Dante segue Virgílio nesse purgatório. O mestre aqui seria um grande encenador de teatro, um grande artista, esses reconhecidos génios como a gente se refere. Acho que seria isso, seria uma jornada dessa tentativa de se situar num contexto do teatro. O teatro não é só um assunto da peça, o teatro é uma forma, é a linguagem como esta peça opera a sua discussão, a sua conversa.” Ao mesmo tempo que o teatro consegue pôr em palavras o que a Carolina descreve como a “fenda” que é a violação, o teatro também perpetua esse sistema de “brotherhood”, o qual alimenta a impunidade e a violência. Por que é que o teatro contribui para a continuação desse sistema e como é que se pode travá-lo? “Aí tem uma pergunta que eu não tenho resposta mesmo e que acho que nem existe: travar uma coisa dessas. Eu acho que sou pessimista demais para conseguir dizer que isso vai acabar. O facto de estar tão imersa nos estudos dessa trilogia vai mostrando que isso, para mim, está longe de terminar. Acho que a gente tem vivido transformações bastante importantes, contundentes, em termos de mudanças mesmo, mas acho que talvez a maior mudança que a gente tem aprendido, falando numa questão de corpos que não estão dentro dessa masculinidade que tem o poder, eu acho que é a questão da autodefesa que a escritora Elsa Dorlin aponta muito bem. Então, acho que uma das estratégias de autodefesa também é conseguir falar sobre certas coisas, é conseguir articular, talvez através da escrita, talvez através desta arte que é o teatro, nomear mesmo certas coisas, trazer esse problema para um lugar de debate. Para mim, a questão das respostas é impossível, é impossível, é impossível. Eu acho que o teatro tem essa história como parte de uma questão da própria sociedade. O teatro começa com esse actor que se destaca do coro, a gente tem a tragédia, a gente tem essa perpetuação dessa jornada heroica, os grandes encenadores, os grandes dramaturgos que eram parceiros dos grandes génios. A gente tem uma história que é feita muito por esses grandes mestres.” Mas, se calhar, as placas tectónicas do teatro podem começar a mudar, nomeadamente com o que a Carolina faz… Um dos intérpretes diz “Somos todos Brotherhood”. A peça e, por exemplo, a parte da entrevista que faz ao encenador “génio” não é a demonstração de que, afinal, não somos todos “brotherhood”? “Aí é que está. Eu acho que não. Eu acho que tem uma coisa que é menos purista nesse sentido do bem e do mal, do lado certo, do lado errado. Eu acho que é justamente isso. Tudo aqui neste trabalho está habitando esse lugar de complexidade, esse lugar de que as
Djintis: Bissau transforma-se num palco vivo de "cultura e resistência”
2025/11/22
Bissau acolhe, entre 17 de Novembro e 7 de Dezembro, o Festival Djintis – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau. Serão apresentados vários espetáculos, oficinas e residências em diferentes espaços da cidade, transformando Bissau num verdadeiro palco XXL. A edição deste ano inspira-se nos elementos Terra e Fogo para orientar a programação, que assume uma dimensão panafricana e internacional, com o objetivo de reforçar os laços comunitários num contexto global marcado pela divisão. Os organizadores do Festival Djintis evocam a afirmação do escritor guineense Abdulai Sila: “há correntes que não se veem, mas movem barcos e pessoas”. Ismael Cassamá, jovem artista guineense, participa numa das oficinas do Festival orientada pelo encenador suíço Patrick Mohr. Reúnem-se diariamente para ensaiar no palco do Centro Cultural Francês de Bissau. Ismael, artista transdisciplinar, dança, escreve, canta e cria performances. “Parar e sentir-me impotente… é um dos meus maiores medos! Quando não faço nada, procuro fazer algo. Se estou sozinho em casa, procuro criar: uma coreografia... um texto, qualquer coisa, para não ficar parado”, explica, sentado no anfiteatro do Centro Cultural. Viver da cultura na Guiné-Bissau não é