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This podcast has
153 episodes
Language
Portuguese (Brazil)Publisher
AmpèreExplicit
No
Date created
2021/07/20
Latest episode
2026/08/02
Average duration
50 min.
Release period
38 days
Description
Entendendo o mundo através de histórias interessantes. boanoiteinternet.com.br
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🎧 Saia da sua cabeça
2026/08/02
Um dos segredos mais antigos para contar histórias, escrever ou criar conteúdo online não é segredo nenhum. Eu tenho que escrever para mim mesmo, não para você. Tem gente que chama isso de ser o próprio público ou escrever o que gostaria de encontrar por aí.
Às vezes eu falo aqui no Boa Noite Internet que você não é o seu crachá, que o trabalho não é o trabalho, que é preciso prestar atenção nas coisas. Parece que estou dando um conselho para você, mas estou falando em voz alta uma coisa que eu já aprendi ou deveria ter aprendido.
Uma dessas coisas eu sei há muito tempo. Já vi que funciona, já vi que faz bem, mas vivo esquecendo. Por isso preciso repetir para mim mesmo: saia da sua cabeça.
Saia da sua cabeça.
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A voz interna não é realmente uma voz, articulada em palavras. Ela se parece mais com ver chiado numa televisão antiga ou bichinhos nas nuvens. A gente tenta dar forma ao caos e aquilo começa a se parecer com palavras e ideias, mas muitas vezes são apenas ruminações, histórias tentando fazer algum sentido dentro da cabeça.
Sair da cabeça é colocar em palavras de verdade o que estou sentindo. Olhar de perto, virar, cheirar, examinar, virar do avesso.
Um jeito de sair da cabeça é sentar com alguém e conversar, uma coisa que a humanidade provavelmente faz há milhões de anos.
Uma vez, antes da pandemia — tempos mais simples —, fui almoçar com um amigo que não via há algum tempo. Ele fez a famosa pergunta: “Como estão as coisas? Como está o trabalho?”
Comecei a reclamar do meu chefe, do chefe dele, da equipe de vendas e do RH. Enquanto falava, comecei a entender o que estava acontecendo e o que eu sentia.
Depois de uns 45 minutos, agradeci ao meu amigo. Agora que eu tinha colocado tudo para fora, as coisas nem pareciam tão horríveis. O trabalho continuava com todos os seus problemas, mas era só um dia como outro qualquer.
Ele não tinha falado praticamente nada. Só tinha me escutado.
Quando não dá para conversar com alguém, ou o assunto ainda não está organizado o bastante para uma conversa, dá para escrever. E não estou falando em transformar a vida num podcast. É só escrever.
Às vezes acordo de madrugada com alguma coisa fazendo barulho na minha cabeça. Esta semana mesmo aconteceu. Sentei, peguei o computador, coloquei no colo e escrevi. Tirei aqueles pensamentos da cabeça, olhei para eles e consegui voltar a dormir.
Resolvi o problema? Não. Mas, às quatro da manhã, a única coisa que eu podia fazer era colocar os pensamentos para fora, examiná-los e voltar a dormir para resolver o problema de verdade no dia seguinte.
Às quatro da manhã, eu precisava sair da minha cabeça, não montar um plano de ação nem pensar em estratégia.
Se eu fosse blogueirinho de verdade, aproveitaria para vender um supercaderno personalizado, com capa de couro, divisórias e etiquetas. Mas não precisa de nada disso. Sair da cabeça é de graça. Dá para fazer isso numa folha de papel, no computador ou no bloco de notas do telefone.
Lembra do antigo meme do Twitter, “Pronto, falei”? É mais ou menos isso. Colocar para fora e olhar para o que foi dito.
Ficar conversando dentro da própria cabeça não conta. Eu já tive todas as conversas possíveis dentro da minha, mapeei todas as reações e pensei em todas as respostas. Isso não é sair da cabeça. É ansiedade.
É como virar o Doutor Estranho com a Pedra do Infinito do desgraçamento mental, examinando 14 bilhões de maneiras de uma conversa terminar.
De certa forma, é o que faço aqui. Tenho um problema, penso nele, começo a escrever e, durante o processo, entendo um pouco melhor o que sinto, o problema e o mundo.
Às vezes tenho a impressão de que a gente perdeu esse hábito. A gente precisa ter certezas num mundo feito de opiniões. Conversa virou uma coisa que precisa ser vencida. “Olha aqui o que eu acabei de falar. Não há mais nada a dizer.” Pode lacrar a conversa porque ela acabou.
Então escreva só para você. Ninguém precisa ler e não é preciso publicar. Eu não sei, sinto, acho, penso e escrevo. O sentimento e o pensamento saem da minha cabeça e voltam para o mundo.
É isso que faço aqui. Não para você. Desculpe se enganei todo mundo esse tempo todo.
Eu faço só por mim.
Por hoje é só
Obrigado por ler até aqui. Esta semana, nosso Clube de Cultura começa a ler Realismo capitalista, de Mark Fisher. Vai ser bem legal te ver por lá. E se quer usar IA de verdade no trabalho, com visão crítica e sem ser fanboy de bilionário, dá uma olhada no IA em Curso, a comunidade de letramento em IA que eu criei com a Ana Freitas. Por fim, passa no Discord do Boa Noite Internet, que é onde a gente se encontra para conversar sobre criatividade, cultura, mas na real sobre qualquer coisa que a gente estiver a fim.