simples, admite o artista. “Aprendi que em nenhuma parte do mundo é fácil ser artista. Mas na Guiné-Bissau torna-se ainda mais difícil. As pessoas pensam que quem faz teatro faz comédia. És comediante. Mas o teatro também educa, sensibiliza e possui uma força capaz de transformar, tal como a dança. Aqui, quando alguém dança, pode ser visto de várias formas: pode ser considerado uma grande figura, um rei, ou… simplesmente um mendigo.” Em pleno período eleitoral, fala-se muito das divisões étnicas. Ismael, enquanto artista, interroga-se sobre a forma como o teatro enfrenta esta questão e sobre o significado da guineendade. “Não havia divisões étnicas quando conquistámos a independência; só depois começaram a surgir. Agora diz-se ‘sou Papel’ ou ‘sou Balanta’. Eu prefiro pensar que sou guineense, sou africano, sou do mundo. Não esqueço os meus ancestrais e quero tornar isso evidente em cada palco a que subo, em cada canção que canto, em cada palavra que lanço da boca. É isso, apenas isso. Quero transmitir essa força a mais pessoas.” Programação panafricana e internacional Os espetáculos decorrem em vários pontos de Bissau, nomeadamente no espaço Ur-GENTE — um centro de programação e formação em Artes Cénicas Transdisciplinares, que está na origem desta segunda edição do Festival Djintis. Carolina Rodrigues, coordenadora e diretora artística do projeto Ur-GENTE, explica: “Vamos receber companhias de vários países europeus e da América do Sul. Do continente africano, teremos espetáculos ou equipas do Benim, Senegal, Cabo Verde e uma companhia, a ‘Company’, composta por artistas da República do Congo, Burkina Faso e Martinica.” Na fachada colorida do centro Ur-GENTE destaca-se uma serpente multicolorida. Logo à entrada, encontra-se o café-teatro. Celeste Sanhá, responsável pelo espaço, conhece todos os que por ali passam. “Vêm estudantes, vêm curiosos, vêm embaixadores, vêm os moradores do bairro… Muitos chegam aqui a perguntar o que é este espaço. Depois entram, tiram fotografias e acabam a dançar!”, ri-se. Toda a programação do Festival Djintis é gratuita e acessível a todos. O encerramento está marcado para 7 de Dezembro.   O DJINTIS – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau é uma iniciativa integrada no projeto "Ur-GENTE – Centro de Formação em Artes Cénicas Transdisciplinar de Bissau", promovido pela ONGD VIDA, em parceria com o Ministério da Cultura, Juventude e Desportos da Guiné-Bissau. É financiado pelo Camões, I.P., e cofinanciado pela Câmara Municipal de Almada, Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI Portugal), Institut Français e PNUD (Guiné-Bissau). 
“Se hoje se fala em Dança profissional em Angola, deve-se à nossa Companhia”, Ana Clara Guerra Marques
2025/11/21
A Companhia de Dança Contemporânea de Angola prepara-se para celebrar 34 anos de actividade e é a única Companhia de Dança profissional no país. Recentemente, a Companhia, que tem como directora artística e fundadora a bailarina e coreógrafa Ana Clara Guerra Marques, fez uma digressão que passou por diversas cidades de Portugal e Espanha. Na capital portuguesa, em quatro datas no palco do Teatro da Comuna, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola apresentou a mais recente criação: O Vendedor de Inutilidades. A peça, coreografada por Andy Rodriguez sugere é uma reflexão sobre a identidade na era digital e o paradoxo de uma sociedade que, aparentemente, está mais conectada e, simultaneamente, mais isolada. A RFI aproveitou a presença da Companhia em Lisboa e falou com Ana Clara Guerra Marques. Já sem público na sala mas com os holofotes ainda ligados, a directora da Companhia falou-nos, entre outras coisas, de Angola, de África, do papel da dança contemporânea, dos desafios de manter em funcionamento uma Companhia de Dança Contemporânea em Angola, do reconhecimento do público, da criação de públicos e do mais recente trabalho, a peça Vendedor de Inutilidades.   