Cuidem de si, cuidem dos seus. Até a próxima,crisdias
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O Império da IA — com Karen Hao
2026/07/19
O Império da IA, com Karen Hao
Em 2019 — tempos mais simples! — a jornalista Karen Hao foi fazer o primeiro “perfil” jornalístico da sua carreira, aquelas reportagens em que um jornalista passa dias acompanhando uma pessoa ou empresa, uma coisa meio biografia, meio retrato congelado no tempo.
A tal empresa era uma startup do Vale do Silício, ainda pequena e desconhecida dos meros mortais como eu e você, mas que hoje é a mais valiosa da história: a OpenAI, também conhecida como “a criadora do ChatGPT”.
A Karen Hao vendeu o projeto do perfil para o MIT Technology Review porque a OpenAI parecia, naquela época, uma startup diferente. O “open” no nome nasceu da visão de que inteligência artificial é um assunto tão importante para o futuro da humanidade que precisava ser explorado de um jeito aberto, compartilhando conhecimento com todo mundo, e mais preocupado em proteger esse tal futuro do que em só gerar lucro.
Hoje, aqui direto de 2026, a gente já sabe que não foi exatamente isso que aconteceu. Com o tempo, a OpenAI se transformou numa empresa oficialmente voltada para o lucro como qualquer outra e chegou a ser processada por Elon Musk — um dos apoiadores iniciais do projeto — por quebrar essa promessa de ser ‘open’. Em maio, o Elno perdeu a causa, e a OpenAI agora se prepara para lançar as ações na bolsa e, pelos números atuais, já largar valendo mais de 1 trilhão de dólares.
Mesmo em 2019, a Karen Hao sentiu que todo esse papo de “open” não era bem assim: segredos e competitividade em todas as conversas que ela ouvia na empresa. Publicou o tal perfil contando isso e o pessoal da OpenAI… não gostou muito. Achou que ela ia só falar bem deles, e a empresa cortou contato com ela por três anos.
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Até que, em maio do ano passado, ela lançou nos EUA o livro O império da IA: Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, que segue contando a história da OpenAI — e abre com a bizarra saída do Sam Altman, demitido do cargo de CEO por “nem sempre falar a verdade” ao conselho da empresa, para voltar quatro dias depois nos braços dos funcionários.
Mas esse livro não é exatamente uma biografia da OpenAI. Para mim, é mais um retrato de todo o sistema empresarial em que vivemos hoje — inteligência artificial ou não. O importante é que ele acabou de sair no Brasil pela Editora Rocco, que me procurou para saber se eu queria entrevistá-la aqui no programa, aproveitando que ela veio participar do Esquenta do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. O congresso, aliás, acontece dia 30 de julho — vai lá no site da Abraji saber mais, quem sabe comprar seu ingresso.
Mas enfim, claro que eu queria conversar com ela. Obrigado, Abraji, obrigado, pessoal da Rocco, pelo presente. Quem me conhece sabe que IA agora é um assunto muuuito importante no meu trabalho. Eu fico aqui tentando navegar o meio do caminho entre o fim do mundo exterminador do futuro e a utopia vendida por muita gente. Não acredito em nenhum dos dois cenários, falei disso com a Karen antes e durante a conversa. Mas no final da entrevista a gente volta para falar não só disso, como também de como o IA em Curso, minha comunidade de letramento contínuo em IA, se conecta com tudo. Com promoção? Pode ser. Quem ficar até o fim, verá.
A entrevista foi gravada em inglês — a Karen também fala mandarim, mas não fala brazilian —, então vai funcionar assim. Se ouvir no áudio, vai ser a versão original, do mesmo jeito que foi com o Ted Chiang ano passado, para você botar o seu cursinho para trabalhar. Aqui no site boanoiteinternet.com.br você está acompanhando a transcrição completa traduzida, se quiser ler enquanto ouve. E no YouTube tem uma versão legendada. Assim, você entra na conversa do jeito que preferir.
Combinado? Então, bora lá entender O Império da IA com Karen Hao, no Boa Noite Internet.
Cris: Karen Hao, bem-vinda ao Boa Noite Internet.
Karen Hao: Obrigada pelo convite.
Cris: Que bom ter você aqui. Espero que o Brasil esteja te tratando bem durante a Copa do Mundo — a gente veio falar sobre isso. Hoje é dia de falar de futebol, de Copa do Mundo, quais são as chances de cada país. Mas a primeira coisa que você precisa saber sobre essa conversa é que eu não sou jornalista. Não sei fazer isso. Peço desculpas antecipadas à sua profissão e ao seu ofício.
Além disso, você foi enganada. Eu não estou aqui pra te entrevistar. Isso aqui é uma sessão de terapia. Você vai me ajudar a superar meus traumas.
Porque eu sou da… do que eu chamo de “geração esquecida” — sou geração X, nasci nos anos 70. Esquecida porque, nessa guerra de gerações, as pessoas esquecem que a gente existe, e isso é incrível, porque a gente causou muito estrago no planeta. O Elon Musk é geração X, então é só isso que você precisa saber sobre a minha turma. Gente como ele, ou como Marc Andreessen… eu cresci lendo e assistindo à ficção científica que dizia que tecnologia é a melhor coisa do mundo, que ciência e engenheiros são incríveis e vão nos levar pra um lugar incrível.
Sou uma daquelas pessoas que, quando a internet surgiu, falou: a paz mundial está logo ali. O conhecimento a um clique de distância, o futuro vai ser incrível. E aqui estamos nós. Então, quando usei o GPT pela primeira vez, e depois o ChatGPT, fiquei super empolgado. Foi a primeira vez, desde a internet, que eu fiquei realmente empolgado.
Tenho até uma certa fama de ser mal-humorado com tecnologia: Bitcoin é lavagem de dinheiro, Clubhouse não presta — e as pessoas, ah, Clubhouse é a próxima grande coisa. Mas quando a IA chegou, eu falei: isso é importante. Só que eu já não era mais aquela criança dos anos 70. Tinha crescido, tinha visto o que aconteceu com a internet, tinha trabalhado numa big tech. E estava em desespero com o sistema em que a IA estava sendo construída.
Dito tudo isso, o seu livro, aqui, já nas livrarias, recebe provavelmente o melhor elogio que eu posso dar: é otimista. Não é uma lista de reclamações e gente má fazendo coisas más. Claro, você fala muito sobre a OpenAI — ela é o fio condutor da história, especialmente aqueles quatro dias em que o Sam Altman saiu e voltou. E é muito divertido de ler. Mas você toma o cuidado de ser otimista.
E uma das coisas que você menciona é como as pessoas na OpenAI, e em todas essas empresas, dizem: “isso é inevitável, a gente tem que fazer”. Quero falar sobre isso. Mas a gente tem que começar pela pergunta que você provavelmente ouve em todo podcast, a do título — Império da IA. Por que império?
E acho que essa pergunta é ainda mais relevante no Brasil, país do sul global, colonizado. Por que império da IA?
Karen Hao: Antes de mais nada, obrigada por dizer que o livro é otimista. Muita gente não reconhece isso, mas é verdade. Eu escrevo com um profundo otimismo de que os danos que a gente vê podem mudar. Não faria o trabalho que faço se não achasse que as coisas vão mudar.
Sobre por que eu uso a expressão império, ou império da IA: a forma como empresas como a OpenAI operam é impressionantemente parecida com a dos impérios antigos. Eu traço quatro paralelos no livro. O primeiro é que elas reivindicam recursos que não são delas — os dados das pessoas, a propriedade intelectual de artistas, criadores como você, jornalistas.
Segundo, elas exploram uma quantidade extraordinária de mão de obra. Isso vale tanto para os trabalhadores da cadeia de produção de IA, mal pagos e maltratados, que ainda assim geram uma riqueza extraordinária para essas empresas, quanto para os trabalhadores cujos empregos são automatizados e cujos direitos são corroídos pela implantação dessas tecnologias em diferentes setores.
A terceira característica é que impérios controlam os fluxos de informação na sociedade. Essas empresas censuram a pesquisa fundamental sobre essas tecnologias, o que limita nossa capacidade de entender as verdadeiras limitações e capacidades dos modelos que desenvolvem. E estão criando uma tecnologia de informação que tentam transformar no portal único pelo qual qualquer pessoa se relaciona com o mundo.
Esse portal impregna as ideologias do Vale do Silício, seus sistemas de valores, sua língua, e projeta a hegemonia do inglês. Isso influencia boa parte do conhecimento que a gente vai produzir daqui pra frente, porque cientistas e educadores usam essas plataformas e acabam perpetuando essas mesmas ideologias e valores.
E o quarto e último paralelo é que impérios sempre se agarram a uma narrativa existencial ou moral sobre por que precisam existir. Essas empresas fazem a mesma coisa. Dizem que são o “império do bem”, numa missão civilizatória de trazer progresso e modernidade pra toda a humanidade, competindo contra um “império do mal” que ameaça mandar a humanidade pro inferno.
Quando você conversa com algumas pessoas dentro dessas empresas, ou que as lideram, elas dizem: se você nos deixar construir uma inteligência artificial geral, que elas de alguma forma moldam como um deus, a gente vai acabar numa espécie de utopia, um paraíso onde a mudança climática é resolvida, o câncer é curado, a pobreza é aliviada.
Mas, se os caras maus conseguirem isso antes, a gente pode acabar com todos os humanos mortos — um risco de extinção pra todos nós.
Cris: E eles vêm dizendo isso há quase dez anos, e ainda usam como ferramenta. A gente está num país que foi influenciado por três impérios ao longo da história: Portugal, Inglaterra e agora os Estados Unidos. Então a gente olha pra essas empresas de um jeito meio cínico: sim, sim, já conhecem
🎧 🤖 IA muito além do hype — com Ana Freitas
2025/11/23
O ano já está chegando ao fim e, como era de se esperar, a inteligência artificial apareceu de novo na conversa. Dessa vez, chamei a Ana Freitas pra um papo sobre IA — mas com uma proposta: nada de hype vazio, nem previsão de fim do mundo. A gente quis entender, com os pés no chão, o que realmente muda na vida das pessoas agora que essas ferramentas estão em toda parte. A Ana trouxe uma ideia daquelas de alugar triplex na minha cabeça: a IA, no fundo, tem esse poder de puxar todo mundo pra média. Quem é ruim em alguma coisa pode parecer melhor com a ajuda da máquina, e quem é excelente, se não souber usar direito, pode acabar ficando... só ok.
Falamos também de um medo mais profundo, que não é da tecnologia em si, mas do que o capitalismo vai fazer com ela — a partir do papo que tive este ano com o Ted Chiang. E de como, talvez por isso, a gente só sabe imaginar futuros distópicos com robôs e algoritmos — e nunca utopias. Falta sonhar melhor. Falta disputar esse futuro. Foi daqueles episódios que começam falando de ferramentas e terminam em filosofia de bar, com direito a Black Mirror, Spore e simulações do universo. Ou seja: minha cara.