Isto é uma peça que discute um tema que é, também, actual. É a discussão entre o mundo real e o mundo virtual. Até onde o mundo real ainda tem algum valor, dado que as pessoas estão cada vez mais postadas em criar uma segunda vida, uma segunda imagem, uma segunda personalidade no mundo virtual, que é completamente atractivo, mas que de repente ainda resta em nós alguma coisa de humano. Portanto, há este conflito. Há sempre este conflito entre os pais e os filhos, entre os jovens e os menos jovens, entre os jovens e os próprios. E a peça discute um pouco isto, de que forma. E é, enfim, crítica, de certa forma. As pessoas estão a entregar-se, de tal forma, a esta realidade virtual que se esquecem de ser humanas. E, portanto, até se estão a esquecer, inclusive, de ser quem são. As pessoas, às tantas já não sabem que cara têm, porque os filtros ajeitam as caras todas. Enfim, nesse mundo virtual, tudo é possível. E, portanto, as pessoas, de repente, deixam de perceber que são seres sociais, que vivem numa sociedade rodeada de pessoas, de carne e osso, que têm filhos, que têm família, que há animais lá fora, árvores, plantas, que há o céu e as estrelas. As pessoas, de repente, deslocam-se todas, ainda que muitas vezes mentalmente, para um universo que não é, ainda, não sei, o universo em que nós vivemos.   A companhia esteve em Espanha, em Portugal esteve no Norte, Centro, agora em Lisboa. Como é que tem sido a recepção?   Tem sido muito boa. As pessoas gostam do trabalho, gostam de ver a companhia. Eu acho, e no fundo é, também, um bocadinho a nossa intenção e a nossa missão, é mostrar que Angola não é apenas um país, como outros países em África, que muitas vezes são formatados pela Europa, como países. Às vezes, é África, não é? Portanto, às vezes parece que aquilo é tudo um país, enfim, um território onde as pessoas ainda só dançam com batuques e com apelo às tradições, aos ancestrais, etc. Muitas vezes, tem-se esta ideia, e pretende-se, não é? Que tudo o que venha da África, ou, neste caso, venha da Angola, seja algo, assim, mais tradicional, digamos assim, mais étnico. Esquecem-se que nós estamos todos no século XXI. A África também está. E nós somos um país com uma população muito jovem e que temos o direito, não é? Temos o direito a pensar e a reformular as formas de dança, as formas artísticas, os diálogos, as propostas estéticas, as linguagens. E, portanto, as pessoas gostam. Às vezes, ainda há uma ou outra pessoa a quem escapa, “ah, eu pensava que fosse outra coisa” e tal. Pronto, é normal esperarem isto. Nós temos que contrariar esta ideia, não é? Nós não somos os eternos atrasados, nós não somos os eternos tradicionais do calor, do pôr do sol, dos ocidentais. Portanto, é preciso perceber que nós também pensamos e nós também, enfim, equacionamos as linguagens de uma outra forma. Tem sido bem recebido. As pessoas têm gostado muito. Por exemplo, em Espanha, a nossa ida lá foi realizada por uma universidade, pela UNED (Universidade Nacional de Ensino à Distância). Houve umas jornadas académicas à volta do trabalho da companhia. Uma mesa redonda, uma conferência, um workshop, foi muito interessante. Nós trabalhámos com os professores e com os alunos, pessoas que não estão ligadas à dança. Foi uma aula prática, digamos assim. E depois tivemos um ensaio aberto já numa instituição de ensino superior da dança, no Instituto Superior de Dança  Alícia Alonso, que foi também muito interessante, porque já é outro tipo de público. E pronto, as pessoas gostaram, elas ficam sensibilizadas e acho que a mensagem passa. Eu não sou muito de acordo com que as linguagens artísticas são universais, mas a verdade é que há temas que são universais. Há questões que atormentam toda a gente. Por exemplo, o que nós apresentámos em Espanha, o ensaio, chamava-se Onde o Vento Não Sopra, uma peça sobre a imigração. Foi a peça que nós criámos para a temporada do