No final, aproveitamos para falar do IA em curso — conhecimento à prova de futuro, uma comunidade que criamos para continuar esse papo de forma prática e constante — e explicamos por que não é só um curso. Tem mentoria quinzenal comigo e com a Ana, grupo de troca no Telegram, recursos comentados e um monte de conversa boa pra quem não quer só entender IA — mas aprender a viver com ela.
Ainda por cima, mostramos como somos os piores vendedores do mundo, sem saber ser coach e vender fórmulas mágicas e certezas. É o nosso jeitinho, espero ver você lá.
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Quando o meme vira empresa — com Yuri Zero, CEO da Melted Videos
2025/11/02
Dá pra transformar uma página de memes num negócio de verdade? E pagar boleto com piada e seguir sendo autêntico enquanto fala com marcas, rola?
Neste episódio, eu conversei com Yuri Zero, CEO da Melted Videos — uma das principais páginas de memes do Brasil — sobre o que acontece quando humor (muitas vezes autodepreciativo) vira empresa.
A gente falou sobre a profissionalização da creator economy, o momento em que se percebe que precisa de alguém pra cuidar do Excel enquanto você cuida das ideias, e o desafio de continuar sendo “a Melted” mesmo com briefing, cliente e KPI na jogada.
Tem também papo sobre comunidade, cultura de internet, e essa eterna dança entre criatividade e negócio — quando dizer “não” vira a coisa mais importante pra não perder o que te trouxe até aqui. E, claro, como sempre, sobre o impacto da IA no nosso trabalho.
Um episódio pra quem vive de conteúdo, quer viver disso ou só quer entender o que acontece quando o meme encontra o CNPJ.
Essa semana tem nova rodada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet começando! Entre para o clube e ajude o Boa Noite Internet a continuar contando histórias.
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Ser feliz no trabalho — com Renata Rivetti
2025/10/19
É possível ser feliz no trabalho? Essa pergunta, que parece tirada de um cartaz de RH com fonte Comic Sans e fundo azul piscina de bolinhas, foi o ponto de partida da minha conversa com a Renata Rivetti, especialista na ciência da felicidade e fundadora da Reconnect. Mas calma, aqui felicidade não é clichê motivacional. Não tem dancinha nem Sonho de Valsa como recompensa por bater a meta.
A gente falou sobre o que significa, de fato, ter uma relação mais saudável com o trabalho. E já começamos mandando a real: a empresa não tem que te fazer feliz. Mas ela também não pode ser mais um fator de desgaste da sua saúde mental.
A Renata explica como a ideia de felicidade foi sequestrada por discursos que vendem alegria constante como sinônimo de sucesso. E isso, longe de ajudar, tem deixado todo mundo mais ansioso, mais cansado e mais frustrado. Felicidade, de verdade, tem mais a ver com três coisas: alegria (sim, mas não o tempo todo), satisfação (ter metas, sentir que está realizando algo) e significado (entender que o que você faz importa, mesmo que não seja salvar as baleias).
Falamos também sobre o papel do Chief Happiness Officer — não como animador de festa corporativa, mas como um cargo estratégico que olha pra sobrecarga, pra segurança psicológica, pra cultura de bem-estar que vai muito além de sexta-feira da bermuda. Ah, e se você acha que isso é coisa de empresa “Nutella”, Renata traz dados, estudos e exemplos práticos que mostram como ambientes saudáveis dão resultado, sim.
Ainda rolou papo sobre semana de quatro dias, ghost working, dopamina rápida, cultura da produtividade tóxica e aquele velho conhecido: o culto ao workaholic. Um episódio para repensar não só o trabalho, mas a vida que a gente está construindo em volta dele.
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Inovação à brasileira — com Amanda Graciano
2025/10/05
“Inovação” é o tipo de palavra que todo mundo fala, mas nem sempre entende. Por isso, convidei Amanda Graciano, economista e estrategista de negócios, para conversar não só sobre inovação, mas para saber o que é fazer inovação no Brasil e como isso pode ser um diferencial. Será que só nos resta seguir os “guias de tendência” de eventos como SxSW? Ou o famoso jeitinho brasileiro é, na verdade, nossa arma secreta?
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Liderança acolhedora, com Mariana Clark
2025/09/21
O mundo do trabalho mudou — e quem lidera precisa mudar junto. Neste episódio do Boa Noite Internet, a psicóloga e escritora Mariana Clark, especialista em lutos corporativos, fala sobre um novo jeito de exercer liderança: menos “controle e comando”, mais “escuta e cuidado”.
A gente cresceu achando que trabalho era lugar de performance. Que quem lidera tem que dar exemplo de força, segurar as pontas e “resolver”. Mas e quando alguém do time está passando por uma perda? Quando não tem resposta pronta? Quando o silêncio pesa mais que qualquer planilha?
Por isso, Clark propõe uma mudança de postura: não é ter que virar terapeuta, é reconhecer a humanidade do outro — e a sua também. Acolher não é “passar pano” nem “baixar a régua”. É criar espaços seguros onde as pessoas possam ser inteiras, mesmo quando estão quebradas.
Falamos de saúde mental, de escuta ativa, de como o modelo tradicional de liderança já não dá conta do que a vida real exige. Também conversamos sobre as novas gerações que rejeitam a lógica do “aguenta firme” e sobre como construir ambientes de trabalho que cuidam — sem perder a entrega. Além de analisar pessoas usando IA como terapeuta e até para resolver seus lutos.
Uma conversa pra quem lidera, pra quem quer liderar e pra quem acredita que trabalho não precisa ser sinônimo de sofrimento calado.
Nova turma do meu curso
Agora em outubro começa a nova turma do meu curso, Apresentashow: Como fazer apresentações corporativas que são um espetáculo.
É um curso ao vivo onde, durante 3 dias, vou te ensinar tudo que aprendi sobre como contar histórias no ambiente de trabalho. Vamos muito além do “slide bonito”: é um curso sobre narrativas e como encontrar sua história, um método anti-ansiedade para vencer o desespero da página em branco e o medo do palco (nem que seja na tela da videoconferência).
Técnicas, inclusive, que usei para preparar a Mariana Clark (entre outros) para falar no TEDxBlumenau!
Até o fim desta semana, o curso está com 20% de desconto então vem logo que você vai curtir. Olha o que quem já fez o curso tem a dizer:
“Me inscrevi no curso com o objetivo de melhorar minhas apresentações, mas, na verdade, aprendi a aprimorar minha comunicação de forma geral. Percebi que tudo o que comunicamos é, de certa forma, uma apresentação, independentemente de usarmos slides ou não. Essa mudança de perspectiva ampliou minha visão sobre diferentes formas de transmitir ideias. O curso foi realmente valioso!”— Luciana Sombrio Soares
“Eu quis fazer o curso para conseguir entender melhor quais são as técnicas usadas para construir uma boa apresentação. Saí sabendo isso e muito mais, porque o curso não se limitou apenas ao PPT: o Cris abordou outros temas super relevantes, como a construção de narrativas, a entender o público e como engajá-lo, além de boas práticas na hora de apresentar.”— Paulo Koja, Product Manager
“Saí do curso com ferramentas práticas, como o leave behind e as dicas de design para não designers, entre outras - mas também com um conhecimento mais aprofundado e estratégico sobre estrutura, impacto emocional, conexão com o público, e outros elementos essenciais para uma boa apresentação. Assistir as aulas do Apresentashow foi um prazer.”— Barbara Axt, Especialista em comunicação
"Foi então que me deparei com o curso APRESENTASHOW, do amigo Cris Dias, que dispensa apresentações. O título já diz tudo: 'Como fazer apresentações corporativas que são um espetáculo'. Era exatamente o que eu precisava, e o curso superou todas as minhas expectativas. O conteúdo não foi só útil, mas extremamente prático. Consegui aplicar imediatamente o que aprendi, e os resultados foram impressionantes."— Alexandre Kavinski, AI & Innovation Lead @ WPP
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A vida do rico é diferente — com Michel Alcoforado
2025/09/07
A temporada de entrevistas do Boa Noite Internet voltou com tudo e temos nosso primeiro repetente! Não porque ele mandou mal na primeira vez que veio ao programa, mas porque se não fosse pelo incentivo dele sabe-se lá quando íamos voltar. Sim, estou falando do antropólogo do luxo: Michel Alcoforado.
E que conversa. A gente falou do livro novo dele, Coisa de Rico, que é daquelas leituras que dá de presente ao mundo uma nova lente para se ver o mundo. Você termina o livro vendo coisa de rico em tudo: do LinkedIn ao almoço em família, na série da academia e na harmonização facial.
Sabe o meme “quando ficar rico não direi nada, mas haverá sinais?”. Pois o Michel explica que “coisa de rico” não é só Ferrari ou casa em Angra, são justamente os sinais que mandamos para o mundo da nossa riqueza. Pode ser o filho que passou na Olimpíada de Matemática, o diploma de Harvard, o vinho certo dado na hora certa. É, também, a hora certa de rir. Porque existe uma risada de rico.
Falamos dos ricos que se acham pobres, dos pobres que acham que vão ficar ricos, dos emergentes que performam riqueza com força (e harmonização) e dos tradicionais que fingem que são ricos desde sempre. Tem coach vendendo “potencial desbloqueado”, tem influencer ensinando como ter atitude de rico, e tem a gente aqui tentando entender esse Brasil onde ninguém é rico, mas mundo tem seu “rico de estimação”.
Nessa conversa, aproveitei para desabafar, contando que o livro me fez feliz pelas escolhas que fiz na vida, até aquelas que me fizeram ganhar menos dinheiro. Porque, no fim das contas, como diria o próprio Michel, dinheiro não traz felicidade — mas ajuda a pagar a conta do sushi com o professor de cultura japonesa em Tóquio. E esse jantar não se agenda sozinho.
Vem ver ou ouvir, porque esse episódio está fino. E me conta depois: qual é a sua coisa de rico?
Ouça também:
Obrigado por ler. Aqui não tem algoritmo nem feed, então não deixe de enviar este artigo para quem você acha que pode gostar.
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Tecnologia versus arte — com Ted Chiang
2025/08/31
Na primeira semana de agosto, ganhei um presentão e nem foi de Dia dos Pais. Fui convidado pela Pina a passar 20 minutos com o escritor estadunidense Ted Chiang e perguntar sobre tecnologia, IA, arte e por que temos medo do futuro. No dia seguinte, Chiang falou para uma plateia de 80 pessoas na Casa Manioca e lá estava eu mais uma vez encontrando o cara que é dos meus maiores ídolos na literatura, parte de uma nova geração de escritores de sci-fi e fantasia que não contam apenas a história do homem branco genial que precisa vencer obstáculos para concretizar sua genialidade, que também tem nomes como N.K. Jemisin, Robin Sloan, R.F. Kuang, Nnedi Okorafor e muito mais gente legal. (Ou nem tão nova assim, Chiang nasceu em 1967.)