ano passado. Tem um tema que preocupa as pessoas e ao qual nós temos que dar atenção. Portanto, as pessoas identificaram-se, percebem os personagens e percebem tudo aquilo e ficaram muito sensibilizadas. Acho que o trabalho tem sido bem recebido. E isto tem acontecido, mais ou menos, um pouco por todo o mundo onde nós já temos passado. Realmente, a companhia, nós achamos que é realmente a embaixadora desta cultura mais contemporânea, sobretudo a dança contemporânea, no mundo. Nós já visitámos muitos países, muitas cidades. Nós temos muito essa vontade de que as pessoas olhem para nós como algo que vem de um país que tem, enfim, muitas vezes uma má reputação cá fora, política, corrupção, etc. É um país que, como todos os países, tem coisas más e tem coisas que são, enfim, melhores. Portanto, acho que nós conseguimos dar esta imagem de qualidade de um país para o qual se olha, infelizmente, como sendo uma verdadeira balbúrdia, actualmente.   Quais são os objectivos de uma companhia de dança contemporânea num país como Angola? Quando olha para a população angolana, o que é que procura oferecer-lhe? Nós queremos marcar a diferença e fizemos isso. Somos uma companhia histórica. Marcar o progresso, de uma certa forma. Ou seja, os nossos objectivos são, essencialmente, um trabalho experimental, um trabalho de buscar novas linguagens, novos conceitos, novas estéticas para a dança, num ambiente cultural, social e político, de certa forma, conservador, relativamente às artes. Por isso, o nosso trabalho não é um trabalho propriamente muito querido no nosso país, se bem que nós tenhamos o nosso público e pessoas que realmente gostam do trabalho, apreciam e entendem, e orgulham-se desta companhia. Portanto, a nossa missão, digamos assim, é realmente essa, é resistir contra tudo e contra todos, porque este tem sido o nosso percurso de obstáculos permanentes e, enfim, nós sobrevivemos por nós próprios, sem apoios, sem nada institucionais, ou seja, do Estado. Mas a nossa ideia é justamente essa, é trazer as pessoas a um outro patamar da dança, ou a um outro domínio da dança. Ela tem muitas possibilidades, muitos domínios, enfim, ela revela-se de diversas formas. Não é substituir a tradição e etc., porque isto há-de ser sempre e vão ser sempre as nossas raízes, mas, em realidade, nós pretendemos que as pessoas percebam que, como forma de expressão de qualquer tema, nós temos que ter um trabalho como este, um trabalho técnico, um trabalho profissional, um trabalho em que os bailarinos têm que ter uma formação, em que os coreógrafos têm que ter uma preparação e uma formação. A Companhia tem toda uma equipa que mais nenhuma Companhia em Angola tem. Os nossos bailarinos têm um salário mensal, descontam para a segurança social, para assegurar o seu futuro, etc… . Não há outra organização (assim). Nós temos os estatutos legais enquanto associação cultural, sem fins lucrativos e esta, no fundo, é a nossa missão. Ainda que as pessoas possam não entender muito bem. Eu acredito que não há pessoas incultas ou pessoas que não sabem ou pessoas que têm melhor acesso às coisas, ou fluem de uma maneira mais elevada, digamos assim, porque têm acesso a uma grande informação cultural. Eu acho que todas as pessoas têm sensibilidade e, a partir do momento em que tenham sensibilidade, qualquer pessoa de qualquer estrato social e de qualquer proveniência pode, se quiser, deixar-se ir e estar aberta e disponível, pode tirar das peças que nós criamos alguma mensagem. As leituras são múltiplas e as pessoas têm o direito de as ler. O que interessa é que as pessoas percebam que a dança não é só entretenimento e que tem este lado de arte, este lado de linguagem vanguardista. No fundo, se é preciso mudar, tem que haver uma companhia dança contemporânea que puxe por isso. Não é só divertir as pessoas, isso é o que as pessoas gostam, mas nós tornámos o trabalho, essa interpretação, mais difícil. Mas tem que ser, temos de evoluir. Na Companhia de Dança Contemporânea de Angola, o trabalho não se cinge só às peças que apresentam em palco, há, paralelamente, um trabalho junto da comunidade.   