A conversa foi o empurrão que faltava para voltar com o Boa Noite Internet neste segundo semestre, que você escuta agora em toda sua glória… em língua inglesa, porque Chiang não speak Brazilian.
Nada tema! A seguir, você encontra a tradução da nossa conversa. Mas o podcast não traz só nossos 20 minutos de papo, mas outras conversas que tivemos sem microfone durante os dois dias de Chiangpalooza. Falamos de criatividade, tecnologia e o que nos faz humanos (spoiler: a arte). Nesta conversa, Chiang apresenta a visão da professora Anna Rogers sobre diferentes usos da IA para escrita, como “incômodo” ou como “pensamento”.
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Merdelização e esmerdelhamento — Boa Noite, RESUMIDO
2025/08/26
Boa noite, RESUMIDO, bom dia Brasil!
O Boa Noite Internet voltou com a colab que ninguém esperava, um programa especial com Bruno Natal, do RESUMIDO com um bate-bola, um pá-pum, um toca-y-me-voy, sobre assuntos relevantes no cruzamento entre a vida digital e o mundo real.
Falamos de enshittification, que já passou por aqui, de “cozy web” (mas também pode chamar de internet gourmet), da Netflix 16 do sogro do meu amigo e do cansaço de publicar sempre — você também tem postado menos?
Esta colab traz várias perguntas: a gente devia fazer mais vezes esse tipo de programa? E, a mais importante:
Gostou do que ouviu? Vem conversar no Discord do Boa Noite Internet.
O podcast do Boa Noite Internet estava fora do ar, mas o conteúdo não parou. O site aqui tem ensaio novo toda semana e segue forte o Clube de Cultura do Boa Noite Internet, benefício exclusivo para quem apoia a gente aqui por menos do que uma coquinha zero (que tá cada vez mais cara!).
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O peso do desamparo
2025/06/15
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Um herdeiro de vida boa. Um condenado a trabalhar sem recompensa nem sentido. Um exterminador de zumbis. Todos descobriram, de um jeito ou de outro, o que acontece quando esforço e recompensa se desencontram. Quando nada mais parece depender da nossa vontade — e até as vitórias perdem o gosto.
Neste episódio do Boa Noite Internet, vamos falar sobre desamparo, meritocracia, conforto demais, e aquela sensação incômoda de que talvez a vida não tenha um código-fonte pra ser decifrado. Mas mesmo assim — ou justamente por isso — a gente segue empurrando a pedra.
* O Mito de Sísifo — Albert Camus
* O Estrangeiro — Albert Camus
* The Tyranny of Convenience — Tim Wu
* The Grand Experiment — artigo da Universidade de Richmond sobre os “ratinhos herdeiros”
* Clube de Cultura do Boa Noite Internet
Como perdoar?
2025/04/27
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Neste episódio do Boa Noite Internet, eu te convido a encarar uma verdade desconfortável: perdoar não é esquecer, nem "superar" — é se jogar no caos de admitir que a dor existiu e mesmo assim escolher continuar. Falamos sobre culpa, orgulho, revolta e esse milagre improvável de dar uma nova chance, para os outros e pra nós mesmos. Uma reflexão sem manual de instruções, mas com muita história, filosofia e aquelas perguntas que a gente evita fazer.
O medo de falar o óbvio
2025/03/30
Falar o óbvio é o maior pecado no mundo do conteúdo? Neste episódio decidi encarar um medo que muita gente carrega: o de repetir o que “todo mundo já sabe”. Mas será que todo mundo sabe mesmo? E será que isso importa?
Do papel da originalidade na história da arte à estética das TED Talks, da busca por inovação como distração ao culto do “ser inédito” nas redes sociais. Tem Tomás de Aquino, Mark Twain, George Orwell e, de bônus, uma dica de como descascar alho facinho, facinho.
Um episódio que olha para nossa obsessão pelo novo e que tenta descobrir o valor de lembrar o que já estava aí o tempo todo.
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🔗 Innovation is a distraction — tante.
🧑🏫 Falta uma semana para a próxima turma do Apresentashow, meu curso onde vou ensinar meu método de criação de histórias — que eu uso não só aqui no Boa Noite Internet, mas também no mundo dos negócios. Vem aprender como organizar suas histórias sem estresse e capturar a atenção do público.
📙 Esta semana começa a nova temporada do nosso Clube de Cultura, um dos benefícios de quem apoia o Boa Noite Internet e me ajuda a seguir contando histórias.
🗣️ Tem também episódio novo do É sobre isso, meu outro podcast, uma produção Ampère e Beet sobre os desafios da comunicação neste quarto de século. O episódio da vez é sobre Atenção.
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Qual o seu legado?
2025/03/16
Nos anos 90, um site dos primórdios da internet esfregou na minha cara que Alexandre, o Grande, já havia construído um império com a mesma idade que eu. E também que Donald Trump já tinha conquistado seu primeiro milhão antes de mim. Me senti um fracassado… e só depois me dei conta de que ambos tiveram uma “ajudinha” do papai.
Neste áudio-ensaio, vamos falar sobre a nossa obsessão com legado e imortalidade simbólica. O que fica quando não estamos mais aqui? A busca pela glória mudou ao longo dos séculos — da morte heroica em batalha ao nome em uma lista de bilionários. Mas será que precisamos mesmo deixar algo para trás?
De Júlio César a Carmen Berzatto, passando pelo produtor Lorne Michaels e pelo autor Chuck Palahniuk, vamos conversar sobre várias maneiras de lidar com a nossa finitude.
A primeira regra do Boa Noite Internet é… falamos muito do Boa Noite Internet! Se você gostou, comente, espalhe, cite, tire print, encaminhe este e-mail. Seja você o algoritmo “for you” que deseja ao mundo.
Em abril vem aí a nova turma do Apresentashow, meu curso aonde vou te ensinar meu processo criativo de contar histórias para você usar no trabalho, defendendo a sua ideia ou apresentando resultados.
São 3 aulas ao vivo, saindo da página em branco até o design de slides — mesmo para quem não entende nada de design. A primeira turma foi um sucesso. E nem sou eu quem está falando, olha o que um dos alunos falou no Linkedisney.
As aulas acontecem nos dias 7, 9 e 11 de abril, das 19h às 21h, totalmente online e com gravações disponíveis por 1 mês após o curso.
Bônus especial: As primeiras 10 inscrições ganham uma sessão de mentoria individual comigo de 1 hora, onde poderemos trabalhar em uma apresentação específica sua!
As vagas são limitadas e só essa semana, desconto de 20% na matrícula.
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Fantasia de carnaval
2025/02/28
No ano em que cada mês parece ter 3000 dias, chegou o carnaval. Exceto nos lugares que já têm blocos e festas desde a virada do ano. Quem sou eu para julgar? Esse é o assunto de hoje, mas antes…
Recadinhos
➡ Estou publicando cris dicas em geral — mas normalmente livros — no meu canal do Instagram e no site crisdicas.com.br. Algumas indicações podem ter link de afiliados para eu ganhar uma comissão, mas todas são sinceras.
➡ Não se esquece do nosso Discord, o melhor canto da Internet. O mais novo canal é o #comidinhas, onde o Robinho Bravo meio que ressuscitou o Coisas da Rua e todo mundo dá dicas de restaurantes e receitas.
➡ Amanhã começa a nova fase do Clube de Cultura do Boa Noite Internet, com o livro Nação Dopamina.
➡ Depois do carnaval, vou abrir a nova turma do Apresentashow, meu curso ao vivo que vai te ensinar a fazer apresentações no trabalho que são um espetáculo. Já deixa seu e-mail na lista de espera para ficar sabendo antes de todo mundo. Como sempre faço, vou dar sessões de mentoria grátis para as primeiras 10 pessoas que se matricularem.
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Qual vai ser sua fantasia de carnaval?
Quando eu era criança, eu tinha uma boa relação com o carnaval — tirando a parte de que meu aniversário muitas vezes era “atrapalhado” pela data. Porque… né? Carnaval! Verão, música, todo mundo alegre. Tentar ficar acordado para ver os desfiles na Globo, ser mandado pro quarto quando começavam as transmissões dos bailes de clube. Ir nas versões infantis destes bailes fantasiado de policial americano. Fora que a semana de carnaval era mais uma desculpa para ir encontrar a primalhada em Miguel Pereira e só curtir a vida mágica dos anos 1970 e 80.
Na adolescência, me achei O Inteligentão quando entendi a conexão entre carnaval e quaresma. Não era a páscoa que vinha 40 dias depois do carnaval, mas o carnaval que acontecia 40 dias antes da páscoa. A festa era a despedida dos prazeres antes do período de abstinência radical. Foi assim que virei o adolescente chato que dizia: “Sabia que o carnaval é uma festa religiosa?” Já sou palestrinha desde cedo, como vocês podem ver.
Até que, não tem tanto tempo assim, entendi que o carnaval não é só uma despedida da farra antes do jejum, é mais que a famosa “festa de Baco”. É um momento em que estamos autorizados a experimentar identidades diferentes das dos outros 360 dias do ano. De deixar de “ser” para somente “estar”.
Sempre me chamou a atenção a contradição de o mesmo homem que seria considerado menos masculino (a maior desgraça possível na nossa sociedade) por usar uma camiseta rosa no trabalho poder sair de Sabrina Sato completa no bloco e ninguém questionar. Na quarta-feira, a fantasia volta para o armário (ou direto pro lixo), assim como a mudança. O que aconteceu no carnaval, acaba no carnaval.
Ou uma pessoa com quem me relacionei no século passado, que hoje entendo que era uma das figuras mais conservadoras que já conheci. Mas que contava com orgulho como adorava sair em trio elétrico cheirando loló e competindo com as amigas pra ver quem beijava mais. E tudo bem, não havia conflito nem hipocrisia. É só carnaval.
O carnaval não é só a festa da bebida ou da pegação — mas se quiser, pode. É o festival do “viva outras vidas”, materializado nas fantasias, só que muito mais do que “eu sou o Superomi”.
Essa ideia de troca de papéis é antiga. Em Roma, séculos antes de Cristo, a Saturnália já promovia uma inversão social temporária. Durante esta festa, celebrada no solstício de inverno (a época do Natal, que também foi influenciado pelo festival de Saturno), os romanos suspendiam as regras da sociedade. Escravos e senhores trocavam de lugar — não só simbolicamente, mas em aspectos práticos da vida. Os escravos podiam comer à mesa com seus senhores, vestir suas roupas, falar sem restrições e até dar ordens. Os senhores os serviam. Lojas, escolas e tribunais fechavam. Guerras eram interrompidas.
Os romanos usavam o pileus — um chapéu cônico que simbolizava a liberdade — e trocavam presentes simples como velas e pequenas estatuetas. As ruas se enchiam, a cidade inteira se entregava a banquetes, bebedeiras e jogos de azar, normalmente restritos. Um “rei da folia” era escolhido por sorteio para presidir o caos festivo.