Sim, nós fazemos programas, workshops, aulas abertas, enfim, organizamos encontros e conversas com as pessoas. Realmente, nós gostaríamos de ter uma relação mais próxima, muito mais próxima com a comunidade, mas a Companhia de Dança Contemporânea, como eu te disse, tem muitas dificuldades para se manter, para se movimentar e para estar. A equipa é muito pequena, nós somos muito poucos. Tu sabes que o trabalho profissi
Mais de 50 mil trabalhadores fazem a cidade de Paris funcionar todos os dias
2025/11/14
Desde creches, até recolha do lixo aos esgotos, a cidade de Paris tem 53 mil trabalhadores que ajudam a cidade a funcionar todos os dias. Isto de faz da cidade de Paris um dos maiores empregadores da região, mas também que permite a quem não terminou os estudos secundários ter uma carreira longa com formação ao longo da vida. Muitas vezes, Paris é descrita como o cenário de um filme. Se é verdade que a cidade já serviu literalmente de cenário a inúmeros filmes, séries e documentários, tal como num filme em que há técnicos de luz, guarda-roupa ou guionistas, a cidade de Paris faz-se todos os dias com a ajuda de 53 mil funcionários que se dividem em mais de 330 profissões. Olivia Polski, vereadora da cidade Paris encarregue dos recursos humanos da cidade, explicou em entrevista à RFI porque é que a cidade tem tantos trabalhadores. "A cidade de Paris emprega 53.000 pessoas em mais de 330 profissões diferentes. Podem ser jardineiros, cantoneiros, assistentes de creche, assistentes sociais, médicos, técnicos de administração, temos um grande número de trabalhos muito diferentes. Em Paris somos uma excepção, tanto somos uma câmara municipal como somos uma região administrativa. Portanto, temos uma competência dupla. E isso também explica porque temos tantos funcionários. E, claro, temos muitos habitantes e serviços para oferecer aos parisienses, sendo que temos essa dupla função", disse a responsável. Mesmo com esta dupla função, há críticas em relação ao número de trabalhadores na cidade, já que, em comparação, todas as instituições europeias têm 60 mil funcionários e todas os governos civis de França têm 30 mil funcionários. No entanto, nenhuma destas estruturas tem as mesmas competências de Paris. O número de funcionários e as suas diferentes funções, fazem com que a organização seja imprescindível na gestão quotidiana da cidade. "A maioria dos nossos agentes são agentes no terreno. A maioria deles são agentes de campo, como, por exemplo, os nossos cantoneiros. Os parisienses vêem os trabalhadores da Câmara Municipal a trabalhar um pouco por toda a cidade. Claro que temos um grande número de profissões muito diferentes, portanto, é um verdadeiro desafio organizacional. Para gerir todos estes trabalhadores os nossos serviços estão divididos em cerca de vinte directorias temáticas. Por exemplo, há o departamento da via pública, outro de gestão de resíduos ou ainda a polícia municipal. E, no dia a dia, também descentralizámos bastante a organização nos últimos anos, trabalhando em conjunto com os conselhos municipais de cada bairro", explicou.  Paris é assim um dos maiores empregadores da região, no entanto, é também uma possibilidade de quem não acabou os estudos de encontrar uma profissão estável e onde há possibilidade de evolução, garante a vereadora Olivia Polski. "Muitos dos nossos recrutamentos se fazem através de concursos públicos, já que se trata da função pública, mas também temos postos em que não há concursos. Somos, aliás, um dos principais empregadores da região de Ile de France que recruta pessoas mesmo que não tenham completado o ensino secundário. Nos dois casos, por concurso ou sem estudos superiores, praticamos a aprendizagem ao longo da vida. Dizemos