Quando o cristianismo virou a religião oficial do império, a igreja tentou substituir essas festas pagãs por celebrações em nome de Jesus, mas o espírito de inversão social já estava enraizado na cultura. Assim, o desejo humano de escapar temporariamente das regras encontrou novos caminhos, novos nomes e novas datas no calendário, mesmo na própria estrutura eclesiástica. Na Europa medieval, a mais famosa destas festas foi a festum fatuorum, a “Festa dos Tolos”, celebrada por clérigos em igrejas da França. Durante um dia, os padres de menor hierarquia zombavam de seus superiores, escolhiam um “Bispo dos Tolos” e realizavam paródias de cerimônias religiosas. Não só o sagrado virava profano, o sério se transformava em cômico.
Existia também a Festa do Asno (festum asinorum, porque tudo fica mais católico em latim), onde um burrico era levado para dentro da igreja e celebrado como figura central, em homenagem ao corajoso animal que carregou a Sagrada Família na fuga para o Egito. Ao final da missa, em vez de dizer “vão em paz”, o padre zurrava três vezes, e o público respondia também com zurros no lugar do tradicional “amém”. A Igreja acabou proibindo as duas celebrações nos anos 1400, mas a ideia de um período de licença social não desapareceu.
O nosso Rei Momo é a personificação moderna desta tradição de troca-troca. Ele não é o rei de verdade, mas por quatro dias recebe as chaves da cidade e instala seu reinado temporário. A confusão começa, a ordem é invertida, a zoeira impera. A origem do personagem está em Momo, deus grego da zombaria e do sarcasmo, o primeiro sarcasticuzão, sempre pronto pra apontar defeitos, mesmo nos outros deuses — que levou, ora ora, à sua expulsão do Olimpo. Quando a figura chegou ao Brasil no século 19, a ideia era coroar um homem gordo, bonachão, comilão e beberrão para simbolizar os excessos permitidos naqueles dias. É o anti-rei perfeito, que governa não pela austeridade, mas pela permissividade. A escolha do Momo carioca é evento oficial da prefeitura.
E tem que ser. A coroação do Rei Momo é um ritual carregado de significado. O prefeito entrega as chaves da cidade ao rei da folia, numa encenação que diz algo como: “O poder real fica suspenso. Agora quem manda é a festa.”
Em um mundo cada vez mais centrado na identidade, o carnaval é a hora de ser quem você não é, em uma sociedade que, ali, não funciona mais nas regras anteriores. Mas nem todo mundo se aproveita disso e fica preso nos seus personagens. É por isso que tenho uma leve implicância com um bloco de São Paulo que só toca “punk e rock pesado” (em ritmo de carnaval). Porque seus fundadores não querem ouvir essas “músicas chatas”, sejam elas marchinhas, sambas ou Ivete. Era pra ser inclusivo, achei só preconceituoso.
Se o carnaval é o momento de dissolvermos nossas identidades para tentar outras experiências, toca Arerê sim, pô! Deixa os Ratos de Porão pro resto do ano. Mas tudo bem, sábado pularemos lá, porque carnaval também é estar com a nossa galera. Tenho até amigos que são roqueiros.
Toda essa história de inversão da ordem se encaixa com o cristianismo ser considerado “a religião do perdão”. Jesus morreu pelos nossos pecados. Jesus existe para perdoar nossos pecados. E o carnaval é o maior perdão do ano. Enquanto aquela prefeita do Maranhão quer trocar o carnaval por um evento gospel (parece que vai rolar mesmo), dá para tentar ver o feriado não como uma contradição aos valores cristãos, mas seu complemento necessário. E se a reza ficasse pra, sei lá, pensando alto aqui, os 40 dias depois do carnaval? Desruptei agora, diz aí.
Mas calma. Carnaval não é bagunça. É o famoso “se combinar direitinho…”, mas tem que combinar. Quando eu era um garoto juvenil, comecei a namorar uma menina poucas semanas antes do carnaval. Ela já estava com viagem marcada para a Região dos Lagos e, quando nos encontramos na quarta-feira, tinha um cara na porta da casa dela. Foi o primeiro “é meu primo” da minha carreira. Tudo bem, eu sobrevivi. Era só ter combinado.
Então, apesar de todo esse papo de inversão, o carnaval também tem que ter muito respeito. Não é porque na quarta-feira tudo está perdoado que você vai beijar quem não quer ser beijado, ou abusar do espaço do amiguinho. Fantasia não é salvo-conduto. “Não é não” segue valendo. A inversão de papéis funciona ao haver consentimento de todas as partes envolvidas.
O que me traz de volta ao cara que se veste de mulher no carnaval, mas não “vira gay” no resto do ano. A questão não é tão simples quanto parece. Ele pode se vestir de mulher, de indígena ou de qualquer fantasia sem consequências de longo prazo. A quarta-feira chega, ele volta ao terno, à vida normal, ao privilégio. O mesmo não acontece no sentido inverso, né? Eu fico aqui imaginando uma cena de carnaval onde um cara vestido de mulher é assediado por uma mulher vestida de homem.
O carnaval é uma tentativa de quebra das relações de poder, mas essas relações continuam existindo, é claro. O cidadão romano sabe que não virou escravo para sempre. É só brincadeirinha. Idolatramos drag queens e pessoas trans por quatro dias para, logo depois, voltarmos a uma sociedade que as marginaliza. Vivemos no país que lidera o ranking de assassinatos de pessoas trans.
Lá atrás, o carnaval era um jeito do
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