que quem trabalha para a autarquia de Paris tem sete vidas como um gato. É possível que alguém entre para os nossos quadros sem ter concluído a escolaridade obrigatória e que termine no topo da carreira. Esta evolução é possível para todos os nossos agentes, mas claro que nem todos querem", detalhou a vereadora de Paris. Se Paris tem actualmente níveis elevados do preenchimento das vagas de emprego, nem sempre foi assim. O recrutamento em França está muito condicionado pelo ambiente económico e muitas pessoas preferem trabalhos precários, mas que possam ter mais liberdade. No entanto, e perante as crises que o país tem enfrentado desde a covid, aos impactos da guerra na Ucrânia e a instabilidade política, a função pública tem sido um refúgio bem vindo para muitos trabalhadores. "A questão da atractividade função pública não diz só respeito a Paris, mas aplica-se também a outros territórios e ao Estado em geral. Em alturas em que as pessoas procuram maior mobilidade e flexibilidade, a administração pública não parece tão atractiva. Nós temos a vantagem de quem trabalha para nós sentir, desde logo, que o seu trabalho faz sentido, ou seja, há uma razão para realizar as suas missões já que se serve o interesse colectivo, mas também são trabalhos com grande estabilidade e segurança. Ora, quando o clima económico muda e há maior imprevisibilidade, as pessoas têm tendência a concorrer mais para a função pública. E, nesta altura, devido ao que se passa na economia francesa, apenas 2% das nossas vagas estão disponíveis. É um óptimo resultado e continuamos a tentar tornar as nossas carreiras atractivas e nalgumas vagas chegamos a pagar bónus. De forma a facilitar o contacto com os nossos candidatos, criámos um site com todas as ofertas de trabalho da cidade de Paris. Isto não impede que haja sectores em que há escassez de pessoal. Vemos muito isso nos cuidados com a pessoa, como médicos ou enfermeiros, mas também temos falta de trabalhadores nas creches", argumentou. Se a beleza de Paris é lendária, a antipatia dos parisienses também o é. A cidade tem cerca de 2 milhões e 100 mil habitantes, o que tendo em conta o número dos funcionários da cidade, dá 1 funcionário para cerca de 40 habitantes e em várias interacções diárias, quer seja nas escolas, nas ruas ou nas obras na via pública, os parisienses cruzam-se constantemente com estes profissionais. No entanto, nem sempre esses encontros são cordiais, com os parisienses a ignorarem ou desrespeitarem o trabalho dos agentes da autarquia. Por isso, a cidade de Paris criou escolas especiais em que os seus funcionários aprendem a lidar com críticas e a evitar os conflitos. "Hoje temos vários canais em que os parisienses podem contactar directamente com a administração da Câmara de Paris. Criámos um centro de contacto, o 3975, um número para o qual os parisienses podem ligar e dizer tudo que vêem de mal na cidade. Logo, aí temos logo os nossos funcionários que estão em contacto telefónico directo com os habitantes. Criámos também uma equipa de apoio interno que ajudam todos os nossos trabalhadores que possam ter vivido experiências traumatizantes com habitantes, mas tenho a dizer que isso é muito pouco comum e quase não acontece. Claro que como empregador, isso nos preocupa e continuamos a dar formação aos nossos agentes. Há certas profissões mais expostas, como as escolas ou os nossos cantoneiros e, nesses casos, criámos escolas específicas para estes dois sectores específicos. Por exemplo, um dos modelos de treino que aplicamos actualmente é a utilização da realidade virtual, ou seja, colocar o trabalhador numa situação real, mas num ambiente controlado. Claro que se houver ofensas muito graves, acompanhamos sempre os nossos trabalhadores para apresentarem queixa na polícia e damos todo o apoio possível", concluiu. Ouvimos Olivia Polski, vereadora da cidade Paris encarregue dos recursos humanos da capital francesa.
Fernão de Magalhães: o "perdedor maravilhoso" que levou a cabo uma viagem que mudou o Mundo
2025/10/24
O Museu Nacional da Marinha, em Paris, acolhe a exposição "Magalhães, uma viagem que mudou o Mundo" até Março e leva os visitante numa visita imersiva pelo périplo da circum-navegação, explicando as dificuldades da primeira travessia do Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico e desvendando mais sobre a figura mítica de Fernão de Magalhães. Mais de 500 anos após a sua morte, Fernão de Magalhães e a sua viagem de circum-navegação, a primeira registada na história da Humanidade, continua a suscitar interesse. Embora hoje seja difícil imaginar viagens que duram anos no mar por lugares nunca antes explorados, o Museu da Marinha, em Paris, quis colocar os seus visitantes na pele dos mais de 200 homens que em 1519 partiram de Sevilha com a missão de chegar às ilhas Molucas, que hoje integram a Indonésia, e que então era o único sítio no Mundo onde havia cravinho, uma especiaria tão rara que valia ouro. Para assegurar a veracidade histórica desta aventura museológica, e até porque a organização dos diversos espaços é baseada nos relatos de Antonio Pigafetta, cronista, explorador e geógrafo que integrou esta viagem, o historiador Michel Chandeigne é o conselheiro científico desta exposição e explicou em entrevista à RFI que esta é uma experiência que quer tocar o máximo de visitantes. "Claro que uma experiência imersiva tem o hábito de tocar um público maior, um público de jovens e também um público que não está habituado a descobrir a história das viagens nos livros, é uma coisa diferente. Um pouco lúdico, mas feito de uma maneira muito estética. Há uma beleza da cenografia que é simples", explicou. O Museu da Marinha, recorreu a imagens desta aventura criadas para o documentário de François de Riberolles, que pode ser visto no canal ARTE, assim como a imagens reais dos sítios percorridos por Magalhães, mas também sons e projecções numa cenografia de Brigitte Poupart, que criam a exposição imersiva "Magellan, un voyage qui changea le monde", ou em português "Magalhães, uma viagem que mudou o Mundo".  O percurso começa no porto de Sevilha, em que se ouvem homens apressados de um lado para o outro, sons de navios e de mar. Aqui conhecemos as personagens principais desta viagem: Fernão de Magalhães, navegador português que vai apresentar os seus serviços ao então rei de Espanha, Carlos I, mas também Henrique, o escravo de Fernão de Magalhães que lhe vai servir de intérprete no Pacífico, o próprio Pagafetta ou ainda Juan Sebastián Elcano, que começa esta viagem como marinheiro experimentado e terminará como capitão-geral, já que será ele que regressará a Espanha em 1522, já que Magalhães morreu nas Filipinas. Nas paredes das exposição vemos o número de homens, os cinco barcos e ainda o tipo de objectos que se levava nestas viagens como 100 toneladas de biscoitos duros, 600 quilos de mel, mas também 35 bussúlas, 4 mil flechas e duas toneladas de pólvora. O grande desafio desta viagem era encontrar uma passagem através do Oceano Atlântico para as ilhas repletas de especiarias, contornando assim o Tratado de Tordesilhas. Nisso, e apesar dos percalços e dos meses de espera, Fernão de Magalhães foi bem sucedido, sendo o primeiro descobridor a atravessar o estreito que depois haveria de ficar com o seu próprio nome entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico. Passou pelo Rio de Janeiro e pelo Chile, onde teve contacto com os nativos. No entanto, após uma longa expedição, e chegando às Filipinas, acabou por se envolver em querelas locais e foi morto por Lapu Lapu, um chefe tribal. Esta morte, considerada por muitos como "um suicídio", acabou por afastar Fernão de Magalhães das glórias do seu tempo, mas hoje é considerado como um dos maiores navegadores de sempre. "Magalhães perdeu tudo, perdeu a vida. E também se enganou. As Molucas não eram do domínio espanhol. Magalhães não é um herói, é um perdedor magnífico. E tudo isso faz com que a lenda do Magalhães não tenha sido tratada pelos historiadores durante séculos. Para os espanhóis, era um homem que perdeu os espanhóis numa empresa devastadora e cara. E para os portugueses era um traidor. Para o historiador, porque Magalhães não serve nenhuma causa nacional", detalhou Michel Chandeigne. Esta exposição termina com uma explicação de historiadores portugueses, espanhóis e franceses, mas também chilenos e argentinos, das interacções de Magalhães e dos seus marinheiros com os povos indígenas, sendo que houve vários episódios de violência, de detenções forçadas e violência sexual. Para acompanhar esta exposição, as edições Chandeigne e Lima, fundadas por Michel Chandeigne, vão lançar a terceira edição de "Le Voyage de Magellan (1519-1522). La relation d'Antonio Pigafetta et autres témoignages". Esta é uma recolha que foi começado por Michel Chandeigne em 2007 e que esta semana foi relançada com várias actualizações.

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